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2020 revelou-se uma autêntica tormenta para o íntegro funcionamento da indústria ciclística internacional. Apesar das inúmeras complicações causadas pela situação pandémica, é justo dizer que o esforço das estruturas organizativas responsáveis pela realização do calendário World Tour foi brindado com um leque de momentos inesquecíveis.
Por entre vários talentos a despontar, reviravoltas brutais ou rivalidades mais acesas do que nunca, vale a pena recordar uma mão-cheia de atletas que abrilhantaram uma temporada atípica.
Foto de Capa: UCI
Artigo redigido por Ricardo Rebelo
1.
La sonrisa del ganador / A happy man for a happy team! ☺️
❤️🇸🇮 @rogla
🚴♂️🚴♂️ @JumboVismaRoad📸: @PhotoGomezSport #LaVuelta20 pic.twitter.com/HTdj42Zcu4
— La Vuelta (@lavuelta) November 8, 2020
Primož Roglič (Team Jumbo-Visma) – Foi da melhor forma que o soberbo ciclista esloveno terminou mais uma época repleta de conquistas. Pese embora ter perdido o Tour de forma dramática para o seu compatriota, Tadej Pogačar, e de todas as consequências a nível psicológico que um episódio de tal magnitude poderia acarretar, Rogla deu a volta por cima e voltou a demonstrar a sua valia, não só como voltista de excelência, mas também como um perigoso atleta em corridas de um dia.
A revalidação do título na Vuelta, frente a Richard Carapaz e Hugh Carty, serviu de tapete vermelho para mais uma época que não foi perfeita, mas que viu o trintão a vencer em alta e média montanha, em contrarrelógio e ainda ao sprint, em grupos restritos, entenda-se. Foram cinco as vitórias em grandes voltas, duas no Tour de l’Ain e ainda uma no Critérium du Dauphiné. O campeonato nacional da Eslovénia também não escapou e, para surpresa de alguns, a Liège-Bastogne-Liège teve a primeira vitória eslovena num final, no mínimo, memorável.
De forma consensual, Roglič e a sua Team Jumbo-Visma representam uma simbiose quase perfeita no que toca ao ataque a grandes voltas, projetando a corrida com uma forte componente controladora e potenciando a ponta final e a capacidade para desenvolver esforços individuais do seu líder. Perante sérios talentos a emergir, será Rogla capaz de repetir as façanhas de anos anteriores em grandes voltas e quebrar o enguiço no Tour?
2.
Van der Poel v Van Aert was as epic a sprint as you could hope for at the Tour of Flanders pic.twitter.com/KkueHd4KRs
— James Dart (@James_Dart) October 18, 2020
Mathieu Van der Poel (Alpecin-Fenix) – O portento holandês de 25 anos começou a época em grande, revalidando o título de campeão do mundo de cyclo-cross depois de se superiorizar confortavelmente a Tom Piddock e Toon Aerts. Apesar de correr numa equipa secundária no panorama internacional, o filho de Adrie Van der Poel arrecadou um respeitoso quarto posto no Ranking UCI, muito graças às vitórias no BinckBank Tour, no campeonato nacional holandês e, principalmente, na Ronde Van Vlaanderen, vencendo o duelo contra o seu adversário de sempre, Wout Van Aert, e repetindo o feito do seu pai, 34 anos depois.
Antes disso, a 11 de outubro de 2020, o verniz estalou definitivamente naquela que promete ser uma das rivalidades da década. Van Aert terminou a Gent-Wevelgem acusando Mathieu Van der Poel de o impedir de ganhar ao invés de tentar vencer a prova, isto pela marcação constante e falta de cooperação entre o grupo perseguidor.
A rivalidade dantesca entre o belga e o holandês nasceu há cerca de uma década, concretamente, desde os escalões jovens de cyclo-cross. Neste momento, a transição de Van Aert para a estrada tem sido feita de forma mais vincada, sendo que os próprios resultados, naturalmente, falam por si. Por outro lado, o plano de Van der Poel continua a passar pelo calendário de cyclo-cross, onde continua dono e senhor dos maiores sucessos. Sobre 2021 e as suas aparições sobre o asfalto, podemos acatar a ideia de que onde quer que a locomotiva holandesa passe, à garantia de espetáculo. Van der Poel, com tamanha facilidade em projetar mudanças de ritmo, de correr de forma atacante e ousada e de possuir uma stamina invejável, é, sem dúvida, uma das caras de uma geração das mais excitantes da história do ciclismo.
3.
I guess I never stopped smiling the past few days, with saturday’s ride in mind. 🤩 We had some beautiful and easy days in Tuscany with @JumboVismaRoad which made everything even better. 👌🏼 But today we head forward to the next races #MilanoTorino & #MilanoSanremo ! pic.twitter.com/iACJBdhwHz
— Wout van Aert (@WoutvanAert) August 5, 2020
Wout Van Aert (Team Jumbo-Visma) – O ciclista belga de 26 anos é a personificação perfeita de um todo-o-terreno, capaz de ser rentável, quer para benefício próprio, vencendo vários tipos de provas, quer no trabalho para outro líder, principalmente como fez no Tour para Primož Roglič. O desempenho verificado revelou um ciclista capaz de andar praticamente bem em todo o lado e, por isso, não é descabido olhar para Wout Van Aert como o ciclista mais consistente da época agora finita.
Vamos aos resultados: vitórias na Strade Bianche, Milano-Sanremo, em três etapas do Tour de France e ainda o campeonato nacional belga de contrarrelógio. Nota ainda para a segunda posição na Ronde Van Vlaanderen, perdida para Mathieu Van der Poel, e nas duas vertentes do campeonato do mundo de Imola, Itália (contrarrelógio e prova em linha), perdidas para Filippo Ganna e Julian Alaphilippe, respetivamente.
De ano para ano, Van Aert tem vindo a marcar posição no pelotão internacional como um ciclista com uma séria ponta final e um talento enorme para rolar em terrenos planos e acidentados. Agora na Jumbo-Visma, o belga é uma certeza quanto ao perigo que representa em provas de um dia e até em finais ao sprint, como demonstrou no Tour de France. Van der Poel e companhia têm em Van Aert, de forma mais do que justificada, a imagem de um feroz adversário e um caça-etapas de outro nível. O prodígio de Harentals é mais um que se predispõe a elevar a modalidade para um patamar superior e não se espera mais de Van Aert do que uma abundância de triunfos para 2021.
4.
🌈 Champion du Monde🌈
Difficile d’expliquer ce que je ressens, une journée parfaite tout simplement.
Un grand merci aux copains de l’équipe de France pour le boulot et l’état d’esprit. Tous unis pour le même objectif et on l’a fait 🙌 pic.twitter.com/G2D19DYQt9— Julian Alaphilippe Officiel (@alafpolak1) September 28, 2020
Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) – Quatro anos depois de aparecer com maior incidência no pelotão internacional, Loulou fez jus às suas características explosivas e levou para casa o título de campeão do mundo, conquistado no circuito de Imola, Itália. A camisola arco-íris veio abençoar uma temporada que até nem foi assim tão produtiva no que concerne a triunfos. O francês de 28 anos bateu Mathieu Van der Poel na De Brabantse Pijl, venceu uma etapa no Tour de France, envergando a camisola amarela por três dias e esteve em bom plano nos monumentos do ciclismo internacional. Destaca-se a segunda posição na Milano-Sanremo, o quinto posto (por sprint irregular) na Liège-Bastogne-Liège e ainda a notável prestação na sua estreia no piso empedrado da Ronde Van Vlaanderen, que só terminou com uma queda quando seguia no grupo dianteiro com os rivais Wout Van Aert e Mathieu Van der Poel.
A vitória em Imola consagrou Loulou, mais uma vez, nos livros do ciclismo, sendo um nome a ter em conta na nova época que se avizinha. Considerado por muitos como o melhor puncher do mundo, espera-se que Alaphilippe continue a apresentar-se entre os melhores de forma regular, sendo uma das figuras de proa da Deceuninck-QuickStep, juntamente com o prodígio Remco Evenepoel e João Almeida, ciclista português que brilhou no Giro.
5.
🔁 RT & follow to win a Yellow Jersey signed by @TamauPogi with @lecoqsportif 💛
🔁 RT & follow pour tenter de gagner un @MaillotjauneLCL signé par @TamauPogi avec @lecoqsportif 💛#TDF2020 pic.twitter.com/usLyXXyYLl
— Tour de France™ (@LeTour) September 20, 2020
Tadej Pogačar (UAE Team Emirates) – Por último, mas não menos importante, importa destacar a reviravolta assombrosa da qual Tadej Pogačar foi protagonista na edição passada do Tour. La Planche des Belles Filles serviu de palco para um dos momentos mais icónicos da História da prova rainha do ciclismo internacional.
57 segundos separavam Primož Roglič, líder da prova e um reconhecido contrarrelogista de excelência, do jovem prodígio da equipa do Médio oriente, também ele esloveno. Pogi, ainda em 2020, tinha batido o seu compatriota no campeonato nacional de contrarrelógio, no entanto, e pela prestação sólida de Rogla durante todo o Tour, era difícil prever aquilo que se veio a passar na última etapa antes de Paris. O jovem de 22 anos não só ganhou os 57 segundos como ainda conseguiu uma margem de 55 segundos, totalizando mais de um minuto e 50 segundos para o seu rival numa única etapa.
Camisola amarela, da montanha e da juventude. Pogačar deu continuidade à época de 2019 e subiu ao consílio dos Deuses em grande estilo, vencendo o Tour de France com apenas 22 anos e sendo o primeiro esloveno a fazê-lo. 19 de setembro de 2020 marca, obviamente, a época da promessa que virou certeza numa aparição animalesca, restando agora saber se, em 2021, Pogačar vai conseguir repetir o feito e voltar a demonstrar-se a um nível altíssimo na alta montanha e, principalmente, no contrarrelógio.









