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2018 deu-nos momentos de nível bastante elevado em quase todas as disciplinas, mas há um evento que se destacou de todos os outros pelo constante nível elevadíssimo vindo de vários atletas em simultâneo. No mesmo ano, tivemos 2 atletas a entrar diretamente para o top-3 de marcas de sempre, sendo que, antes destes dois tempos monstruosos, tínhamos tido apenas uma marca desta década a entrar no top-20 de sempre – os 47.32 de Bershawn Jackson em 2010. As marcas de Abderrahman Samba (uma das mais consistentes épocas da história) e Rai Benjamin (uma evolução brutal) fazem subir as expetativas para 2019 e fazem sonhar com a possibilidade de queda do recorde mundial. Atletas como Karsten Warholm (o campeão mundial) ou Kevin McMaster (o duplo campeão da Diamond League) prometem tornar a luta pelo Ouro mundial de Doha ainda mais épica.
Samba quer fazer história…em casa!
Abderrahman Samba (23 anos) foi um nome muito falado em 2018 – não é caso para menos. Para se ter uma ideia dos feitos do atleta, que competirá os próximos Mundiais em casa, basta colocarmos a sua época no devido contexto. Nos 5 anos anteriores a este (desde 2013 a 2017) existiram 11 tempos sub-48 no mundo, somando as marcas de todos os atletas que correram a distância. Este ano, em menos de 5 meses, Samba correu por 9 vezes abaixo dessa marca! O atleta venceu o título asiático nos Jogos Asiáticos de Jakarta e o título da Continental Cup em Ostrava. Infelizmente, Samba não pôde participar na final da Diamond League por esta coincidir a nível de calendário com os Jogos Asiáticos. No entanto, foi o grande protagonista do ano na Liga Diamante, tendo vencido as 6 etapas em que participou com 4 recordes da competição!

Fonte: Diamond League
Os 47.57 do primeiro meeting em Doha fizeram muitas sobrancelhas se levantarem de imediato, mas a verdade é que Samba apenas não baixou dos 48 segundos por uma vez este ano: quando não precisava – nas meias-finais dos Jogos Asiáticos, fazendo um “ligeiro jogging” e terminando a passo, garantindo facilmente o apuramento para a final. Durante o ano, fez, claro, os enormes 46.98 segundos como resposta à marca de Rai Benjamin poucas semanas antes.
Essa marca de Samba coloca-o como o segundo atleta da história a baixar dos 47 segundos, apenas atrás do recorde mundial de Kevin Young (46.78) em Barcelona, em 1992.
Quem é este Benjamin?

Fontes: Spikes
Ainda assim, este ano não nos proporcionou o duelo que todos quisemos ver a partir de Junho: Abderrahman Samba não se encontrou em pista com Rai Benjamin (21 anos). Quem é afinal Benjamin? É um atleta nascido nos EUA, mas que até há bem pouco tempo representava o território de Antígua e Barbuda, embora estivesse a competir no circuito universitário norte-americano. Foi neste último ano universitário que Benjamin concentrou todos os olhares em cima de si. Num ano em que os americanos já olhavam com especial interesse para esta distância no feminino (talvez por uma tal de Sydney McLaughlin), viram Benjamin baixar de um melhor pessoal, que se situava em 48.33 (em 2017, primeiro ano em que baixou dos 49 segundos), para uns estratosféricos 47.02 na final dos Universitários, marca que o situava com o segundo melhor tempo igualado da história (junto com Edwin Moses) até Samba baixar dos 47 segundos em Paris.
Paris também foi especial para Benjamin. Foi a sua estreia como profissional, competindo nesse meeting, mas, surpreendentemente, na prova de 200 metros (talvez para evitar, para já, o duelo com Samba) com um espantoso tempo de 19.99 (-0.6), mostrando claramente que a marca da volta à pista com barreiras não foi por acaso. Pouco depois (a seguir a outros 200 metros em Lausanne), terminou a sua época desportiva, que se havia iniciado bastante cedo, como é hábito para quem compete no desporto universitário norte-americano e que incluiu a sua participação no tempo mais rápido alguma vez alcançado por uma estafeta 4×400 em ambiente indoor, competindo pela equipa universitária USC. Para 2019, está guardado o duelo com Samba que parará o mundo do Atletismo. Agora temos a certeza de que Rai Benjamin representará mesmo os EUA, após a autorização com efeitos imediatos por parte da IAAF.
O norueguês que corre como nunca, mas que pode não chegar

Fonte: European Athletics
A expetativa não se limita apenas a Samba e Benjamin. Karsten Warholm (22 anos), o norueguês que havia surpreendido o mundo ao sagrar-se campeão mundial em Londres, correu como nunca este ano. Não só correu pela primeira vez abaixo dos 48 segundos, como o fez nuns impressionantes 47.64 nos Europeus de Berlim. Aliás, foram cinco as vezes em que o atleta europeu baixou dos 48 segundos neste ano, o que o próprio confessou estar a desperta-lhe sentimentos mistos.
Por um lado, afirma-se bastante contente por estar a correr com marcas que o próprio não pensaria serem possíveis até há pouco tempo. Por outro lado, confessa achar estranho que, no ano em que mais rápido correu na sua carreira, tenha tido tantos segundos e terceiros lugares: Warholm apenas venceu nos Europeus de Berlim, na Diamond League de Londres e nos Nacionais da Noruega. A marca que lhe deu o título europeu é um novo recorde sub-23 do Continente, colocando-o também como o 4º europeu mais rápido da história. Ele sabe que, se quer revalidar o título mundial em Doha, terá de correr mais rápido do que em Londres, onde venceu, sendo o melhor, sob circunstâncias especiais. Contudo, em Doha, as condições – a começar pelas climatéricas – serão certamente diferentes.
A sorte e o azar de McMaster

Fonte: Gold Coast 2018
Antes de Londres e desta época de 2018, o atleta-promessa que tinha maior buzz na disciplina era, sem dúvida, Kyron McMaster (21 anos). Natural das Ilhas Virgens Britânicas, McMaster chegava aos Mundiais passados com a melhor marca mundial de 2017 (sendo o único atleta nesse ano a baixar dos 48 segundos para 47.80). Isto com apenas 20 anos. Talvez McMaster tenha acusado essa pressão porque, entrando nos Mundiais como um dos grandes favoritos, acabaria por ser desclassificado logo nas eliminatórias por pisar uma pista que não a dele. De nada serviram os protestos à desqualificação, mas o atleta voltaria a mostrar a sua força e a responder em grande ao vencer, duas semanas depois, a final da Diamond League em Zurique. Pouco mais de duas semanas depois dessa vitória, viria a perder o seu treinador, que faleceu vítima do furacão Irma, facto que marcou bastante o atleta, como este viria a reconhecer mais tarde. Ainda assim, o “azarado” McMaster viria a realizar um 2018 de nível bastante elevado, com a conquista fácil do Ouro nos Jogos da Commonwealth (o primeiro Ouro das IVB na história dos Jogos, que proporcionou uma conferência de imprensa bastante emocionada de McMaster) e da mesma medalha nos Campeonatos da NACAC. Contudo, a grande vitória viria no final da época. Aproveitando a ausência de Samba, McMaster revalidou o título e o troféu de diamante na frente de Karsten Warholm, em Zurique, numa chegada que precisou de recurso ao photo finish.
Antes disso, porém, atenção a duas marcas de McMaster de enorme valor: os 47.60 em Barranquilla e os 47.54 (com a “lebre” Samba) em Paris, um novo recorde pessoal. Veremos o que está reservado para o atleta em 2019, sabendo que, quando chegarem os Mundiais em Setembro, desta feita não deverá ser o grande favorito ao Ouro, o que pode ser bom.
Alguém mais?
Em 2017, as marcas de Samba e Benjamin colocaram-nos nos lugares 8 e 9 das melhores marcas mundiais desse ano. Como tal, é tentador acreditar que algum outro talento pode também despontar em 2018 ou que até podemos ter o ressurgimento de atletas mais experientes. Acontece que as marcas alcançadas durante este ano foram excecionais e é muito pouco provável que se volte a ver tão cedo um ano em que um número tão grande de atletas se supere tanto, em simultâneo e de uma forma tão avassaladora, face ao passado. Nos EUA continuamos a assistir a uma evolução gradual de nomes como TJ Holmes (23 anos) ou Kenneth Selmon (22 anos), mas é arriscado dizer que algum deles irá ter um ano tão dramaticamente diferente e que os coloque na casa dos 47 segundos. Muitas dúvidas existem também à volta do campeão olímpico Kerron Clement (33 anos), que não baixa dos 48 segundos desde essa final do Rio e que parece estar já na curva descendente da carreira.
Na verdade, o único atleta que parece poder entrar em discussões de medalhas é Yasmani Copello. O atleta, que representa a Turquia, já completou os 31 anos e irá chegar a Doha com 32, mas vem dos 3 melhores anos da sua carreira, sendo que em 2018 bateu o seu recorde pessoal, baixando mais uma vez dos 48 segundos e correndo em 47.81 para ser 2º nos Europeus de Berlim. Campeão europeu em 2016, ano em que também foi Bronze no Rio, sendo depois Prata em Londres no ano seguinte, Copello sabe superar-se nos grandes momentos e é sempre um nome a ter em conta.
2019: Nacionais, Diamond League, Mundiais…recorde?
O diferente calendário que teremos em 2019 permitir-nos-á assistir a algo novo em termos de planificação. Existe bastante curiosidade na comunidade atlética para perceber qual a estratégia de cada atleta para o alcance dos picos de forma no(s) momento(s) certo(s). O facto de termos alguns campeonatos nacionais (e Trials) bem mais tarde fará com que, provavelmente, tenhamos inícios de época (ao ar livre) não tão fortes nos primeiros meetings da temporada, em maio e junho. Claro que são apenas suposições, até porque cada atleta terá a sua estratégia e, se Abderrahman Samba, Karsten Warholm ou Kevin McMaster pouco terão de se preocupar com as competições internas, a verdade é que o caso muda para Rai Benjamin. Este enfrentará a dura competição norte-americana nos seus primeiros Campeonatos Nacionais seniores, um novo habitat. A Diamond League terá a sua final dos 400 barreiras a 29 de agosto, existindo um período de 1 mês de intervalo até aos Mundiais, que pode ser preenchido com a presença em alguns meetings de menor dimensão. Será diferente para todos, mas temos a certeza de que cada atleta optará pela melhor estratégia que garanta duas coisas: estar presente em Doha, e apresentar-se lá no seu melhor momento de forma do ano. Abderrahman Samba até tem o incentivo (e responsabilidade) de correr os Mundiais em casa, na primeira vez em que os Campeonatos decorrem na região. O atleta já afirmou que quer o recorde mundial.
Pensar que os 46.98 de Samba estão muito longe dos 46.78 de Young é um erro. O segundo melhor de Young são 47.18 e Moses correu 4 vezes mais rápido do que isso e, no entanto, nunca baixou dos 47 segundos. A regularidade de Samba parece indicar que, num dia perfeito, ele poderá aproximar-se de um recorde mundial ou até ultrapassá-lo, recorde este que parece cada vez mais viver os seus dias finais na posse de Kevin Young. Esse dia perfeito poderá muito bem ser um dia em que, em pista, estejam em simultâneo Samba, Benjamin, Warholm, McMaster e Copello. Poderá muito bem ser já em 2019.
Texto revisto por: Mariana Coelho
Foto de Capa: Diamond League










