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Egan Bernal triunfa num Giro d’Italia com muito “lume” português

Ricardo Rebelo · 14 min

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De Zipaquirá para o topo do mundo, novamente. Egan Bernal consagrou-se como vencedor da 104.ª edição do Giro d´Italia no passado domingo e voltou a demonstrar o porquê de pertencer à elite dos voltistas do ciclismo atual.

Ofensivo, mas acima de tudo maduro e cirúrgico, uma autêntica dor de cabeça para aqueles que sonhavam com a vitória. O número um da Ineos Grenadiers arrumou com a concorrência (e com as dúvidas sobre a sua condição física devido ao problema nas costas) no miolo da corrida e exibiu uma estratégia conservadora, sempre suportada por uma equipa competente, à medida que o dia final, em Milão, se aproximava.

Com 24 anos e duas grandes voltas na bagagem, até onde é que Bernal pode ir? A forma como se comportou ao longo destas três semanas evidenciam um corredor mais experiente, pleno em termos de capacidade física e, principalmente, inteligente na gestão de toda a prova, o que de certa forma potencia ainda mais as suas qualidades.

Um livro nunca se deve julgar pela capa e a lógica aplica-se neste caso, até porque não foi só um Giro Grenadier com tons colombianos e uma locomotiva italiana. Momentos tensos e emotivos foram uma constante, como o feito de Lorenzo Fortunato, a naturalidade com que Sagan se vestiu à “Ciclamino”, os “Tacos” que beneficiaram de uma corrida aberta para atingir o melhor momento da carreira e claro, a extensa polémica no seio da Deceuninck Quick-Step, com a gestão tática da equipa sobre um João Almeida – em grande forma – à mistura, nunca descurando o altíssimo nível apresentado pelo português, pelos portugueses, aliás – Nélson Oliveira e Rúben Guerreiro tiveram nota positiva -.

A bolha competitiva contemplou uma panóplia de premiados, de surpresas, de desilusões e de momentos marcantes. Vamos, por isso, conhecê-los!

Foto de Capa: INEOS Grenadiers

A BODA DE PRATA DE EGAN BERNAL QUE PROMETE TORNAR-SE DE OURO

Falar desta vitória é como falar de um casamento perfeito, abençoado pelas bodas de prata, e que de uma miragem, passou a uma possibilidade bem real quando falamos das bodas de ouro para o jovem colombiano. 24 anos e fica a faltar apenas a La Vuelta para atingir o pleno de grandes voltas. Importa contextualizar isto, até porque, na pior das hipóteses, Egan Bernal tem uma década para manter o nível apresentado e juntar-se assim a nomes como Anquetil, Gimondi, Merckx, Hinault, Contador, Nibali ou Froome.

A tradição de prata chegou um ano mais cedo do que era suposto e a de ouro certamente não demorará mais duas décadas e meia. Não é certo que aconteça, mas refletir sobre o atual nível do jovem ciclista da Ineos é necessário, tornando o balanço deste Giro pródigo à perceção do ciclista que Bernal se está a tornar. Na lista de fatores que levaram o colombiano à camisola rosa, em termos gerais, terá de se referir sempre a sua postura. Dentro do núcleo da equipa britânica, a experiência e disponibilidade coletiva serviram de aliança para um destemido atleta na condição física, onde se destacou nos momentos chave.

Porém, não só de qualidade, capacidade ou talento se faz um campeão, e Bernal provou-o. A superioridade no asfalto ficou evidenciada, assim como a importância de uma equipa bem calibrada, contudo, outros aspetos relevantes desta vitória passaram pela exímia gestão de esforço, pela capacidade psicológica para gerir a emoção, as perdas e os ganhos de tempo, acrescentando a confiança no plano delineado em laboratório, dependendo dos diferentes tipos de necessidade.

O primeiro passo, ou pedalada séria, se preferir, deu-se com a primeira demonstração de força, que culminou com a vitória número um do colombiano numa grande volta. A chegada explosiva – em terra batida – a Campo Felice, na etapa nove do Giro, valeu mais pelo grito autoritário do que pelo primeiro dia de rosa. Antes, juntamente com Mikel Landa, denotava-se o degrau acima em que o líder da equipa de Dave Brailsford se encontrava, mas esse ficou bem patente na etapa 16, que contou com a passagem pelo Passo Giau, ponto alto da performance do novo campeão do Giro d´Italia.

Antes disso, já a etapa do Sterrato (11) e a chegada ao Zoncolan (14) deixaram bem vincada a diferença de forças entre os principais tubarões, com Bernal à cabeça. Sempre com Jonathan Castroviejo e Daniel Martinez perto de si, o jovem ganhou tempo aos seus rivais em praticamente todas as principais dificuldades nas etapas antecedentes ao último dia de descanso, sendo que nunca foram diferenças absurdas para Damiano Caruso ou Simon Yates, por exemplo, mas foram constantes. A bem dizer, os versos mais importantes desta história escreveram-se com a falta de resposta consecutiva nos momentos decisivos.

Em termos de oposição, não há muito a dizer. Um Damiano Caruso conformado e um Simon Yates algo inconstante acabariam por terminar no pódio. Aleksandr Vlasov correspondeu às expectativas e terminou num honroso quarto posto, sendo um dos corredores mais consistentes, a par de Emanuel Buchmann, que teve de abandonar, e Hugh Carty, responsável por uma performance mais inconstante também devido aos diferentes níveis de adaptação a condições climatéricas sempre em mudança.

Ainda sobre este top 10 final, o fiel escudeiro de Bernal, Daniel Martínez, concluiu na quinta posição, exibindo-se a grande nível na terceira semana, o que em muito ajudou a tornar a tática de controlo da Ineos bastante eficaz. João Almeida, muito atrasado na classificação, foi como uma bomba deixada para explodir na terceira semana, e assim se sucedeu. Romain Bardet, novamente de volta aos lugares cimeiros de uma grande volta, garantiu o sétimo posto, ao passo que Tobias Foss – jovem a ter em conta no futuro – e Dan Martin, vencedor de uma etapa, foram os restantes nomes a fechar nos 10 mais.

No fundo, Bernal construiu esta vitória com paciência e certificou-se do seu favoritismo à medida que as dificuldades foram passando, no entanto, a terceira semana foi mais complexa do que aquilo que se previa. Yates, predisposto a recuperar do “desfalecimento” no Passo Giau sobre um clima inóspito, exibiu-se de forma bastante atacante, a par de João Almeida. Bernal sentiu dificuldades e acabou por ceder terreno nas etapas 17 e 19, ao mesmo tempo que controlou sempre um fantástico Caruso, até mesmo na penúltima etapa da prova, onde o italiano atacou de muito longe com Bardet.

Se a segunda semana foi o seu pico, o decréscimo do mesmo sucedeu-se de forma controlada. Os ataques curtos e explosivos que lhe deram a vantagem necessária provocaram-lhe uma surpresa quando o “motor” rebentou na subida a Sega di Ala, na etapa 17. Soube adaptar-se, respondendo de forma positiva na 19ª etapa, limitando as perdas a segundos para Yates e distanciando-se de Caruso antes do último teste montanhoso e o contrarrelógio final.

O susto e a esperança de uma reviravolta cedo se acalmaram. Bernal geriu a etapa 20 juntamente com a sua equipa e entrou para o esforço final relativamente confortável. A vitória acabaria por se concretizar com a diferença de um minuto e 29 segundos para Damiano Caruso e quatro minutos e 15 para Simon Yates.

“CIRQUE DU LEFEVERE”: JOÃO ALMEIDA GARANTE SEXTO LUGAR NO MEIO DE MUITA POLÉMICA

A efeméride mediática que se abateu sobre a Deceuninck Quick-Step e João Almeida foi um dos pontos mais tensos do Giro d´Italia. Contextualizando, a público veio a intenção de atacar a competição transalpina com dois líderes, João Almeida e Remco Evenepoel, no entanto, à medida que a primeira semana se foi desdobrando, ingredientes como as declarações de Patrick Lefevere a confirmar a saída de João Almeida da equipa, a bonificação que a Deceuninck Quick-Step preparou para Remco Evenepoel atacar e o dia mau do Duro das Caldas na etapa quatro ajudaram a criar um cenário que em muito prejudicou o seu resultado final.

As responsabilidades máximas ficaram então a cargo do jovem prodígio belga que, em estreia em grandes voltas, prometia muito. As exibições de Remco estiveram longe de ser banais, não obstante, as dificuldades acabaram por aparecer e obrigaram principalmente João Almeida a permanecer junto do líder declarado da equipa, nomeadamente nas etapas do Sterrato e do Monte Zoncolan, onde o português teve ordens para esperar. Muito tempo perdido e a consciencialização de que os sete meses sem competição de Remco acabariam por pesar, mais tarde ou mais cedo, culminaram na desistência do belga, devido a queda, mas já depois de estar completamente enterrado na classificação geral.

As declarações de João Almeida, quando admitiu preferir estar calado a dizer o que pensava, de certa forma fizeram todo o sentido quando vimos a incrível terceira semana do português. É caso para se dizer “Bota Lume”, e de que maneira. Se até à etapa 16, a classificação geral ditava uma luta muito concentrada pelos sete, oito primeiros lugares, a ameaça João Almeida, que chegou a estar fora dos 20 primeiros, passou a fazer muito sentido para nomes como Carty, Bardet, Vlasov, Foss ou Martínez, isto quando ao fim de 15 etapas, o português ainda estava a cerca de três minutos do top 10.

Concentrando toda a atenção nesta ascensão meteórica, a determinação e garra do caldense, bastante características na sua forma de correr, faziam antever algo idêntico ao que acabou por acontecer. Com sobe e desce constante na última semana do Giro, o português esteve sempre ao ataque, sempre à procura de uma vitória em etapa, e esteve sempre perto de o conseguir. Além disso, não há como ignorar a evolução notória em altitude e em pendentes mais agressivas e longas. Se em 2020, em ano de estreia, deixou água na boca, este ano confirmou todo o seu potencial, distinguindo-se pela mentalidade ofensiva e sem medos no que concerne a ataques ainda longe da meta.

Contra Bernal, contra Yates, contra os melhores dos melhores. João Almeida atacou, respondeu, foi alcançado, ripostou quando parecia que não tinha mais nada no tanque, cedeu segundos, ganhou minutos. Um verdadeiro campeão que finalizou o Giro com nota máxima e muitos olhos sobre si com 2022 no horizonte. A acompanhar esta evolução, fazer referência para o desempenho de Rúben Guerreiro no apoio a Carty, consagrando-se sem discussão nenhuma como um dos melhores gregários da prova, observando-se ainda uma evolução na alta montanha. O mesmo se aplica para Nélson Oliveira, que entrou em fugas, esteve perto da rosa e usufruiu de uma maior liberdade para dar nas vistas.

SAGAN, FORTUNATO, TACO, GANNA E COMPANHIA: OS HERÓIS DO GIRO

Se a geral individual de uma grande volta motiva uma quota parte considerável de atenção mediática, existe também a necessidade de mencionar todos os outros momentos relacionados com as restantes classificações em disputa, assim como relembrar as próprias etapas mais emocionantes dos 21 dias de competição.

E começando pela emoção, o que dizer de algumas vitórias de nomes improváveis, nomeadamente em fugas, como a incrível marcha até ao risco de meta por Taco Van der Hoorn, da Wanty, logo na etapa três. A grande vitória do holandês foi o espelho de uma corrida que ofereceu espaço aos mais audazes para tentarem a sua sorte numa fuga. Joe Drombovski, Gino Mader, Victor Lafay, Mauro Schmid, Andrea Vendrame, Victor Campenaerts, Dan Martin e Alberto Bettiol compreenderam isso mesmo e tiveram pernas para levar uma etapa para casa. Falta apenas o nome de Lorenzo Fortunato, que, de todos estes atletas, talvez tenha sido o responsável por orquestrar o triunfo mais contagiante desta edição do Giro d´Italia.

25 anos. EOLO-Kometa. Monte Zoncolan. O que parecia uma fantasia virou realidade quando Fortunato, um dos elementos da fuga do dia, foi pela mítica montanha acima e ninguém foi capaz de o apanhar. A equipa de Alberto Contador e Ivan Basso jamais prognosticaria uma vitória desta magnitude, mas aconteceu e abrilhantou a prestação da formação “secundária” em termos de escalão World Tour.

Se tivemos espetacularidade em diversas lutas por etapas, o mesmo se aplica à vitória de Peter Sagan na classificação por pontos, envergando a “maglia ciclamino” em Milão, depois de bater Davide Cimolai e Fernando Gaviria por escassos pontos. A juntar uma vitória em etapa, esta conquista significa ainda a oitava classificação por pontos para o versátil corredor eslovaco.

Não se deu muito por ele, ou pelo menos como se costuma dar, mas o impactante ciclista da Bora-Hansgrohe respondeu da melhor maneira ao passado recente repleto de percalços físicos. A consistência e a capacidade para pontuar em praticamente todos os tipos de terreno são valias especiais ainda bem presentes no atleta, no entanto não se sentiu a frescura de outros tempos, o que acaba por se explicar com a natural curva do seu auge e a emancipação de adversários a entrar no mesmo, como é o caso de uma armada italiana bem conhecida dos adeptos e de um Caleb Ewan competente.

Para além das duas prestações de Filippo Ganna à Filippo Ganna, com duas vitórias em dois contrarrelógios, o sprint, outro domínio igualmente importante, contou com um Caleb Ewan acima de todos os outros, pelo menos em termos de explosividade. Duas etapas, contra uma de Tim Merlier em ascensão em termos de carreira, outra de Giacomo Nizzolo, que obteve a primeira numa grande volta e a jornada vencida por Peter Sagan. Em relação aos restantes nomes, destaque para a prova consistente de Davide Cimolai, Elia Viviani e Fernando Gaviria. Sem vitórias, mas sempre na discussão das mesmas, assim como o regressado Dylan Groenewegen – a meio gás -, Max Kanter ou Matteo Moschetti, numa segunda linha.

Em relação à outra classificação por pontos, mas relativa à montanha, não se pode dizer que a luta foi emocionante. Uma corrida a solo terminou com a vitória de Geoffrey Bouchard, da AG2R Citroen Team, que apenas encontrou oposição num Bernal desinteressado na luta pelo objetivo do francês. A classificação por equipas foi vencida sem espinhas pela Ineos Grenadiers, quanto à classificação da juventude, vencida por Bernal, destaque para os óbvios Vlasov, Martínez e João Almeida. Mencionar ainda as prestações de Foss e Attila Valter, dois jovens que prometem intensificar o seu crescimento a curto prazo.

Na lista de surpresas e desilusões, em todos os parâmetros, existem alguns pontos a abordar. Começando pelas agradáveis surpresas, Damiano Caruso tem que ser uma das principais. O terceiro homem da Bahrain – Victorius portou-se como um senhor e levou um memorável segundo lugar para casa. Foss, um dos príncipes da nova geração dinamarquesa repleta de talento, garantiu também um excelente nono lugar, constituindo-se como mais uma promessa dentro da Jumbo-Visma para voos realmente grandes. Para além dos óbvios Fortunato, Valter ou um Bettiol de volta à ribalta, destaque para a conquista de Bouchard e ainda para Simon Carr, Chris Hamilton e Gino Mader.

Quanto às desilusões, podemos enunciar as mesmas a partir da falta de correspondência em termos de expectativas. Diego Ulissi, Fausto Masnada, Vincenzo Nibali, Davide Formolo, Giovanni Visconti ou Elia Viviani foram os italianos de quem se esperava um pouco mais. Na mesma linha, Bauke Mollema, Marc Soler, Harm Vanhoucke ou Jai Hindley foram outros corredores que estiveram mais apagados.

Rica em conteúdo, histórias e espetáculo. Terminou assim a primeira grande volta deste ano e as maiores ilações que podemos tirar dizem-nos que temos um Bernal para fazer frente à dupla eslovena e um português, de seu nome João Almeida, a fazer cada vez mais história a cada dia que passa e a trazer novos e antigos adeptos da modalidade, cada vez mais concentrados no apoio à Pantera das Caldas da Rainha. O melhor para João Almeida e para o ciclismo português ainda está para vir!

Ricardo Rebelo

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