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O presente e o futuro: Christian Coleman ou Noah Lyles?

Pedro Pires · 9 min

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A velocidade norte-americana tem uma capacidade única de regeneração. É verdade que a dimensão do país e a possibilidade de escolhas influencia bastante, mas também é verdade que alguns dos técnicos mais conceituados e algumas das técnicas mais inovadoras são utilizadas no país do tio Sam.

No que se refere às distâncias de velocidade mais curtas, os norte-americanos têm nomes como Justin Gatlin (o atual campeão mundial dos 100 metros, hoje com 36 anos), Ronnie Baker (um fabuloso 2018 e ainda com 25 anos), ou Mike Rodgers (de novo abaixo dos 9.9 nos 100 aos 33 anos). As gerações novas também revelam enormes valores e, para se ter uma ideia, no top-10 dos mais rápidos em 2018, seis nomes foram norte-americanos. Nestes não constavam nem Justin Gatlin, nem Trayvon Bromell, uma das maiores promessas norte-americanas, que tem sido bastante fustigada por lesões.

Ainda assim, há dois nomes que neste momento se revelam mais excitantes do que todos os outros: Christian Coleman e Noah Lyles. Qual será a maior referência norte-americana no futuro? Acreditamos que, quando ultrapassarmos este ciclo de 3 anos, a resposta estará bem mais clara. 

Christian Coleman – 2017: líder mundial. 2018: líder mundial e recordista mundial. 2019?

O mundo começou a prestar mais atenção a Christian Coleman em 2017, mas já em 2016 o talento norte-americano dava nas vistas ao correr os 100 metros em 9.95 (+1.7) em Eugene, nas meias-finais dos Trials. Não se apurou para os Jogos do Rio na distância individual porque não foi capaz de voltar a fazer a mesma marca na final, mas fez parte da equipa da Estafeta norte-americana nas eliminatórias.

Coleman domina em ambiente indoor e outdoor
Fonte: Eugene Diamond League

Em 2017, ainda como estudante universitário, acordou o mundo com os 9.82 (+1.3) com que voou para a vitória dos Campeonatos Universitários nos 100 metros, a marca mais rápida desse ano. Terá sido aí o seu pico de forma do ano, numa temporada em que antes mesmo dos Mundiais já somava 48 provas! Para se qualificar para esses mundiais de Londres, voltou a baixar dos 10 segundos, embora tenha sido 2º atrás de Gatlin. Já em Londres era o atleta apontado como o maior rival de Usain Bolt na última prova individual da carreira do atleta jamaicano. Nas meias-finais deu excelentes indicações com os seus 9.97 (+0.4), que pareceram obtidos de forma tranquila, na frente de Bolt. Na final, voltou a bater Bolt ao correr em 9.94 (-0.8), marca, que, no entanto, apenas chegou para a medalha de Prata, atrás do surpreendente Ouro do polémico Justin Gatlin. A chegada à meta foi tão próxima que ninguém no estádio – nem atletas, nem analistas, nem espetadores – conseguiram perceber de imediato quem seria o vencedor, mas, passados alguns segundos, o anúncio de Gatlin chocava o estádio. Coleman, apesar de não alcançar o ambicionado Ouro, marcava território e mostrava-se pronto para os grandes palcos. 

2018 começou já sem o jamaicano Bolt, e muita pressão estava colocada nos ombros de Coleman, apontado por muitos como o sucessor natural do jamaicano. Se em carisma Coleman não parece aproximar-se do poder de atração que Usain Bolt tinha cada vez que entrava em pista, a nível de marcas o ano do norte-americano foi fantástico. Começou com uma temporada indoor sensacional, onde bateu por duas vezes a marca de recorde mundial nos 60 metros. Na primeira vez, logo em janeiro, em Clemson, os 6.37 não viriam nunca a ser homologados para esse efeito, pois as instalações do complexo nem sequer estavam preparadas com os requisitos obrigatórios para que uma marca pudesse ser considerada recorde mundial. Porém, um mês depois, em Albuquerque, Coleman tirou todas as dúvidas e correu em 6.34, a melhor marca de sempre da distância. Mais tarde, iria a Birmingham voltar a brilhar, calando críticos que diziam que ambas as suas marcas anteriores deixavam dúvidas (desde as condições de Clemson à altitude de Albuquerque), correndo de novo em 6.37, um novo recorde de Mundiais de Pista Coberta. 

https://www.youtube.com/watch?v=ISvvvn-Z-QE

Tudo parecia bem encaminhado para uma época de afirmação do norte-americano. No entanto, uma lesão nos isquiotibiais que parecia de fácil tratamento acabou por se revelar difícil de debelar. O atleta começou por falhar o meeting de Xangai da Diamond League (na altura, a justificação oficial foi “por não se sentir nas melhores condições”), estreando-se depois em Eugene, onde viria a ser segundo atrás de Ronnie Baker, correndo em 9.84 (+2.4). Dias depois, o atleta iria a Roma, e os 10.06 (-0.6) com uma chegada à meta quase a passo não deixavam dúvidas de que algo estava mal. Voltou a parar por um mês e regressou em Rabat, onde venceu em 9.98 (-0.4) – e onde Lyles foi terceiro -, mas depois viria a não participar no meeting de Londres ao ter-se lesionado no aquecimento. A mesma lesão. Quase um mês depois, a 18 de agosto, reapareceu em Birmingham em força e venceu em 9.94 (-0.5), mas poucos preveriam o que viria a correr em Bruxelas na final da Diamond League: 9.79 (-0.3), marca mais rápida no mundo desde a final dos Mundiais de Pequim em 2015, e que o coloca como o 7º mais rápido de sempre! Um final de ano em grande depois de um verão tumultuoso para o atleta de 22 anos.

Quanto aos 200 metros, em 2018 – também por ter sido uma época com tantos incidentes – não fez qualquer prova. Até estava previsto participar numa prova com Noah Lyles e Michael Norman que prometia muito… é que pouco falámos durante este texto dos 200 metros de Coleman, mas ele já os correu em 19.85, em Lexington, no ano passado! Aliás, o atleta até tem alguma tradição nos 200 metros, tendo sido o primeiro atleta depois de Justin Gatlin, em 2002, a conquistar, na mesma edição, o título universitário dos 60 e dos 200 em ambiente indoor. Apurou-se inclusive para os 200 metros dos Mundiais de Londres, mas decidiu não participar, concentrando-se só nos 100 devido à elevada sobrecarga de provas nessa temporada.

Coleman continua a ser treinado por Abigi Id-Deen, coordenador técnico da Universidade de North Carolina. 

Noah Lyles – Mais de 2 anos sem perder

Totalmente dominador nos 200 metros
Fonte: IAAF

Noah Lyles fez cinco provas de 200 metros em 2018. Venceu as cinco. Quatro delas venceu abaixo dos 19.70. Só há um atleta na história a ter feito mais do que 3 provas abaixo dos 19.70 numa temporada: Usain Bolt. 

O nome do jamaicano é muitas vezes referido por aqui, e é uma inevitabilidade para os próximos anos, pelo menos. Afinal, foi o atleta mais rápido que o mundo alguma vez viu e elevou bastante a fasquia para as novas gerações. O feito de Noah Lyles, além de demonstrar uma impressionante regularidade e fiabilidade, comprova também que o jovem de 21 anos é muito, muito rápido. Os 19.65 (+0.9) que correu no Mónaco colocam-no como o 8º atleta mais rápido de sempre na distância, e a verdade é que os 19.67 (-0.2) da final da Diamond League, em Zurique, até podem ser mais rápidos se fizermos o ajuste da medição de vento. Esta distância parece ser a preferida de Lyles (até pelas evidentes dificuldades na sua partida), e a verdade é que o norte-americano não perdeu qualquer prova na distância em 2017 ou em 2018.

Ao longo do ano, ainda foi “brincando” nos 100 metros, uma prova que não fazia a sério desde a final dos Mundiais Sub-20 em Bydgoszcz, em 2016, onde se sagrou campeão mundial júnior. Este ano, nos 100 metros, melhorou brutalmente o seu recorde pessoal (que era oficialmente de…10.14, +2.0) – chegou aos 9.88 (+1.1) na final dos Nacionais Norte-Americanos, onde venceu (com uma péssima partida)! É verdade que Lyles ainda não é tão regular nos 100 metros, mas este ano baixou por cinco vezes (legalmente) dos 100 metros, o que nos faz pensar um pouco sobre o que poderá fazer quando melhorar a fase inicial da sua corrida. 

https://www.youtube.com/watch?v=YV5s4svaiDs

Antes da sua chegada ao estrelato, como já referimos, já se sabia que Noah Lyles prometia muito. Além do título mundial júnior dos 100 metros em 2016, nesse ano cheirou a presença nos Jogos do Rio. Foi 4º na final norte-americana dos 200 metros, perdendo a vaga para Ameer Webb. Mais ou menos por essa altura, deu-se uma inesperada mudança nos planos de Noah Lyles (que também tem um irmão atleta de elite, Josephus Lyles): já depois de ter anunciado que iria juntar-se à Universidade da Florida, o atleta mudou de planos e decidiu-se pela imediata profissionalização, assinando um contrato com a Adidas e não fazendo o percurso universitário, algo pouco comum nos EUA e que provocou alguma polémica nas redes sociais. A escolha parece ter sido feliz para Lyles, pois, logo em 2017, foi campeão nacional indoor nos 300 metros e estreou-se na Diamond League, vencendo em Xangai logo em 19.90 (-0.4)! Infelizmente, uma lesão contraída nos Nacionais norte-americanos retirou-o dos Mundiais de Londres, facto que afetou bastante o atleta. Ainda assim, Lyles respondeu da melhor maneira ao regressar na final da Diamond League de 2017, vencendo em 20.00 (+0.9) o meeting de Bruxelas. Depois, veio o 2018 da confirmação. 

Atualmente, Noah Lyles é treinado por Lance Brauman, fazendo parte do grupo da Adidas Pure Athletics, que tem a sua base em Clermont, na Florida. Conta com outros atletas, como Tori Bowie (a campeã mundial dos 100 metros), Shaunae Miller-Uibo (a campeã olímpica dos 400 metros), Tyson Gay (o 2º mais rápido de sempre nos 100 metros), ou Matthew Hudson-Smith (o campeão europeu dos 400 metros). 

As diferenças entre Lyles e Coleman – quem leva vantagem?

Como se percebe, os dois atletas estão numa etapa muito semelhante das suas carreiras. Christian Coleman é um atleta mais explosivo, rapidíssimo a sair dos blocos, com uma fase drive praticamente impecável, caraterística que o torna naturalmente mais habilitado para distâncias mais curtas. 

Noah Lyles nunca irá ser um campeão mundial de 60 metros, e nos 100 metros talvez não venha a atingir os níveis de Coleman, apesar dos bons resultados deste ano. No entanto, aos 200 metros, Lyles é dos atletas que apresenta uma menor desaceleração em pista, parecendo até que vai mais rápido nos metros finais – o que obviamente não é verdade, mas tal é a diferença na desaceleração para os outros atletas que é essa a impressão que dá. De forma fundamentada, será lógico dizer que Christian Coleman poderá dominar nos 100 metros e Noah Lyles nos 200 metros, mas as excelentes marcas que ambos os atletas conseguiram já na distância que não é a preferida dos mesmos torna muito arriscado retirar qualquer cenário da equação. Nos 200 metros, ainda terá de entrar na equação Michael Norman, o especialista de 400 metros, de 21 anos, que também já fez os 200 em 19.84 (-0.6), este ano, quando Lyles voou em Paris. 

Fora das pistas, os atletas também demonstram personalidades totalmente distintas. Se Coleman parece ser um atleta mais tímido e introvertido, Noah Lyles é o completo oposto, sendo conhecido pelas suas entradas e apresentações em prova descontraídas e pelas suas escolhas de indumentária pouco usuais. Mesmo nas redes sociais, consegue-se perceber essa diferença pela forma como Noah Lyles constantemente interage com os seus fãs nas várias redes, em comparação com Coleman que é mais reservado, preferindo publicar pontualmente acontecimentos marcantes da sua vida. 

Haverá ainda uma parte do desporto norte-americano – ligado ao desporto universitário – que prefere Coleman apenas para provar aquilo em que acreditam. Ver Lyles falhar poderia provar que o desporto universitário é essencial para o crescimento dos atletas. Para já, essas previsões alarmistas não estão a ter qualquer resultado e o caminho escolhido por Lyles parece estar a apresentar tão bons resultados quanto o caminho escolhido por Coleman.

Apesar dos diferentes caminhos escolhidos e das óbvias diferenças que os separam, os atletas não parecem levar a sua rivalidade a peito, nem a transportam para fora das pistas, onde ambos são amigos. Há definitivamente espaço para os dois na velocidade norte-americana e mundial. Quem sabe se em outubro não sairão os dois de Doha com muitos motivos para sorrir. 

Para já, até nos prémios competem. Se Christian Coleman esteve nomeado para atleta do ano pela IAAF, Noah Lyles venceu mesmo o prémio de atleta do ano para USATF!

Texto revisto por: Mariana Coelho

Foto de Capa: Brussels Diamond League 

Pedro Pires

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