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O domínio germânico no Dardo masculino

Pedro Pires · 11 min

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Os alemães têm o Ouro olímpico, o Ouro mundial e o Ouro europeu. Têm, no ativo, dois dos três atletas que mais longe lançaram o engenho e ainda têm um terceiro que é o campeão nacional e que também se juntou ao clube acima dos 92 metros nesta temporada, sendo o oitavo melhor de sempre. O domínio alemão parece inegável. Mas chegará para quebrar um recorde mundial que dura há mais de 22 anos? Que ameaças enfrentarão ao seu domínio?

A tradição germânica no Lançamento do Dardo não é recente. Basta falarmos do nome de Uwe Hohn para sabermos que quando falamos de Dardo, a língua germânica é de imediato uma das primeiras que nos vêm à cabeça. Hohn, que representava a RDA, foi um dos principais responsáveis pela alteração do engenho para o atual, facto que aconteceu em 1986. Antes disso, já há algum tempo que se falava na reformulação do Dardo, uma vez que existia alguma polémica nas medições com o engenho anterior (a ponta nem sempre furava o solo) e com a distância a que o engenho já vinha sendo lançado, colocando em perigo a segurança dos espectadores. Quando o alemão lançou 104.80 metros em 1984 (o único homem a lançar a mais de 100 metros), todo o processo foi acelerado até à modificação em 1986.

Uwe Hohn, recordista “para sempre” com o anterior engenho
Fonte: Wikicommons

Aí passamos a ter um engenho com um centro de gravidade mais à frente, o que provocava uma redução na elevação atingida e um aumento da curvatura do arco para baixo no arco da queda, fazendo o engenho cair de forma mais vertical. Na fase anterior do Dardo não foi apenas Hohn o alemão a destacar-se, sendo que nomes como Detlef Michel, Michael Wessing ou Klaus Wolfermann alcançaram sucesso internacional no masculino, embora estes últimos representassem a outra Alemanha ainda antes da unificação dos dois lados. 

Após a mudança de engenho e apesar de vários títulos globais conquistados no feminino, no masculino, a Alemanha apenas viria a conquistar o primeiro evento global, com Matthias de Zordo, nos Mundiais de Daegu em 2011, na altura com 23 anos. Zordo muito prometeu, mas nunca passou dos 88.36 metros, que alcançou nesse mesmo ano, havendo pouco a assinalar do resto da sua carreira. Antes de Zordo, os alemães tiveram dois homens que até ultrapassaram os 90 metros com o atual engenho, mas tanto Raymond Hecht como Boris Henry nunca conquistaram um grande campeonato – falando de Europeus, Mundiais ou Jogos Olímpicos. Depois de alguns anos com algumas presenças em pódios (principalmente a nível continental) e do Ouro de Zordo em Daegu, foi em 2016 que as coisas definitivamente se alteraram e viraram o tabuleiro por completo a favor da supremacia alemã.

Em 2014 e 2015, Johannes Vetter, Andreas Hoffmann e, sobretudo, Thomas Rohler já vinham demonstrando capacidade para ocupar os lugares cimeiros do ranking mundial e até obtendo vitórias importantes no circuito internacional. Foi no entanto em 2016 que o grande boom germânico se deu em força, com a vitória de Thomas Rohler nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Thomas Rohler conquistou o Ouro no Rio
Fonte: Olympic Channel

Nesse ano, 3 alemães (Rohler, Vetter e Weber) ficaram no top-4 mundial do ano no que diz respeito aos lançamentos mais longos. Foi também em 2016 que Johannes Vetter deu o grande salto na sua progressão, lançando acima de 89 metros pela primeira vez, embora nos Jogos do Rio tivesse ficado na ingrata 4ª posição. 

Em 2017, o domínio foi ainda mais avassalador. Vetter continuou a sua impressionante progressão e na Suiça lançou a 94.44 metros, uma marca que apenas o recordista mundial Jan Železný alguma vez ultrapassou em toda a história (com o novo engenho). Vetter culminaria o seu fantástico 2017, fechando com chave de ouro, alcançando o Ouro nos Mundiais de Londres. Em Londres, os papéis inverteram-se e foi Thomas Rohler a ficar na 4ª posição, falhando os alemães mais uma vez a possibilidade de colocar mais do que um atleta no pódio de um evento global. 

 

Ainda assim, 2017 foi um ano com momentos de elevado nível para o campeão olímpico, tendo vencido importantes meetings (Doha, Roma, Mónaco, Turku, Ostrava…) e lançando o seu melhor pessoal a 93.90 metros logo no início da temporada no meeting da capital do Qatar, marca que o colocava como o terceiro a lançar mais longe na história. Outro alemão começou-se a destacar cada vez mais nesse ano, primeiro com a vitória em casa, em Offenburg (com 88.79 metros) e, mais tarde, fechando o ano com um lançamento de 91.07 metros (na altura, um novo recorde pessoal e a primeira vez acima dos 90 metros) nas Universíadas de Taipei, não chegando incrivelmente para ser primeiro nessa noite. O seu nome é Andreas Hofmann e muito mais se ouviria falar dele em 2018. 

2018 arrancava com enormes expetativas em relação a esta disciplina. Os três alemães haviam mostrado um nível excecional no ano transato e este seria um ano com Campeonatos da Europa em casa. A temporada praticamente começava com duas bombas de Vetter! Na África do Sul, ainda em Fevereiro, lançava já acima do 90 metros (91.22) e um mês depois viria a Leiria lançar 92.70 metros, marca que curiosamente até viria a ser a melhor marca mundial de todo o ano. 

O lançamento de Vetter em Leiria foi a melhor marca do ano
Fonte: European Athletics

Apesar de Vetter ainda ter mostrado alguma regularidade nas competições seguintes (chegando a lançar acima dos 91 em Doha), a verdade é que uma lesão viria a afetar as performances do atleta, tendo até chegado a perigar a participação do mesmo nos Europeus de Berlim. 

Thomas Rohler, por outro lado, manteve um nível regular ao longo do ano, embora também tenha obtido o seu lançamento mais longo logo em Maio, em Doha, ao lançar 91.78 metros, numa competição em que 3 alemães passaram os 90 metros, algo que nunca havia acontecido com nenhum país na história do evento. Apesar da regularidade, Rohler chegava aos Europeus sem vencer uma competição há dois meses, o que levantava algumas incertezas quanto ao favoritismo do campeão olímpico. 

Quem parecia chegar melhor aos Europeus era Andreas Hofmann. O atleta que deu o grande pulo no ano transato fez uma época de grandíssima qualidade, tendo passado pela primeira vez dos 92 metros em Junho, em Offenburg. Os 92.06 metros de Hofmann colocam-no no 8º lugar do ranking da história do Dardo e viria a capitalizar esse resultado com uma série de boas marcas, vencendo os Nacionais germânicos na frente de Rohler e Vetter, ao lançar 89.55 metros.

Hofmann foi um dos atletas em maior destaque em 2018
Fonte: IAAF Diamond League

Chegados aos Europeus de Berlim, havia a expetativa de um pódio totalmente germânico em casa. Vetter cedo demonstrou que não estava ainda na sua melhor forma. Embora na qualificação tenha lançado acima dos 87 metros, na final ficou-se pelos 83.27 metros, o que lhe deu apenas um 5º lugar. Fechou por aí a temporada por não se considerar nas melhores condições físicas. Andreas Hofmann, que talvez fosse o favorito por essa altura, lançou 87.60 metros, mas a marca apenas chegou para a medalha de Prata. Hofmann viria ainda a fechar o seu grande ano com a conquista do Diamante nas finais da Diamond League de Zurique, com um enorme lançamento de 91.44 metros. Já Thomas Rohler, o campeão olímpico, voltou a mostrar ser uma aposta fiável e o seu lançamento de 89.47 metros em Berlim deu-lhe o seu primeiro título europeu. Mais tarde, no ano, ainda venceria a Continental Cup em Ostrava com 87.07. 

Terminava assim um ano que até chegou a ameaçar mais a nível de marcas (tal a forma como se iniciou), mas que teve nos 3 alemães os únicos a terem ultrapassado os 90 metros, partilhando entre si as 11 melhores marcas de competição do ano. 

O recorde mundial – Será uma possibilidade imediata?

O checo Jan Železný é o recordista mundial desde 1993, sendo que a marca atual (98.48) perdura desde 1996. Ainda que Johannes Vetter seja o segundo homem a ter lançado mais na história, o seu lançamento é o 5º, uma vez que os 4 primeiros pertencem a Železný. 

Ainda assim, mesmo o checo tem como segundo melhor lançamento os 95.66 metros (anterior recorde mundial) de Sheffield, uma marca que parece bem ao alcance de Vetter. Chegar aos 98 metros pode parecer irrealista, mas nem para o checo foi algo comum e é daqueles lançamentos que podem acontecer uma vez na carreira, caso se mantenha uma regularidade de lançamentos acima dos 90 metros. Ainda falta um pouco para Vetter ou outro qualquer atleta em atividade ter essa regularidade. Afinal, o checo lançou mais de 50 vezes acima dos 90 metros. Ainda assim, a possibilidade existe e é bem real quando falamos de dois homens (Vetter e Rohler) que lançaram mais do que outro alguém na história. 

O melhor ciclo parece ser o dos próximos 3 anos: Mundiais de Doha em 2019, Jogos de Tóquio em 2020 e Mundiais de Eugene em 2021. Serão 3 anos de cortar a respiração para fãs do Atletismo e desta disciplina em particular e consegue-se já antecipar expetativas e possibilidades diferentes para cada uma das competições, que terão todas as suas particularidades.

Até onde poderemos ver o Dardo ser lançado nos próximos 3 anos?
Fonte: Leichtathletik (Federação Alemã de Atletismo)

Com isto não queremos dizer que serão nessas exatas provas que o recorde estará sob maior ameaça. O checo recordista mundial foi por 3 vezes campeão mundial e 3 vezes campeão olímpico e nunca nessas competições se aproximou da marca de recorde mundial (a melhor marca de Ouro olímpico foi 90.17 metros e de Ouro mundial foi 92.80 metros), mas poderá ser durante esse triénio que poderemos ver algo enorme – pouco mais de dois meses antes dos Jogos de Atlanta, Železný lançou os seus mais de 98 metros em Jena, na Alemanha. 

O anterior recorde ter sido batido na Alemanha, também poderá servir de incentivo ao trio aqui referido. Recorde-se dos bons resultados que meetings como o de Offenburg têm proporcionado, para se entender como meetings em solo germânico são usualmente garantia de grandes marcas, o que poderá muito bem ter a contribuição da proximidade do público em determinados eventos. Antes do recorde mundial de 1996, Železný trazia como melhor nos 3 anos anteriores 95.66 em 1993, 91.82 em 1994 e 92.28 em 1995. Acima dos 90 metros por 4 vezes na mesma série? Só Železný e…Vetter (que fê-lo em Lucerne) em toda a história! O cenário não altera muito e poderemos estar mais próximos do recorde do que possa parecer. Ainda que o recorde mundial se mantenha de pé, para Doha, o objetivo de quebrar o recorde dos campeonatos (92.80 de… Železný) é algo bastante realista. 

Os principais adversários

Apesar de falarmos essencialmente do trio Vetter/Rohler/Hofmann, a verdade é que o Dardo atravessa tempos de elevado nível e há mais nomes que merecem destaque. 

Julian Weber, campeão europeu júnior em 2013, é outro alemão que se pode intrometer na luta pelos lugares cimeiros, até porque para Doha já existe um wild card garantido para Johannes Vetter, abrindo a porta a um quarto germânico.

Julian Weber pode ser um dos nomes em destaque em 2019
Fonte: European Athletics

Weber lançou em 2016 a mais de 88 metros (88.29) e no final desta temporada voltou a dar sinais de que poderá chegar a essas distâncias mais uma vez. 

O checo Jakub Vadlejch tem vencido importantes meetings do circuito mundial e no ano passado foi a Londres conquistar a Prata nos Mundiais, com um lançamento de 89.73 metros, o seu melhor pessoal. 

Vadlejch foi Prata em Londres
Fonte: IAAF

Este ano voltou a passar os 89 metros, embora tenha falhado nos Europeus de Berlim ao ficar-se pelo 8º lugar, com pouco mais de 80 metros, na 8ª posição. 

Quem brilhou em Berlim foi o atleta da Estónia Magnus Kirt. Kirt foi o único não-alemão nesse pódio, ao ficar com a medalha de Bronze, numa época em que se mostrou bastante regular, com vários lançamentos acima dos 88 metros. 

Recordista nacional e o melhor não-germânico do ano
Fonte: European Athletics

O seu lançamento de 89.75 metros (a roçar os 90) que lhe garantiu a vitória em Rabat, coloca-o como o 4º atleta a lançar mais longe no ano, logo atrás do trio alemão. 

Provavelmente a maior promessa – falando de atletas ainda não-feitos – é o indiano Neeraj Chopra. Com apenas 20 anos, Chopra lançou, este ano, 88.06 metros em Jakarta para vencer os Jogos Asiáticos, num ano em que também venceu os Jogos da Commonwealth, tendo sido presença regular nos meetings da Diamond League. 

https://www.youtube.com/watch?v=8DDFKR3aDrE

Foi o campeão mundial júnior em 2016, ao lançar 86.48 metros, uma marca que é recorde mundial júnior por larga margem. O atleta decidiu mudar-se para a Alemanha (o que provocou bastante polémica no seu país natal) e é hoje treinado pela lenda Uwe Hohn. 

Falando de grandes promessas juniores, temos que referir o nome de Keshorn Walcott. O lançador de Trinidad & Tobago teve o seu grande ano em 2012, quando se sagrou campeão mundial júnior em Barcelona e um mês depois iria a Londres sagrar-se campeão olímpico com apenas 19 anos! 

Campeão olímpico de Londres com apenas 19 anos!
Fonte: London 2012

No Rio, alcançou a medalha de Prata, mas regularidade não tem sido uma palavra presente no dicionário de Walcott, que nunca conquistou uma medalha em Mundiais mas que em 2015 alcançou o seu máximo pessoal com os 90.16 metros em Lausanne. Tem demonstrado dificuldades para voltar a encontrar essa forma. 

Por fim, existe uma incógnita chamada Julius Yego. O autodidata queniano, que apanhou o mundo de surpresa e conquistou o título mundial em Pequim, em 2015, lançou nesse ano 92.72 metros nos Campeonatos Mundiais, marca que o coloca como o 5º no ranking de toda a história. 

Desde aí o queniano tem vindo claramente a regredir de ano para ano e, apesar de ter idade para ainda voltar ao seu auge, fica difícil fazer qualquer tipo de previsão a seu respeito, depois de um 2018 em que o seu melhor foi de apenas 80.91 metros, ficando por várias vezes abaixo dos 80 metros. 

O futuro 

Como se percebe, o Dardo masculino vive tempos de enorme pujança e com tanta qualidade presente, seja pela parte alemã ou pela concorrência externa, os bons resultados continuarão a aparecer e provavelmente iremos ver mais marcas que nos deixarão de queixo caído. O caso alemão deve, ainda assim, ser acompanhado com especial atenção. Em palavras à IAAF, Johannes Vetter explicou que o segredo do sucesso alemão é possuírem uma excelente equipa, com bons treinadores, havendo amizade entre os atletas. Competitividade é bastante diferente de inimizade e essa é a verdadeira lição que os astros germânicos têm transmitido ao longo destes últimos anos.

O trio germânico
Fonte: IAAF Diamond League

Johannes Vetter (PB: 94.44 / Idade em Doha’19: 26 anos) 

Thomas Rohler (PB: 93.90 / Idade em Doha’19: 28 anos)

Andreas Hofmann (PB: 92.06 / Idade em Doha’19: 27 anos)

Julian Weber (PB: 88.29 / Idade em Doha’19: 25 anos)

Jakub Vadlejch (PB: 89.73 / Idade em Doha’19: 28 anos)

Magnus Kirt (PB: 89.75 / Idade em Doha’19: 29 anos)

Neeraj Chopra (PB: 88.06 / Idade em Doha’19: 21 anos)

Keshorn Walcott (PB: 90.16 / Idade em Doha’19: 26 anos)

Julius Yego (PB: 92.72 / Idade em Doha’19: 30 anos)

Foto de Capa: Spikes IAAF

Pedro Pires

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