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Mundial de Corta-Mato: Será este o renascer do Crosse?

Pedro Pires · 8 min

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Muita expectativa tem sido criada em relação ao Mundial de Crosse que se disputa neste sábado em Aarhus, na Dinamarca.

Estão confirmadas as presenças de grandes estrelas do Atletismo mundial, está prometido um percurso a fazer lembrar o Crosse “à antiga”, existirá uma corrida popular a decorrer ao mesmo tempo, mas tudo isso parece não ter convencido grande parte dos países europeus que levam comitivas bastante reduzidas – ou até inexistentes em alguns casos – para uma competição que se realiza em solo europeu.

Os africanos, como é habitual, marcarão presença em grande número e deverão limpar (quase) tudo.

As estrelas

Masculino

Kamworor irá para o 3º título consecutivo?
Fonte: IAAF

A corrida dos homens volta a ter como favorito Geoffrey Kamworor (KEN) depois de ter conquistado os dois últimos títulos. No entanto, existem nomes de peso presentes que podem contrariar o favoritismo de Kamworor.

Para começar, o campeão irá ter que enfrentar o atual campeão mundial júnior, o atleta do Uganda, Jacob Kiplimo. A seleção do Uganda, é, aliás, fortíssima, com a presença de Joshua Cheptegei, atleta que foi Prata nos 10.000 metros dos Mundiais de Londres de há 2 anos e que venceu o Ouro nos 5.000 e 10.000 nos Jogos da Commonwealth do ano passado, mostrando ser hoje um atleta totalmente preparado para enfrentar Kamworor no Corta-Mato – ao contrário do que aconteceu há dois anos, onde desapontou na competição em casa. Albert Chemutai é outro jovem do Uganda já habituado a grandes competições.

Mas, claro, que como resposta a Kamworor, a Etiópia traz também um elenco de luxo. Mogos Tuemay venceu o Campeonato Nacional sénior, mas o nome que mais salta à vista é o de Selemon Barega.

Irá Barega ajudar a Etíopia a recuperar o título?
Fonte: IAAF

Barega é atualmente o atleta que ocupa o lugar nº1 do ranking dos 5.000 metros e no ano passado venceu a final da Diamond League em Bruxelas nessa distância, em 12:43.02, um recorde mundial júnior e uma marca que o colocou como o 4º mais rápido de sempre nessa distância! Não venceu o Crosse nacional, mas é difícil crer que Barega não se apresentará aqui em melhor forma.

Por fim, Kamworor claro que não está sozinho do lado dos quenianos. Paul Tanui é sempre um nome a ter em conta – 3 Bronzes em Mundiais nos 10.000, 1 Prata no Rio e Prata no Mundial de Crosse em 2011 – e Amos Kirui e Richard Yator são nomes já reconhecidos no circuito internacional, mas grande parte das atenções estarão sobre Rhonex Kipruto, que foi o campeão mundial júnior dos 10.000 em pista no ano passado.

Quanto aos restantes países, existe a particularidade dos EUA terem uma equipa de 7 elementos, em que 5 nasceram no Quénia! Facto não muito diferente do que acontece no Bahrein, com alguns nomes conhecidos em prova (Albert Rop, Birhanu Balew…).

Além dos favoritos Quénia, Etiópia e Uganda, outras nações africanas, como a Eritreia podem apresentar atletas bem posicionados e até a surpreender a nível coletivo. Mohammed Mourhit, da Bélgica, foi o último atleta não-africano a vencer a competição (em 2000 e 2001), mas visto que Mourhit nasceu em Marrocos, o último atleta não nascido no continente africano a vencer a prova foi…Carlos Lopes em Lisboa, em 1985! Lopes venceu a competição por 3 vezes, pois já havia vencido em 1984 (New Jersey) e 1976 (Chepstow).

Feminino

Também na provas das mulheres o domínio africano tem sido absoluto e assim continuará. Das últimas 21 presenças em pódios, apenas uma atleta não foi africana e é difícil imaginar não vermos um pódio totalmente africano na Dinamarca. Há dois anos, o Quénia conseguiu as 6 primeiras posições, o que não será, ainda assim, fácil de repetir.

Sem a presença da campeã de há dois anos (Irene Cheptai), a comitiva queniana será comandada por Hellen Obiri, a atleta que venceu o Campeonato Nacional de Crosse e que é também a dominadora da distância de 5.000 metros em pista (campeã mundial e bicampeã da Diamond League).

Obiri mostrará no Corta-Mato o que já provou em pista?
Fonte: IAAF

Como compatriotas, terá a companhia de uma integrante do pódio de há dois anos, Lilian Rengeruk e de Agnes Tirop que foi a campeã há 4 anos, mas certamente outro nome que todos reconhecerão é o de Beatrice Chepkoech, a atual recordista mundial dos 3.000 obstáculos em pista. Letesenbet Gidey foi a campeã júnior nas duas últimas edições e tentará aqui recuperar um título sénior individual para a Etiópia, título que tem fugido (individualmente) para as quenianas desde 2009. Dera Dida foi a campeã etíope este ano e é também outro nome a considerar, sendo que no coletivo o Quénia também aqui parece levar vantagem.

De dupla campeã júnior a campeã sénior?
Fonte: IAAF

Através de várias atletas naturalizadas, o Bahrein tem também na prova feminina boas chances – pelo menos a nível coletivo pode sonhar com a medalha – com nomes como Rose Chelimo (atual campeão mundial da Maratona) ou Eunice Chumba. Do Uganda, Stella Chesang é o nome mais forte, numa prova em que as europeias deverão passar praticamente despercebidas. Sifan Hassan foi uma possibilidade falada, mas, incrivelmente, a Holanda – que até organizou o Europeu há 3 meses! – não enviou qualquer atleta a esta competição. Portugal, que até já teve uma campeã mundial em Albertina Dias (1993, em Amorebieta) e que também já venceu por equipas (1994, em Budapeste), não terá qualquer representante.

Juniores (Masculino e Feminino)

O incansável Jakob Ingebrigtsen
Fonte: European Athletics

Na corrida júnior masculina, quase todas as atenções estarão centradas em Jakob Ingebrigtsen. O jovem prodígio norueguês não vira as costas a nenhuma luta e cá está ele em busca de mais um resultado que permita ainda mais elevar o seu estatuto de estrela. A última vez que um europeu terminou a prova de juniores no Top-10 foi há 25 (!) anos, mas Jakob já avisou que vai à Dinamarca para conquistar o título. Para tal terá que superar uma equipa queniana (favorita no coletivo) que trará atletas como Samuel Chebolei – o campeão júnior que disparou para ninguém mais o ver em Eldoret – ou Leonard Bett (campeão mundial dos 3.000 obstáculos em sub-18), outro dos potenciais candidatos. Os etíopes, com Tsegay Kidanu à cabeça, estarão com certeza na luta, embora também aqui pareçam um passo atrás do coletivo queniano.

No feminino, também há nomes conhecidos em prova. Beatrice Chebet (KEN) voou nos Nacionais Quenianos e já traz na bagagem aquele título mundial dos 5.000 nos Mundiais Juniores do ano passado.

A campeã mundial júnior nos 5.000 metros
Fonte: IAAF

Sarah Chelangat, do Uganda, e Girmawit Gebrzihair, da Etiópia, serão ameaças a considerar numa prova que contará com a campeã europeia, a italiana Nadia Battocletti.

Estafetas Mistas

Por aqui, a segunda edição deste evento trará nomes sonantes como Conseslus Kipruto (KEN) – campeão olímpico e mundial nos obstáculos em pista – e Elijah Manangoi (KEN) – campeão mundial dos 1.500 em pista – a comandarem uma equipa queniana que é a clara favorita. A Etiópia é sempre um nome a ter em conta, apesar de contar nesta prova com uma equipa pouca conhecida do grande público e que até poderá ser surpreendida por uma formação marroquina que conta, por exemplo, com Soufiane El Bakkali – nº1 do ranking mundial nos obstáculos em pista –, Abdelaati Iguider ou Rababe Arafi, especialistas da meia distância.

Mais uma batalha entre Kipruto e El Bakkali, agora num cenário diferente
Fonte: IAAF

A presença portuguesa

A presença portuguesa volta a ser muito tímida num evento que contamos com forte tradição, incluindo ex-campeões (Carlos Lopes e Albertina Dias), medalhados (Carlos Lopes, Fernando Mamede, Paulo Guerra, Albertina Dias e Conceição Ferreira), os atletas com mais participações na competição (Domingos Castro e Conceição Ferreira), além de 4 pódios coletivos no masculino e 5 no feminino (incluindo o título em 1994, em Budapeste).

Nesta edição há apenas 1 atleta português inscrito e será Rui Teixeira, do Sporting, o campeão nacional masculino, que marcará presença na corrida masculina sénior. Há 12 anos, Rui terminou na 123ª posição. Será a comitiva portuguesa mais pequena de sempre (sem contar com os casos da 2ª e 3ª edição, em 1974 e 1975, em que não participámos), algo que ainda assim não é de admirar face ao pobre panorama nacional dos últimos anos.

Rui Teixeira será o único representante português
Fonte: FPA

No entanto – não desculpando o caso português – a tendência de afastamento para com o Corta-Mato parece acontecer um pouco por toda a Europa. Além do já referido e muito pouco justificável caso holandês (de organizador do Europeu a 0 atletas no Mundial em 3 meses!), há outras nações, como a Bélgica, que nenhum atleta levam à Dinamarca, sendo que casos de países históricos como a Itália e a Alemanha chegam a chocar, pela redução drástica de atletas. Mesmo a Noruega, não fosse a insistência de Jakob e ninguém trazia… As nações europeias ao verificarem que as medalhas não estão ao seu alcance, simplesmente desinteressam-se da participação, o que até tem pouco de comportamento desportivo, mas enfim…

O exigente percurso e a corrida popular

Muito elogiado por todos os que já tiveram oportunidade de o visitar, tem sido o percurso escolhido e criado pela organização. Definido como “duro, mas exequível”, o percurso será marcado por várias subidas e descidas, com poucos momentos que permitam a manutenção do ritmo da prova e com vários obstáculos criados propositadamente para este dia. Terá direito a uma secção de areia, uma de água e uma de lama, a fazer lembrar os melhores tempos do Crosse. A juntar a tudo isso ainda haverá uma subida e uma descida pelo teto do Museu Moesgaard! Serão 10.025 metros (a distância percorrida nas corridas seniores) frenéticos, que irão potencializar várias surpresas.

A nível do público, será muito interessante também a criação de áreas específicas, incluindo uma zona onde será possível estar a beber cerveja numa roulotte/bar, enquanto se vê a prova ou uma outra em que os atletas passarão por uma recreação do povo viking, com adeptos e fãs caracterizados dessa forma! São esperados cerca de 5.000 fãs espalhados pelo recinto.

A tudo isso, junta-se o facto de alguns aficionados também terem direito a fazer o mesmo percurso numa corrida popular aberta a amadores – para quem conseguiu razoáveis mínimos de qualificação de 33 minutos para homens e 37 para mulheres em 10 km nos últimos 12 meses. Os atletas amadores selecionados terão a oportunidade de participar em todas as etapas lado a lado com os atletas de elite e isso inclui zonas de aquecimento e câmara de chamada junto com a elite, embora estes atletas não contem para a classificação geral individual ou por equipas. Existirão ainda outras corridas populares em distâncias inferiores, a maioria a realizar-se já depois do evento principal.

No fim, fica a questão: será tudo isto o suficiente para reavivar o Crosse a nível mundial? A IAAF acredita que sim, os países africanos nunca deixaram de acreditar, os outros nem por isso e parecem esquecer, não só o Corta-Mato, mas tudo o que seja meia e longa distância.

No Sábado saberemos se Aarhus marcará mesmo uma nova era no Crosse. A partir das 9h45 da manhã de Sábado, com transmissão em direto para Portugal na RTP 2.

O percurso do Mundial de Crosse
Fonte: IAAF

Foto de Capa: IAAF

Pedro Pires

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