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O dia 12 de Agosto de 2018 será um dia que poucos amantes do Atletismo esquecerão. Foi o último dia dos Europeus de Berlim e proporcionou a primeira medalha de Ouro dos campeonatos a Nelson Évora no Triplo Salto, comprovou-nos a força britânica na velocidade com duas contundentes vitórias nas Estafetas, mostrou-nos o domínio de Laura Muir e Sifan Hassan na meio fundo e no fundo e deu o quarto Ouro consecutivo a Anita Włodarczyk no Martelo. No entanto, há uma prova em especial que poucos conseguirão tirar da memória: a final do Salto Com Vara. Nesse dia, Armand Duplantis mostrou aos adeptos mais casuais do desporto aquilo que a maioria de nós já tinha dado conta. Ele está destinado a fazer história. Aliás, já a começou a escrever.
Desde cedo a mostrar que é especial
Tendo completado 19 anos há apenas uma semana, poderá ser surpreendente todo o hype que o jovem sueco alcançou desde tão cedo. No entanto, esse hype rapidamente pode ser explicado por números, resultados, pelo domínio avassalador. Nascido nos EUA, no Louisiana, filho de mãe sueca e pai norte-americano, Armand, que gosta de ser chamado de Mondo, tem cidadania de ambos os países e basta ouvir qualquer entrevista com o jovem para se perceber o seu lado norte-americano com sotaque sulano bastante acentuado – na verdade, ele nem sequer fala a língua nativa da Suécia, mas esse foi o país que o mesmo decidiu abraçar e representar internacionalmente.
O “sangue” de desportista corre nas suas veias de forma natural, sendo que o seu pai também foi saltador de Salto com Vara (5.80 metros de melhor pessoal), enquanto que a sua mãe competiu nas provas combinadas e no Voleibol. Desde cedo começou a dar nas vistas e tem, por exemplo, todos os recordes mundiais de idade (não oficialmente reconhecido com essa nomenclatura) dos 7 aos 12 anos e também dos 17 aos 20 anos. Nos vídeos abaixo podemos ver alguns desses recordes (8, 9 e 10 anos), onde se percebe que o seu talento vem de há muito:
Em 2015, Duplantis tomou uma decisão (controversa) referente ao seu futuro em competições internacionais. Tendo nascido e crescido nos EUA, o jovem decidiu representar a Suécia nos Mundiais Juvenis desse ano em Cali, na Colômbia. O facto não caiu bem em parte da comunidade atlética norte-americana, argumentando que os EUA tinham despendido tempo e dinheiro na formação desportiva e académica do jovem e que, embora fosse legítimo fazê-lo, era um gesto que demonstrava alguma ingratidão por parte do mesmo. Pouco afetado com as críticas, nesses Mundiais, com apenas 15 anos sagrou-se campeão mundial com um melhor salto a 5.30 metros.

Fonte: IAAF
Um ano depois, com apenas 16, iria aos Mundiais Juniores de Bydgoszcz, na Polónia, saltar 5.45 metros para o Bronze e a partir daí não mais parou a sua ascensão até ao topo da disciplina. Em 2017 sagrou-se campeão europeu júnior em Grosseto, Itália, com 5.65 e já este ano sagrou-se campeão mundial júnior em Tampere, na Finlândia com 5.82 metros. Quanto às disputas com os seniores, em 2018 já bateu todos os grandes nomes da disciplina (Lavilennie, Kendricks, Lisek…), vencendo inclusive uma etapa da Liga Diamante, em casa, em Estocolmo.

Fonte: Stockholm Bauhaus Meeting
A juntar a todas essas conquistas, o jovem parece que leva todas as competições a sério e numa disciplina em que tanta coisa pode correr mal (onde um dia menos bom significa ficar muito longe dos lugares da frente), Duplantis parece gostar de mostrar que os bons resultados podem aparecer em qualquer palco, despertando curiosidade onde quer que ele compita. Este ano, na França, em Clermont-Ferrand, melhorou o recorde mundial júnior indoor (que já lhe pertencia) saltando impressionantes 5.88 metros. E, no que diz respeito ao ar livre, logo em Março, no Texas, passava a mais de de 5.90 metros, algo que nunca nenhum jovem com menos de 20 anos havia feito. Mais tarde, em Maio, em Baton Rouge, atingiria os 5.93 metros, marca que era o seu recorde pessoal até aos Europeus de Berlim.
Para se ter uma mais precisa ideia dos resultados do atleta, basta observarmos o top-10 da história ao ar livre para atletas sub-20:

Como se pode verificar, Duplantis tem as 10 melhores marcas da história. E o cenário não altera assim tanto nas marcas indoor, onde Duplantis (que também é o recordista júnior em pista coberta) tem 6 marcas no top-10.
O Ouro de Berlim
Numa nota pessoal, e tendo tido a oportunidade de presenciar ao vivo a conquista de Duplantis em Berlim – no âmbito da cobertura e reportagem para o Bola na Rede – este foi, sem dúvida, um dos momentos que mais me marcaram de uns Campeonatos que foram de elevadíssimo nível. Chegados a esse domingo final, parecia que o melhor dos Campeonatos já nos tinha sido dado. Já tínhamos, por exemplo, visto Dina Asher-Smith a voar para um duplo ouro e marcas líderes mundiais na velocidade, já tínhamos visto o jovem Ingebrigtsen fazer história com a dupla conquista nos 1.500 e 5.000 com apenas 17 anos e as discussões centravam-se em qual desses dois atletas deveria ser considerado “o” atleta dos Europeus. Poucos estavam preparados para o que estava para vir.

Fonte: European Athletics
Não que Armand Duplantis não fosse um dos favoritos. Tal como anteriormente mencionámos, já vinha realizando uma época de altíssimo nível e, como tal, era um dos principais favoritos. Entre eles constariam também nomes como Renaud Lavillenie (o recordista mundial e que cedo no ano já havia reconquistado o título mundial de pista coberta em Birmingham), Piotr Lisek (Prata nos Mundiais de Londres, Bronze em Birmingham), Pawel Wojciechowski (ex-campeão mundial) ou o atleta da casa Raphael Holzdeppe (também um ex-campeão mundial e medalhado olímpico). No entanto, poucos acreditavam que a marca vencedora se situasse na casa dos 6 metros e se tal acontecesse, tal feito apenas parecia ao alcance de um dos presentes: Renaud Lavillenie, que tinha a melhor marca europeia do ano ao momento (5.95). Quando chegámos a essa marca em Berlim (5.95) apenas 2 atletas conseguiram passar a fasquia (Lavillenie e Duplantis, tendo ambos passado à primeira), uma marca que já era um recorde pessoal para o jovem sueco. Acontece que outro jovem (na altura, com 21 anos), o russo Timur Morgunov que havia falhado passar a essa marca, passou à primeira os 6 metros, marca que também Duplantis passou à primeira tentativa, confirmando o concurso como um dos melhores da história. Lavillenie não passou a 6 metros, ficando com o Bronze e não conseguindo o seu 4º Ouro em Europeus. E Morgunov iria para casa com o seu novo incrível recorde pessoal de 6 metros – depois de muito ter ouvido anteriormente que só conseguia grandes marcas em casa (o atleta conquistou também a Diamond League mais tarde, em Zurique). Mas Duplantis ainda tinha mais uma na manga. Os 6 metros já eram um novo recorde mundial júnior. Já tinha igualado (com Morgunov) a marca de Gataullin de há 24 anos, que era o recorde dos campeonatos. Faltava suplantar essa marca e Duplantis saltou mesmo 6.05 metros, novo recorde dos Campeonatos Europeus e um recorde júnior que demorará, provavelmente, décadas até ser batido. A marca coloca Duplantis como o 4º atleta da história a saltar mais alto na Vara, sendo que ao ar livre apenas a lenda Sergey Bubka (com um melhor pessoal de 6.14) saltou mais alto!
https://www.youtube.com/watch?v=FsWT162z6bs&t=45s
O futuro
Por mais incrível que possa parecer, Armand Duplantis ainda não é um atleta profissional. Tendo apenas 19 anos e, competindo no desporto universitário norte-americano, o atleta não pode, de acordo com o regime em vigor, aceitar qualquer tipo de patrocínios ou contratos com marcas desportivas para competir nacional ou internacionalmente. De forma um pouco surpreendente, Duplantis não seguiu o caminho de muitas promessas norte-americanas (sim, ele também é norte-americano) que escolheram o ano de 2019 para terminarem mais cedo a sua ligação ao desporto universitário, apostando na profissionalização. Duplantis confirmou que 2019 ainda será no desporto universitário, embora sendo um ano tão longo em termos desportivos, restem dúvidas se quando chegarem os Mundiais de Doha (caso o atleta esteja presente), o sueco não será já um atleta profissional, representado por uma grande marca desportiva.
Um dia de treino de Duplantis
Fazendo o circuito universitário, é bastante provável que comecemos a assistir a boas marcas desde bem cedo – em 2017 e 2018 começou a competir na segunda semana de Janeiro – estando pouca clara como poderá ser a planificação de um ano com desporto universitário (época longa indoor e outdoor), Europeus de Pista Coberta (em Glasgow, 1-3 de Março), Europeus Sub-23 ao ar livre em casa (Gävle, 11-14 de Julho) e Mundiais (Doha, 27/09 – 06/10).
Como grandes objetivos, Duplantis não esconde que quer ser o melhor. E isso significa que quer vencer medalhas em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus, mas também que quer bater o recorde mundial da disciplina. Para já tem o recorde mundial júnior (e terá por muitos anos), tem Ouros como campeão mundial júnior e juvenil e campeão europeu júnior, além do Ouro sénior nos Europeus deste ano, onde também alcançou o recorde dos campeonatos. Além disso é recordista nacional sueco e, ao que tudo indica, deverá ser considerado dentro de algumas semanas o recordista nacional norte-americano! É que, de acordo com a lei vigente, qualquer cidadão norte-americano poderá ser o recordista nacional, mesmo que esteja a competir por outro país. A lei tem sido alvo de alguma polémica e fala-se de uma alteração para breve, mas dificilmente a mesma acontecerá com efeitos retroativos, pelo que Duplantis deverá mesmo ser o novo recordista norte-americano.

Fonte: Diamond League
Em 2019 deverá ser novamente um dos nomes mais falados do Atletismo e aos 19 anos não duvidamos nada que esteja por cá para deixar a sua marca, confirmando-se como um dos grandes da história. Em Doha, enfrentará a concorrência mais alargada de nomes como o campeão mundial, o norte-americano Sam Kendricks (o favorito para as casas de aposta ao dia de hoje) ou o campeão olímpico (caso volte ao seu melhor nível), o brasileiro Thiago Braz da Silva. Nada que pareça intimidar o jovem sueco. Afinal, como Sam Kendricks afirmou anteriormente este ano “ele está a sair do casulo…e agora é como se fosse uma borboleta”. E voar não parece ser um problema para Duplantis.
Foto de Capa: Stockholm Bauhaus Meeting













