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Fuga gloriosa de dupla sul-americana trava João Almeida | Ciclismo

Ricardo Rebelo · 6 min

Fuga gloriosa de dupla sul-americana trava João Almeida | Ciclismo
Foto: Volta Catalunya

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A 101ª edição da Volta à Catalunha, uma das corridas mais antigas do mundo, terminou com o triunfo de Sergio Higuita (BORA – hansgrohe). O colombiano superiorizou-se a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers) e ao português João Almeida (UAE Team Emirates), por 16 e 52 segundos, respetivamente.

Os sete dias de competição na região ibérica foram pródigos em emoções, surpresas e drama, muito drama. Depois da nação australiana ter dito “presente” nas três primeiras jornadas, foi a vez de Portugal celebrar mais uma vitória épica de João Almeida, em Boí Taüll. No entanto, as fortes possibilidades do ciclista luso vencer a classificação geral esbarraram numa etapa seis demoníaca, onde o duo sul-americano brilhou numa escapada audaz, ao passo que UAE Team Emirates foi a grande derrota do dia, por inúmeras razões.

Foto de Capa: Volta Catalunya

TAMBÉM HÁ DIAS MENOS PENSADOS NA UAE TEAM EMIRATES

A exibição personalizada de João Almeida na etapa rainha da Volta à Catalunha colocou a concorrência em sentido, mas não foi suficiente para vencer a sua terceira classificação geral. Um pouco a fazer lembrar o caos tático que a Movistar protagonizou em múltiplas decisões, retratadas no documentário “El día menos pensado”, a ligação entre Salou e Cambrils (jornada seis) revelou-se penosa para as ambições do dorsal número um da equipa. Dois dias antes, na etapa três, La Molina coroou Ben O´Connor (AG2R Citroen Team) como vencedor, mas não causou diferenças abruptas na classificação geral e, na perspetiva da UAE Team Emirates, foi ainda mais positiva pela prestação de Juan Ayuso, que se afirmou como uma carta válida para atacar a liderança com João Almeida.

O presságio era animador e a situação na classificação geral prometia ficar mais clara com a etapa que terminou em Boí Taüll, e assim foi. João Almeida foi superior aos seus adversários, levando dois deles na roda – Sergio Higuita e Nairo Quintana (Team Arkéa Samsic) – depois de um esforço monumental, que abriu espaços e causou estragos na restante concorrência. A ritmo, apenas os dois colombianos conseguiram seguir o caldense e disputar a vitória sobre a linha de meta, porém, sem sucesso.

A Ben O´Connor sucedeu Nairo Quintana na liderança, ainda que com o mesmo tempo de João Almeida. Tudo indicava que a corrida seria decidida ao segundo, nos sprints intermédios e nas poucas dificuldades de nível elevado que restavam. A camisola de líder, de facto, saltou para o corpo de João Almeida graças a um segundo ganho numa meta volante, contudo, a defesa da mesma não correu nada bem.

A fuga de Higuita e Carapaz, numa fase tão preliminar da etapa, apanhou João Almeida desprevenido. O grande trabalho de Luke Plapp (Ineos Grenadiers) cortou o grupo e quem beneficiou da má colocação do líder foram dois dos maiores rivais na luta pela geral. A incapacidade da formação do médio oriente em fechar o espaço criado pelas locomotivas do Equador e da Colômbia era evidente, e manteve-se acima de três minutos durante larga parte do dia.

O grande trabalho de Marc Soler e Rui Costa ajudou a evitar uma diferença ainda maior, no entanto, ficou bem patente a ineficácia da equipa para controlar a etapa. A descida que antecedeu o final em Cambrils foi também um dos pontos altos do dia, isto porque Juan Ayuso atacou e abriu um espaço para o pelotão, que fechava nesse momento algum terreno para os dois da frente.

Vários cortes acabaram por surgir e a promessa espanhola, no momento em que estava com mais de 30 segundos de vantagem, acabou por recuar, terminando a jornada integrado no grupo de João Almeida, assim como de todos os homens da geral, praticamente a 50 segundos do vencedor Carapaz e Sergio Higuita.

No final, a justificação para a hecatombe na geral surgiu a partir de problemas no rádio de Juan Ayuso, como o próprio admitiu numa publicação na rede social Facebook, e também na autoavaliação de João Almeida, que admitiu o mau dia e explicou a ação de Juan Ayuso como uma sugestão que partiu do português: “Tinha um pouco de pressão a mais nos pneus e estava a escorregar um pouco nas curvas. Por isso disse ao Ayuso para ir sozinho, pois ele tinha uma boa distância e no final acabou por resultar, já que ele estava no grupo da frente com outros ciclistas e eu fiquei num outro”.

Com apenas o derradeiro circuito de Barcelona para o final da competição, a geral não sofreu nenhuma mudança de relevo, coroando o colombiano Higuita com as vitórias na classificação geral, juventude e montanha, o campeão olímpico Carapaz com um triunfo em etapa e a segunda posição final e ainda João Almeida, terceiro classificado e vencedor da etapa rainha da 101ª edição da corrida.

AUSTRALIANOS DOMINARAM; VERNOM, AYUSO E JOHANNESEN FORAM AS REVELAÇÕES

Michael Matthews (Team BikeExchange – Jayco), Kaden Groves (Team BikeExchange – Jayco) e Ben O´Connor. A austrália venceu três etapas consecutivas com três ciclistas distintos, colocando-se em destaque na restrospetiva daquilo que foi a Volta à Catalunha.

Seguindo pela ordem cronológica dos eventos, a tão esperada vitória de Michael Matthews surgiu logo a abrir, com um grande sprint num falso plano e arrancada a ferros sobre Sonny Colbrelli (Bahrain-Victorius), que imediatamente após o final da etapa teve um problema cardíaco grave, encontrando-se estabilizado neste momento e sob observação contínua.

O segundo dia reservou uma chegada propícia a puros sprinters. O vencedor? Novamente australiano e novamente da formação australiana: Kaden Groves. O jovem de 23 anos obteve a sua primeira vitória no World Tour à frente de nomes como Phil Bauhaus ou Hugo Hofstetter.

Das jornadas em terreno acidentado ou plano, passamos para a primeira grande dificuldade, La Molina, que viu Ben O´Connor, com um ataque de longe, a confirmar a vitória por escassos segundos. A Austrália fazia três em três e, noutro dado interessante, Kaden Groves estava já bem encaminhado para garantir a camisola por pontos, que acabou por ganhar.

Retirando da equação a vitória de João Almeida à base da força e a escapada gloriosa de Richard Carapaz, os restantes vencedores foram Ethan Vernom (etapa cinco) e Andrea Bagioli (etapa sete), ambos da Quick-Step Alpha Vynil Team, selando assim a lista de vitoriosos.

Por fim, destacar outra rima de vitoriosos na estrada, mas não no papel. Foram algumas as revelações que se destacaram pela positiva, muitas delas com o primeiro excelente desempenho ao nível World Tour:

Juan Ayuso, por exemplo, exibiu-se a grande nível nas maiores dificuldades, junto dos melhores: o estatuto de promessa espanhola parece começar a pesar desde cedo na forma do ciclista correr. Ethan Vernom (Quick-Step Alpha Vynil Team), para além de uma vitória, é mais um jovem britânico de grande qualidade a aparecer, esperando-se que seja uma mais-valia da nova geração das Terras de Sua Majestade. Por fim, nesta lista restrita, o único nome fora do meio World Tour: Tobias Johannessen, da Uno-X Pro Cycling Team, um voltista em formação e que obteve um excelente desempenho em alta montanha.

Ricardo Rebelo

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