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Queda para o patamar inferior

Mário Silva · 5 min

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Cabeçalho modalidadesA selecção nacional sénior masculina não conseguiu garantir um lugar na Fase de Qualificação para o Mundial de 2019 (participam 32 selecções europeias e apuram-se 12 para o Mundial de Pequim).  No confronto directo com a Bulgária e a Bielorrússia ganhámos apenas um jogo em seis disputados. Isto é, ficámos em terceiro… num grupo de três. De fora da segunda fase ficaram apenas Portugal, Arménia, Eslováquia, Albânia e Macedónia.

A presença nacional foi modesta, mas não surpreende se levarmos em linha de conta o panorama da modalidade e os resultados dos jogos de preparação: ganhámos apenas dois jogos (Roménia e Tunísia) e perdemos cinco (Holanda, Tunísia, Bósnia, Estónia e Macedónia).

A análise superficial dos dados estatísticos da fase pré-qualificativa mostra claramente que, na actualidade, temos muitas dificuldades no ataque: marcamos poucos pontos (média de 74), lançamos mal ao cesto (37,5 % é o total de lançamentos em campo), temos dificuldades no jogo interior (43,4 % de lançamento duplos) e fomos os piores da prova nos triplos (27,7 %). Se juntarmos ainda a debilidade na conquista de ressaltos é fácil entender o porquê de tantas derrotas.

Fonte: FPB
A seleção que participou no Eurobasket de 2007
Fonte: FPB

Na actualidade, não temos jogadores com qualidade suficiente para obter grandes resultados; apenas o naturalizado João Gomes (joga em Itália no Aquila Basket Trento) consegue competir com eficácia ao nível mais elevado. Lesionado, não participou – e bem falta fez.

Em 2007 Portugal regressou após 56 anos de ausência a uma Fase Final do Campeonato Europa. Comandados por Valentyn Melnychuk, conseguimos o histórico nono lugar em Espanha.

Dos 12 elementos da equipa (que bem merecem uma festa de homenagem) ainda jogam e bem: Elvis Évora, Paulo Cunha, Jorge Miguel Coelho, Miguel Miranda, Mário Fernandes, João Gomes (Betinho) e Miguel Minhava. Se levarmos ainda em conta que Nuno Marçal, pese o facto de já ter 42 anos, continua a ser, justamente, o MVP da prova, fica claro que a renovação com qualidade não foi conseguida por Moncho Lopez (27% de vitórias em 51 jogos, 14 vitórias e 37 derrotas), Mário Palma (31% de vitórias em 89 jogos, 28 vitórias, 59 derrotas e um empate), e encontra grandes dificuldades com Mário Gomes (30% de vitórias em 10 jogos, três vitórias e sete derrotas).

Mais naturalizações de jogadores não resolvem o problema de fundo (os norte americanos Jeremiah Wilson e Raven Barber são candidatos num futuro próximo à única vaga de naturalizado).

Com os Europeus a serem disputados de quatro em quatro anos e intercalados com o Mundial, se não arrepiamos rapidamente caminho coremos o risco de jogar frequentemente nas denominadas fases de pré-qualificação com adversários sem expressão na modalidade.

Segue-se em Novembro nova fase de pré-qualificação, desta feita para o Europeu de 2021, tendo pela frente Chipre e Luxemburgo, numa prova onde o mais difícil é mesmo não ficar apurado, não só pela fraca valia dos opositores mas também porque a maioria segue para a fase qualificativa (cinco em nove).

Já temos gigantes

Os resultados obtidos pelas selecções masculinas mais jovens também não permitem grande optimismo e levantam várias questões a necessitarem de resposta adequada.

Continuamos a não conseguir em nenhum escalão sair do Grupo B:

Sub-20 (24.º lugar, oito jogos, quatro vitórias)

Sub-18 (27.º lugar, oito jogos, cinco vitórias)

Sub-16 (32.º lugar, oito jogos, três vitórias)

Total: 24 jogos com 12 vitórias

Agora que todos os amantes da modalidade podem ver os jogos internacionais FIBA, ficou claro que os nossos jovens encontram grandes dificuldades no ataque para marcarem cestos na área pintada, nomeadamente quando sujeitos a algum contacto físico. Falhar lançamentos fáceis foi uma constante. O recurso sistemático aos triplos não parece ser boa opção porque infelizmente continuamos a não ter “atiradores”. Por outro lado, foram também visíveis os altos e baixos no rendimento dos nossos jogadores em contraste com adversários mais objectivos e poderosos que quase sempre se aproveitam das nossas fraquezas temporárias. Continuamos a viver num dilema: jogamos controlado e não marcamos pontos ou jogamos rápido e perdemos a bola? O jogador moderno é caracterizado por tomar boas decisões rapidamente; os nossos jovens têm de seguir este padrão para sonharem com serem profissionais.

Fonte: FIBA
Fonte: FIBA

A estatura agora não é problema e não pode servir de desculpa como no passado.  Temos gigantes mas continuamos a ser muito débeis na arte do bloqueio defensivo e pouco agressivos na procura da bola.

O modelo de jogo das várias selecções, pese o facto de ter sido elaborado um documento orientador, continua pouco coerente e uniforme, com a seleção de Sub-18 a apresentar as ideias mais simples e adequadas à realidade.

Contrariamente ao que acontece com as selecções femininas, não recorremos tão frequentemente às defesas zonais e às pressões em todo o campo, o que nos limita bastante.

Do mesmo modo no sector masculino a auto-estima e os objectivos estão a níveis claramente mais baixos que no feminino.

Os objectivos definidos pela FPB para esta época, sector masculino, mesmo sendo modestos, ficaram longe do ambicionado:

quadro 1Os treinadores têm de ser capazes de trabalhar mais e melhor, tendo como meta final preparar e revelar jogadores que possam um dia vir a ser atletas de alto rendimento, o que implica fazer mudanças em todas as frentes do basquetebol. Algumas medidas positivas e pontuais concretizadas pela FPB não resolvem o problema de fundo, que merece uma mudança global.

Porque o problema da estatura está quase ultrapassado (Tomás Domingos – 2.08m, Ricardo Monteiro – 2.08m, Gonçalo Delgado – 2.04m, Neemias Queta – 2,00m, Vladyslav Voytso – 2,00m, Lamine Banora – 1.98m, Diogo Runge – 2.02 m), porque temos jovens com algum talento (Diogo Brito, Diogo Araújo, Carlos Cardoso, Pedro Lança, Gustavo Teixeira, Paulo Caldeira, Henrique Barros, Pedro Lança, Gustavo Teixeira, Paulo Caldeira, Henrique Barros, Hugo Ferreira, entre outros), é tempo de se criarem condições para o sucesso no futuro.

Reformulando os objectivos (o Grupo A tem de ser o sonho de todos) e como diz o ditado: “Quem não quer subir a montanha não pode pretender ser alpinista”.

Uma nova Liga de clubes?

As medidas regulamentares implementadas nas competições séniores e cujo objectivo principal era proteger o jogador nacional, limitando para isso a presença dos estrangeiros, não têm conduzido a bons resultados. A competição federativa é fraca, e não temos produzido jogadores nacionais de qualidade.

Os exemplos de ligas europeias como a Espanhola (ACB) mostram que mesmo com uma maioria de estrangeiros de qualidade é possível ter-se seleções competitivas. Os nossos vizinhos trabalham bem na formação e, também ali, quem tem capacidade compete ao nível mais alto.

quadro 2O passado mostra que os bons jogadores portugueses sempre conseguiram lugar, como demonstrou a geração de 2007.

No campeonato federativo denominado LPB, como facilmente se conclui através da análise do quadro apresentado abaixo, ganham sempre os mesmos (SL Benfica e FC Porto).

quadro 3Regressando ao passado e à Liga Profissional controlada pelos clubes (LCB) a realidade era bem diferente, para melhor. Mais competição e múltiplos vencedores a quem não será estranha a qualidade dos praticantes que arrastavam multidões aos pavilhões.

quadro 4Restam então duas opções: ou continuar a fazer o mesmo e só poder ambicionar ficar onde está ou criar condições para um regresso ao profissionalismo.

Foto de Capa: FPB

Mário Silva

Redação Bola na Rede · ver artigos