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Giro d´Italia | Fase decisiva com dose “montanhosa” no menu

Ricardo Rebelo · 6 min

João Almeida forçado a abandonar o Giro
Foto: UAE Team Emirates

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São seis as jornadas que separam a 105.ª edição do Giro d’Italia do seu término. Com dois terços da corrida percorridos, ao dia de hoje, os frutos da segunda semana de prova deram a Richard Carapaz (Ineos Grenadiers) a tão desejada camisola rosa. Desengane-se, no entanto, quem pensa que a situação está controlada: o equatoriano tem uma ligeira vantagem sobre Jai Hindley (BORA-hansgrohe) e o português João Almeida (UAE Team Emirates), que, na classificação geral, se encontram a sete e a 30 segundos, respetivamente.

A luta pela classificação geral ganha agora outra dimensão com as dificuldades que a terceira semana reserva aos ciclistas. Quem é o mais forte? Ou quem estará mais forte para o que aí vem? Boas perguntas. Mas  primeiro, sobre respostas, convém referenciar a etapa número 14 e as mudanças classificativas. A ligação entre Santena e Torino, apesar da escassez de altitude, não impediu diferenças de tempo: a medição de forças sucedeu-se no sempre complicado terreno acidentado e permite-nos ter uma ideia sobre o que aí vem.

Na geral, Carapaz, Hindley e o surpreendente Vincenzo Nibali (Astana Qazaqstan Team) estiveram um furo acima dos restantes. O ex-vencedor do Giro e líder da Ineos Grenadiers lançou-se ao ataque de longe, numa movimentação bastante ambiciosa, só igualada por um Hindley tão ou mais forte que Carapaz e um tubarão de Messina retornado às grandes dentadas.

Noutras lutas, Biniam Girmay (Intermaché-Wanty-Gobert Matériaux) bateu de forma espetacular Mathieu van der Poel (Alpecin-Fenix), ao sprint, abandonando a corrida no próprio dia, devido a um incidente no pódio. De lamentar, para além do infortúnio do Eritreu, de 22 anos, o abandono de Romain Bardet (Team DSM) por problemas estomacais, num momento em que apresentava condições para lutar pela camisola rosa. Do outro lado da moeda, a fase intermédia da competição deu a Arnaud Démare (Groupama-FDJ) mais uma vitória e a praticamente certa classificação por pontos. Albert Dainese (Team DSM), Stefano Oldani (Alpecin-Fenix), Simon Yates (Team BikeExchange-Jayco) e Giulio Ciccone (Trek-Segafredo) foram os outros vencedores da semana.

A LUTA PELA CAMISOLA ROSA É “AGORA”!

Para além do pódio virtual, não há como descurar outras cartas bastante válidas na luta pelo Giro d’Italia. No lote dos dez primeiros, observamos nomes que, em condições normais  lutariam para assegurar posições próximas das quais já se encontram. Mas, à entrada para a última semana, é preciso compreender que as diferenças são escassas comparativamente a edições anteriores.

Isto explica-se pela forma como a corrida tem sido feita, e também pelo equilíbrio de forças entre os líderes que resistem ou que, por questões adversas, não foram obrigados a abandonar. O trajeto brutal em termos montanhosos que falta ultrapassar beneficia psicologicamente aqueles que, até ao momento, se demonstraram mais fortes: o resto, serão as pernas a decidir. A regularidade será chave, estando o primeiro teste para os homens da geral marcado para esta terça-feira… e que teste.

O futuro vencedor do Giro está neste lote: Hindley, que nem tem sido o melhor exemplo em termos de consistência na sua curta carreira, dá mostras de potência, ao passo que Carapaz será talvez a aposta mais sólida. Sobram João Almeida, a dupla da Bahrain-Victorius, Mikel Landa e Pello Bilbao, e ainda, para os mais desconfiados, Nibali, Domenico Pozzovivo (Intermaché-Wanty-Gobert Matériaux) e o plano B da BORA-hansgrohe: Emanuel Buchmann.

O Duro das Caldas é mesmo a maior ameaça ao duo da frente na luta pela rosa. Com a camisola branca encaminhada, João Almeida joga com o contrarrelógio final a seu favor e o facto de, apesar de ter passado dificuldades, rejeitando mudanças bruscas de velocidade nos momentos mais tensos, ter conseguido controlar as perdas de forma exímia. As difíceis montanhas italianas vão dar a resposta à pergunta que tanto se faz, ou quer fazer: João Almeida vai conseguir fazer uma terceira semana como em 2021? Se for o caso, a rosa é mais do que possível, sendo, de longe, a maior ameaça para Carapaz e Hindley.

Sobram também Landa e Bilbao, duas ameaças bastante válidas e que representam também o maior perigo – a par de Nibali -, para João Almeida e o seu objetivo de finalizar no pódio. Observando os perfis das etapas dos próximos dias, a corrida pode ser feita por inúmeros universos táticos, sendo que Carapaz, apesar de forte, não aparenta estar superior em termos físicos e com um bloco tão coeso, ao passo que Hindley precisa de provar a sua regularidade, e tem equipa para o ajudar, assim como a Bahrain-Victorius em auxílio do seu líder Landa. João Almeida e Nibali, por outro lado, provavelmente vão estar entregues aos lobos, precisando de fazer a sua corrida e aproveitar qualquer nuance que os favoreça.

OS VENCEDORES DA SEMANA DE TRANSIÇÃO

A já acima referida vitória de Girmay saiu cara ao prodígio africano. Depois de bater um nome como Mathieu van der Poel, as celebrações custaram o resto da prova ao ciclista, que foi obrigado a abandonar depois de um acidente no pódio, que culminou com uma lesão ocular, fruto de uma rolha que embateu com estrondo no rosto de Girmay. Antes, na estrada, a promessa ganhou mais asas depois de, num sprint a dois, mesmo com o portento da Alpecin-Fenix na roda, ter conseguido manter um ataque potente, romantizado pela aceitação corporal do adversário… e, mais uma vez, que adversário para se vencer daquela maneira.

No seguimento da vitória histórica do africano, reforçar a dose de emoção associada também à vitória de Giulio Ciccone que, arredado da luta pela geral desde muito cedo, admitiu que o triunfo em Cogne lhe tirou um peso de cima, depois de descarregar vários “climbers” de qualidade nas dificuldades finais da etapa.

Ao sprint, Arnaud Démare e Albert Dainese foram os grandes vencedores das chegadas em pelotão compacto. O francês disse presente e confirmou a sua superioridade, mas não sem antes ver Dainese a vencer de forma surpreendente, não só por ter Cees Bol na equipa, mas também pela forma como venceu.

De resto, Stefano Oldani foi o homem vitorioso em Génova, num sprint a três, sendo o mais forte da fuga protagonizada na etapa número 12. Sobra apenas Simon Yates e o seu belo triunfo na destacada 14ª etapa, intrometendo-se entre os homens da geral (arredado devido a perdas de tempo associadas a uma queda) e vencendo pela segunda vez nesta edição da primeira grande volta do ano.

Com tudo isto, faltam os tais seis dias para Verona e muito por decidir. O Giro d’Italia promete muito, com etapas obrigatórias dia sim, dia sim, até domingo. Quem vai suceder a Egan Bernal? Eis, no final de contas, a pergunta mais importante.

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

Ricardo Rebelo

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