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O Fim-de-Semana em Análise: Das enormes performances de Sporting e Benfica até Eugene

Pedro Pires · 10 min

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Foi mais um daqueles fins-de-semana em que difícil mesmo foi dar atenção a algo mais que não fosse o Atletismo. De Eugene a Birmingham, passando até por outros meetings europeus ou pelos universitários norte-americanos, o Atletismo teve momentos de interesse em praticamente cada hora deste fim-de-semana. Recordes, grandes resultados, grandes marcas, grandes feitos, surpresas, tudo isso iremos abordar neste artigo que pretende revelar o que de mais relevante aconteceu pelo mundo do Atletismo no último fim-de-semana de Maio. 

1. O Sporting voltou a sagrar-se campeão europeu de clubes no feminino. O Benfica igualou a sua melhor classificação de sempre no masculino. 

Já por demais falado, não é demais recordar o feito dos clubes portugueses pela capital do Atletismo britânico. Pela cidade inglesa passaram nomes consagrados como Ivet Lalova-Collio, Yasmani Copello, Andrius Gudzius ou Patrícia Mamona e todas as provas apresentaram, pelo menos, emoção a rodos.

O grande destaque deverá ser mais um título europeu do Sporting que conta neste momento com 19 títulos europeus no Atletismo no seu palmarés, sendo claramente a modalidade mais bem-sucedida no palmarés do clube. Este ano está a ser especialmente bom porque é o terceiro título europeu que o clube conquista, depois das conquistas no Corta-Mato.

O clube nunca tinha sequer conquistado dois títulos europeus no mesmo ano e por isso percebe-se a relevância de 2018 no palmarés do Atletismo do clube leonino. Em Birmingham, tudo parecia muito complicado no primeiro dia com a desqualificação nas estafetas 4×100, mas um segundo dia, verdadeiramente impressionante e de luxo, levou os leões à revalidação do título. Já o Benfica superou a sua classificação da última edição, fez uma prova de enorme valor e quase que se pode dizer que se não fossem as ausências forçadas e (nalguns casos) inesperadas teria hoje a sua primeira Taça dos Campeões Europeus no museu.

Entrou para a última prova ainda com esperanças de obter esse título, mas não conseguiu bater os turcos do Enka, um dos grandes favoritos à conquista. O Benfica fica com a certeza de ter uma equipa de elite que poderá muito bem conquistar o troféu num futuro muito próximo, tendo para já igualado a melhor classificação de sempre com o segundo lugar de Birmingham. 

2. Recordes Nacionais Sub-23

Foram dois os Recordes Nacionais Sub-23 que caíram neste fim-de-semana e os dois foram alcançados por atletas do Sporting, embora em competições e contextos totalmente diferentes. Evelise Veiga, no Comprimento, tornou-se a segunda atleta da história nacional a saltar mais longe, apenas atrás de Naide Gomes, depois de saltar uma distância de 6.54 metros em Birmingham.

Evelise Veiga, a segunda melhor portuguesa
Fonte: Sporting CP

Evelise já vinha ameaçando uma marca do género e consegue obter o recorde no seu último ano nessa mesma categoria, embora exista a perspetiva de que a atleta, a continuar a evoluir desta forma, possa superar essa marca este ano. Aliás, a atleta certamente quererá isso, de forma a obter os mínimos de qualificação para os Europeus (definidos nos 6.60 metros). O recorde anterior pertencia a Teresa Vaz Carvalho, que havia saltado 6.52 metros quando ainda tinha apenas 19 anos, mantendo-se essa marca como o recorde júnior da disciplina.

Em Halle, na Alemanha, foi a vez de cair o recorde sub-23 do Disco que durava desde 2004 e que pertencia a Jorge Grave com 57.28 metros. O autor do feito foi Edujose Lima que lançou 57.65 metros e continua na senda de somar recordes, depois de ter conseguido o recorde júnior do disco de 2kg em 2015. Os mínimos do Disco para os Europeus situam-se nos 63.50 metros.

3. Nafi Thiam com o melhor de sempre na Altura das Provas Combinadas

Nunca ninguém tenha saltado tão alto nas Provas Combinadas femininas e claro que uma marca do género (2.01 metros) só poderia vir de Nafissatou Thiam, jovem belga de 23 anos, estudante no ensino superior de Ciências Geográficas, que já é campeã olímpica e mundial. Aconteceu no famoso fim-de-semana de Gotzis, na Áustria, num evento em que Thiam brilhou em várias provas (fez 6806 pontos) e chegou a ameaçar a queda do Recorde Europeu. Ele só não aconteceu devido a uma participação menos bem conseguida no Dardo, uma disciplina que a atleta confessou ter feito ajustes antes da prova e que tentou lançar de um modo diferente na Áustria. A marca conseguida no Salto em Altura é, também, a melhor marca mundial do ano neste momento e a atleta não ficou por aqui, somando melhores pessoais no Comprimento (6.62m) e Lançamento do Peso (15.29m)! 

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4. Anita Wlodarczyk perdeu! 

Pois é, a polaca que é a grande figura dominadora dos últimos anos no Lançamento do Martelo perdeu, finalmente, uma prova quase quatro anos depois! Em Halle, fez um concurso muito longe do nível a que nos habituou e terminou em nono lugar com o melhor lançamento a ficar-se pelos 65.71 metros. A última derrota tinha sido em Ostrava em Junho de 2014 e desde aí tinha conseguido 42 (!) vitórias consecutivas. Esta foi a primeira competição do ano para a atleta polaca que é a atual campeã olímpica e mundial. 

5. Um dos melhores concursos do Peso de sempre

Aconteceu em Eugene algo que nunca tínhamos vivenciado: pela primeira vez, 4 homens passaram a barreira dos 21.80 metros! A competição teve assim direito a um recorde do meeting e a dois recordes nacionais! No quarto lugar, o campeão mundial Tomas Walsh não conseguia esconder no final a satisfação por ter contribuído para um facto histórico, mas, ao mesmo tempo, mostrava-se surpreendido por um lançamento de 21.84 metros apenas dar para um quarto lugar pela primeira vez na história.

No terceiro lugar, tivemos um brasileiro a bater o recorde nacional por um centímetro – recorde que já lhe pertencia. Darlan Romani lançou 21.95 metros e surpreendido também terá ficado por apenas chegar para o terceiro lugar, pois o polaco Michal Haratyk bateu também o recorde nacional ao ar livre (polaco) com 21.97 metros! Totalmente de loucos e só superado pela grande marca do campeão olímpico Ryan Crouser que lançou 22 metros e 53 centímetros, fixando um novo recorde do meeting de Prefontaine. 

6. Noah Lyles. Ponto. 

Começa a ser um dos nomes incontornáveis do Atletismo norte-americano e um daqueles casos que não parece nada afetado com as exigências do profissionalismo. Até ao momento, Lyles, que se estreou na Diamond League em 2017, correu quatro provas da competição e venceu as quatro, sendo que o pior resultado até foram os exatos 20 segundos na final de Bruxelas, quando venceu o troféu de Diamante no ano passado. 

Em Eugene, voltou a vencer e fê-lo com “nota artística”. Correu os 200 metros em 19.69, a 1 centésimo do recorde do Meeting que pertence a Justin Gatlin e igualou a melhor marca mundial do ano, embora Lyles o tenha feito sem a altitude a que Munyai teve direito em Pretória. Com a desistência de Coleman dois dias antes da prova, a prova ainda continuava a estar recheada de armadilhas e de tubarões que poderiam levar a vitória.

Desde o início que se percebeu que apenas Isaac Makwala poderia dar alguma luta, mas quando o atleta do Botswana se lesionou na curva, já Lyles comandava a prova. Voou desde aí totalmente sozinho e fechou a prova, pela primeira vez na carreira, na casa dos 19.6. No final, confessou que não esperava tão cedo este tempo, mas que tem a certeza que coisas ainda melhores estão por vir. Aqui estamos para te ver. 

7. Ronnie Baker bate Coleman nos 100 Metros

Os três atletas que tiveram em forte evidência na temporada indoor da velocidade, terminaram aqui em 1º, 2º e 4º lugar, todos abaixo dos 10 segundos, provando a importância que a temporada indoor tem no percurso dos atletas também ao ar livre. O fortíssimo arranque de Christian Coleman é por demais conhecido e quando se percebeu que aos 60 metros da prova estava lado a lado com Ronnie Baker muitos terão previsto, naquela escassez de tempo, que Coleman poderia perder a prova.

E assim o foi. Ronnie Baker mostrou-se muito forte em todos as fases da corrida, aguentou a pressão de ter ao seu lado um homem que já este ano se tornou recordista mundial (dos 60 metros) e levou a vitória num extraordinário tempo de 9.78, que infelizmente foi corrido com um vento ligeiramente superior ao regulamentar (+2.4) e que por isso não poderá ser um enorme novo recorde pessoal de Baker, que o tem nos 9.97, corridos este ano. 

Coleman correu em 9.84 na primeira prova do ano, o que não deixa de ser um excelente resultado e parece ter feito a opção certa ao não dobrar distâncias como estava previsto. No terceiro lugar, mais uma grande prova do britânico Reece Prescod (9.88), ele que também tem apenas 22 anos e que parece estar a crescer a um ritmo assustador. No quarto, Bingtian Su em 9.90, mostrando que quer dar seguimento ao sucesso da temporada indoor. 

8. O domínio Costa-Marfinense na velocidade feminina

Quando em Março, Murielle Ahouré e Marie-Josée Ta Lou cruzaram a meta na final dos 60 metros Indoor de Birmingham e alcançaram o primeiro 1-2 da história da Costa do Marfim, muitos elogiaram o resultado, mas acharam que o mesmo teria sido diferente se algumas das estrelas mundiais tivessem dado uma maior importância à temporada indoor.

Acontece que aqui, em Eugene, elas estavam todas (aliás, em Birmingham apenas não esteve Bowie). A campeã olímpica, Elaine Thompson (3ª em 10.98) continua a sofrer para encontrar a sua melhor forma, tendo a atleta já confessado que se encontra a batalhar com uma lesão. A campeã mundial, Tori Bowie, lesionou-se ao chegar à meta mas nunca conseguiu ombrear com as africanas (5ª em 11.03) e Dafne Schippers foi apenas 4ª no seu melhor da temporada em 11.01. 

Murielle Ahouré trouxe toda a bagagem do título dos 60 metros de Pista Coberta e dominou mesmo de forma clara a prova até perto do final. Mas a forte consistência de Marie-Josée Ta Lou torna-a num dos nomes mais temidos do circuito e, neste momento, não existe prova de 100 metros onde a mesma não seja favorita. Nunca se desconcentrou pelo forte arranque da sua compatriota, executou a sua prova como constava no guião e levou a vitória em Eugene. Correu dois meetings da Diamond League em 2018 e venceu os dois abaixo dos 10.90. Aqui correu em 10.88 face aos 10.90 de Ahouré. 

9. Bem-vinda de volta ao Ar Livre, Genzebe! 

Confessamos que, na antevisão para a prova dos 5000 Metros, contávamos com um forte duelo entre Genzebe Dibaba e Hellen Obiri. As duas vinham de conquistas recentes, com Dibaba a alcançar o Ouro nos 1500 e 3000 metros nos Indoor de Birmingham e Obiri a sagrar-se a campeã mundial nesta distância em Londres, além do título dos Jogos da Commonwealth já este ano.

Ainda assim, atribuíamos um ligeiro favoritismo a Obiri. Apesar de ter feito grandes marcas no passado, particularmente neste estádio e de ter sido campeã mundial júnior em 2010, Genzebe nunca mostrou uma consistência assim tão grande a nível dos 5000 metros, ao contrário da sua irmã, que é ainda a atual recordista mundial da distância. Era também a sua primeira prova ao ar livre na época e Hellen Obiri fez uma temporada 2017 demolidora.

Mas Genzebe fez o que quis desta prova. Teve sempre no controlo da corrida, ao ritmo que ela quis andar, no grupo da frente. Cedo percebeu que Hellen Obiri parecia estar com dificuldades para acompanhar esse ritmo, mostrando, a queniana, algumas dificuldades na respiração. Dibaba deu a sapatada quando tinha que dar, arrancando para uma última volta diabólica (1:01.70 a correr sozinha), com a sua compatriota Letesenbet Gidey a tentar acompanhar até onde pôde. Muito boa prova de Gidey, diga-se, que com 20 anos feitos este ano, correu em 14:30.29 em Eugene, mostrando que deve ser um nome a ter em conta. Dibaba, essa, terminou em 14:26.89, num tempo que é o líder mundial neste momento. 

10. Com 17 anos, correu a Milha na casa dos 3:52! 

O jovem Jakob Ingebrigtsen (sim, vocês conhecem este apelido!) já é um nome por demais conhecido pelos apreciadores do nosso desporto. O que pode parecer estranho se pensarmos que tem apenas 17 anos, mas que não é certamente se tivermos em conta todos os recordes e feitos que o mesmo tem vindo a alcançar. Na noite de sábado não foi ele que venceu a prova. Quem venceu foi Timothy Cheruiyot que continua a demonstrar um nível e consistência impressionantes. Mas Ingebrigtsen saltou para as bocas do mundo ao correr a distância em 3:52.28!

Jakob Ingebrigtsen já começa a estar habituado aos holofotes
Fonte: IAAF

Este tempo é um novo recorde sub-20 europeu da distância, relegando para segunda uma marca que tinha quase 39 anos, do britânico Graham Williamson em 3:53.15! Mas não é tudo: o jovem norueguês correu os últimos 400 metros em 55.41, sendo o mais rápido em pista a fazê-lo e terminou à frente do campeão olímpico (Matthew Centrowitz) e colado ao campeão mundial (Elijah Manangoi). Quem diria que iríamos ver um norueguês em 2018 a ombrear na meia distância com os quenianos? Espectacular. 

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro 

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