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Jamaica – O despertar do gigante que nunca adormeceu

Pedro Pires · 6 min

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Os Mundiais de Londres em Agosto passado foram um duro golpe no Atletismo jamaicano, apresentando resultados bastante aquém do normal para o país caribenho, sobretudo na velocidade: apenas um Ouro individual (Omar McLeod nos 110 com barreiras) e dois bronzes individuais (um deles, o de Bolt que a pouco soube; o outro de Ristanna Tracey nos 400 metros com barreiras).

Alarmes soaram, críticas foram apontadas à estrutura federativa e a atletas pela pouca preparação e até por constantemente falharem em momentos cruciais. De todos os cantos do mundo, ouvimos dizer que a velocidade jamaicana estava em crise e que a saída de cena de Usain Bolt seria o último prego no caixão da mesma. Mas será que as críticas terão sido minimamente realistas?

A retirada de Bolt foi por muitos apontada como o declínio da velocidade jamaicana
Fonte: IAAF

De forma curta e directa: não. Podemos mesmo dizer que foi uma reacção totalmente exagerada e sem o mínimo de noção. Além de McLeod e Tracey, há atletas que falharam em Londres, mas que continuam a fazer parte da elite mundial. No feminino, temos Danielle Williams, que ainda há 3 anos foi campeã mundial nos 100 barreiras e que até atingiu um melhor registo pessoal na temporada passada.

Shericka Jackson que ainda há bem pouco tempo (2015 e 2016) alcançou o Bronze nos 400 metros, nos Mundiais de Londres e Jogos Olímpicos do Rio. Rushelle Burton, por exemplo, campeã mundial sub-20 nos 100 barreiras em 2016, já baixou dos 12.65 com apenas 20 anos. E Tiffany James alcançou o mesmo título mundial no mesmo ano na Polónia, mas nos 400 metros, tendo feito 21 anos em Janeiro último. E, claro, Elaine Thompson.

Elaine fez a dobradinha no Rio, alcançando o Ouro nos 100 e 200 metros. Em 2017 tudo apontava para vencer os 100 nos Mundiais de Londres (decidiu não participar nos 200), dominando por completo a temporada outdoor, mas falhando inexplicavelmente na final de Londres (mais tarde viria a vencer a Diamond League). Elaine tem 25 anos e ainda andará por cá muito tempo.

No masculino, o quadro não difere muito. Yohan Blake poderá estar num limbo, mas aos 28 anos e sendo o homem mais rápido do mundo em actividade, tem que ser um nome ainda a ser tido em linha de conta para os próximos eventos globais. Bolt aposta nele! Na velocidade, temos ainda Julian Forte, com um melhor pessoal de 9.91 nos 100 metros, atingido em finais de Agosto do ano passado, e que aos 25 anos ainda vai bem a tempo de atingir o estrelato que um dia se perspectivou. Akeem Bloomfield é outro nome a ter em conta. Especialista nos 400 metros, alcançou um novo recorde nacional na distância indoor ao corrê-la abaixo dos 45 segundos (44.86), o que indica que em breve deverá baixar dos 44 segundos outdoor. Bloomfield tem 20 anos e compete no circuito universitário norte-americano e, portanto, está no sítio certo para poder alcançar o patamar que o mesmo perspectiva.

A próxima geração que vai surpreendendo o mundo

Com 18 anos acabados de fazer, DeJour Russell já correu os 110 barreiras em 13.32, provando que pode vir a ser uma verdadeira ameaça para o seu compatriota Omar McLeod. Ou então poderá substituir McLeod, pois este já admitiu que até poderá procurar outras coisas no Atletismo. No ano passado, alcançou um novo recorde dos campeonatos mundiais Sub-18 (que são corridos com as barreiras mais baixas) e parece totalmente preparado para enfrentar a dura concorrência de barreiristas a nível mundial. Detém o recorde mundial em idades até aos 17 e 18 anos.

Nos 400, além de Bloomfield, temos um Christopher Taylor, que correu em 45.27 com apenas 15 anos, no que é o recorde mundial no grupo de idades até aos 15 anos. Nesse dia, Taylor alcançou o Ouro nos Mundiais Jovens (até 18 anos) e aposta também nos 200 metros. Taylor tem hoje 18 anos e é uma das grandes apostas para o futuro jamaicano.

Mas nos últimos dias, o mundo tem falado muito de um outro jovem jamaicano, de apenas 15 anos, Sachin Dennis que já correu os 100 metros em 10.20. Dennis tem os recordes mundiais de 13, 14 e 15 anos de idade na distância mais curta da velocidade outdoor e convém relembrar que o primeiro atleta a baixar dos 10 segundos foi Trayvon Bromell, quando já tinha 18 anos.

Arriscamos dizer que Dennis irá fazê-lo antes dessa idade se tudo correr bem e ameaça seguir as pisadas de Usain Bolt. Mesmo nos 200, Sachin Dennis tem o recorde aos 14 anos. As 4 seguintes faixas (15, 16, 17 e 18) foram todas corridas com recorde de…Usain Bolt. Daí que qualquer recorde que Dennis consiga agora, será mais um incentivo para clamarem razão aqueles que o consideram o sucessor do raio jamaicano.

No feminino, o cenário não é menos promissor. Vamos falar aqui de duas meninas de 16 anos que têm destruído a concorrência e onde reside a maior esperança jamaicana nas futuras gerações da velocidade. Kevona Davis e Briana Williams têm dividido os holofotes e as publicações nas redes sociais e a verdade é que aos 16 anos, ambas têm a intenção de participar nos Mundiais de Sub-20 que se realizam em Tampere (Finlândia) no próximo mês de Julho. Davis no ano passado, aos 15, venceu os 100 metros da competição sub-18 nos CARIFTA Games (onde as grandes estrelas do Caribe começam a brilhar) de forma convincente em 11.43 segundos e mais tarde correu os 200 metros em 23.56, mesmo com um fortíssimo vento contrário (-4.8).

Kevona Davis
Fonte: IAAF

Já este ano, na semana passada nos Nacionais jovens jamaicanos, nos 200 metros, destruiu o recorde dos campeonatos jamaicanos nos 200 na classe 2 (que já a ela pertencia), correndo em 22.72 segundos! Também nos 100 metros, Kevona promete e muito…um dia antes, correu a distância em 11.16! Aliás, a jovem conseguiu as melhores marcas pessoais dos 100 e dos 200 com apenas um dia de intervalo.

Mas claro, Briana Williams não fez por menos. No passado dia 19, quando ainda tinha 15 anos, correu os 100 metros em 11.13, naquele que é o recorde mundial para atletas até aos 15 anos, batendo a marca (11.17) que antes pertencia a Marion Jones!

Briana Williams já faz capas de jornais
Fonte: Twitter de Ato Boldon

Treinada por uma das estrelas do nosso desporto – e talvez a mais activa delas na fase pós-atleta – Ato Boldon, o técnico já afirmou que este foi apenas o começo de algo muito grande e que Briana está destinada a grandes feitos. A jovem, nascida nos EUA, compete também no circuito escolar norte-americano e está num viveiro de talentos, o que só poderá favorecer ainda mais o seu talento. Este fim-de-semana correu os 100 metros nos CARIFTA Games em 11.27, sendo este um novo recorde dos campeonatos no grupo até aos 17 anos.

Mesmo em disciplinas que a Jamaica tem pouca tradição, vemos atletas hoje a brilhar cada vez mais. Por exemplo, nos Mundiais Indoor de Birmingham, Daniel Thomas-Dodd alcançou a medalha de Prata no Lançamento do Peso, sendo a mesma a recordista nacional do Peso e 4ª em Londres. Fedrick Dacres, especialista no Lançamento do Disco, sagrou-se campeão mundial júnior em 2012 e aos 24 anos ainda pode alcançar o estrelato nos grandes palcos em idade sénior – esteve próximo das medalhas em Londres (4.º). Kimberly Williams acaba de conquistar também, aos 29 anos, a sua mais alta medalha no Triplo Salto, com a Prata nos Mundiais Indoor de Birmingham e ainda aspira a mais na sua carreira, apesar de já não ser propriamente jovem no desporto.

Estafetas Jamaica nos Mundiais de Estafetas
Fonte: IAAF

Portanto, desalegrem-se os que apostam no fiasco jamaicano. Se o fizerem, não o façam com o vosso dinheiro. O Atletismo da Jamaica continua vivo e recomenda-se. E sim, claro, isso inclui e tem o expoente máximo na velocidade. No Feminino e no Masculino, existem várias nações que se vão afirmando cada vez mais na velocidade nos últimos anos, mas a única capaz de rivalizar com o poder dos Estados Unidos da América, continua e continuará a ser a Jamaica.

Foto de Capa: Team Jamaica Olympics

Pedro Pires

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