Publicidade

O significado dos 19.65 metros de Auriol Dongmo | Atletismo

Pedro Pires · 4 min

Foto de capa: World Athletics

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Uma bomba. Um tiro. Uma pedrada. A designação fica ao vosso critério, mas o lançamento da portuguesa Auriol Dongmo no Peso, em Karlsruhe, veio confirmar que ela alterou, por completo, o panorama da disciplina em Portugal. Um recorde nacional já não é uma novidade para a atleta, mas está agora num patamar de elite mundial, com o qual talvez poucos contassem quando cá chegou.

Quem é Auriol? Por onde andava? Como tem evoluído?

Nascida nos Camarões há 30 anos, a atleta chegou a Portugal em 2017. A naturalização chegou em outubro de 2019, mas só em junho de 2020 foi autorizada pela World Athletics a representar Portugal.

Não se pense, no entanto, que foi um daqueles casos de recrutamento, onde os clubes pescam no estrangeiro, importando os atletas. A atleta tinha um convite para treinar em França, no entanto, queria vir para Portugal por ser o país de Nossa Senhora de Fátima (!), da qual é devota. Criou uma página do Facebook e contactou diretamente o Sporting, perguntando se precisavam de lançadoras de peso e assim se fez uma das contratações mais importantes dos últimos anos no clube leonino! Seguiu a recomendação de um amigo que lhe havia sugerido o treinador Paulo Reis e estabeleceu-se em Leiria. Quando chegou, já era a melhor africana, com dois títulos continentais, mas muito longe do que hoje é.

A atleta representa o Sporting nas competições de clubes
Fonte: Sporting CP

Chegou a Portugal com um melhor pessoal de 17.92 metros. Melhorou para 18.37 no Rio de Janeiro em 2017. Igualou a marca no Pombal, em fevereiro do ano passado, no que era um novo melhor pessoal indoor. Mas foi ao ar livre onde voltou a mostrar todo o seu potencial. Os 19 metros chegaram logo em Junho, em Leiria (19.27!) e cresceram para 19.53 metros nos Campeonatos de Portugal, no que é, ainda, o seu melhor (e melhor nacional) ao ar livre.

2021 chegou e Auriol lançou a 19.65 metros, em pista coberta, em Karlsruhe. Para os menos entendidos: um metro e 73 centímetros no Peso fazem uma ENORME diferença. Parece que Paulo Reis sabe extrair o melhor de Auriol, elogiando várias vezes a ética de trabalho e os valores humanos da atleta. Até onde poderão ambos ir?

Foto de capa: World Athletics

Como se compara esta marca com as melhores dos últimos anos em grandes competições?

Talvez seja melhor começarmos por falar das marcas que deram os últimos títulos europeus e mundiais em pista coberta: Radoslava Mavrodieva foi campeã europeia, em Glasgow, há dois anos com 19.12 metros. Anita Marton venceu o título mundial, em Birmingham, há 3 anos, com uma marca de 19.62 metros, na que era a marca líder mundial indoor desse ano. Sim, os 19.65 metros chegariam para o Ouro nos últimos campeonatos europeus e mundiais em pista coberta!

No que diz respeito aos Europeus de Pista Coberta, temos que recuar até 2002 para a marca ser apenas Prata, dando para vencer todas as últimas 8 (!) edições. Já em relação aos Mundiais de pista coberta, o cenário é claro que aperta, pois o leque de adversárias de elite também sobe. Ainda assim, tem que se recuar até 2003 para termos a primeira vez que a atleta falharia o pódio. Assim sendo, esta marca daria para ser medalhada nas últimas 8 (!) edições de Mundiais Indoor, sendo seis vezes o suficiente para a Prata, uma para o Bronze e outra para o Ouro.

Talvez Gong tenha que fazer algo mais para o Ouro em Tóquio…
Fonte: World Athletics

E agora vocês perguntam-se: e ao ar livre? Pois bem, a marca vencedora nos Europeus de Berlim foi 19.33 metros (por Paulina Guba) e nos Mundiais de Doha, Gong Lijiao chegou aos…19.55 metros para o Ouro. Ou seja, 19.65 metros chegariam para o Ouro em todos os mais recentes Campeonatos Europeus e Mundiais, ao ar livre ou em pista coberta!

A marca teria também dado para a Prata nos Mundiais de Londres e, quanto a Europeus, temos que recuar até 1990 (!) para a marca não dar medalha ao ar livre, chegando várias vezes para o Ouro.

Quanto a Jogos Olímpicos, é certo que cheiraria o pódio, mas não entraria nele no Rio. Ainda assim, a marca seria suficiente para um Bronze em Londres, uma Prata em Pequim ou um Ouro em Atenas (depois da desqualificação de resultados de atletas dopados).

O futuro imediato – com Torun já ali e Tóquio não muito distante

É claro que não dá para tirar ilações diretas entre uma marca num meeting e o que pode ser feito numa final de uma grande competição internacional. Há muitos factores em jogo. A pressão, a forma física, a forma dos adversários, condições climatéricas (caso seja ao ar livre), um “dia-não”. Sim, tudo isso pode acontecer. Mas o que sabemos, e bem positivo é, é que o potencial está lá todo. Auriol tem a marca em si e já a fez, sendo um recorde nacional que poderá durar uma eternidade, caso…não seja ela a batê-lo! Há o sonho dos 20 metros…

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Paulo Reis (@pauloreis1972)

A atleta com o seu técnico a festejarem o sucesso por terras alemãs

Os Europeus de Torun em pista coberta são já daqui a um mês. Caso Auriol faça parte da comitiva, deverá partir como uma das favoritas. Sendo, provavelmente, a atleta com a melhor marca do ano a nível europeu ou até mundial. Claro que tudo pode acontecer, mas as expectativas também podem e devem existir, sendo as perspetivas animadoras.

Mais tarde, em Agosto, chegam os Jogos Olímpicos de Tóquio. E, quem sabe, com eles chega uma possibilidade de medalha que ninguém teria nas suas previsões em 2017. É deixá-la lançar e que o Peso voe mais ainda.

Pedro Pires

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.