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Philippe Gilbert: Memórias de um “matador” sem preferências

Miguel Monteiro · 6 min

Philippe Gilbert: Memórias de um “matador” sem preferências
Foto: Lotto Soudal

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Philippe Gilbert nasceu a 5 de julho de 1982 numa das principais cidades da Valónia, Verviers (Bélgica), e, servindo-se de toda a cultura velocipédica existente no seu país de origem, tornou-se ciclista e acabou por se estabelecer como um dos maiores ícones da modalidade. Philippe, também conhecido como o “javali das Ardenas”, devido à sua imensa qualidade como puncheur, triunfou pela primeira vez (como profissional) em janeiro de 2004, na terceira etapa do Tour Down Under, vencendo um sprint em grupo reduzido, e, desde aí, conquistou mais 79 vitórias. Com ataques ferocíssimos, um espírito ofensivo sempre presente e uma leitura de corrida singular, Philippe Gilbert notabilizou-se e é, por isso, indiscutivelmente, tido como um dos grandes da modalidade.

Foto de Capa: Lotto Soudal

MAIORES FEITOS PESSOAIS

Em outubro de 2009, competia já Philippe pela equipa da Silence-Lotto (atualmente, Lotto Soudal), tendo iniciado esta sua gloriosa e inigualável passagem pela estrutura belga no início desse ano, após deixar o conjunto do deveras emotivo Marc Madiot, a Française des Jeux (ou FDJ), aonde se encontrava desde o final de 2002.

Philippe Gilbert chegava às competições de outono de 2009 com um jejum de vitórias de quatro meses, com uma veia ganhadora adormecida, mas que se despertou revigorada no mês de outubro: as três corridas de um dia que antecederam o último monumento do ano, a Lombardia (Coppa Sabatini, Paris-Tours e Gran Piemonte), terminaram todas com Gilbert no lugar mais alto do pódio. Com a exibição deste sublime estado de forma, o ciclista belga passou a ser apontado como um dos principais favoritos à conquista do derradeiro monumento da temporada. Aí, não vacilou: desferiu um potentíssimo ataque em San Fermo della Battaglia e acabou por bater Samuel Sánchez num renhido mano a mano.

2009, anunciação, 2010, confirmação. Numa Lombardia contemplada com chuva torrencial e com um percurso mais duro, que não favorecia Philippe Gilbert, o mesmo contrariou as probabilidades e não deu quaisquer hipóteses aos seus rivais, chegando a Como isolado, com o já falecido Michele Scarponi a chegar em segundo lugar.

O RECORDE DA TRIPLA HISTÓRICA DAS ARDENAS

2011 foi o ano de Gilbert e uma das principais razões que contribuiu para a chegada a esta conclusão foi a conquista da tripla histórica das Ardenas (vencedor da Amstel Gold Race, Flèche Wallonne e Liège-Bastogne-Liége, num período oito dias). A este feito absolutamente inacreditável, apenas alcançado também por um outro ciclista na história, o italiano Davide Rebellin, juntou ainda o triunfo na Brabantse Pijl, alcançado imediatamente antes da Amstel Gold Race, prova conquistada quatro vezes por Gilbert.

Na campanha de clássicas das Ardenas dessa temporada, Gilbert demonstrou, através das suas exibições, o porquê de merecer a alcunha de “javali das Ardenas”: na Amstel, afirmou ser o rei do Cauberg; na Flèche, foi o mais forte no inclinadíssimo Mur de Huy; e na Liège, superou os dois irmãos Schleck com o sua a ponta de velocidade final superior.

CAMPEÃO MUNDIAL DE ESTRADA EM 2012

2012, até aos campeonatos mundiais, havia sido um ano bastante difícil para Philippe Gilbert, que vinha exibindo grandes dificuldades em adaptar-se à sua nova equipa, a BMC, e que contabilizava nessa época apenas 2 vitórias na Vuelta a España. Porém, tudo mudou, indubitavelmente, com a prova em linha dos campeonatos mundiais de estrada.

A prova dos campeonatos do mundo disputou-se no país vizinho do ciclista belga, os Países Baixos, e contou com diversas passagens por aquele que é, porventura, o seu “muro” favorito, o Cauberg, nunca ausente da Amstel Gold Race. Cauberg incluído, espetáculo de Gilbert garantido, e assim sucedeu… Na última passagem pelo muro, Gilbert, guiado pelos seus compatriotas, arrancou desenfreado e desferiu nos adversários um dos mais duros golpes de toda a sua carreira. O ataque de Gilbert, a cerca de dois quilómetros da meta, foi tão potente que ninguém conseguiu sequer colar-se à sua roda na roda e o belga só parou quando verificou que a camisola do arco-íris iria ser envergada por ele durante um ano.

O VALÃO REI DA FLANDRES

Com 34 anos, o valão Philippe Gilbert, já com um palmarés invejável, decidiu que iria dedicar-se à conquista dos três monumentos do universo velocipédico qua ainda não faziam parte da sua vitrine de troféus, o Paris-Roubaix, a Volta a Flandres e a Milano-Sanremo. Para que esses seus três sonhos se tornassem realidade, teria de, na sua ótica, sair da equipa onde se encontrava, a BMC, e assinar pelo conjunto especialista nas provas de um dia, a Quick-Step, e assim aconteceu.

Logo no primeiro ano na equipa de Patrick Lefevere, foi coroado vencedor, não só da Amstel Gold Race, mas também da Volta a Frandres. Esse triunfo na Volta a Flandres configura, garantidamente, uma das melhores exibições da última década nesse monumento: Gilbert, exímio puncheur, fez das fraquezas forças e, com um inalcançável ataque irrefletido, a mais de 50 km da meta, resistiu estoicamente e teve ainda tempo de desmontar da bicicleta e de a erguer orgulhosamente no risco de meta com a maillot de campeão nacional belga envergada, demonstrando ser um classicómano completo e um valão com um espírito de flandrien.

RECOMPENSA DE ROUBAIX PARA OS AUDAZES

2019 foi o terceiro e último ano de Gilbert na Quick-Step. O vencedor de três monumentos distintos tinha a Paris-Roubaix como um dos grandes objetivos dessa temporada e para isso trabalhou. Apesar de estar a mostrar toda a sua valia como gregário de luxo nesse ano; individualmente, encontrava-se uns furos abaixo do que seria de desejar nas clássicas belgas do empedrado, mas tudo isso foi esquecido, miraculosamente, no dia 14 de abril.

No 14.º dia do mês de abril, disputou-se o monumento francês, a Paris-Roubaix, e Philippe, desde cedo, mostrou ao que vinha: passou com confiança o Trouée d’Arenberg, apresentou-se sempre bem colocado e, a cerca de meia centena de quilómetros do final da competição, atacou em conjunto com outros elementos. Daí para a frente, não se inibiu de atacar e, quando o alemão Nils Politt atacou de forma decisiva, Gilbert foi o único com capacidade para o seguir, o que levou a corrida para um sprint a dois, no velódromo de Roubaix, no qual o belga levou a melhor. Com isto, a Gilbert só lhe ficava a faltar a Milano-Sanremo, “La Primavera”, que nunca veio a vencer.

A DESPEDIDA

Após 20 anos como ciclista profissional e 80 triunfos, com passagens por várias equipas, tais como: a Française des Jeux, a Lotto, a BMC e a Quick-Step; Philippe Gilbert optou por colocar um ponto final na sua impressionante carreira, no passado dia 9 de outubro, na Paris-Tours (venceu a prova por duas vezes).

Com 40 anos de idade, o “javali das Ardenas” despediu-se de uma modalidade na qual foi interveniente ativo e dinamizador principal no século XXI. Na memória, fica um legado único, que é o suficiente para emocionar fãs por todo o mundo. Gilbert é a História viva do ciclismo e nunca o deixará de ser. Apenas resta imaginar o quão mais lendária (ainda) teria sido a sua carreira e o seu palmarés com um triunfo na “La Primavera”.

Obrigado, Philippe!

Miguel Monteiro

Redação Bola na Rede · ver artigos