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As 4 ilações a retirar da 83.ª edição da Volta a Portugal

Miguel Monteiro · 6 min

Foto: Volta a Portugal

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A 83.ª edição da Volta a Portugal, que se iniciou no dia 4 de agosto, com um prólogo na cidade de Lisboa, e que terminou no dia 15 do mesmo mês, com um contrarrelógio percorrido nas cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, coroou como vencedor final o vice-campeão de 2021, o uruguaio Mauricio Moreira, da equipa da Glassdrive Q8 Anicolor.

Esta edição da “Grandíssima”, como é denominada pelos adeptos mais fervorosos, ficou marcada por desempenhos impressionantes e disputas acesas, servindo por isso este artigo para apresentar alguns pensamentos acerca do que foi a mais recente Volta a Portugal.

Foto de Capa: Volta a Portugal

1. GLASSDRIVE Q8 ANICOLOR ESTEVE SEMPRE NO CONTROLO DA CORRIDA

A equipa da Glassdrive Q8 Anicolor assumiu a camisola amarela no primeiro dia de competição, com um prólogo imaculado do atual campeão nacional de contrarrelógio e do mais recente vencedor do contrarrelógio dos Jogos de Mediterrâneo, Rafael Reis, e não mais a largou até ao final da competição, em Vila Nova de Gaia, tendo Mauricio Moreira finalizado a prova com ela vestida e Frederico Figueiredo tido também a oportunidade de a envergar durante algumas etapas.

No que toca à classificação geral final da prova mais importante para as equipas de Ciclismo nacionais, a Glassdrive não só conseguiu que o seu líder assumido (desde o início da competição) terminasse na primeira posição, como também ocupou todos os restantes lugares do pódio (um feito que havia sido conquistado pela última vez em 2002, pela equipa da Milaneza-Mss), com os experientes Frederico Figueiredo e António Carvalho a finalizarem em segundo e em terceiro, respetivamente. Luís Fernandes, da Rádio Popular-Paredes-Boavista, foi aquele que mais próximo esteve de terminar no pódio, mas o minuto e meio que perdeu para Carvalho no contrarrelógio final arredou-o completamente desta disputa.

O domínio da equipa chefiada por Rúben Pereira ficou também patente no número de etapas conquistadas (5): Reis venceu o prólogo (como já foi referido), Moreira ganhou no Alto da Torre e foi o mais rápido no contrarrelógio final, Figueiredo “ergueu os braços” na chegada ao Observatório de Vila Nova e Carvalho saiu vitorioso no mítico Monte Farinha, tendo chegado ao topo junto com os colegas de equipa Moreira e Carvalho.

A exibição desta formação foi completamente dominadora em toda linha, sem falhas claras que possam ser apontadas à equipa e, com toda a superioridade demonstrada, a pergunta que fica no ar até ao verão do próximo ano é: “Haverá alguma equipa com capacidade para destronar a Glassdrive Q8 Anicolor na Volta a Portugal de 2023?”.

2. AS ETAPAS PARA SPRINTERS FORAM UMA APOSTA CERTEIRA


A organização da Volta voltou a apostar numa maior quantidade de etapas destinadas a velocistas e, com isto, a camisola verde pôde ser discutida com maiores possibilidades de sucesso pelos sprinters presentes em prova. De entre estes, destacaram-se um português, João Matias (Tavfer-Mortágua-Ovos Matinados), e um norte-americano, Scott McGill (Wildlife Generation Pro Cycling). Os dois pelejaram arduamente pela vitória final na camisola dos pontos, tendo cada um ganho duas etapas desta edição.

Por um lado, João Matias, serviu-se do seu comboio doméstico bem afinado e superiorizou-se aos adversários, com a sua ponta de velocidade, nas chegadas a Viseu e a Castelo Branco; por outro lado, Scott McGill, mostrou toda a sua sagacidade nas movimentações nos finais de etapas e, com a sua capacidade de aceleração, pôde celebrar os triunfos em Elvas e na Maia.

Esta competitividade luso-americana, sempre pautada pelo desportivismo e pelo respeito mútuo, animou verdadeiramente os fãs da “Grandíssima”, que há muito não assistiam a uma luta tão acesa entre velocistas, que acabou por ser vencida pelo norte-americano.

3. É PRECISO QUE SE INVISTA EM EQUIPAS NACIONAIS

Como já foi mencionado, a Glassdrive dominou completamente esta 83.ª edição da Volta a Portugal, só não tendo tido real influência nas etapas que terminaram em sprints em grupos mais extensos. Como foi relatado a um órgão de comunicação social pelo diretor desportivo da equipa, Rúben Pereira, na última etapa da Volta, esta incapacidade das restantes equipas em relação ao poderio desta formação em muito se deve à diferença abismal de orçamentos que existe entre a Glassdrive e todas as outras equipas, conseguindo a formação de Rúben Pereira, por esse motivo, atrair grande parte dos melhores ciclistas do calendário velocipédico nacional e possuindo melhores condições gerais.

Até à Volta à Portugal do ano passado, existia uma rivalidade entre as formações da Glassdrive e da W52/FC Porto, estando, em termos da luta pela classificação geral da competição nacional, todas as outras equipas nacionais alguns patamares bastante abaixo destes conjuntos, existindo um verdadeiro fosso. Todavia, a investigação que decorreu recentemente comprometeu a legalidade e a validade dos resultados mais recentes alcançados pela equipa de Adriano Quintanilha, devido ao alegado uso de substâncias dopantes, tendo a UCI retirado a licença para competir ao conjunto portista. Com isto, a bipolaridade do Ciclismo nacional deu lugar a um Ciclismo doméstico quase unipolar.

Pelos factos acima apresentados e para o bem da competitividade do calendário velocipédico nacional, é aconselhável que se faça uma reestruturação de algumas equipas e que ocorra um maior investimento em novas ou nas atuais equipas, para que assim haja uma melhor distribuição de talento e condições similares entre equipas e as competições se tornem mais atrativas.

4. MANTÉM-SE TUDO COMO ESTÁ OU NÃO?

A “Grandíssima” é sempre uma competição bastante atrativa para os adeptos nacionais, que assistem às emoções da prova “colados à televisão”, na primeira quinzena de agosto; e para as equipas e ciclistas do país, que focam, já desde a pré-epoca, as suas atenções na prova e a preparam como o objetivo principal do ano. Mas será isto suficiente? Não quererão os adeptos e a organização da Volta que venham competir a Portugal (também) algumas das maiores estrelas da modalidade e os ciclistas lusos que correm nas melhores equipas internacionais?

A Federação Portuguesa de Ciclismo e a organização da Volta a Portugal devem analisar cuidadosamente e seriamente se pretendem que a mais longa competição do Ciclismo nacional suba do terceiro escalão do Ciclismo internacional, agora que a entidade reguladora do Ciclismo, a UCI, vem ponderando fazer uma reestruturação de algumas provas e dos sistemas de pontuação.

Todos os anos os aficionados do mundo velocipédico nacional podem aproveitar o espetáculo que é “Grandíssima”, mas, para descontentamento de quem segue as maiores provas internacionais, nunca marcam presença as maiores estrelas do desporto. Isto deve-se, sobretudo, a três fatores: a sobreposição no calendário com outras provas do segundo e do primeiro escalão; a extensa duração da prova; e a descredibilização do ciclismo nacional, devido aos vários escândalos de doping.

A subida de escalão da prova traria, muito possivelmente, equipas internacionais de maior calibre; serviria de “montra” para os maiores talentos portugueses e contribuiria, à partida, para a credibilização das equipas e dos ciclistas domésticos. Porém, para que isto acontecesse, a Volta a Portugal teria de decorrer em moldes distintos dos atuais e teria de ser reestruturada, o que pode não ser considerado benéfico.

Em suma, é necessário que seja feita uma análise custo-benefício.

Miguel Monteiro

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