Quando os Direitos Humanos ficam para trás: o Sportswashing no Ciclismo

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    O fenómeno designado por sportswashing consiste na utilização do desporto por indivíduos, empresas ou até por Estados, com vista a melhorar a respetiva imagem aos olhos do público. É uma manobra política muito antiga, sendo que um dos exemplos mais gritantes são os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936.

    Nessa ocasião, o objetivo passou por mostrar que o Nazismo não era um perigo para o Mundo, como muitos alertavam. Todos sabem como isso acabou.

    O futebol é o desporto-rei na maior parte do Mundo e como tal, é extremamente apelativo a este tipo de campanhas. É possível falar de várias situações, nomeadamente da aquisição de 21,67% das ações do Sporting de Braga pela Qatar Sports Investments, (empresa com muita importância na cena política do Catar), que, por sua vez, adquiriu o PSG em 2011. Mas o caso mais gritante é mesmo a organização dos dois últimos Mundiais: na Rússia, em 2018 e no Catar, no presente ano.

    Estados, cuja atividade política é carregada de autoritarismo e de atos atrozes, mas que produzem uma riqueza significativa, proveniente da venda de recursos como o petróleo ou como o gás natural. Foi-se propagando por entre as várias modalidades, desde o golfe ao wrestling; e o ciclismo não foi exceção.

    Diversas equipas do World Tour (WT), o principal escalão do ciclismo mundial, têm ligações a empresas, a Estados e a indivíduos, com o intuito de melhorar uma imagem gasta. Não é um fenómeno tão recente como se pode pensar. O primeiro exemplo claro desta prática é a criação da equipa cazaque, Astana, em 2006.

    A Astana surgiu em 2006, através do investimento de um conglomerado de empresas, comparticipadas pelo Estado do Cazaquistão. O objetivo da formação, ainda nos dias de hoje, é catapultar os jovens ciclistas do país para o plano internacional, assim como produzir uma melhor imagem do país.

    O Cazaquistão não é um país com um historial fantástico, no que diz respeito à questão do respeito pelos Direitos Humanos. De acordo com a Amnistia Internacional, no fim de 2021, “ataques à honra e à dignidade do Presidente” continuam a ser criminalizados. É um país que mantém condutas marcadamente autoritárias, restritivas da liberdade de expressão.

    O maior balde de água

    Ainda assim, foi um fenómeno que só em 2017 ganhou expressão significativa no ciclismo. No início dessa época, a histórica formação italiana da Lampre-Merida desapareceu. A estrutura perdeu os principais patrocinadores e foi salva pela Emirates Airlines, companhia aérea controlada pelo governo dos Emirados Árabes Unidos.

    Nasceu a UAE Team Emirates, formação na qual correm João Almeida, assim como os gémeos Rui e Ivo Oliveira. A principal figura da formação é Tadej Pogacar, vencedor de três monumentos e de duas Voltas à França. Para além disto, a formação leva sempre o melhor bloco (por vezes melhor do que o de uma grande volta) para a Volta aos Emirados Árabes Unidos, elevando a qualidade do respetivo pelotão, numa prova que entra também no plano do sportswashing, ao tentar emanar uma grandiosidade que não tem. Até porque ainda é uma corrida jovem.

    Desta forma, os Emirados Árabes Unidos tentam abafar os relatos de organizações da Human Rights Watch, relativamente à condenação de ativistas, fundadas em acusações vagas. O país enfrenta ainda alegações relativamente à utilização de spyware israelita com vista a ter acesso à comunicação privada de jornalistas, ativistas e líderes mundiais.

    A Merida deixou a equipa da Lampre mas não afastou o seu nome do pelotão. Também em 2017, surge a Bahrain – Merida. Uma equipa criada para substituir a formação suíça da IAM, pertence a Nasser bin Hamad Al Khalifa, um membro da família real do Bahrain. Ao contrário da Emirates, o investimento não foi feito muito em cima do início da época, o que permitiu a contratação de Vincenzo Nibali, para tornar o nome da equipa imediatamente sonante no WT.

    Ao nível dos direitos humanos e políticos, o Bahrain também não tem grande fama. A Freedom House aponta que em 2021, os casos de COVID-19 eram significativamente mais altos entre os trabalhadores migrantes que viviam em ambientes sobrelotados e com emprego extremamente vulnerável. Uma situação, portanto, muito semelhante à do Catar, denunciada por várias entidades.

    Antes destas duas equipas, apareceu ainda o caso de Israel. A Israel Cycling Academy foi uma equipa criada em 2014, integrante do escalão Pro Continental, com um financiamento pouco significativo da Direção Nacional do Turismo de Israel, sendo que o principal financiador da equipa (desde 2018) é o magnata Sylvan Adams, com nacionalidade israelita, mas natural do Canadá.

    O investimento de Adams em propagar uma imagem de Israel, desprovida do contexto de Gaza, do conflito com a Palestina e das denúncias de violações dos direitos humanos, derivadas da mesma situação, começou em 2018. Adams fez um investimento milionário com o objetivo de fazer o Giro começar em Jerusalém, com três etapas no solo israelita. Para além disto, conseguiu que a Israel Cycling Academy fizesse a sua primeira grande volta e que Christopher Froome alinhasse na prova, que acabou por ganhar, depois de vencer o Tour e a Vuelta em 2017.

    Em 2019, a Israel Start-Up Nation foi promovida ao WT. Nunca obteve grandes resultados e a partir de 2023 vai voltar a correr no Pro Continental. Uma situação, em parte, originada por uma política de contratações sem rumo, focada em contratar ciclistas que já ultrapassaram o auge da carreira como Daniel Martin (reformou-se no final de 2021) e Chris Froome. Tal como a Astana, cumpriu o intuito de lançar ciclistas da casa (Israel) para o ciclismo internacional.

    A imagem do velho continente

    Em outubro, a Abarca Sports, empresa gestora da equipa Movistar, na qual correm Nélson Oliveira e, a partir de 2023, Ruben Guerreiro, celebrou um acordo com a Federação de Ciclismo da Arábia Saudita. O acordo visa aspetos como a “cooperação em programas de capacitação”, uma troca de experiências e ainda “apoiar eventos, corridas e atividades no Reino”. A Arábia Saudita tem um historial claro e mais do que conhecido relativamente a acusações de violação dos direitos humanos, nomeadamente ao nível da liberdade de expressão e de abusos descarados de autoridade.

    A relação do Príncipe Mohammed Bin Salman com ativistas não é propriamente boa. Um exemplo claro disto é a detenção de uma defensora dos direitos das mulheres no país. Loujain al-Hatloul com base em alegações de “espionagem com entidades estrangeiras” e “conspiração contra o Reino”. Passou três anos na prisão. Para além deste caso, a Amnistia Internacional aponta várias detenções feitas com base em denúncias de violação dos direitos humanos.

    Este aspeto pode ser um daqueles aspetos que o Reino da Arábia Saudita quer que se esvaneça. Tem uma excelente oportunidade para passar uma melhor imagem a esse respeito, já que a equipa feminina da Movistar é uma das melhores do Mundo, com uma das melhores ciclistas de todos os tempos: a vencedora da edição inaugural do Tour Fémmes, Annemiek Van Vleuten.

    A presença saudita no ciclismo manifesta-se ainda no patrocínio da Bike Exchange, formação australiana, pela Comissão Real de AIUIa, um destino cultural de renome no norte da Arábia Saudita.

    No que às empresas diz respeito, a influência no ciclismo também é clara, nomeadamente, no que aos grupos de extração de recursos diz respeito. O exemplo mais conhecido é o da INEOS, empresa conhecida por transformar gás extraído, a partir de fraturação hidráulica, em plástico, que substituiu a Sky como principal patrocinadora da formação britânica que ganhou sete vezes a Volta a França, entre 2012 e 2019.

    Atualmente, a equipa tem o nome de INEOS Grenadiers, o nome associado a um modelo tradicional de jipe, o tipo de veículo que não é propriamente o melhor amigo do ambiente.

    O sportswashing está muito forte e o sucesso desportivo existe. Os investimentos impedem equipas de fechar, na maior parte dos casos, e criam ou salvam postos de emprego. Colocam-se, como em muitas situações, os pratos na balança: a fiscalização dos direitos humanos e da proteção do ambiente ou a proteção de postos de emprego e a gestação do sonho de vários atletas?

    A primeira opção parece ser claramente a resposta certa, mas para um público mais desligado da política e dos problemas sociais, o segundo prato parece muito mais limpo, o que diz muito sobre os efeitos do sportswashing.

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    Filipe Pereira
    Filipe Pereira
    Licenciado em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Filipe é apaixonado por política e desporto. Completamente cativado por ciclismo e wrestling, não perde a hipótese de acompanhar outras modalidades e de conhecer as histórias menos convencionais. Escreve com acordo ortográfico.
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