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Ao sprint, no contrarrelógio, a solo ou até em alta montanha. Apesar de atípico, 2020 foi pródigo em grandes momentos no escalão máximo do World Tour de ciclismo, presenteando todos os amantes da modalidade com vitórias simbólicas, estrondosas e frenéticas.
A sociedade entre os termos espetáculo e emoção pôde ser sentida no seu mais alto esplendor em qualquer uma das etapas a seguir mencionadas. Venha daí e relembre cinco vitórias que enalteceram uma temporada inesquecível pelas mais variadas razões.
Ranking sem ordem específica
1.
Antes de que se acabe el año quiero recordar el momento más destacado de la temporada.
El día que Pogacar le arrebató el Tour a Roglic antes de que sonará la campana en la CRI de La Planche des belles filles.
pic.twitter.com/ZhjdxZJLNC— Nicolás Borrás C. (@BorrasNicolas) December 15, 2020
Tadej Pogačar (Lure – La Planche des Belles Filles) – Os 36,2 quilómetros de contrarrelógio da penúltima etapa da passada edição do Tour de France marcaram um dos momentos mais caóticos da história da prova de ciclismo francesa. “Uma num milhão” era algo que se sussurrava por todo e qualquer comentário relativamente às hipóteses de Pogačar bater Primož Roglič, recuperar 57 segundos e tornar-se no primeiro esloveno a vencer o Tour de France.
Não há dúvidas de que se tratou de um autêntico milagre, sobretudo se tivemos em conta fatores como a vantagem de Roglič sobre o seu compatriota na geral, a diferença quase nula ou a pender desfavoravelmente para o miúdo da UAE Team Emirates na especialidade do contrarrelógio ou a consistência demonstrada ao longo das antecedentes 19 etapas por parte do líder da Team Jumbo-Visma.
Mas a verdade é que, na estrada, Pogi enfrentou as previsões e começou cedo a demonstrar que não eram favas contadas, exibindo-se ao mais alto nível e como o rolador de excelência que é. No primeiro ponto de cronometragem, ainda em terreno plano, 13 segundos separavam os dois eslovenos com vantagem para Pogačar. À medida que os corredores se aproximavam da subida final, o perseguidor mais direto de um Rogla irreconhecível ia ganhando alguns segundos, fazendo prever uns quilómetros finais com muitos nervos à flor da pele.
O ímpeto conseguido cimentou-se assim que as pendentes mais íngremes apareceram no horizonte dos dois rivais, ajudando aquele que estava mais favorecido psicologicamente e fisicamente. A pujança de Pogačar era de tal ordem que a diferença entre ambos ia abatendo a cada metro, sendo na marca dos 3,9 quilómetros para a linha de meta que o impensável começava a tornar-se possível. O mais jovem da dupla eslovena dava a cambalhota na liderança e passava a ser o líder virtual da classificação geral. Por outro lado, Rogla continuava a ter um dia para esquecer e em nenhum momento da etapa pareceu estar ao nível daquilo que o seu adversário apresentava, somando uma perda total de um minuto e 56 segundos.
O artista de 22 anos acabou mesmo por vencer com elevada distinção, pintando uma das telas mais bonitas do passado ciclístico recente e perpetuando-se como uma das certezas para os próximos anos e logo de uma maneira tão dramática, conquistando três classificações ao cair do pano. O dia 19 de setembro de 2020 ficará, sem sombra de dúvidas, eternizado na História do desporto.
2.
VAN DER POEL WINS RONDE VAN VLAANDEREN 2020, 2ND VAN AERT, 3RD KRISTOFF #RVV20 #RVV #RVV2020 #RondeVanVlaanderen #TourDesFlandres #FlandrienAtHome #Giro pic.twitter.com/OfEmVuJmDA
— Jan Willems (@CyclingWiz) October 18, 2020
Mathieu Van der Poel (Ronde van Vlaanderen) – À semelhança daquilo que foi a nossa eleição quanto aos cinco maiores protagonistas da temporada, acaba por ser lógica a inclusão de algumas dessas figuras máximas de 2020 dentro deste tema. Depois de Roglič e Pogačar, era imperativo o mano-a-mano na Ronde van Vlaanderen entre Mathieu Van der Poel e Wout Van Aert constar nesta lista.
O campeão nacional holandês bateu ao sprint o seu eterno rival, num dos primeiros grandes confrontos – no calendário mundial de estrada – em cima da linha de meta entre as duas bisarmas originárias do cyclo-cross. Assim como na Liège-Bastogne-Liège ou na Flèche Wallonne, vencidas por Primož Roglič e Marc Hirschi, respetivamente, a passada edição da Tour des Flandres teve emoção até ao fim, diferenciando-se pela superioridade de três grandes campeões em relação aos demais, pela reta final completamente louca e sobretudo pelo primeiro vislumbre quanto à sucessão de grandes duelos em perspetiva entre estes dois jovens portentos, indiscutivelmente capazes de representarem a elite do pelotão mundial num alargado número de provas daqui em diante.
Sobre a corrida, essa tal superioridade começou por revelar-se clara quando, a cerca de 45 quilómetros para o final, um inesperado Julian Alaphilippe, em absoluta estreia na prova, foi o primeiro “tubarão” a movimentar-se dentro de um grupo restrito de favoritos à vitória. Para surpresa de muitos, foram poucos aqueles que conseguiram seguir na roda do polivalente ciclista da Deceuninck Quick-Step. A seleção natural entre os mais capazes sucedeu-se em ligeira descida quando Alaphilippe, Van der Poel e Van Aert deixaram o primeiro grupo e foram em busca da vitória, cavando uma diferença importante à entrada para os últimos 35 quilómetros finais.
O que se esperava uma grande batalha entre três dos melhores ciclistas da atualidade, acabou por não acontecer em virtude de uma queda do campeão mundial, Alaphilippe, após embater com estrondo numa mota da organização da prova. Infelizmente, não foi possível assistir a um embate que prometia ser memorável, mas em termos de espetáculo, não existiu muita razão de queixa quanto à luta nos derradeiros metros finais.
Com forças tão equilibradas entre os dois rivais, há que exaltar a reação de Van der Poel ao primeiro movimento brusco de Van Aert quando este se encaminhava para o início do sprint final. A ideia que fica é que tal capacidade de reação pode ter sido decisiva para levar Van der Poel a evitar ser surpreendido e ao mesmo tempo surpreender Van Aert com tamanha capacidade de aceleração. No entanto, existe também a necessidade de atribuir créditos ao ciclista belga que, como é sabido, detém uma ponta final invejável e apenas perdeu por uma questão de centímetros. O futuro parece risonho se colocarmos Van Aert, Van der Poel e “mesma competição” numa única frase.
3.
Stunning scenery as we ride the Stelvio with the @giroditalia peloton 🏔️
Jump on board with us for Stage 18 highlights!
___
🇮🇹#Giro pic.twitter.com/QiMebfP8mK— Velon CC (@VelonCC) October 22, 2020
Jay Hindley (Pinzolo – Laghi di Cancano) – A 18ª etapa do último Giro d´Itália coincidiu com uma explosão mediática em solo português face à prestação majestosa de João Almeida e Rubén Guerreiro – que deu um grande passo rumo à camisola da montanha – ao longo de toda a competição.
Podemos olhar para o tão ansiado dia – com o Passo del Stelvio no perfil – de duas maneiras: a etapa onde João Almeida, após 15 dias de rosa, deixou a liderança do Giro; ou o dia em que João Almeida, em estreia numa grande volta, fez sétimo lugar numa etapa que teve o imponente Stelvio, demonstrando qualidades essenciais para se cimentar como um atleta propenso a liderar uma prova de três semanas no futuro.
De uma coisa é certa, o expoente máximo da renovada vibração portuguesa no que concerne ao ciclismo nacional deu-se neste dia e ao longo dos 25 quilómetros até ao topo desta lenda das subidas. João Almeida partiu de camisola rosa mas cedo começou a sentir dificuldades, colocando o seu ritmo de forma inteligente, dada a pendente constante e a os ainda muitos quilómetros de subida. Na frente, sobressaíam duas duplas, Rohan Dennis e Tao Geoghegan Hart da Ineos Grenadiers e Wilco Kelderman e Jay Hindley da Team Sunweb. A certa altura, o melhor colocado dos quatro, Kelderman, começou a perder o contacto devido à incapacidade para seguir o ritmo de um surpreendente Rohan Dennis.
Inacreditavelmente para uns, justificado para outros, Hindley não esperou pelo seu colega de equipa, que registou uma perda de 46 segundos no alto do Stelvio e quando ainda faltavam dezenas de quilómetros para o final da etapa. A decisão foi muito debatida, quer pelo contrarrelógio final em Milão, onde Kelderman teoricamente sairia beneficiado, quer pela distância de Hindley para o seu companheiro de equipa na geral e, ao mesmo tempo, a incapacidade para dobrar o talento inglês nas pendentes mais íngremes e o possível “handicap” no contrarrelógio da última etapa, que, no papel, Kelderman não sentiria frente a Tao Geoghegan Hart.
Na última montanha a ultrapassar, as forças entre os dois mais fortes da equipa alemã e da equipa britânica – Hindley e Tao – foram de tal ordem semelhantes que levaram a decisão para a linha de meta, sendo o jovem trepador australiano a sair vencedor no 1vs1. João Almeida perdeu a possibilidade de lutar pelo primeiro lugar da geral, mas conseguiu manter-se entre os melhores, tornando o top 5, naquele dia, mais do que possível.
Em suma, foi possível assistir a um grande espetáculo de ciclismo, observar decisões táticas suscetíveis de opiniões contrárias e um sentimento de proximidade com a modalidade dada a magnífica prestação dos dois portugueses ao longo da prova. Pelo acumular destas razões, é seguro dizer que estivemos talvez perante a etapa de alta montanha mais dramática e intensa do ano de 2020, isto do ponto de vista do adepto português.
4.
#TirrenoAdriático
Fernando Gaviria llegó en el segundo lugar de la primera etapa de la Tirreno Adriático.
Pascal Ackermann fue el ganador.#WbeimarLoDice
Cortesía. pic.twitter.com/kz43sE5lgb— @WbeimarMunoz. (@WbeimarMunoz) September 7, 2020
Pascal Ackermann (Lido di Camaiore – Lido di Camaiore) – Não se distinguiu pela emoção, pelo peso em termos desportivos ou pelo espetáculo ao longo da etapa. Em boa verdade, isto não são fatores particularmente associados a comuns etapas ao sprint, mas a selecionar uma vitória neste campo, a forma como o sprinter alemão da Bora-Hansgrohe bateu Fernando Gaviria e a concorrência, na primeira etapa do Tirreno Adriático, foi manifestamente impressionante.
As imagens falam por si. O triunfo ganhou uma dimensão absurda se atentarmos à posição de Ackermann nos 250 metros finais, à forma como foi recuperando sem sequer se levantar da bicicleta e a trajetória do ciclista, bastante junto às barreiras de segurança, e que certamente terá provocado calafrios a muita gente dada a perigosidade de uma investida do género.
Não podemos ignorar que não foi uma vitória numa das três grandes voltas ou contra um leque dos melhores sprinters do mundo. Pese embora ambos os factos, o triunfo torna-se único dada a forma pouco usual e espetacular como foi conseguido. Com um sprint lançado precocemente, ninguém esperaria que, depois de surpreendido por uma movimentação tão prematura dos seus rivais, Ackermann fosse a tempo de acelerar num timing perfeito e condizente com a sua condição física e, ao mesmo tempo, aproveitar em grande estilo a perda inequívoca de potência de Fernando Gaviria e Magnus Cort nos derradeiros metros da chegada a Lido di Camaiore.
Num ano complicado para o sprint mundial devido à perda por um longo período de tempo dois atletas de renome, Jakobsen e Groenewegen, Ackermann não conseguiu estar a um nível semelhante a Arnaud Demare ou até a Sam Bennet no que confere à consistência em grandes competições. Pelo contrário, a par de Caleb Ewan – sprint incrível na 3ª etapa do Tour -, protagonizou pelo menos uma magnífica vitória e bem evidente daquilo que podem fazer no futuro, faltando a ambos uma maior continuidade na junção entre confirmação do seu potencial e resultados mais consistentes de forma a atingir um nível superior e mais dominador.
5.
Mon Héros 🚴🏼♂️💨
WORLD CHAMPION 🏆
Julian Alaphilippe 🇨🇵 @alafpolak1 🥇#UCIWorldChampionships #Imola2020 #cyclisme #France #Paris #Nice #Grenoble pic.twitter.com/kl6shhYTuk— Arturo (@ArturoChevrolet) September 27, 2020
Julian Alaphilippe (Imola) – 27 de setembro de 2020 marca um dos dias mais importantes da carreira do reconhecidíssimo Julian Alaphilippe. Para os entendidos na matéria, era de prever uma vitória do francês, já que a jornada lhe assentava e caso se confirmasse a vitória, isso significaria o quebrar do enguiço gaulês em campeonatos de mundo no escalão máximo masculino, que já perdurava desde 1997.
Imola serviu de teatro para um ator explosivo, corajoso e difícil de acompanhar. Num circuito com uma extensão de 258,2 quilómetros e com as tais inúmeras subidas à imagem do ciclista da Deceuninck Quick-Step, não houve ninguém capaz de acompanhar o francês quando este arrancou a 17 quilómetros para a chegada ao clássico circuito em terras italianas. Alaphilippe fez jus à sua reputação de puncher número um no mundo, mas a vitória ganha ainda mais justiça quando analisamos a capacidade que o ciclista de 28 anos teve para se manter na dianteira quando tinha um grupo de excelentes roladores – como Van Aert, Kwiatkowski ou Roglič – a persegui-lo e com uma vantagem que não era assim tão significativa.
Com uma extensão longa e uma série de pendentes duras e complicadas, valeu a capacidade física de cada um na fase crucial da corrida. Em grande plano e contra alguns dos mais ferozes adversários do pelotão do World Tour, Alaphilippe superiorizou-se sem espinhas, o que em muito contribuiu para a nossa eleição quanto à melhor vitória a solo, em concordância, claro, com a importância de se consagrar como campeão do mundo.








