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José Miguel Soares Barbosa tem 30 anos de idade e desde os 14 que olha para o basquetebol como algo sério. É em Aveiro que decide jogar a vida toda e na UD Oliveirense que teve os melhores anos da carreira. A sua boa disposição rememora os tempos da “comissão de praxe”, a chamada na piscina do presidente da federação e o cinema às 14:00, que fez a diferença no bicampeonato. Ainda com o mesmo à vontade, José Barbosa elucida a transferência forçada para a UD Oliveirense, o tempo que lhe resta no basquetebol e a importância de ser pai na mudança dos seus objetivos pessoais.
Num espaço de 13 anos de carreira, o internacional português já conquistou dois campeonatos, duas taças da liga, uma supertaça e ainda almeja o tricampeonato.

-Paixão pelo basquetebol e o momento-chave no destino-
«Sair de casa aos 14 anos…a coisa profissionalizou-se»
BnR: A minha primeira pergunta é muito simples… O que te fez apaixonar pelo basquetebol?
José Barbosa: A mentalidade diferente que eu vi que havia nesta modalidade em prol de outras. Eu jogava futebol, basket e natação ao mesmo tempo e houve uma vez que os meus pais me disseram que eu tinha que escolher um. Eu até acabei por escolher o futebol, mas foi uma decisão que só durou um mês porque nesse mesmo mês inverti essa decisão. Isto, porque de facto achei que o que encontrava no basket enquadrava-se muito mais na minha pessoa e havia coisas no futebol de formação que não me identificava e assisti o contrário no basquetebol.
BnR: Os horários do futebol, enquanto miúdo, também não eram muito piores do que no basket?
José Barbosa: Sim, talvez fossem e a juntar a isso havia aquela questão de jogar à chuva ou o jogar no inverno. Para mim não me fazia muita confusão, mas para os meus pais fazia uma confusão enorme e a minha mãe… [risos], ela principalmente detestava que eu jogasse à chuva [risos]. Mas não foi por aí… o futebol tinha uma pressão tão grande extra-campo e no basquetebol não havia. Enquanto o basket jogávamos pelo gosto pela modalidade em si, no futebol senti o contrário.
BnR: Quando é que começaste a sentir que podias fazer do basquetebol a tua vida?
José Barbosa: Aos 14 anos. Eu era iniciado e fui convidado para integrar o centro treino do Porto, sendo que aquilo consistia basicamente em juntar os 14 melhores jogadores do país num só sítio, onde eles treinavam segunda à sexta. Ou seja, era tornar a seleção numa equipa, de forma a preparar-nos para o europeu, onde apenas íamos a casa ao fim de semana para jogar pelos nossos clubes. Sair de casa aos 14 anos para uma cidade grande, treinar todos os dias com os melhores… a coisa profissionalizou-se e realmente achei que o basquetebol poderia ser o meu futuro.
BnR: Mas nunca olhaste para o basquetebol com algum ceticismo ou como algo secundário na tua vida? Principalmente dado à pouca cultura basquetebolística do nosso país…
José Barbosa: Sim é verdade…mas eu acho que fui um pouco enganado nesse aspeto, até porque a UD Oliveirense, exatamente nessa altura, era uma das melhores equipas do país e ao ver grandes profissionais de toda parte do mundo a vir para Oliveira de Azeméis deu-me outra visão e permitiu-me que não desistisse. Na altura eu pensei… bem… não é como o futebol, mas ainda tinha importância no mundo do desporto português e dava para fazer carreira.
-O ano de rookie e as suas peculiaridades-
«Normalmente o grupo de portugueses é o que define muito do que a equipa é»
BnR: Tu fazes a tua formação na UD Oliveirense, contudo, decides que era na AD Ovarense que irias principiar a tua carreira de sénior. Explica-me as principais dificuldades que sentiste nesta transição de júnior para sénior e o que dirias ao teu «eu» de 17 anos se pudesses voltar o tempo atrás?
José Barbosa: Não mudava nada mesmo. Encontrei muitas dificuldades, principalmente a nível físico e a nível de intensidade, ainda para mais fui para uma Ovarense tricampeã, onde o clima que se vivia era completamente diferente do que apanhei nos outros anos. Mas o que faria diferente? Nada. Foi um dos meus melhores anos de carreira.
BnR: Inclusive, fizeste 39 jogos no teu primeiro ano.
José Barbosa: E éramos quatro bases. O Mário Fernandes, o Nuno Manarte, o João Abreu e depois eu, que pronto fui lá para aprender e estar a jogar com os sub-20, portanto, chegar lá e fazer tanto tempo de jogo, tantos jogos… e eu divertia-me, [risos] os mais velhos apertavam comigo e eu adorava, ou seja foi um ano de rookie que eu vivi ao máximo.
BnR: Ainda bem que falaste nisso. Qual foi o jogador que mais te «chateou», no bom sentido do termo, enquanto rookie?
José Barbosa: Felizmente havia em Ovar um grupo de portugueses internacionais que olhavam para esse lado extra jogo e normalmente o grupo de portugueses é o que define muito do que a equipa é. Mas não te consigo definir um, porque de facto aquilo era basicamente uma «comissão de praxe» [risos], era assim que chamávamos quando éramos mais novos. Foi um ano bastante divertido.
BnR: Houve alguma praxe que ficaste do género “porra, esta aqui ultrapassou o meu limite…”? [risos].
José Barbosa: Todas. Na primeira semana, o meu pai foi me levar a Ovar e lembro-me que no primeiro treino eu vim para casa para Oliveira o caminho todo sem abrir a boca uma única vez, porque foi um choque tão grande que achei que não fosse aguentar. Mas depois achei, ou entrava no esquema e levava para a brincadeira ou então estava tramado. [risos] Foi isso que me safou.
BnR: Mas lembraste assim de uma em específico?
José Barbosa: Que possa contar aqui… [risos] mas houve uma assim mais estranha. Nós tínhamos que fazer uma viagem mais longa e no dia anterior à viagem mandaram-nos uma mensagem a dizer que tínhamos que fazer um trabalho sobre o aquecimento global de dez páginas com índice e não sei o quê… Portanto, estás a ver… na viagem fizemos uma apresentação como se tivéssemos numa universidade. Foi a viagem toda a falar sobre o aquecimento global.
BnR: Eles gostaram?
José Barbosa: Por acaso gostaram, consegui fazer um trabalho com algum humor…
-O primeiro jogo sénior e a chamada do presidente-
«Recordo-me de estar a sair da piscina, ver o telemóvel e era o presidente da federação»
BnR: Ainda te lembras como correu o teu primeiro jogo sénior? Ansioso/Nervoso?
José Barbosa: Lembro-me, o primeiro jogo que fiz foi num torneio de pré-época e não estava tão nervoso assim porque era um jogo contra uma equipa da 2.ª divisão e para além disso havia muitos internacionais na nossa equipa que estavam na seleção, portanto, foi um jogo de treino, com muito mais treino do que jogo e até marquei 12 pontos. O primeiro jogo a sério em que me senti nervoso foi o jogo da apresentação. Foi contra uma equipa espanhola, joguei pouco e acabei por apanhar o base principal deles pela frente, mas pronto faz parte.
⭐️ José Barbosa faz parte da Equipa da Década 2010-2020!
Apenas um de cinco atletas com mais de 240 jogos na última década, o base registou médias de 6.7 pontos, 2.0 ressaltos, 4.6 assistências e 1.6 roubos de bola.
Mais informações em https://t.co/zxI7HX9bpy#SomosBasquetebol pic.twitter.com/PwHEi2ZfFf
— Basquetebol FPB (@fpbasquetebol) August 25, 2020
BnR: Já tens algumas experiências na seleção nacional, mas pergunto-te: com que sentimento recebeste a notícia da tua 1.ª convocatória?
José Barbosa: [risos] Também é outra daquelas histórias… Bem, os jogos (da seleção) eram no Verão, mas havia uma lista de pré-convocatória de 35-40 jogadores em Março. O Moncho López decidiu-me incluir nessa pré-convocatória, mas eu acho que foi mais como um prémio por ser um miúdo que até estava a jogar bem na liga. Depois em Junho, lembro-me de estar de férias, e houve várias lesões na seleção. Recordo-me de estar a sair da piscina, ter ido à mochila, ver o telemóvel e era o presidente da federação. Fui logo para casa, fiz a mala e segui nessa noite para o estágio. Não joguei muito, mas o Moncho deu-me o prémio de jogar contra a Geórgia do Zaza Pachulia.
BnR: O que te marcou mais nessa estadia pela seleção nacional?
José Barbosa: Foi o medo que nunca achei que iria ter de falar com os meus companheiros. Foi estar à aproximar-me deles e não saber o que dizer ou então pensar dez vezes no que dizer para não dizer asneiras, porque estava a falar com os melhores jogadores portugueses da atualidade…
BnR: Como olhas para a próxima geração de bases?
José Barbosa: Cada equipa da liga, atualmente, tem um ou dois bases que podem ingressar na seleção. Tem havido muita concorrência… e isso torna-se como um fator de orgulho para mim, poder continuar a ir à seleção. O futuro está assegurado na posição.
BnR: De todos os bases que já pudeste jogar/ver, com qual te identificas mais?
José Barbosa: É difícil, mas talvez o Diogo Gameiro do CAB Madeira. Está a fazer uma época extraordinária e joga de forma muito semelhante a mim.
-O regresso a casa-
«A transferência para a Oliveirense foi um pouco forçada»
BnR: «O bom filho à casa torna» diz o ditado… Como se consumou o teu regresso à Oliveirense e porquê voltar?
José Barbosa: Não quero dizer que não se consumou por vontade minha, mas a verdade é que foi um pouco forçada. A Oliveirense vinha falado comigo há alguns anos sabendo que eu dava prioridade à equipa onde estava (Ovarense), mas diziam sempre “já sabes, vamos estar sempre de portas abertas para ti…”. Eu tive vontade claro, mas aconteceu por causa da situação da Ovarense. A dada altura, chegaram ao pé de mim e disseram que não havia condições financeiras para eu continuar e pronto a transferência para a Oliveirense foi fácil, porque no dia seguinte já estava com acordo. Nem ouvi mais nenhum clube.
O nosso capitão José Barbosa continua de UNIÃO ao peito! 🔴🔵
A base da equipa começa pelo melhor base! 🏀👊#UDObasket2021 pic.twitter.com/rpwtAa0VVB— Oliveirense Basquetebol (@UDObasket) May 25, 2020
BnR: Como se constrói um bicampeonato com um orçamento mais limitado que, por exemplo, FC Porto ou SL Benfica?
José Barbosa: A resposta é muito fácil: com trabalho. Às vezes, os treinadores, jogadores e dirigentes andam à procura de segredo do sucesso e de truques e tudo mais e a verdade é que esse primeiro ano foi exclusivamente por trabalho, quer dentro de campo, quer trabalho mental que é muito preciso. Mudar a mentalidade dos jogadores e a maior parte nunca tinham ganho um campeonato e isso requer muito trabalho mental e esse trabalho muito se deve à equipa técnica e ao Norberto Alves. Eu lembro-me perfeitamente de ter começado a final (no primeiro ano) contra o FC Porto, de ter olhado na cara dos meus colegas e via uma confiança tão grande, como se o jogo já estivesse ganho. Foi difícil bater-nos naquele ano.
BnR: Lembro-me desse ano da UD Oliveirense, vocês divertiam-se em campo, com alegria e cada jogo parecia “pronto, mais um dia no escritório”…
José Barbosa: Sim, sim, era realmente isso. Mais o primeiro que o segundo campeonato, por causa da pressão de termos vencido o primeiro. Às vezes, a pressão deteriora o prazer com que jogas e eu senti isso. Nós éramos uma alegria, dentro e fora de campo e passei tempo com eles que nunca tinha passado noutra equipa. Eu das poucas vezes que fui ao cinema às 14:00, foi sempre com eles [risos] e foram essas pequenas experiências que nos faziam conviver como amigos de escola e isso passava para dentro de campo.
BnR: Consideraste a união entre o grupo português e o estrangeiro crucial? E quem promovia essas idas ao cinema?
José Barbosa: Os estrangeiros mais eu e o Arnette [Hallman]. O melhor exemplo dessa união foi o Travante Williams que deixou de se chamar Travante e passou a chamar-se Toni… [risos] Só para veres o quão aportuguesados eles estavam e ele adorava!
BnR: Qual o pior momento que te recordas nesse período do bicampeonato?
José Barbosa: A derrota na final da Taça de Portugal contra o FC Porto. Custou-nos bastante, mas reagimos bem. De facto, não houve muitos maus momentos nesses anos.
BnR: Relativamente à época do pós bicampeonato, saíram vários jogadores, inclusive três para adversários diretos na luta pelo título. Como viste isso?
José Barbosa: É algo que sempre aconteceu… o dinheiro foi importante na vida deles e vi isso com muita naturalidade. Nós tivemos que seguir em frente.
BnR: Esta época não tem corrido de feição para a Oliveirense. Sentes que é possível o «tri»?
José Barbosa: Obviamente que aspiro ao tricampeonato, não só eu como o clube. Eu pessoalmente tenho na memória três campeonatos perdidos pela Oliveirense contra a Portugal Telecom e tenho a meta de atingir três campeonatos. No primeiro jogo da final contra o SL Benfica (altura do bicampeonato) afirmei a um jornalista: “este foi o primeiro passo para o tricampeonato” [risos]. Fui confiante demais e saiu-me da boca, mas tive sempre o tri em mente.
-O futuro e as referências no basquetebol-
«Vou jogar até aos 35 anos e depois vou sair do mundo do basket»
BnR: Vias NBA em miúdo?
José Barbosa: Não… nem por isso.
BnR: Qual foi a tua principal referência enquanto crescias?
José Barbosa: Não via muito NBA, mas via vídeos específicos do Steve Nash a jogar, ou a treinar, portanto direi que foi o Steve Nash a minha referência, sendo que quem idolatrei foi o Kobe Bryant.
BnR: Mas apoiavas os [Phoenix] Suns?
José Barbosa: Não, era adepto dos LA Lakers, exatamente por causa do Kobe.
BnR: O Salvador Victo foi o jogador mais jovem de sempre a estrear-se na liga portuguesa de basquetebol e afirmou em entrevista à FPB que tu eras uma referência para ele. Como vês estas declarações?
José Barbosa: Para mim é uma surpresa porque não estás à espera que isso aconteça. Enquanto miúdo idolatras o Carlos Andrade ou o Betinho e estás à espera que eles recebam “esse amor”, mas quando és tu a passar para o outro lado nunca estás à espera. Para mim, que nem altura de jogador tenho, é sempre surpreendente quando alguém me reconhece. Ouvir os mais novos falar de mim é uma surpresa, um orgulho e uma responsabilidade.
A princesa Margarida chegou! ❤️💙
Parabéns ao papá José Barbosa e muitas felicidades para toda a família. 👨👩👧#UDObasketBABY pic.twitter.com/NepSZER4yi— Oliveirense Basquetebol (@UDObasket) July 10, 2019
BnR: Sentes que é uma das tuas principais missões, a de inspirar as futuras gerações?
José Barbosa: É a principal e desde que fui pai a minha visão da vida mudou um pouco e de facto os meus objetivos pessoais alteraram-se. Tenho relação fácil com os mais novos e acaba por ser um dos grandes objetivos ser um exemplo para eles.
BnR: A propósito disso, vês-te a treinar no futuro… vais continuar no basket?
José Barbosa: Eu vou jogar até aos 35 anos e depois vou sair do mundo do basket. Não sei se vai ser verdade ou não, mas já digo isto há imenso tempo. Mas tenho a certeza que iria ter muito sucesso como treinador de formação, porque de facto tenho uma boa relação com os miúdos, apesar de que não sei se iria conseguir conjugar isso com a minha competitividade. Não iria obter o melhor dos dois mundos.
Passes curtos
BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?
José Barbosa: Bicampeonato.
BnR: O Treinador que mais te marcou?
José Barbosa: Todos.
BnR: O melhor jogador com quem jogaste?
José Barbosa: Betinho Gomes.
BnR: O mais complicado que enfrentaste?
José Barbosa: Ricky Rubio.
BnR: Um pavilhão.
José Barbosa: Dr. Salvador Machado
BnR: Um base.
José Barbosa: José Lasa
BnR: Um extremo.
José Barbosa: Travante Williams
BnR: Um poste.
José Barbosa: Eric Coleman














