Publicidade

Uma “pacata” manhã de domingo: 4 recordes mundiais sob ameaça

Pedro Pires · 10 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

A manhã de domingo promete ser um belo presente para todos os amantes das provas de estrada. A maioria dos olhos estarão postos na Maratona de Berlim, uma das mais importantes a nível mundial e local onde foram batidos todos os últimos 6 recordes da Maratona masculina. Já na prova feminina, se é verdade que os últimos 5 recordes não foram batidos em Berlim, a estreia de Tirunesh Dibaba no percurso faz-nos crer que algo de grande poderá acontecer e pelo menos o recorde de provas exclusivamente femininas poderá estar em risco de cair. Mas no mesmo dia não podemos deixar de prestar atenção à Meia-Maratona de Copenhaga, onde estarão presentes alguns dos principais nomes da distância à procura da glória da melhor marca da história e onde também poderemos ver interessantes experiências de atletas mais habituados à pista. 

Maratona de Berlim

Prova Masculina: A presença de Eliud Kipchoge, seja onde for, é por si só motivo de especial atenção para qualquer amante da modalidade. Kipchoge correu 10 Maratonas na sua carreira. Venceu 9. Precisará de bater o recorde mundial em alguma fase da sua carreira para ser considerado o melhor de sempre? É sempre algo difícil de responder, mas caso o faça dissipará por completo quaisquer dúvidas que possam existir. A única vez que o queniano não venceu, foi no seu ano de estreia na distância, em 2013, aqui mesmo em Berlim, onde foi segundo com um tempo de 2:04.05. Depois disso, já venceu na capital germânica por duas vezes e este ano irá a Berlim com a clara intenção de bater o recorde mundial pela primeira vez na sua carreira, ele que tem o tempo mais rápido feito por um homem na distância, embora numa prova que não cumpria com todos os requisitos para a marca ser considerada recorde mundial (a célebre “Breaking2” da Nike). 

Será que o recorde mundial estará mesmo em risco em Berlim ou é apenas conversa para elevar o hype? Acreditamos que domingo Kipchoge pode ter uma das melhores oportunidades até ao momento para que tal aconteça. Para se bater um recorde mundial é necessário que tudo bata certo, ou como se costuma dizer, que todos os astros se alinhem de forma perfeita naquele preciso momento. Kipchoge sente-se bem, está em forma e há 3 anos que persegue o sonho.

Kipchoge é uma estrela no Quénia, mas mantém a humildade de sempre
Fonte: Spikes IAAF

As condições previstas para Berlim permitem sonhar com a possibilidade de recorde mundial: estão previstas temperaturas entre 13º e 19º à hora da prova, sem chuva, com pouco vento, com o sol por vezes a aparecer e Kipchoge não se tem cansado de publicar nas redes sociais referências à obtenção da melhor marca da história. O recorde pessoal do atleta (2:03:05) está a apenas 8 segundos do recorde mundial de Dennis Kimeto (KEN) e Kipchoge assume que vai a Berlim apontando para passagens abaixo do seu melhor pessoal. Não é difícil fazer as contas. 

No que diz respeito à vitória, a competição não parece demasiado apertada para Eliud. Não nos interpretem mal: há muita qualidade entre os inscritos. Acontece que ninguém está, no momento, no patamar do atleta que procura bater o recorde mundial. Falando em recorde mundial, presente estará Wilson Kipsang, o anterior recordista mundial (2:03:23), vencedor aqui em Berlim em 2013. Um homem que desde 2010 correu sempre, pelo menos uma vez em cada ano, abaixo dos 2:05. Não este ano. Em 2018, Kipsang – que tem 3 das 10 melhores marcas de sempre – não terminou em Tóquio e depois venceu em Tokushima com um tempo de 2:19:35. É uma incógnita como se apresentará em Berlim, mas o seu último grande tempo data de Fevereiro de 2017, pelo que não aconselharíamos alguém a colocar as suas fichas nele, apesar de ser um dos maiores nomes da distância de 42.195 km. Em prova estarão ainda mais 2 quenianos e 1 etíope com melhores pessoais na casa dos 2:05: Eliud Kiptanui, Amos Kipruto e Abera Kuma que procurarão “andar” com o grupo de “pacemakers” da frente da prova. Em Berlim, também estará presente o recordista mundial da Meia-Maratona. Zersenay Tadese, da Eritreia, afirmou que espera alcançar um novo recorde pessoal nesta distância (o seu melhor é 2:10:41). Nenhum atleta parece no momento uma ameaça a Kipchoge, mas é uma Maratona e já vimos coisas mais surpreendentes. 

Prova Feminina: É verdade que a prova no feminino já não vê um recorde cair desde 2001 e a partir daí a distância feminina já teve cinco tempos mais rápidos, mas há razões para pensar que este ano poderemos ver algo especial. Não, Mary Keitany não estará aqui. A queniana que é o grande nome da atualidade e que é a detentora do recorde mundial em Maratonas exclusivamente femininas, tentou em Londres o recorde absoluto obtido por Paula Radcliffe numa prova mista (2:15:25), mas cedeu às difíceis condições climatéricas desse dia na capital inglesa aliadas ao forte ritmo que ela própria quis impor na frente, derrotando Dibaba, mas também derrotando-se a ela própria. No entanto, aqui estará Tirunesh Dibaba, ela que fará apenas a 5ª maratona da sua carreira, mas que já é a 3ª mais rápida de sempre na distância, depois de uma carreira em pista onde foi uma das mais bem-sucedidas atletas de toda a história do Atletismo. Quiçá, a mais. Este ano fará a sua estreia em Berlim e, sabendo que é uma prova e um percurso habitualmente rápido, existem bons motivos para acreditar que Dibaba irá, pelo menos, atacar o recorde mundial de provas exclusivamente femininas de Keitany (2:17.01), procurando apagar a imagem da derrota de Londres.

A família Dibaba é uma das mais bem-sucedidas da história do desporto
Fonte: London Marathon

Não se pense ainda assim que a atleta etíope terá a tarefa facilitada. Existem mais etíopes e quenianas que podem entrar na luta e serão ossos duros de roer para Dibaba. Do lado queniano, a experiente Gladys Cherono já venceu por aqui duas vezes e vem à procura de defender o titulo conquistado na temporada passada. E como as coisas mudam: ainda há 5 anos, vimos Cherono com uma Prata em pista, nos 10.000 metros dos Mundiais de Moscovo, em mais um Ouro de…Dibaba! 

Edna Kiplagat é outro “tubarão” vindo do Quénia, que, apesar dos seus 38 anos, continua a mostrar uma grande vitalidade quando entra em prova. Foi por duas vezes campeã mundial e ainda no ano passado em Londres foi medalhada de Prata nos Mundiais. Este ano ainda não apresenta resultados de relevo na Maratona, mas ainda no ano passado, além da Prata de Londres, venceu em Boston. Do lado etíope, a muito experiente Asselefech Mergia alcançou o seu recorde pessoal há 8 anos e dificilmente se intrometerá na luta pelo primeiro lugar, mas ainda no ano passado provou que é um osso duro de roer, com o terceiro lugar na Maratona de Londres. Por fim, falar da jovem de 24 anos, Ruti Aga. A etíope correu aqui no ano passado, de forma surpreendente, em 2:20:41, seu recorde pessoal (para o segundo lugar) e este ano já o fez em 2:21:19 para outro segundo posto, desta feita em Tóquio. Sabe o que é correr rápido por aqui e não surpreenderia absolutamente nada que baixasse pela primeira vez dos 2:20. Se o nome vos diz algo, não é de admirar: ela venceu a Meia-Maratona de Lisboa há dois anos!

Portugueses em Berlim: Destaque para a presença nos inscritos de 3 atletas portuguesas no quadro de elite: Carla Salomé Rocha, Catarina Ribeiro e Inês Monteiro constam da lista de inscritos (os nomes não estão é muito bem escritos…), naquela que será a primeira Maratona do ano para as 3 atletas. Salomé Rocha irá fazer a primeira Maratona de 2018, depois da fantástica estreia em Praga, no ano passado, com 2:27:08, passando imediatamente a oitava nacional de sempre. Catarina Ribeiro voltará a repetir a presença em Berlim, depois de no ano passado ter sido 9ª com um tempo de 2:33:13. Já Inês Monteiro, voltará a fazer uma Maratona, mais de 10 anos depois! Desejamos boa sorte às atletas portuguesas pela capital germânica, com a certeza que terão boas condições para trazer bons resultados. 

Meia-Maratona de Copenhaga 

Também na manhã de domingo, o percurso de 21.1 km fará as delícias dos amantes do desporto. Em Copenhaga, estão prometidas duas provas muito rápidas e com o aliciante de vermos nomes muito conhecidos do Atletismo de pista a testarem-se na distância. 

Prova Masculina: Nesta prova, há a destacar a presença de 11 homens que já correram abaixo de uma hora (de acordo com a última lista divulgada – eram ainda mais previamente). O grande favorito será Abraham Cheroben (BRN), que assumiu uma quota ainda maior de favoritismo depois da desistência de Eric Kiptanui (KEN). Cheroben é o 3º atleta mais rápido de sempre na distância e já venceu na capital dinamarquesa no ano passado, pelo que se espera que volte a correr rápido, assumindo ir à procura de baixar o seu melhor tempo. E se tivermos em conta que correu aqui o seu melhor pessoal em 58:40 e que o recorde mundial de Tadese é de 58:23…fica fácil de perceber porque é que este poderá ser outro recorde em risco de cair na manhã louca de domingo.

Cheroben já venceu em Copenhaga em 2017
Fonte: Copenhagen Half Marathon

Este ano, Cheroben concluiu duas provas na distância com dois segundos lugares (incluindo o Mundial de Meia-Maratona em Valência), pelo que procurará aqui a sua primeira vitória do ano e o seu primeiro tempo abaixo da hora. 

Jorum Okombo (KEN), segundo classificado do ano passado, voltará a estar presente e é ele talvez a maior ameaça a Cheroben, sendo já o oitavo mais rápido de sempre. Okombo tem, agora, apenas 20 anos e no ano passado, seu ano de estreia na Meia-Maratona, correu em 58:48, pelo que muito se espera dele. Atenção também ao etíope Jemal Mekonnen, que foi 4º no Mundial de Valência e no ano passado 5º nos 10.000 metros dos Mundiais de Londres! A sonhar igualmente estará Mang’ata Ndiwa (KEN), que se estreou este ano na Meia-Maratona (em Stresa) e correndo…logo em 59.07!

Referir ainda a muita curiosidade que temos para ver a estreia de Yomif Kejelcha na Meia-Maratona, o etíope de 21 anos que tem brilhado em pista (duplo campeão mundial de pista coberta nos 3.000, com importantes vitórias na Diamond League, anteriormente campeão mundial júnior e juvenil) e que faz parte do Nike Oregon Project, encabeçado por Alberto Salazar. 

Prova Feminina: No quadro feminino, também não nos podemos queixar da presença de nomes grandes, apesar da saída de cena de Gudeta (ETH) a poucos dias da prova. A queniana Joan Chelimo Melly, aos 27 anos, já apresenta um currículo que fala por si. Venceu em cidades como Berlim, Boston ou Praga e nessa última, em Abril deste ano, coreu em 1:05:04, um tempo que a coloca como a 4ª mais rápida de toda a história e a 13 segundos do recorde de Jepkosgei (KEN). Não se sabe o que poderá fazer na sua primeira prova desde Abril, mas a atleta admitiu querer o recorde mundial, num local onde foi 2ª na temporada passada.

Chelimo assume que quer o recorde
Fonte: Copenhagen Half Marathon

Para fazer concorrência a Chelimo, teremos, claro, mais quenianas e etíopes. A queniana Ruth Chepngetich ainda não encontrou na Meia-Maratona a forma que demonstrou nos primeiros meses de 2017, altura em que correu o seu melhor (1:06:19) para vencer em Istambul. Ainda assim, apesar de desiludir no Mundial de Valência, depois foi a Paris correr uma Maratona na casa dos 2:22, mostrando que “a” prova pode aparecer a qualquer momento. Mais experiente e acostumada a estas andanças está a sua compatriota Mary Wacera, 2ª classificada no Mundial de Copenhaga em 2014 e 3ª em Cardiff em 2016. No ano passado vimo-la em Lisboa (foi 3ª) e este ano foi também 3ª em Houston, mas já na casa de 1:06. Por parte da Etiópia, estará uma velha conhecida da pista, Meskerem Assefa, que fará a sua primeira Meia do ano, depois de ter batido o seu recorde pessoal em Março no dobro da distância em Nagoya, quando foi 1ª com uma grande marca de 2:21:45. Merece ainda ser referida Ababel Yeshaneh, que este ano já bateu os seus recordes pessoais nos 10 km (31:26) e na Meia-Maratona (1:06.22), aí com a vitória em Istambul, pelo que chegará a Copenhaga com elevadas expetativas. 

Por fim, falar da curiosidade de podermos ver em prova…Sifan Hassan! A holandesa – campeã europeia e recordista europeia dos 5.000 metros – já correu uma Meia em 2011, quando tinha apenas 18 anos. Agora regressa à distância para fazer uma experiência, uma vez que a atleta pondera a hipótese de “esticar-se” para os 10.000 metros nos próximos anos. Mais uma atleta de Alberto Salazar no projecto de Oregon. 

Quando, Onde? 

8h15: Maratona de Berlim

Onde: Sem transmissão oficial para Portugal confirmada (lista atualizada aqui: https://www.bmw-berlin-marathon.com/en/news-and-media/live-streams.html) 

10h15: Meia-Maratona de Copenhaga

Onde: https://cphhalf.dk/en/cphhalf-live/

A icónica prova de Berlim
Fonte: Berlin Marathon

Foto de Capa: Nike

Pedro Pires

Redação Bola na Rede · ver artigos