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Doping à Inglesa – De que vale a Ética?

José Baptista · 13 min

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O Parlamento Britânico, através da sua Comissão de Digital, Cultura, Media e Desporto, liderada pelo conservador Damian Collins, publicou o relatório “Combater o Doping no Desporto”, a conclusão de uma investigação de anos – até com uma eleição legislativa pelo meio – que lança várias dúvidas sobre a posição da Team Sky e da British Cycling (a Federação de Ciclismo do Reino Unido) quanto ao recurso a práticas proibidas e pouco éticas.

Comecemos por sumariar os vários temas relacionados com o ciclismo e sobre os quais os deputados levantam questões. Em primeiro lugar, é dedicado uma grande extensão do documento ao recurso aos Therapeutic Use Exemptions (TUEs) para saber se estes são adequados ou se há um abuso destes com intenções de melhorar o desempenho desportivo. Em seguida, analisa-se o caso do “jiffy bag”, a embalagem levada para Bradley Wiggins no último dia do Critérium du Dauphiné 2011 e as dúvidas sobre o que continha e, finalmente, o uso exagerado do medicamento legal Tramadol pelos atletas da Team Sky e do British Cycling. Ao longo de todos estas situações, um tema recorrente é a falha em manter registos médicos apropriados.

Ora, o que é um TUE? Tratam-se de isenções para uso terapêutico, ou seja, o atleta é autorizado a recorrer a uma substância proibida após provar que necessita desta para tratar uma condição médica. Neste caso, a investigação surgiu devido ao revelar pelos hackers Fancy Bear em setembro de 2016 de que Bradley Wiggins tinha tido direito a TUEs nas vésperas dos Tour de France 2011 e 2012 e do Giro d’Italia 2013, provas em que pretendia disputar a Classificação Geral, para recurso a Triamcinolone para tratar a sua asma.

O conceito do TUE exige que este seja requerido pelo atleta indicando o porquê de fazer esse pedido e provando que este é necessário. Depois, será feita uma análise por médicos ligados à Agência Mundial Anti-Dopagem (WADA) ou ao órgão de governo da modalidade (neste caso a UCI, União Ciclista Internacional) que defere ou indefere o pedido. Na altura dos TUEs de Bradley Wiggins havia uma espécie de fast-track da sua atribuição, que permitia que apenas um médico analisasse o caso e decidisse. Em 2014, passou a ser sempre obrigatório que passasse por um painel de três médicos que teriam de aprovar unanimemente o TUE para este ser atribuído.

Este abuso dos TUEs não se limita ao ciclismo e foi levado à consideração da WADA por Richard McLaren, o autor do Relatório desta agência sobre o esquema de doping estatal russo e que percebeu nesse contexto que esse regime precisa der melhorado, pois ainda pode ser abusado. No caso concreto do ciclismo, um dos pontos curiosos era que no período em Wiggins usufruiu deste sistema, quase todos os pedidos apresentados por ciclistas eram tratados apenas por um médico e sempre o mesmo, o Dr. Mario Zorzoli.

O Presidente da UCI à altura, Pat McQuaid, diz ter falado com este médico e que ele lhe confidenciou que, por exemplo, na altura das Clássicas havia ciclistas que pretendiam ter bons resultados que tomavam corticosteroides em TUEs que não eram legítimos. McQuaid tem também sido um grande crítico público da Sky e do British Cycling, no entanto, há duas considerações que não podem ser ignoradas.

A primeira é de que é público o descontentamento – para não usar outros termos – de McQuaid por ter perdido a sua tentativa de reeleição na UCI para Brian Cookson, antigo líder do British Cycling. A outra é que apesar de todas estas declarações, McQuaid nunca agiu para controlar estes TUEs ou para colocar em causa a legitimidade das decisões do Dr. Zorzoli e o problema só começou a ser combatido já com Cookson na liderança da UCI.

Wiggins e Brailsford são dos mais visados pelo Relatório Parlamentar
Fonte: Team Sky

Quanto a Wiggins, os TUEs foram admitidos para tomar Triamcinolone dentro de competição, já que se trata de uma droga legal fora desta, para tratar a asma do britânico. Sim, há um número enorme de atletas que dizem ter asma, no Reino Unido serão 20% dos atletas Olímpicos, contra os 8% da população em geral. Se, por exemplo, no caso da natação há um número anormalmente grande de asmáticos devido aos químicos usados para tratar a água das piscinas, em certos desportos há quem questione a veracidade destas doenças. Referir ainda que para vários especialistas no tratamento de doenças respiratórias, o recurso a este medicamento indica uma má gestão da condição médica do atleta, já que há alternativas tão eficazes e com efeitos secundários menos severos.

O ex-ciclista David Millar, que foi a certa altura da sua carreira suspenso por doping e, a partir daí, se tornou uma das vozes mais fortes do pelotão no combate e prevenção a estas infrações, fala extensivamente sobre este tema no seu artigo do New York Times, “How to get away with doping”.

Uma das histórias referidas no artigo é de quando recebeu um TUE para uma falsa lesão no tendão, bastando que um médico passasse uma receita médica de como precisava de ser tratado com certo medicamente através de injeção intra-articular. Millar revela ainda que recorreu por três vezes na carreira ao Triamcinolone, o medicamento mencionada nos leaks do Fancy Bears, uma por doença e as outras para melhorar o desempenho desportivo e descreve o efeito desta na forma como fazia o corpo perder peso sem perder potência. Isto pode, em parte, ir de encontro a uma dúvida lançada sobre a transformação de Wiggins ao longo da sua carreira, já que este perdeu peso para trepar melhor, mas, contrariando o saber comum, não perdeu poder no contrarrelógio, a sua especialidade.

No entanto, o relatório aborda mal esta questão e coloca-a em termos longe do razoável ao comparar o seu peso de corrida na estrada de 70Kg com o da sua participação Olímpica de 2016 de 83Kg. Desde logo, porque estas mudanças provocadas pelo recurso a medicamentos são ganhos marginais, que influenciam a capacidade desportiva em atletas de elite, mas incapazes de operar perdas de peso de mais de uma dezena de quilogramas.

Adicionalmente, tratam-se de períodos bem diferentes da sua carreira, já que após a sua tentativa falhada de disputar o Giro 2013, o britânico começou a ganhar peso com os objetivos de, primeiro, disputar o Paris-Roubaix e, seguidamente, voltar à pista para a Perseguição por Equipas nos Jogos do Rio, duas vertentes em que o ciclista precisa de muito mais peso do que quando disputa provas baseadas em subir montanhas.

E o que dizem sobre tudo isto os protagonistas? Wiggins defende o uso, diz que necessitava da medicação e que esta não lhe deu vantagem, apenas voltou a nivelar o campo, permitindo-lhe alcançar o seu nível de forma normal se não estivesse a sofrer com a doença. Richard Freeman, o médico responsável, recorre no seu depoimento muitas vezes ao sigilo médico-paciente para dar meias respostas, falando do facto do facto muitas vezes esquecido de que os atletas profissionais raramente competem sem qualquer doença ou lesão, defende-se afirmando que só administra medicamentos para necessidades médicas e que o processo para os TUEs é transparente e independente.

Já Shane Sutton, na altura treinador no British Cycling e na Sky, afirma que o que Wiggins estava a fazer não era ético, mas não violava as regras.

Há ainda no relatório menção a um denunciante que se quis manter anónimo para o público e que declarou aos parlamentares que a Sky usava os TUEs para obter uma vantagem competitiva, explicando que em 2012 a equipa estava sob grande pressão para obter resultados e, por isso, David Brailsford, Diretor-Geral da equipa, terá pedido à equipa médica para tomar um papel mais proativo na obtenção dos mesmos.

De seguida, o Relatório debruça-se sobre o caso do “jiffy bag”, uma encomenda num saco que foi levada da sede do British Cycling para La Toissure, onde se disputava a última etapa do Critérium du Dauphiné 2011, que Bradley Wiggins venceu, e que continha um medicamento para tratar o britânico. Num primeiro momento, a Sky terá dito que esta se destinava a Emma Pooley, ciclista da equipa feminina britânica, mas esta estava na verdade em Espanha a mais de 1000 quilómetros de distância. Um outro sinal de suspeita é que Matt Lawton, o jornalista do Daily Mail que publicou em primeira mão a história afirma que Brailsford lhe perguntou o que precisava de ser feito para ele não a publicar.

Ora, ainda assim, há hoje uma versão dos acontecimentos que é, na sua grande parte, aceite como a verdadeira. Richard Freeman pediu a Shane Sutton para entregar na La Toissure uma embalagem médica, tendo ficado decidido que Simon Cope, treinador da seleção feminina o levaria quando se deslocasse a França para dar apoio logístico no final do Dauphiné. Assim, Freeman instruiu o médico Phil Burt sobre o que incluir na embalagem e este deixou-a para Simon Cope a levar. Quanto ao conteúdo, Freeman diz que se tratava de Fluimucil em nebulizador, Sutton diz que não foi informado, Burt que não se lembra e Cope que não abriu a embalagem. Como se diria numa serie policial, tudo muito conveniente.

Para Freeman, o Fluimucil em nebulizador é mais eficaz e em França só estava disponível a versão em pó, pelo que mandou vir da sede britânica. A Agência Anti-Doping do Reino Unido (UKAD) lançou uma investigação sobre este caso, tendo por base a suspeita de que na embalagem estava, na verdade, Triamcinolone, que a ser tomado até à meia-noite daquele dia (o último do Dauphiné) constituiria uma violação das regras anti-doping. Convém aqui referir que, neste ponto, a versão de Freeman é um pouco mais credível, já que após uma competição faz mais sentido recorrer ao Fluimucil porque está num estado de recuperação, enquanto o Triamcinolone será mais usado antes da corrida.

Uma solução que poderia trazer alguma luz sobre o conteúdo da embalagem seria consultar os registos médicos de Bradley Wiggins e, desta vez, Freeman não se escusa com o sigilo médico. O problema é que os registos estavam no seu portátil que foi roubado em 2014 numas férias na Grécia e não havia nenhuma cópia de segurança. Segundo o médico, a Sky tinha nesse tempo uma política ao nível dos melhores usos e que consistia em fazer upload para uma conta de dropbox, só que ele não se dava com o sistema e acabava por não o fazer. Ele e o outro médico com posição de chefia na Sky e no British Cycling, Steve Peters, terão até implementado um sistema de registo e controlo do uso de fármacos no British Cycling, mas tudo se perdeu. Agora, Freeman diz estar arrependido de não ter feito cópias.

Toda esta confusão levou a que a UKAD se visse forçada a arquivar a investigação concluindo apenas que não há provas para verificar o que estava na embalagem e entregando os factos ao General Medical Counsil (GMC), o órgão fiscalizador da prática de Medicina, para que este se pronuncie sobre a ausência de registos médicos.

Como se pode ver por todas estas peripécias, havia ao tempo dos factos uma grande promiscuidade entre a Team Sky e o British Cycling e esse tema também é abordado pelos deputados que demonstram alguma preocupação com isso. Também por haver esse sentimento, o recém-empossado Presidente do British Cycling, Frank Slevin, antigo executivo de uma cadeia de lojas de departamentos, veio a público esclarecer que essa relação já foi cortada e que não há hoje qualquer funcionário comum às duas estruturas. Na mesma declaração, assegurou que o British Cycling implementou novos procedimentos no campo médico e anti-doping e continuará a evoluir de acordo com as melhores práticas mundiais e revelou que referiu Freeman ao GMC para investigação.

A ética da gestão da Team Sky é colocada em causa
Fonte: Team Sky

A Comissão Parlamentar queria igualmente saber como o British Cycling e a Sky asseguravam que estavam a ser seguidos os procedimentos anti-doping adequados. Por isso, chamou a prestar informações David Brailsford, que diz ter levado a cabo uma investigação interna e que se limitou a chegar à conclusão de que estava Fluimucil na embalagem polémica porque foi isso que Richard Freeman disse. Além disso, garantiu que na Sky há grande conformidade com as linhas de gestão médica e que estão de acordo com os melhores padrões mundiais, não havendo um único médico a operar isolado. Bem, da conjugação destas alegação com os factos descritos, só uma de duas conclusões a tirar: ou a estrutura não é tão forte como Brailsford diz e este tem de ser responsabilizado pela falta de registos ou houve uma tentativa deliberada de não haver provas da verdade de certos acontecimentos.

O último ponto do relatório a focar-se no ciclismo é o recurso pelos ciclistas ao Tramadol. Trata-se de um medicamento que não é proibido pela WADA, ainda que esteja em revisão este estatuto, e que tem o seu uso principal como analgésico. Estudos recentes indicam que pode levar a um incremento de 5% de potência num contrarrelógio de 20 minutos, mas tem efeitos secundários adversos como sonolência e tonturas. Ou seja, mais uma vez, não estamos perante um caso de violação das regras anti-doping, mas sim de levá-las ao limite para lá do eticamente aceitável.

Tal como nas outras situações analisadas, há versões contraditórias. Michael Barry, antigo ciclista da Sky, diz que assistiu a colegas de equipa recorreram a esta substância com elevada frequência e outro ex-atleta da equipa, Josh Edmondson, refere que o uso recorrente desta droga até o levou a um estado depressivo no final de 2014. Já Jonathan Tiernan-Locke, que também viria depois a competir pela Sky, recorda-se de lhe ter sido oferecido Tramadol por Freeman no autocarro da Seleção Britânica aquando dos Mundiais de Estrada de 2012.

A equipa nega estas acusações e revela que tem em prática um modelo de escala de dor e que esse tipo de medicamentos mais fortes apenas é usado estritamente quando necessário, tentando os médicos evitar recorrer a eles. Acrescentam ainda que quando um ciclista tem de tomar Tramadol, não deverá estar nem a treinar nem a competir, tanto pelos efeitos secundários, como por estar em demasiadas dores para o fazer. De qualquer forma, há um crescente coro de vozes, nas quais se incluem a UCI e a UKAD, a pedir que o Tramadol seja integrado na lista de substâncias proibidas da WADA e é provável que tal venha acontecer na próxima revisão desta.

E ainda assim, mesmo com todas estas suspeitas e histórias mal contadas, a mais preocupante revelação do relatório é outra, é a de que a UKAD está severamente subfinanciada. E isto tem consequências práticas, nomeadamente, que os testes anti-doping sejam canalizados para alguns desportos em que há maiores suspeitas de fraude e que chegue a haver modalidades que não têm um único teste durante todo o ano.

Isto é preocupante não só porque coloca em causa a integridade dos desportos em que não são levados a cabo os testes suficientes, como porque contribui em muito para criar no público uma percepção errada de que certas modalidades têm mais dopados. Na verdade, o problema parece estar afinal em apenas essas terem direito a fundos para combater o doping.

Felizmente, perante o vir a público destas informações ao longo do inquérito da Comissão e a realização de uma auditoria total ao trabalho do UKAD levaram o governo britânico a anunciar em janeiro último um financiamento adicional de 6 milhões de libras para os próximos dois anos. Para a UKAD, ainda assim, esta não deve ser a única solução, propondo que haja um contributo maior em termos monetários dos desportos que geram mais dinheiro.

Ainda no tópico da Agência Britânica, é colocado em questão se esta tem poderes suficientes para levar a cabo a sua tarefa da melhor forma, dizendo a UKAD que tenta ir aos limites do que a lei permite, mas por vezes isso não é suficiente. Os deputados também demonstram alguma inquietação com ser a UKAD a gerir os tribunais em que os atletas são julgados, mas a Agência nega e diz que estes são responsabilidade do Painel Nacional Anti-Doping, que é responsabilidade de outra Agência Governamental.

Quanto ao restante do Relatório, trata da prevalência do doping no atletismo mundial e britânico e das punições que devem ser aplicadas aos atletas que violam as regras. A Comissão concluiu que a criminalização não seria producente, já que poria grande pressão sobre as autoridades policiais e judiciais e não terá um efeito tão dissuasor como suspensões desportivas. Por outro lado, é apontada como benéfica a criminalização do fornecimento de substâncias a desportistas para estes melhorarem o desempenho desportivo e defende-se uma suspensão de cinco anos de representar a seleção para atletas que violem as leis anti-doping, forçando-os a falhar dois ciclos olímpicos.

Olhando em perspetiva para todas estas problemáticas, a questão que fica na nossa mente é a de quanto ainda vale a ética no desporto. É que não se deslumbram propriamente situações em que hajam violações diretas das regras anti-doping, mas vemos um descomplexado e recorrente esticar das mesmas ao limite, sem em qualquer momento se parar para refletir na moralidade das ações. E este é, sem dúvida um desafio sobre qual todos os agentes desportivos têm de se debruçar, porque não basta cumprir as regras para ter uma competição limpa, justa e íntegra, é preciso ir além e lutar com todas as forças para dar dignidade e justiça ao desporto.

Foto de Capa: British Cycling

José Baptista

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