Publicidade

A história dos pelicanos e da gaivota que os ensinou a voar

Gustavo Carvalho · 3 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

De dois dos melhores postes do mundo tanto mulheres como homens comuns esperarão um fio elétrico, já o adepto de basquete ansiará por jogos mais físicos, que os transportem para os anos de Shaq, Hakeem Olajuwon, Kareem Abdul-Jabbar, Wilt Chamberlain, ou mesmo Bill Russell, (para os mais leigos: poste, para além de ser aquela coisa com que chocam na rua quando andam desatentos, é uma das posições do basquetebol. É ocupada, habitualmente, pelos jogadores mais altos e fortes, visto que se responsabilizam pela zona mais próxima do cesto).

Contudo, os New Orleans Pelicans, como disfuncional franchise que são, decidiram tomar partido de Vlade Divac, o disfuncional GM dos Sacramento Kings, e trocaram umas sandes mistas por uma superestrela. Assim, os Pelicans juntaram um dos melhores postes da liga – DeMarcus Cousins – a um dos melhores postes da liga – Anthony Davis.

Davis foi o primeiro da sua turma de Draft a ser selecionado, calhou ser pela sua ainda atual equipa. Só conta com 5 anos de NBA, e a cada ano que passa melhora, tanto no jogo ofensivo – melhorou o seu quase inexistente lançamento triplo – como no defensivo – é um dos que ganha mais ressaltos e que bloqueia mais lançamentos. Alia o seu imponente físico a uma boa mobilidade e empenho. Foi, e continuará a ser, um processo de evolução extraordinário.

Mas nem tudo tem sido áureo: apenas conseguiu aceder aos playoffs em 2015, sendo eliminado na primeira ronda pelos Warriors e sem conseguir qualquer vitória. Apesar da boa prestação de Davis e da equipa, ultrapassar a equipa que se sagraria campeã não estava ao alcance de ninguém.

Da loucura dos Sacramento Kings veio Cousins, numa jogada imprevisível e, acima de tudo, inexplicável. Cada equipa parecia seguir o seu rumo, mas ambos eram desaconselháveis. Cousins estava farto dos Kings. Não falavam a mesma linguagem, portanto, uma mudança era obrigatória, só que nunca para uma equipa onde o seu “lugar” já estava ocupado.

Em homenagem ao seu colega de equipa, Anthony Davis usou a camisola de Cousins no jogo All-Star deste ano, que este falhou devido à lesão
Fonte: Twitter Oficial DeMarcus Cousins

Os Pelicans decidiram que era hora para desafiar a lógica do sistema de jogo implementado na NBA. Queriam-se (e querem-se) jogadores versáteis e móveis defensivamente, que consigam defender várias posições, e no ataque todos têm de saber lançar para se criar um espaçamento e, consequentemente, abrir brechas na defesa, obrigando os opositores a cobrir a linha de três pontos. Os Pelicans apostaram no contrário: atafulhar o garrafão, obrigar os defensores a ajudar no interior e, por vezes, colocar a bola no jogador que ficou livre para o triplo, mas para isto é preciso ter bons lançadores de triplos!

Desta forma, nasceu uma cordilheira de postes, no Louisiana, que promete prolongar a lendária linhagem de postes que a NBA nos ofereceu. Após meio ano de adaptação, Cousins e Davis começaram a jogar em uníssono. E foi aí que aconteceu a lesão de Cousins, que não volta mais esta temporada. Os Pelicans, apesar de inconsistentes, mostraram o suficiente para serem competitivos nos playoffs do duro Oeste. Portanto, lesão de Cousins, decadência dos Pelicans, certo? Surpreendentemente, não.

Estamos a assistir a um Renascimento do jogo de poste, já dado como morto. Davis leva a equipa às costas: contam com nove vitórias consecutivas e ocupam o quarto lugar na respetiva conferência. Quando esta sequência atingiu os sete triunfos, Anthony Davis tinha médias de, aproximadamente, 39 pontos, 15 ressaltos, 3 roubos de bola e 3 blocos, por jogo! Isto com uma eficiência de 53,5% em lançamentos. Iniciou-se automaticamente o debate sobre a candidatura de Davis a MVP (Most Valuable Player).

Numa altura em que mandar a toalha ao chão teria sido o mais fácil, os Pels comprovam que a comunicação não tem de continuar a ser um erro sistemático. Claro que a sorte de poder contar com um talento desta envergadura tem de ser considerada. O seu sistema de jogo nem ajuda: o jogador em questão é que é demasiado bom. Aliás, os alicerces da equipa não têm betão, mas não é a primeira vez na NBA que se fazem omeletes sem ovos.

Anthony Davis, conhecido como “The Brow” pelas suas sobrancelhas em forma de “gaivota”, foi eleito jogador do mês de fevereiro da conferência Oeste
Fonte: NBA

Davis continua (e continuará) a demarcar-se dos restantes. Eleva o nome da sua equipa ao dar provas que ser pelicano não é ser pato, rumando ao estatuto de lenda num franchise pouco amado.

Quando equiparam de azul pela Universidade de Kentucky, Davis e Cousins ampliaram o legado que ainda prossegue entre os jogadores que ocupam a mesma posição na mesma Universidade. Já se vê o voo da gaivota, espero que os pelicanos acompanhem.

Foto de Capa: NBA

Gustavo Carvalho

Redação Bola na Rede · ver artigos