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Até Tóquio, caro leitor, prepare-se para uma maratona de artigos sobre a competição mais aguardada no mundo eclético do desporto. Este «Sonho do Olimpo» viaja até Seul, onde a bandeira portuguesa subiu ao topo e o hino lusitano tocou para milhões de pessoas. Uma corrida ao ouro, que acabou – à semelhança dos jogos de 1984 – por ser conquistada no asfalto, desta feita, em terreno sul coreano. Rosa Mota foi a salvadora da pátria, fez história no mundo feminino do desporto português, e hasteou bem alto a bandeira de Portugal.
Neste artigo fazemos ainda uma viagem até ao processo de candidatura da cidade de Seul, abordamos os aspetos económicos, as «famosas» controvérsias, os boicotes e ainda sublinhamos uma tragédia que marcou o projeto olímpico da Coreia do Sul.
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Foto de capa: FPA
ECONOMIA, CONTROVÉRSIA E TRAGÉDIA – O PROCESSO DE CANDIDATURA
#TbtEsportivo de hoje volta no tempo, mais precisamente para 17 de setembro de 1988, data de abertura dos Jogos Olímpicos de Seul, que contou a participação recorde de 159 países e 8.391 atletas!
⠀#OEsporteNosUne #JogosOlimpicos #Seul1988 #Olimpiadas #TBT #MomentosdoEsporte pic.twitter.com/pUIU0K9Rk6— Jornalismo Esporte Clube (@JorEsporteClube) September 18, 2020
Falar de Jogos Olímpicos é também abordar o processo até à preparação da competição. Isto é, a candidatura, os porquês, o interesse, entre outros fatores que um país organizador deve ter em conta antes de apresentar a sua posição de candidato. A Coreia do Sul não vivia tempos fáceis nos anos 80, sendo que, era imperativo um ‘fator X’ que catalisasse as contas coreanas, ou seja, o PIB (Produto Interno Bruto).
Sim, caro leitor, nem sempre se fala em paixão no desporto, ou de momentos épicos, de recordes, etc…Não obstante, curioso ou não, foi a paixão que fez com que Seul fosse o palco dos Jogos de 1988. E com esta afirmação deixo o repto, como se processou a candidatura dos sul coreanos?
Pois bem, a candidatura de Seul motivou-se, desde já, por vários motivos. Ora, depois do sucesso dos Jogos de Tóquio (1964), a Coreia do Sul assistia com bons olhos uma possível organização da competição, com vista a tentar impulsionar o país na esfera global, com o desenvolvimento de novas infraestruturas, e com a obtenção de patrocínios que abatessem o investimento efetuado. Em acréscimo, o sucesso desportivo nos mundiais das mais diversas modalidades poucos anos prévios às olímpiadas (Campeonato Mundial do tiro em 1978, e do Basquetebol feminino em 1979), em conjunto com o crescimento global do desporto no país, acabou por ser motivos suficientes para os sul coreanos acreditarem (ou sonharem) com várias subidas ao pódio em 1988.
Com isto, retomamos o aspeto económico, que se tornou – nos tempos que correm – algo indissociável no mundo do desporto, ao passo que, todos os dias temos cada vez mais exemplos para nos elucidar disso mesmo (ainda nos está bem fresquinho na memória a SuperLiga caro leitor). Por vezes, contudo, não tem que significar a ganância do exemplo anterior, na medida em que o país asiático utilizou da melhor maneira a «plataforma» Jogos Olímpicos de modo a alavancar o país, não só em termos financeiros, como também desportivos.
Economia, desporto…Ah e controvérsia!
Em Seul, a Coreia do Norte quis sediar algumas provas da competição que aconteceria em seu homónimo capitalista (Coreia do Sul). Contudo, a ideia dos socialistas foi refutada pelos sul-coreanos e também pelo Comité Olímpico Internacional. Resultado: boicote. Os norte-coreanos não ficaram agradados com a decisão e decidiram boicotar os Jogos em protesto, ao passo que foram acompanhados por Cuba, Nicarágua, Etiópia, Madagascar e Ilhas Seychelles nesta decisão.
De sublinhar, no entanto, (já que falamos de boicotes) que houve um aspeto muito positivo nestes Jogos Olímpicos, uma vez que não houve – pela primeira vez desde 1976 – nenhum boicote das «potências» E.U.A, URSS ou República Federal Alemã.
Mas, depois da controvérsia…eis a tragédia.
#OTD Oct. 26th, We honor to remember the President Park Chung-hee who passed away 41yrs ago. President Park has settled & implemented the foundings of industrial revolution for S.Korea and strengthened the ROK-US alliance. #neverforget pic.twitter.com/W27MWtNjwZ
— Dong Yon Kim/김동연 기자 (@dongyonews) October 27, 2020
O assassinato do presidente da república Park Chung-hee, apenas dezoito dias após o lançamento da candidatura forçou os sul coreanos a repensar a ideia dos Jogos Olímpicos. Ainda assim, o ceticismo não comprometeu o projeto, e em dezembro de 1980 Seul foi confirmada como cidade candidata, ao lado de Melbourne, Atenas, e Nagoya. Melbourne e Atenas, porém, retiraram as suas candidaturas ainda no início do processo. Ou seja, a batalha para conquistar o direito a ser o ‘palco’ dos Jogos de 1988 foi entre Seul e Nagoya.
Seul estava tormentado, ainda para mais, com questões de discrepâncias entre as análises iniciais e o relatório enviado ao COI, principalmente na questão financeira. Apesar disso, o ministro da educação sul coreano – uma das principais vozes da candidatura – adotou uma posição firme, e afirmou que a retirada de Seul acabaria com a reputação da Coreia do Sul no cenário internacional.
A conjuntura política/económica da Coreia do Sul era, deste modo, vista como um ponto negativo na candidatura, favorecendo a adversária Nagoya (Japão), porém, o governo sul coreano confiava em dois aspetos chave: o projeto desportivo aliciante e a forte possibilidade de desenvolvimento do país.
Por fim, a tão desejada decisão. Através de uma campanha de persuasão fantástica promovida pela delegação sul coreana aos membros do COI, Antonio Samaranch – presidente da COI – declarou a vitória à cidade de Seul. De ressalvar a desilusão japonesa, que apresentou um projeto e uma ideia «fria», pouco convicente e demasiado confiante.
Assim sendo, é caso para dizer que o projeto apaixonante sul coreano destronou o candidato desalmado japonês.
A SALVADORA DA PÁTRIA
Rosa Mota, portuense de gema, viajou até Seul e susteve nas costas o peso da nação conseguindo o tão desejado ouro, sendo que, em adição, a portuguesa tornou-se a primeira mulher lusa a conquistar uma medalha de ouro numa prova olímpica.
Depois de «banhada» em bronze», e do bom prenúncio deixado em Los Angeles nos jogos de 1984, a expectativa era imensa para os Jogos de Seul, e Rosa Mota não deixou Portugal ficar mal. A comitiva de atletismo, que curiosamente até vivia tempos auspiciosos: Carlos Lopes, em Los Angeles, já havia conseguido o ouro. Quatro ano depois, Rosa Mota repetiu o feito, desta feita, no lado feminino.

Fonte: COP
Ainda assim, nem tudo foi bom (ou bonito) até à maratona de Seul. Os desagrados entre Rosa Mota, José Pedrosa e a Federação Portuguesa de Atletismo, nomeadamente com Fernando Mota, na altura diretor técnico nacional, acabaram por ficar muito famosos…E com isto, a presença nos Jogos Olímpicos de Seul chegou a estar em perigo, o que obrigou mesmo à intervenção do ministro da Educação – Roberto Carneiro.
A origem do problema esteve na ausência de Mota no Mundial de 15 Km em estrada, uma vez que a atleta e o seu treinador entenderam que seria negativo participar na competição dois meses depois da maratona do Mundial de Roma’87 (que ganhou) e em época de Jogos Olímpicos. A Federação não concordou com a decisão e acabou por suspender a atleta. Apesar disso, os problemas não inflacionaram o desempenho da atleta, que acabou por fazer uma feitura para nunca esquecer em Seul.
Reveja aqui a corrida histórica de Rosa Mota
Voltemos ao ponto central do artigo. Foi uma super Rosa Mota – na defesa dos seus títulos de campeã europeia e mundial – que não deixou escapar o ouro para ‘pernas alheias’. Com este resultado histórico, a portuense transformou-se então na primeira portuguesa a ganhar um título olímpico, que reforçou (e de que maneira) o estatuto épico desta vitória.
Rosa Mota, como referido, chegou aos Jogos Olímpicos de Seul com uma enorme pressão, já que as vitórias portentosas que havia conseguido nos Europeus e Mundiais anteriores levavam a crer que o único resultado desejável seria o Ouro. E assim concretizou-se. O esforço da atleta foi recompensado, e de relembrar, Mota ultrapassou a temível Katrin Doerre, que somava 13 vitórias em 16 competições na altura da competição.
Uma corrida histórica que ficou marcada no quilómetro 38. Foi uma luta até ao fim, com as principais favoritas na maratona a correrem ao lado da portuguesa, mas…eis que aparece o momento do golpe final: no quilómetro 38 a portuguesa isolou-se e conseguiu uma subida ao topo, que ficará para sempre marcada na história dos Jogos Olímpicos, e principalmente, na história do atletismo feminino.
É caso para dizer que Rosa Mota foi verdadeiramente a «salvadora da pátria», numa prova olímpica que apenas deixa saudades pela prestação incrível da atleta portuguesa.
A MODALIDADE: TÉNIS
Congrats to Andy Murray (GOLD), Roger Federer (SILVER) & Juan Martin Del Potro (BRONZE). Huge Olympic achievements! pic.twitter.com/HQ2lO7yA
— Roger Federer News (@FedererNews) August 5, 2012
Das batidas cardíacas, vamos para as batidas na raquete, e do asfalto, «corremos» para o court. Assim fazemos a transição para uma das modalidades mais visionadas por todo o mundo, que também escreveu história em Seul.
O ténis, antes de mais, como a maioria das modalidades, sofreu inúmeras mutações até chegar ao estado atual. Começou no Egipto – sem raquetes e apenas com o uso de mãos de forma a praticar a modalidade – e mais tarde, na Europa do Sul, em Itália e França, a versão mais semelhante à moderna apareceu. Depois, foi em Inglaterra que a modalidade ganhou vida, com a criação de Wimbledon em 1877 – o torneio mais prestigiado do mundo.
Tennis Fun Facts: John Pius Boland became the 1st person to win Olympic Gold in tennis (in 1896) after randomly being signed up for singles by his friend on the Olympic organizing committee. #tennis #fact pic.twitter.com/8hghj65RdI
— Caribbean Cup Tennis Series (@Caribbcuptennis) February 4, 2018
Foi, contudo, nas Olimpíadas de 1986 que o ténis se mostrou ao mundo. Na cidade de Atenas escreveu-se um capítulo de uma história no mínimo muito curiosa…com um campeão inesperado.
Só para terem uma ideia, John Pius Boland viajou para a Grécia como um mero espectador, e lá ele acabou por conhecer o grego Dionysios Kasdaglis, que o convenceu a se inscrever no torneio de ténis. Boland aceitou o convite e, surpreendentemente, chegou à final precisamente…contra Kasdaglis! Boland venceu por 2-0 (6-2 e 6-2) e conquistou o primeiro ouro da história dos Jogos na modalidade, catapultando o ditado «amigos, amigos…negócios à parte», para outra dimensão.
Deixemos a história (longínqua) para outra ocasião e foquemos em Seul. Ora, nestes Jogos de 1988 o ténis – após 64 anos “à deriva” – voltou a ser confirmado como modalidade olímpica, o que impulsionou a modalidade para feitos épicos.
01/10/1988 – Há 32 anos, Steffi Graf 🇩🇪 se tornou a primeira e única tenista da história em ambos os gêneros a conquistar o Golden Grand Slam, que é ganhar os 4 Slams + Ouro Olímpico no mesmo ano ao vencer @sabatinigabyok na final feminina em Seul 🇰🇷 pic.twitter.com/kI9cIORD2s
— Surto Olímpico (@SurtoOlimpico) October 1, 2020
O exemplo surgiu logo nessa época, ao passo que, de apenas 19 anos de idade, a alemã Steffi Graf – número um do mundo – atingiu um feito até hoje inédito na história do ténis. Em 1988, Graf chegou às Olimpíadas de Seul como campeã dos quatro mais importantes torneios singulares da época: o Grand Slam de Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open. Para completar o ano perfeito, faltava um…e conseguiu mesmo! A então jovem atleta arrecadou o ouro e conseguiu a melhor temporada individual que há memória!
A partir dos Jogos de Sydney em 2000, o ténis olímpico passou por uma alteração fundamental. O torneio começou a contar pontos para o ranking ATP atraindo os principais nomes da modalidade, que antes descartavam as Olimpíadas para priorizar a preparação para outros torneios.
Nas últimas três edições, os tenistas consagrados entre os melhores do mundo conquistaram o ouro olímpico, entre os quais o espanhol Rafael Nadal, em Pequim (2008) e o britânico Andy Murray, que glorificou-se como bicampeão, subindo ao topo do pódio em Londres (2012) e depois no Rio de Janeiro (2016).
Faltam pouco mais de três meses para o princípio dos Jogos Olímpicos na cidade de Tóquio, mas como referido no início do artigo – e à semelhança do que Rosa Mota fez – ainda lhe falta uma maratona para concluir o nosso «Sonho do Olimpo», onde relembramos a história dos Jogos Olímpicos. Dito isto, a nossa caminhada ainda não vai a meio, portanto, «Não perca o próximo artigo, porque nós também não!».













