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As maiores lições aprendidas em 2022 | Ciclismo

Filipe Pereira · 17 min

Ciclismo
Foto: Le Tour

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Com 2022 a chegar ao fim, já se avizinha o começo de uma nova temporada no ciclismo, com a primeira prova do World Tour, o Tour Down Under a ter já início no dia 17 de janeiro, após dois anos de ausência do calendário. Como tal, vale a pena refletir sobre as principais conclusões que a época transata permitiu retirar e que podem protagonizar os capítulos dos anos velocipédicos vindouros.

1. Tadej Pogacar não é imbatível

Desde a mítica etapa 20 do Tour de France de 2020, Pogacar ganhou uma aura de superestrela e de símbolo daquela que é uma das melhores gerações de sempre a chegar ao ciclismo. As capacidades de Pogacar na montanha já eram conhecidas, bastava ver as duas etapas que o esloveno venceu na Vuelta de 2019, mas foi nesse contrarrelógio pela Planche de Belle Filles acima que ficou evidente o talento astronómico que o esloveno da UAE Team Emirates tinha nas pernas.

Em 2021, deu continuidade a esse domínio com vitórias categóricas em dois monumentos (Liége- Bastogne- Liége e Volta a Lombardia) e uma nova vitória estrondosa no Tour, desta vez com uma exibição de luxo na etapa 8 em que meteu mais de 3 minutos a toda a concorrência, na qual se incluía Richard Carapaz, vencedor do Giro em 2019. Nesse dia, Pogacar atacou com mais de 60 quilómetros da etapa por percorrer, o maior exemplo do estilo de corrida volátil do esloveno, que marcava assim uma rutura com a monotonia do “Sky Train” que havia imperado durante os anos de glória de Christopher Froome.

Pogacar chegava assim a 2022 como o homem que era capaz de fazer tudo, de ganhar tempo em praticamente todos os terrenos. Um ciclista explosivo, com uma ponta final impressionante (sobretudo em subida), um excelente trepador e um contrarrelogista que, sendo consistente, podia ser verdadeiramente letal para as ambições de qualquer adversário em qualquer corrida.

Em 2022, Tadej Pogacar tornou a ter um grande ano. Contou com vitórias na Strade Bianche, no Tirreno Adriatico e até um top 5 na Milan-San Remo, clássica tradicionalmente talhada para sprinters. Contudo, o estatuto monstruoso de Pogacar ficou ainda maior quando na Volta à Flandres, conseguiu deixar praticamente toda a concorrência para trás no pavê. A única exceção foi Mathieu Van der Poel que venceu a corrida, com Pogacar a terminar em quarto, depois de dois ciclistas recolarem nos dois da frente.

Previa-se uma grande preponderância do paralelo na Volta a França e a imagem demonstrada pelo principal rival de anos anteriores, Primoz Roglic, era de maior fraqueza, pelo que o esloveno da Emirates parecia ter à sua espera, uma terceira vitória consecutiva no Tour.

A primeira semana mostrou mesmo isso. Com alguns azares de adversários, como quedas de Roglic e de Jonas Vingegaard na etapa 5, marcada pelos vários setores de pavê, parecia evidente que Pogacar pedalava mesmo para a terceira vitória em três participações na Grand Boucle. Contudo, logo nessa etapa com chegada a , ficou a ideia de que Pogacar cometera um erro. Afastou Roglic da luta pela geral mas ganhou apenas 12 segundos a um grupo com Vingegaard e a maior parte dos adversários do esloveno na geral. Para além de ter chegado a estar com mais de 1 minuto de vantagem para o dinamarquês, questionou-se a necessidade de um ataque de Pogacar, apenas para ganhar tão pouco tempo.

A etapa mais marcante da edição de 2022 da Volta a França seria, sem dúvida, a etapa 11, em que a Jumbo Visma seria capaz de isolar Pogacar frente a Roglic e Vingegaard, pelo que a formação neerlandesa usaria os dois ciclistas e a proximidade que tinham em relação a Pogacar na geral, para atacar o bicampeão do Tour em alternância.

Pogacar respondia a tudo e parecia imune a qualquer jogada dos rivais. Até que a 3 km do fim da etapa e já num momento em que Pogacar estava acompanhado por colegas de equipa, Jonas Vingegaard atacou e o esloveno não só foi incapaz de responder, como “estourou” completamente e acabou por perder quase 3 minutos para Vingegaard, deixando o ciclista da Jumbo em excelente posição para ganhar o Tour.

Na semana e meia que se seguiu, Tadej Pogacar tentou de todas as formas e feitios, com ataques em todo o tipo de terreno, recuperar os mais de 2 minutos de atraso que tinha na geral. Mas a Jumbo e sobretudo o próprio Jonas Vingegaard não fraquejaram e aplicaram a machadada final nas ambições de revalidação do tiutlo de Pogacar quando na etapa 18, Vingegaard aproveitou um trabalho fantástico de Sepp Kuss e Wout Van Aert para ganhar no Col du Aubisque. No contrarrelógio final, Vingegaard também foi capaz de ganhar tempo a Tadej Pogacar, demonstrando uma superioridade em relação ao esloveno que até então ninguém conseguira demonstrar. A luta entre os dois deixou os fãs com “água na boca” para o duelo que se avizinha no Tour de 2023, mas acima de tudo mostrou que é possível derrotar o ciclista quase perfeito que é Tadej Pogacar, com apenas 24 anos.

2. Remco Evenepoel é ciclista para três semanas

Quando aos 18 anos, Remco Evenepoel chegou ao World Tour muita expetativa em torno do que o jovem belga faria ao serviço da Deceuninck- Quick Step. Depois de um último ano de júnior em que praticamente ganhara todas as corridas em que havia participado, incluindo os campeonatos do Mundo do escalão, tanto de fundo como de contrarrelógio, a opinião geral era de que a equipa de Patrick Lefévere tinha em mãos um diamante em bruto.

Foi logo em 2019 que os grandes resultados começaram. Evenepoel foi campeão europeu de contrarrelógio, vice-campeão do Mundo na mesma especialidade, venceu a Clássica San Sebastian, tudo isto no primeiro ano como profissional, mostrando-se já em pé de igualdade para com talentos como Rohan Dennis ou Greg Van Avermaet.

Em 2020, já muitos entregavam o Giro ao belga que venceu pela primeira vez a Volta ao Algarve, assim como todas as corridas por etapas em que participou nesse ano, tanto antes como a seguir à paragem causada pela pandemia. Contudo, viria a sofrer na Volta a Lombardia desse ano o primeiro grande revés da carreira.

Durante uma descida, o belga que parecia estar a caminho de lutar pela vitória do seu primeiro monumento acabaria por cair abaixo de uma ponte, sendo levado numa ambulância. Foi o fim da época para Remco Evenepoel e muitos pensaram que podia ter terminado a carreira do belga.

2021 tornou-se desta forma um ano de recobro no que diz respeito à reputação de invencibilidade que Evenepoel tinha vindo a merecer. A primeira corrida foi logo o Giro, onde partilhou a liderança com um jovem que esteve de rosa por 15 dias no ano anterior: João Almeida.

Houve muita controvérsia em torno desta coliderança, mas a primeira semana até favoreceu o estatuto de Evenepoel, com o belga a estar mesmo vestido de rosa, em contraste com um Almeida que perdeu quase 5 minutos na etapa 8 e que parecia uns furos abaixo do nível apresentado em 2021. Todavia, a segunda semana foi ficando marcada pela imagem de Almeida a “rebocar” um Evenepoel que parecia estar claramente a tentar dar um passo maior do que a perna, ao tentar liderar uma corrida de 3 semanas, logo na primeira corrida após um incidente que lhe ameaçou a carreira.

A 16ª etapa foi uma prova clara deste erro de cálculo de Evenepoel e de Lefévere. Remco perdeu mais de 24 minutos num dia completamente dominado por Egan Bernal e no qual João Almeida apenas perdeu 1 minuto e 21 segundos para o colombiano, sendo que o ciclista de A-dos-Francos já integrara a fuga do dia.

Evenepoel não acabou essa Volta a Itália e ficou com uma reputação muito danificada, no que à sua capacidade competitiva concerniu. Mas o belga acabou por responder bem, vencendo a Volta à Bélgica, a Volta à Dinamarca e acabando no pódio dos Europeus, tanto no esforço individual, como na prova de fundo.

2022 deu o maior sorriso de todos a Remco Evenepoel. O ciclista belga da Quick Step esteve sempre escalonado para fazer apenas uma grande volta: a Vuelta, em agosto. Agora sim, Evenepoel ia ter mais do que tempo para preparar uma nova investida rumo ao sucesso em três semanas. Evenepoel continuou a ganhar corridas de uma semana, como a Volta ao Algarve (pela segunda vez), a Volta à Noruega, foi 2º na Volta à Comunidade Valenciana.

Mas o maior destaque da primeira metade do ano foi para a vitória do belga na Liége-Bastogne-Liége, o primeiro monumento que ganhou da forma a que habituou todos os adeptos do ciclismo em 2020: chegando isolado, depois de um ataque de longe. Mas no ar permanecia a dúvida se Evenepoel era ciclista para alta montanha e sobretudo capaz de lutar pela vitória em corridas de três semanas.

Evenepoel chegou à Vuelta, depois de ser campeão belga de contrarrelógio e de vencer pela segunda vez na carreira, a Clássica San Sebastian. O dia da maior resposta positiva para Evenepoel foi a 6ª etapa da Vuelta quando o belga arrasou a concorrência para vencer no alto do Pico Jano. Uma exibição de luxo que viu Evenepoel ganhar mais de um minuto e meio ao favoritíssimo, Primoz Roglic.

O belga de 22 anos faria uma exibição da mesma espécie quando ganhou quase um minuto ao esloveno nas etapas 8 e 9, capitalizando com uma vitória no contrarrelógio da etapa 10. O mau dia de Remco Evenepoel chegou na etapa 14 quando perdeu quase 1 minuto para adversários diretos, incluindo para o esloveno da Jumbo na chegada ao alto da Sierra de la Pandera.

Uma etapa que trouxe esperança de que a 4ª Vuelta ainda poderia sorrir ao palmarés de Roglic, mas uma queda na etapa 16 acabaria com estas chances. Evenepoel não só não tornou a mostrar fraquezas como se superiorizou aos restantes adversários nas  etapas decisivas que faltavam.

Ficou ainda assim no ar a questão se Evenepoel não teria tido de cerrar mais os dentes, caso Roglic permanecesse na prova e sobretudo se a terceira semana tivesse sido mais dura. Mas uma coisa ficou clara: Evenepoel é capaz de disputar a vitória em corridas de três semanas e é capaz de aguentar a alta montanha.

Campeão do Mundo em setembro, vai fazer o Giro em 2023, novamente frente a Primoz Roglic e nos próximos anos vai responder na estrada a todas as questões em relação aos limites que em tempos, parecia não ter.

3. Primoz Roglic já não é o principal líder da Jumbo-Visma

Primoz Roglic começou a dar cartas no ciclismo internacional, quando venceu um contrarrelógio no Giro 2016. O antigo atleta de saltos de esqui foi apresentando melhorias na alta montanha e deixando claro que era um ciclista bastante completo, vencendo mesmo etapas de alta montanha nas edições de 2017 e 2018 do Tour.

Foi uma evolução gradual com a vitória na edição de 2017 a surgir a partir da fuga e a do ano seguinte em confronto direto com os candidatos à vitória final no Tour. Primoz Roglic ficaria no quarto lugar da geral nesta última edição, falhando o pódio devido a uma má prestação no contrarrelógio final.

Em 2019, a Jumbo-Visma apostou em Roglic para vencer a Volta a Itália. O esloveno teve um início de sonho na época, com a vitória final em todas as provas por etapas nas quais participou antes do Giro. Também começou bem na luta pela camisola rosa, que envergou durante as primeiras cinco etapas.

A luta pela geral parecia destinada a ser um duelo entre Roglic e Vincenzo Nibali, mas Richard Carapaz foi capaz de aproveitar a marcação entre o italiano e o esloveno para chegar à rosa que não voltou a largar. Roglic acabaria em terceiro, atrás de Nibali e de Carapaz, numa “Corsa Rosa” em que o bloco fraco que a Jumbo levou para apoiar Roglic foi muito colocado em causa e apontado como a principal causa para o falhanço do esloveno em alcançar naquele mês de maio a primeira vitórias em corridas de três semanas.

Essa ficou reservada para o mês de setembro, quando Primoz Roglic surgiu acompanhada de uma Jumbo-Visma apetrechada de nomes como Sepp Kuss, Robert Gesink e até de Jonas Vingegaard. Durante as três semanas, Roglic foi capaz de acompanhar e derrotar Alejandro Valverde nas chegadas mais explosivas, tipicamente favoráveis ao ciclista murciano.

Roglic caracterizou-se por um estilo muito passivo, de seguir a roda certa para ganhar tempo aos diferentes adversários na geral. Destaque para uma aliança regular que fez com o compatriota, Tadej Pogacar, para afastar Miguel Angel López e Alejandro Valverde da luta pela vitória. Esta gestão de energia, em conjunto com o bloco forte da Jumbo, permitiram a Roglic levar a primeira de três edições da Vuelta que acabaria por ganhar.

Nos dois anos seguintes, a carreira de Roglic ficou muito pautada por um cinismo na forma de correr que fazia o esloveno seguir na roda da equipa até ao quilómetro final das chegadas em alto, para depois fazer uso da sua ponta final fantástica e assim, ganhar.

O Tour insistiu em escapar a Primoz Roglic, com destaque para o ano de 2020 em que tudo correu bem ao líder da Jumbo que parecia superior a todos, incluindo a Tadej Pogacar. Todavia, bastou um dia mau para perder a camisola amarela e a tão almejada vitória que projetara durante anos.

Respondeu em grande com uma nova vitória na Vuelta, motivada mais uma vez por aquela forma de correr cínica e por um bloco coeso em seu redor. Em 2021, o azar não largou Roglic que apesar de derrotar Pogacar na Volta ao País Basco, foi perseguido por quedas e lesões, nomeadamente no Paris Nice e no famoso incidente do cartaz “Opi; Omi” da primeira etapa dessa edição do Tour. Roglic calibrara o seu pico de forma com vista a uma queda de performance de Pogacar ao longo das três semanas do Tour (que até se acabou por verificar), mas não teve a hipótese de concretizar o resultado final.

Ao invés, o seu colega, Jonas Vingegaard, ciclista dinamarquês de 24 anos seria capaz de deixar Tadej Pogacar para trás no Mont Ventoux e de acabar no segundo lugar da geral, mostrando a capacidade de discutir corridas de três semanas. Em 2022, a sorte parecia estar a mudar para Roglic, mas a forma já não era tão boa. Venceu o Paris Nice e o Criterium du Dauphiné, mas parecia mais um domínio coletivo do que apenas do esloveno. Aliás, no Dauphiné muito se colocou a questão acerca de uma eventual superioridade física de Vingegaard que arrasou o pelotão na última etapa da corrida, aparentando deixar o próprio Roglic em dificuldades.

O azar iria regressar sob a forma de novas quedas para Primoz Roglic, levando a fraturas nas vértebras para o ciclista esloveno que perderia, desta forma, mais de 2 minutos para os adversários diretos na etapa do pavê na última edição do Tour, incluindo para Vingegaard. A liderança do esloveno na corrida ficava completamente em causa e o esloveno de 33 anos, assumiu mesmo o papel de número 2 da equipa a partir da famosa etapa 11, em que Vingegaard conseguiu quebrar Pogacar.

Roglic acabou por tornar a abandonar a Volta a França que Jonas Vingegaard ganhou, mas fez uma recuperação milagrosa para tentar discutir a Vuelta. Roglic era o adversário mais forte de Evenepoel mas um toque infortuno na roda traseira de Fred Wright na chegada da etapa 17, deitou tudo a perder para o esloveno. Em 2023, Primoz Roglic, está escalonado para voltar a tentar vencer o Giro, com Vingegaard apontar de novo ao Tour. Desta forma, Roglic deverá chegar aos 34 anos sem o Tour no seu palmarés e perante uma fornada de talentos promissores a surgir no pelotão internacional, parece difícil para a Jumbo  voltar a meter todas as cartas no esloveno para vencer a “Grand Boucle” e falta, acima de tudo, saber até quando será Primoz Roglic capaz de discutir corridas de três semanas. Talvez se para a próxima, for a sorte a sorrir.

4. O ciclismo espanhol está (quase) de volta

Um dos tópicos quentes da última década disse respeito à sucessão no ciclismo espanhol, a quem ia suceder ao tridente de Alberto Contador, Joaquim Rodríguez e Alejandro Valverde como os nomes grandes do ciclismo. A Espanha é um país com tradição enorme no ciclismo sendo que este “tridente” já era sucessor de nomes como Miguel Indurain, Roberto Heras e “Perico Delgado”.

Contudo, por volta de 2015, era notório que estes três nomes, mesmo já numa idade avançada eram os nomes maiores do ciclismo espanhol e que nenhum outro ciclista espanhol se aproximava do seu nível, sobretudo em corridas de três semanas. O mais próximo era Samuel Sanchéz e pertencia à mesma geração.

Foram surgindo nomes como Ion e Gorka Izagirre, Jesús Herrada e Omar Fraille, capazes de ganhar etapas e fechar top 10 em grandes voltas, vencer corridas de uma semana, mas que nunca foram capazes de disputar um lugar no pódio em qualquer grande volta nem de repercutir sucessos com a mesma dimensão que outros nomes históricos do ciclismo espanhol.

O mesmo pode ser dito sobre Mikel Landa. O ciclista basco fez pódio por duas ocasiões na Volta a Itália (em 2015 e em 2022), corrida na qual também levou para casa a classificação da montanha em 2017. O seu estilo atacante, persistente e sob a égide de uma aparente perspetiva de “tudo ou nada” levou mesmo à criação do conceito de “Landismo”.

Todavia, o “Landismo” nunca se materializou em grandes vitórias no que a classificações gerais diz respeito, ainda que efetivamente tenha criado uma certa imprevisibilidade em corridas que, caso contrário, teriam sido completamente monótonas (ver Tour 2017)

Aos 33 anos, Landa continua a ser um ciclista capaz de lutar pela vitória em grandes corridas, mas durante vários anos foi um caso praticamente isolado e mesmo assim níveis abaixo de nomes como Christopher Froome, Primoz Roglic e Tadej Pogacar.

A partir de 2018, o ciclismo espanhol passava a contar com mais um grande nome: Enric Mas consolidava o estatuto de maior promessa do ciclismo castelhano, ao ficar em segundo da Vuelta, no ano de 2018, com apenas 22 anos. A ligação pessoal entre Alberto Contador e Enric Mas sempre foi conhecida, com o “Pistoleiro” a apontar o jovem espanhol como seu sucessor.

Mas ficava assim com uma fasquia muito elevada à qual, até hoje, nunca foi capaz de corresponder na totalidade. Três vezes vice-campeão da Volta a Espanha, segundo também na Volta à Lombardia, tem também duas presenças no top 5 final da Volta a França. Com 26 anos, é um ciclista com um futuro ainda muito promissor pela frente, mas o público espanhol foi sempre bastante incisivo no que a apontar as falhas de performance de Mas diz respeito.

Foi preciso chegar a 2022 para que uma nova onda promissora de talento espanhol começasse a emergir: entram em cena Carlos Rodríguez e Juan Ayuso. Rodríguez está na INEOS desde 2020, e em 2021 ficou na segunda posição do Tour de l’Avenir, depois de uma exibição de luxo na última etapa com chegada em alto no Col du Petit Saint Bernard.

2022 foi mesmo o ano de explosão para o ciclista de Almuñécar. Ganhou a 5ª etapa da Volta ao País Basco, sagrou-se campeão espanhol de fundo e esteve na luta pelo pódio da Vuelta até bem perto do final, quando uma queda na etapa 18 acabou por lesionar o espanhol da INEOS, acabando por ficar apenas na sétima posição.

Juan Ayuso chegou ao World Tour com apenas 19 anos, depois de ter feito o que queria, praticamente, das corridas de juniores em Espanha, ao serviço da Bathco Cycling Team. Logo em 2021, a UAE Team Emirates viu logo o potencial de Ayuso, que também teve em 2022 o primeiro grande ano de afirmação e de forma clara, logo com um pódio na Vuelta, na primeira grande volta que fez e para a qual nem sequer partiu como líder, mas sim como um gregário de João Almeida. A isto junta também top 5 na Volta a Romandia e na Volta à Catalunha.

Dois ciclistas fenomenais que em conjunto com Enric Mas prometem trazer de volta uma expressividade espanhola na luta por grandes vitórias, seja em corridas de três semanas ou de apenas um dia.

5. Há novas promessas entre os sprinters

Se por um lado, ciclistas como Mark Cavendish parecem estar mesmo fora dos seus anos de glória e até à procura de equipa, também começam a surgir nomes muito promissores para as chegadas ao sprint. Entram em cena Olav Kooij e Arnaud de Lie.

Olav Kooij é um ciclista neerlandês de 21 anos que corre ao serviço da Jumbo-Visma e que para muitos fãs passa debaixo do radar, uma vez que ainda não tem dado cartas em grandes corridas de um dia ou em provas de 3 semanas. Ainda assim, Olav Kooij foi um dos ciclistas mais vitoriosos de 2022, com 12 triunfos, nomeadamente na primeira etapa da Volta a Polónia e em duas etapas da Volta à Dinamarca. Kooij já conta com triunfos sobre Elia Viviani, Mark Cavendish e ainda sobre Arnaud Demáre.

O mesmo pode ser escrito sobre Arnaud de Lie, ciclista belga da Lotto Soudal, que aos 20 anos, foi o maior trunfo da formação belga para escapar à despromoção para o escalão pro continental. Vitórias bem distribuídas por todo o ano, sobretudo em solo belga, de Lie ganha em sprint puro frente a ciclistas como Giacomo Nizzolo ou a Sam Bennett (o caso da Ronde van Limburg) e em corridas de sobe e desce constante como é o caso da Clássica de Limburgo em que chegou isolado, frente a nomes como Loic Vliegen ou Tom Dumoullin.

Arnaud de Lie e Olav Kooij são, desta forma, dois nomes muito promissores no que ao sprint diz respeito e vão dar muito que falar ao longo de 2023. Com ambas as equipas a ter lugar assegurado nas corridas World Tour, é quase certo que os dois vão começar a dar as primeiras pedaladas em monumentos e em corridas de três semanas já no próximo ano.

Filipe Pereira

Redação Bola na Rede · ver artigos