
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Desde hoje e até 29 de Maio, a Volta à Itália irá estar na estrada. A 99.ª edição será um pouco diferente das dos últimos tempos, pelo menos em termos de percurso. Em termos de candidatos, são três os principais: Vincenzo Nibali, Alejandro Valverde e Mikel Landa. O italiano procura o seu segundo troféu, enquanto que os espanhóis quererão que o título não fique “em casa”.
Depois de vários anos como uma corrida verdadeiramente montanhosa e difícil para quem não fosse um puro trepador ou um all-rounder, o Giro deste ano acaba por dosear melhor as várias fases da prova e a edição deste ano apresenta apenas duas etapas de verdadeira alta montanha (com tudo o que envolve essa perceção de “verdadeira alta montanha”, porque até poderíamos considerar pelo menos mais duas outras etapas de alta montanha), com, pelo menos, quatro etapas de média montanha, aliadas a, igualmente, sete etapas próprias para os sprinters (com mais uma ou outra que poderá estar dedicada às fugas) e três contrarrelógios: um prólogo de quase 10 kms, logo na primeira etapa, um CR de pouco mais de 40 kms a meio e a habitual, no Giro, crono escalada.
A prova arranca na Holanda, com o tal CR inicial, e continuará em terras holandesas por mais duas etapas, próprias para os sprinters, mas onde o pelotão estará bastante nervoso e poderão existir as tais quedas. Depois disso, teremos o primeiro dia de descanso, sendo que antes os ciclistas já terão seguido viagem para Itália. As duas primeiras etapas em solo italiano não estão aptas a todos os sprinters, mas serão duas etapas que terminarão, em princípio, ao sprint (tendo em conta as pequenas subidas a poucos quilómetros do final, poderemos ter vitórias de “puncheurs”).

Fonte: gazzettaworld.com
Depois de algumas etapas com pouca ação entre os favoritos, iremos ter a primeira chegada em alto, ao pé de uma estação de ski, em Aremogna. Com 17 kms de extensão, a subida final apresenta uma inclinação média de 4,8% e, possivelmente, teremos quase todos os principais candidatos a discutirem esta etapa.
Na sétima etapa poderemos voltar a ter a vitória de um sprinter, sendo que na etapa seguinte iremos ter um percurso que contará com pelo menos seis kms de terra batida, já a chegar à parte final da etapa, sendo que são a subir e bastante duros, algo que poderá ser decisivo nas contas finais. Na etapa seguinte, voltaremos aos contrarrelógios; neste caso, teremos uma corrida contra o tempo em cerca de 40 kms, situação que certamente irá fazer razoáveis diferenças entre os demais favoritos.
Depois de novo dia de descanso, voltaremos a ter os principais candidatos a lutarem entre si numa etapa com uma chegada a subir. Será um bom testar de pernas depois de um CR cansativo e desgastante e o já mencionado dia de descanso. Seguidamente, voltamos às etapas que poderão terminar num frente a frente entre os homens mais rápidos do pelotão, sendo que a 11.ª etapa será mesmo praticamente plana e uma boa oportunidade para os líderes das equipas gerirem bem o esforço e “descansarem”.
As etapas 13 e 14 poderão ser decisivas na seleção dos favoritos à conquista da maglia rosa. Quem não estiver bem nestes dias, poderá dizer adeus, em princípio, à oportunidade de conseguir um resultado de topo na tabela classificativa. A etapa 14, principalmente, será mesmo um verdadeiro teste à qualidade de trepador de cada um dos ciclistas presentes. Iremos ter seis subidas, começando em Passo Pordoi (9,2 kms a 6,9% de inclinação) e terminando em Passo Valparola (11,5 kms a 5,8% de inclinação). Será, sem dúvida, um sábado bastante interessante e promissor.
No domingo, teremos a já referida crono escalada, com pouco mais de 10 kms, mas um CR bastante duro e que poderá servir de “tie-breaker” entre alguns dos candidatos. Depois dessa etapa, voltaremos a ter um dia de descanso.

Fonte: dorsal51.wordpress.com
Chegamos, então, à terceira e decisiva semana da prova, com três oportunidades para os favoritos, duas para os sprinters e uma etapa onde uma fuga poderá ter real sucesso (poderão ser poucas as oportunidades para tal neste Giro). A primeira dessas etapas montanhosas terá “apenas” 132 kms, com o seu final a ser numa contagem de terceira categoria e antecedida por outra de segunda, com cerca de 10 kms a 7,25% de inclinação. Há que ter em atenção esta etapa, porque nunca é demais recordar que, no último ano, Fábio Aru provavelmente terá perdido aqui (e na etapa seguinte) o Giro para Alberto Contador, devido à diferença que faz o dia de descanso (por vezes, o descanso acaba por ser mais negativo do que positivo).
Na 17.ª etapa teremos, em princípio, chegada ao sprint com os homens mais rápidos que ainda “sobrarem” depois de várias etapas de montanha e de contrarrelógios exigentes. A etapa seguinte irá ser marcada por ser a etapa com mais quilómetros da prova: mais de 240. Sendo uma etapa plana até metade e com algumas “pequenas” subidas no final e tendo em conta que as duas etapas seguintes terão bastante montanha, poder-se-á prever a possibilidade de uma fuga vingar.
Chegamos à etapa 19 e ao bem conhecido Cima Coppi, subida mais alta de toda a prova, com 2744 metros de altura, e “colocado” a meio da etapa. O final será em Risoul, subida final com 12,8 kms e a 6,9% de inclinação. Depois disso, teremos a etapa 20 e que irá percorrer os Alpes, mais propriamente entre a francesa Guillestre e a italiana Sant’Anna di Vinadio. A etapa terá três subidas bastante desgastantes e uma subida final de terceira categoria que acredito que não faça tantos “estragos” como a penúltima subida.
Este Giro irá terminar em Turim numa etapa, novamente, com final esperado ao sprint e entre os homens mais rápidos que conseguiram superar toda a exigência desta prova e aqueles que ainda estarão na luta pela camisola dos pontos, se o vencedor desta ainda estiver em aberto. Será, igualmente, uma etapa de consagração para o homem mais forte da edição que antecederá a prova centenária deste Grand Tour em terras italianas.
Esta será a 12.ª vez em que o Giro irá começar fora de Itália. Em relação a totais, portanto, serão 3463,1 quilómetros em 21 etapas, com a média a ser de 164,9 kms por etapa, sendo que 61,1 kms deste Giro serão em contrarrelógio. Sem dúvida, muitas oportunidades propícias a um excelente espetáculo.

Fonte: The Guardian
Em termos de favoritos para vencer esta prova, tal como disse, iremos ter três principais nomes para tal. Vincenzo Nibali está num restrito grupo de elite que já venceu as três grandes voltas. Vincenzo está de regresso ao seu país para a sua prova predileta, visto que no ano passado se concentrou no Tour. O Tubarão “joga em casa” e tem a experiência de saber vencer um Giro; são estas as suas grandes “armas” para esta prova. Começou o ano por vencer a Volta a Omã, mas tem vindo a perder algum fulgor e com resultados pouco bem conseguidos tendo em conta as expetativas. Mas o italiano também costuma estar assim e depois fazer excelentes provas nos Grand Tours, se realmente estiver focado no objetivo.
Além da vitória em 2013, o ciclista de 31 anos tem ainda outros dois pódios, com dois terceiros lugares, em 2010 e 2011. Além disto, na minha opinião, tem a equipa mais forte, para as montanhas, a seu lado. A Astana, mais uma vez, vem extremamente bem apetrechada para esta prova, com ciclistas como Fuglsang, Scarponi ou Kangert para ajudaram o italiano a conseguir o seu objetivo principal.
O principal adversário do já vencedor de um Giro será o “estreante” Alejandro Valverde. Esta será a primeira vez que o espanhol irá fazer a Volta à Itália, estando, por isso, um “degrau” abaixo em termos de favoritismo para Nibali. Em termos de vitórias em grandes voltas, Valverde apresenta a vitória na Vuelta em 2009 (tendo mais cinco pódios na prova espanhola), mas tem muitos outros resultados de eleição, que fazem do espanhol um dos melhores ciclistas deste século. É um dos mais completos ciclistas da atualidade e tem tudo para brilhar numa prova italiana com várias vertentes e com algumas etapas bem ao estilo do murciano.
O ciclista de 36, apesar de não ser tão bom trepador como Nibali, tem uma melhor leitura de corrida e uma melhor ponta final, algo que poderá ser crucial para ganhar segundos importantes e que poderão ser decisivos no final. Além disso, também ele tem à sua volta uma excelente equipa. A Movistar leva ciclistas como Andrey Amador, 4.º classificado no ano passado, Giovanni Visconti, vencedor da classificação da montanha do Giro no ano passado, ou Carlos Betancur, ciclista que poderá ser uma das maiores surpresas da prova, tendo em conta um passado recente menos famoso e algo controverso.

Fonte: roadcyclinguk.com
A juntar a estes dois grandes nomes, temos Mikel Landa, ciclista que terminou no pódio da edição anterior deste Giro e que promete lutar até ao fim pela prova, mesmo tendo em conta os seus conhecidos problemas com os contrarrelógios (certamente, compensará muitas das perdas na montanha, mas veremos se será suficiente ou não). O basco de 26 anos também ganhou duas etapas nessa prova, mas como corredor da Astana. Desta vez, encontra-se numa equipa como a Sky e parte como o líder da equipa. Após uma boa vitória no Giro del Trentino, é esperada muita luta por este excelente trepador. A Sky tem no seu elenco ciclistas como Mikel Nieve, Nicholas Roche ou David Lopez, que poderão ser de grande ajuda para Landa, principalmente em terrenos mais inclinados.
É possível afirmar que ainda não vimos nenhum dos três em grande forma, este ano. Esperemos, então, que tenham guardado as suas melhores cartas para esta prova e que possamos ter o Nibali do Giro de 2013, o Landa do Giro de 2015 e o Valverde líder do ranking mundial durante vários anos e dominador em várias provas, seja por etapas, sejam clássicas.
Além destes três grandes nomes, podemos apontar mais alguns como candidatos ou à vitória ou a um possível top’3/top’5/top’10: Rafal Majka (Tinkoff), 7.º em 2013 e 6.º em 2014, Rigoberto Uran (Cannondale), 2.º classificado em 2013 e 2014, Ilnur Zakarin (Katusha), Steven Kruijswijk (LottoNL-Jumbo), a dupla da AG2R Domenico Pozzovivo e Jean-Christophe Peraud, Tom Dumoulin (Giant), que quase fez de “Leicester” na Vuelta do ano passado e, apesar de parecer que está mais no Giro para vencer contrarrelógios, poderá ter uma palavra a dizer na geral individual, Esteban Chaves (Orica-GreenEdge), Ryder Hesjedal (Trek) ou Damiano Cunego (Vini Fatini).

Fonte: cyclingweekly.co.uk
Em termos de sprinters, iremos ter igualmente um bom elenco. Marcel Kittel é o grande favorito a vencer as chegadas puras em sprint. O alemão parece de regresso ao seu melhor nível e já tem oito vitórias desde que começou a temporada. André Greipel será, em princípio, o seu maior rival. O também alemão viu a sua preparação afetada devido a uma queda na Volta ao Algarve. Vem da Volta à Turquia com uma vitória, tendo sido “apenas” a terceira em quatro meses. No Giro, em três participações, tem uma vitória em cada participação e é expetável que, pelo menos, mantenha esse registo de o mínimo de uma vitória por cada participação.
Giacomo Nizzolo, vencedor da camisola dos pontos no ano passado, também deverá ser tido em conta, quer para vencer etapas, quer para voltar a vencer a classificação dos pontos. Ele ainda não venceu nenhuma etapa no Giro e este poderá, portanto, ser o primeiro ano em que isso acontecerá. Sacha Modolo, Elia Viviani ou Arnaud Démare serão outros dos nomes a ter em conta.
Bem como Caleb Ewan. Deixei de propósito para o fim um dos jovens mais promissores da atualidade, principalmente no que toca aos sprints. O australiano da Orica já venceu uma etapa num Grand Tour, na Vuelta do ano passado, e quero acreditar que irá voltar a fazê-lo nesta Volta a Itália. O ciclista de 21 anos alia a velocidade à versatilidade, já que tanto pode lutar contra puros sprinters como também ser um verdadeiro rival em etapas com ligeiras subidas. Será realmente interessante observar a prova deste jovem, que tem estado em destaque por mim já desde há algum tempo e que espero mesmo que continue a progredir da melhor forma para se tornar num dos melhores sprinters do pelotão internacional.

Fonte: irishtimes.com
O único participante português será, mais uma vez, André Cardoso. O ciclista da Cannondale costuma ser bastante regular, rodando o top’20 quase sempre em provas de três semanas, mesmo tendo que estar a apoiar os seus líderes. Acredito que este ano não será diferente e voltaremos a ter um André Cardoso a fazer uma prova regular e, quem sabe, pode ser que tenha a liberdade suficiente para tentar procurar a vitória numa etapa. Destaque, também, para aquele que será o último Giro de Fabian Cancellara, ele que procura ainda a oportunidade de poder vestir a camisola rosa.
Portanto, temos todos os ingredientes necessários para termos uma Volta à Itália muito boa e cheia de acontecimentos marcantes. Esperemos que o fair-play se alie ao espetáculo e que tenhamos disputas bastante interessantes na estrada para ver quem será o vencedor de cada etapa e, mais importante, da classificação geral final deste Giro 2016!
Não deixes ainda de ouvir o podcast ‘BnR Modalidades‘ dedicado a este Giro d’Itália!
Foto de Capa: pelotonmagazine.com









