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Marcas de enorme qualidade marcaram o meeting Zurique (Suíça), o primeiro das duas finais da IAAF Diamond League de 2019. E o Atletismo volta a sorrir, como bem precisava, depois de dois escândalos de doping terem marcado a semana.
AS BARREIRAS QUE CADA VEZ PARECEM MAIS PEQUENAS
Temos que começar por aqui o nosso rescaldo: 46.92 segundos! Esta foi a marca de Karsten Warholm nos 400 metros barreiras, o 2º tempo mais rápido da história da disciplina e um novo recorde europeu!
Numa prova bastante antecipada (ficou para o fim da noite), o norueguês Warholm partiu bastante rápido, viu o norte-americano Rai Benjamin chegar-se perto, mas terminou em força no 1º lugar, sendo aos dias de hoje o favorito ao Ouro para os Mundiais de Doha. Rai Benjamin correu em 46.98 segundos, igualando o 3º mais rápido de sempre na disciplina (Abderrahman Samba), sendo esta a primeira vez na história que dois homens baixam dos 47 segundos numa prova.
Em Doha, Warholm, Benjamin e Samba estarão presentes, todos eles à procura do Ouro e, quem sabe, do recorde mundial de Kevin Young (46.78), que dura desde 1992!

Fonte: IAAF
Na prova feminina da mesma disciplina, também falar de recorde mundial já faz parte do prato do dia. Afinal é o mais recente recorde mundial do atletismo, depois da norte-americana Dalilah Muhammad ter corrido em 52.20 há um mês atrás. Nesse dia, conquistou os Campeonatos Norte-Americanos, batendo a jovem promessa Sydney McLaughlin e destruindo um recorde mundial que durava há 16 anos.
Hoje, Sydney conseguiu uma “pequena” vingança, conquistando o Diamante no seu ano de estreia no circuito profissional. Muhammad fez uma corrida atípica, demasiado rápida no início, tentando ajustar ainda cedo – com cerca de 100 metros percorridos – mas totalmente fora do ritmo forte e regular de McLaughlin que venceu em 52.85 segundos, a sua melhor marca da temporada. Muhammad ficou em 3º com 54.13, muito longe do seu melhor. Ambas as provas prometem muito para o Qatar e as duas com vários jovens que prometem por aqui ficar por muitos anos!
SHAUNAE MAIS UMA VEZ – DESTA VEZ AINDA MELHOR!

Fonte: IAAF
Shaunae Miller-Uibo foi um dos grandes destaques da noite, ao correr os 200 metros em 21.74 segundos (-0.4). Um grande novo recorde pessoal e recorde nacional das Bahamas, sendo também os 200 metros mais rápidos da história da Diamond League. Miller-Uibo não foi, mais uma vez, a mais rápida nos primeiros 100 metros, mas é sempre fortíssima depois da curva e não há quem a consiga apanhar, sendo, por larga margem, a que tem a menor desaceleração nos últimos metros.
Infelizmente, não poderá fazer esta prova nos Mundiais de Doha, pois a IAAF não acedeu aos seus pedidos de mudar os horários das provas e possibilitá-la de fazer os 200 e os 400… sendo os 400 metros a sua prova de eleição – onde é a campeã olímpica – a atleta das Bahamas escolheu a volta completa à pista. Nessa distância, os 400 metros, a atleta do Bahrain, Salwa Eid Naser – sem a grande rival Miller-Uibo em pista – passeou por completo, vencendo em 50.24, parecendo até em gestão na reta final.
Já nos homens, a velocidade tinha hoje a final dos 100 metros. Sem reunir as atenções de tempos recentes e sem Christian Coleman envolvido num escândalo de doping (terá falhado a presença em 3 controlos anti doping num ano). Noah Lyles venceu a prova em 9.98 segundos, ele que também não estará nos 100 metros de Doha por opção – escolheu apenas os 200 metros, onde é o líder mundial. Correu em 9.98, mas todos os outros em prova não baixaram dos 10 segundos, fazendo soar alguns alarmes de uma possível medalha de Ouro em 10 segundos nos Mundiais, algo que não se vê desde 2003, com o Ouro de Kim Collins em Paris.
A AUDÁCIA QUE DEU A CHEPTEGEI O QUE TIROU A AMOS E SIBABA – E QUE QUASE TIROU A CHEPKOECH
Muito boas provas também nas distâncias mais longas, com diferentes estratégias, estranhas estratégias em alguns casos e muito boas marcas.
Começando por falar dos 800 metros masculinos, Nijel Amos, que é o líder mundial, vinha de lesão, mas isso não o impediu de assumir as despesas e correr rápido, muito rápido, desde uma fase inicial, partindo o grupo como muito raramente se vê nos 800 metros, especialmente tão cedo.
Terminou quase de rastos, ainda assim numa excelente marca de 1:42.98, embora isso não tenha chegado para vencer. E não chegou porque detrás veio um norte-americano, Donavan Brazier, a ultrapassar tudo o que encontrou pelo caminho (era 6º à passagem dos 600 metros), terminando em 1:42.70, um novo recorde pessoal.
Já na prova feminina de 1.500, Genzebe Dibaba optou por uma estranha estratégia, jogando com as alterações de ritmo, pedindo uma volta inicial muito rápido, abrandando mais tarde para um ritmo bastante lento e procurando atacar em força na última volta. Não resultou. Na entrada para a última volta quando tentava fugir, não conseguiu resistir a um ataque fortíssimo da holandesa Sifan Hassan, que disparou como uma flecha até ao final, fechando em 3:57.08. Dibaba ficou-se pelo 4º lugar em 4 minutos e a coxear.
Nos 5.000 metros masculinos – a última vez que os vemos em eventos Diamond League – uma estratégia que parecia suicida de Joshua Cheptegei, do Uganda, trouxe frutos, com este a fugir bem cedo na prova, deixando para trás todos os grandes favoritos etíopes.
Quando Gebrhiwet, Barega e Kejelcha resolveram atacar na última volta, já era tarde demais, uma vez que a vantagem de Cheptegei – que fechou com 12:57.41, novo recorde pessoal – já era enorme. Tudo bem que parece que ele tem andado desaparecido em pista, mas esqueceram-se de que falamos do homem que foi Prata nos 10.000 de Londres e é o atual campeão mundial de Corta-Mato?

Fonte: IAAF
Por último, em pista, outra estratégia que parecia suicida foi a de Beatrice Chepkoech nos 3.000 metros obstáculos. A recordista mundial pediu tempos de passagem rapidíssimos para tentar bater o seu recorde e até começou a rodar abaixo desses tempos. No entanto, a mais de 2 voltas do final, a fadiga começou a notar-se e até a expressão de Chepkoech alterou-se (algo pouco normal nela). Entrou em modo de sobrevivência, tentando garantir a vitória na prova e isso, pelo menos, conseguiu em 9:01.71, conquistando mais um Diamante.
RICKETTS NA NATA DA ELITE E ECHEVARRÍA JÁ VOA
Nos saltos de hoje, os grandes destaques vieram dos saltos horizontais, que nos deram excelentes marcas.
Na primeira prova do dia – bem antes da transmissão televisiva e ainda com pouco público, o que não faz sentido – o Triplo Salto feminino tinha a presença da portuguesa Patrícia Mamona. Mamona sabia que a vitória não era um dos seus objetivos hoje: além de um field muito forte, vinha de lesão e este meeting é mais uma etapa na sua preparação para Doha. Não correu mal. 14.24 metros foi o seu melhor salto (apenas dois válidos) e um 6º lugar numa prova que contava com a maioria dos principais nomes da disciplina, incluindo a campeã mundial e líder mundial, a venezuelana Yulimar Rojas.
Pois Rojas era superfavorita, mas esses também caem…a venezuelana até passou para a frente do concurso no último ensaio, com um salto de 14.74 metros, mas na última possibilidade, Shanieka Ricketts, da Jamaica, mostrou que, não só está em grande forma (nos últimos 6 meetings, o “pior” foi a 14.65!), como consegue responder muito bem em momentos de tensão, saltando a 14.93 metros, um enorme recorde pessoal. O triplo feminino está bem e recomenda-se.
The 💎 League women triple jump champion Shanieka Ricketts 14.93 0.0 a personal best for the full 👛 @kayraynor @kaystreete @BigBroDorian @HMV_2010 @hu_pow @Bonafide0821 @unclemiltywho @cool_876_guy @realpaulreid pic.twitter.com/BsAdCvVOtr
— THE DON CARLOS (@doncarlostheone) August 29, 2019
Na prova do Comprimento masculino, todo o destaque vai para Juan Miguel Echevarría. O jovem cubano, que voltou aos grandes saltos, fez logo no primeiro ensaio 8.65 metros, um novo recorde do meeting e novo recorde da Diamond League, além de ser a melhor marca do ano, a apenas 3cm do seu recorde pessoal (com vento legal). O campeão mundial, o sul-africano Luvo Manyonga, parece continuar a ter dificuldades em encontrar a sua melhor forma em 2019, ao ficar-se hoje pelos 8.19 metros, na 4ª posição.

Fonte: IAAF
Já nos saltos verticais, o Salto em Altura trouxe-nos mais um vencedor surpresa, um hábito nesta temporada que tem sido fraca para os padrões de elite. O ucraniano Andriy Protsenko venceu com um salto de 2.32 metros, numa prova em que Mutaz Essa Barshim regressou, mas voltando a mostrar muitas dificuldades, ao não passar com a fasquia a 2.24, ficando-se pelos 2.20 metros na 10ª posição.
Tivemos ainda um concurso de Salto com Vara masculino, que muito prometia tal a qualidade dos atletas presentes. Apesar da marca vencedora ter sido boa e conseguida na última tentativa possível – 5.93m de Sam Kendricks – podemos dizer que esperávamos mais do elenco presente em Zurique. Armand Duplantis e Piotr Lisek ficaram-se pelos 5.83m e Renaud Lavillenie pelos 5.73m. Queremos mais em Doha!
O DOMÍNIMO DAS CHINESAS MANTÉM-SE, O DOS ALEMÃES… NEM POR ISSO

Fonte: IAAF
No Lançamento do Peso, (mais uma) grande prova de Lijiao Gong, a campeã mundial, com os três melhores lançamentos da noite, o melhor a 20.31m, nova marca líder mundial. A norte-americana Chase Ealey, na 2ª posição, bateu a sua melhor marca pessoal, com 19.68m. Já no Dardo, sem surpresas, Lyu Huihui voltou a não dar hipóteses, com um lançamento a 66.88 metros a ser suficiente para conquistar o Diamante. A chinesa venceu as últimas 12 provas que disputou este ano.
Por último, no Dardo masculino, um evento que até há bem pouco tempo era totalmente dominado por 3 alemães, parece agora mais aberto do que nunca. Os principais alemães ficaram-se pelo 3º (Hofmann), 5º (Vetter) e 7º (Rohler) lugares, sem se conseguirem aproximar dos únicos que passaram dos 89 metros. Chao-Tsun Cheng liderou desde o primeiro lançamento, com uma marca de 89.05 metros, mas já no final, na última oportunidade, Magnus Kirt, da Estónia, conseguiu “roubar” o diamante, com uma “pedrada” a 89.13, apenas 7cm acima de Cheng.
Na próxima sexta-feira, dia 6 de setembro, teremos as restantes 16 finais da Diamond League, em Bruxelas, onde teremos presença portuguesa no Triplo, com a participação de Pedro Pablo Pichardo e Nelson Évora.
Foto de Capa: IAAF













