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Merckx, Anquetil, Hinault, Indurain e talvez Tadej Pogačar. Não se pode apagar Armstrong da memória de muitos, nem esquecer as quatro recentes vitórias de Froome. A era Coppi-Bartali ou Philippe Thys como embaixador belga. Por falar em romantismos, Laurent Fignon, Greg Lemond ou Alberto Contador.
Várias eras, várias dinastias e mudanças de geração que trouxeram novos campeões à tona. Se este esloveno de apenas 22 anos é o príncipe encantado de uma verdadeira geração de ouro do ciclismo? Completamente.
A Volta a França número 108 na História deu-nos uma resposta bem lúcida. Depois de três semanas de alta tensão e espetacularidade, a corrida gaulesa chegou aos campos elísios este domingo, consagrando o homem do momento: Tadej Pogačar, ciclista da UAE-Team Emirates, que renovou o título conseguido no ano passado e voltou a sagrar-se como vencedor do Tour de France (juntando as classificações da juventude e da montanha, novamente).
Speech! Speech!
🎙The winner of the #TDF2021: 🇸🇮 @tamaupogi pic.twitter.com/v81HRJWRAk
— Tour de France™ (@LeTour) July 18, 2021
Jonas Vingegaard (Team Jumbo-Visma) e Richard Carapaz (Ineos-Grenadiers) completaram o pódio final da mais prestigiada competição de ciclismo no Mundo, que ficou marcada pela estonteante primeira semana em termos de espetáculo, as quatro vitórias de um Mark Cavendish renascido das cinzas – colocando-se a par de Eddy Merckx como os ciclistas mais vitoriosos no Tour -, e a incrível jornada de Wout van Aert, vencedor de uma etapa de montanha, de um contrarrelógio e de uma chegada ao sprint, em Paris.
Foto de Capa: UAE Team Emirates
A ODISSEIA DE SUPERIORIDADE DE UM POGI DE LUXO
É caso para se dizer que foi sem espinhas. O chefe de fila da UAE-Team Emirates arrecadou três vitórias em etapa, isto para além da camisola branca (melhor jovem) e da camisola da montanha (melhor trepador). Na estrada, nem por isso se verificou uma repetição de 2020, já que Pogi, juntamente com uma equipa apetrechada de talento, controlou do início ao fim os seus rivais diretos de uma forma bastante autoritária.
#TDF2021 Proud of all you, guys! 💛#UAETeamEmirates #RideTogether pic.twitter.com/3ESJ5HJooV
— @UAE-TeamEmirates (@TeamEmiratesUAE) July 18, 2021
Indiscutivelmente contou com mais colegas capazes de o ajudar, destacando-se o excelente trabalho de Rui Costa como parte importante desta vitória. Dividindo a história de felicidade por partes, o plot twist que todos percebemos depois de observar o resultado final começou a desenvolver-se ao fim de uma primeira semana diabólica, onde o campeão em título abriu uma margem gigante para os seus adversários com um ataque a 30 quilómetros da meta, expondo a consciência de todo e qualquer espectador assíduo de que a missão de destronar o miúdo seria muito difícil.
Com o abandono de Primož Roglič devido a queda, sendo talvez o único corredor do panorama atual ao nível de Pogačar, e as próprias sequelas físicas que a Ineos-Grenadiers sofreu no início da competição, fruto dos tais momentos de infortúnio, facilitaram a vida a um jovem destemido que demonstrou ser muito melhor que os seus oponentes, registando inúmeros momentos de superioridade e raros cliques de contenção.
Agora é @TamauPogi x @RichardCarapazM #Tdf2021 #ciclismonaespn pic.twitter.com/KEtFdFd1TC
— País do Ciclismo (@DoCiclismo) July 3, 2021
Esta vitória representa bem a hegemonia que o pequeno campeão da região de Komenda vai construindo, e se pensarmos até onde pode chegar, até assusta. Duas vitórias com apenas 22 anos de idade e estatisticamente com mais dez anos de “auge” para se aproximar dos recordistas acima mencionados. Será capaz de lá chegar? Esta superioridade para os demais vai continuar a ser uma realidade? O Tour 2021 foi como colocar uma pedra sobre a folha de potenciais candidatos a destronar o novo rei dos voltistas.
Sobre a corrida, as tais lesões incapacitantes depois de uma queda aparatosa na etapa três retiraram qualquer possibilidade a Rogla de lutar de igual para igual com o seu compatriota, abrindo espaço para a revelação da competição, o dinamarquês Jonas Vingegaard. Depois de se evidenciar no inicio da época, no UAE Tour 2021, o plano passava por ser escudeiro do vice-campeão do Tour, mas a situação de corrida lançou-o aos lobos e a resposta dificilmente poderia ter sido melhor.
🇸🇮 @TamauPogi wins atop the Col du Portet after a magnificent battle with 🇩🇰 Jonas Vingegaard and 🇪🇨 @RichardCarapazM!
See the final KM ⬇️
En jaune, 🇸🇮 @TamauPogi s’offre une victoire historique au sommet du Col du Portet !
Revivez son dernier KM ⬇️#TDF2021 pic.twitter.com/SDXBsSFZM6
— Tour de France™ (@LeTour) July 14, 2021
Richard Carapaz completou o pódio de um Tour algo desapontante para a formação mais rica do pelotão. Incapazes de ferir o domínio esloveno pelo segundo ano consecutivo, a turma britânica nem uma vitória de etapa conseguiu arrecadar, ao passo que, por exemplo, a Jumbo-Visma levou quatro. Ainda dentro do top10, destaque para uma classificação final, que em relação a outros anos, se viu influenciada por diversas fugas e registou margens de tempo um pouco atípicas.
Para além da presença de puros voltistas como Rigoberto Urán, Pello Bilbao, Wilco Kelderman ou Enric Mas, os pontos de maior destaque vão para Alexey Lutsenko, Ben O´Connor e Guillaume Martin. O primeiro surpreendeu pela consistência em alta montanha: O cazaque da Astana-Premier Tech é conhecido pelas suas qualidades em provas de um dia e de uma semana, mas desta vez correu três semanas como nunca antes tinha feito. Já o australiano da AG2R Citroen e o francês da Cofidis, apesar de serem escaladores de qualidade, viram os seus destinos cruzarem-se com uma possibilidade de terminar numa boa posição na geral e a consistência que apresentaram tratou do resto.
#TDF2021 – Final GC pic.twitter.com/RgiE4UOeia
— La Flamme Rouge (@laflammerouge16) July 18, 2021
O mais engraçado é que a classificação geral começou a definir-se desde muito cedo e poucas oscilações registou. Mexidas em fugas, momentos maus de Urán ou Mas, superioridade gritante de Pogačar, Vingegaard e Carapaz na segunda metade da prova e uma discrepância acentuada em termos de espetáculo se dividirmos a competição em dois.
Em termos de etapas chave, a performance de Pogačar no contrarrelógio da jornada cinco e na etapa de montanha número oito foi essencial para o seu triunfo: as diferenças de tempo superiorizaram-se a cinco minutos no total, cavando um fosso impossível de fechar. Com a particularidade das poucas chegadas em alto, apesar de muita dificuldade, nunca ninguém pareceu capaz de colocar a amarela em risco, apesar de Vingegaard ainda ter dado um ar da sua graça no topo do Mont Ventoux.
É impossível não constatar o quão entediante foi a luta pela vitória final, pelo pódio e até pelas posições dentro e na tentativa de entrar no top10, daí que o foco de emoção tem de estar direcionado a outras componentes de uma corrida que ofereceu ao adepto comum muito com que se divertir, inclusive um recorde que muitos pensavam ser inatingível.
CHAPEAU, MARK CAVENDISH!
Mark Cavendish venceu quatro etapas na Volta a França e igualou as 34 vitórias de Eddy Merckx na prova. É incrível ler isto e não pensar no “background” do dilúvio que colocou o míssil de Man com pé e meio fora do ciclismo. A ausência das grandes decisões durava há mais de três anos, o que torna toda esta caminhada simplesmente épica.
Recuperado fisicamente do vírus (Epstein-Barr) que quase lhe arruinou a carreira, a oportunidade para se relançar ao mais alto nível surgiu com o regresso à formação da Quick-Step, agora também denominada por Deceuninck. Quatro vitórias na Volta à Turquia e um triunfo sobre os melhores dos melhores em solo belga causou burburinho na questão Bennet vs Cavendish como o sprinter de eleição da equipa de Patrick Lefevere. Depois de muita polémica e a lesão do sprinter irlandês, Cavendish regressou ao Tour para deixar uma marca importantíssima no livro de recordes deste desporto.
🤩 From one legend to another. Respect!
🤩 D’une légende à une autre ! Respect !#TDF2021 pic.twitter.com/Jeuj13ZAmH
— Tour de France™ (@LeTour) July 16, 2021
Fougères, Châteroux, Valence e Carcassone. Faltou Paris no topo do recorde. Por enquanto, são 34 para a talvez maior lenda do ciclismo e 34 para o talvez melhor sprinter de todos os tempos. Fica complicado acreditar que Mark Cavendish não terá pelo menos mais uma oportunidade para superar o recorde que muitos pensavam impossível de atingir, já que Sam Bennet está de saída e a formação belga tem uma tradição de largos anos quanto a sprinters, lançadores, comboios e acima de tudo, em vitórias.
As etapas propensas a finalizadores continuarão a ser uma realidade e Mark Cavendish é, neste momento, um dos melhores do mundo. Seja na Deceuninck Quick-Step ou não, aquilo com que o icónico velocista nos presenteou pode dar mais frutos. Importa, contudo, refletir sobre as circunstâncias em que isto se tornou possível, e nesse campo, a equipa foi fundamental.
From his Deceuninck – Quick-Step teammates and sports directors to his beautiful family and some famous faces from England’s national football team, everybody had a special message for @MarkCavendish after his incredible run at #TDF2021.https://t.co/JsIOTsv2m6
— Deceuninck-QuickStep (@deceuninck_qst) July 19, 2021
Os méritos a nomes com Tim Declerc no controlo na etapa, a Julian Alaphilippe pelo trabalho que realizou em prol do seu colega e a Michael Morkov, por exemplo, têm de ser exaltados, pois o comboio azul funcionou na perfeição. Fosse no controlo das fugas, na aproximação aos metros finais, na colocação do sprinter e nos lançamentos perfeitos de Morkov, a equipa esteve imbatível, juntando esse esforço à qualidade, frescura e experiência de Cavendish.
Como o próprio nunca se cansou de referir, a equipa foi fulcral para estas quatro vitórias. Em Fougères bateu Bouhanni e Philipsen na linha de meta em ligeira subida. Seguiu-se uma vitória tirada a ferros sobre os mesmos rivais, em Châteroux, onde tudo começou. Em grande estilo venceu em Valence, conquistando mais uma vitória nos mesmos moldes das anteriores: excelente aproveitamento do trabalho dos colegas de equipa e principalmente do lançador dinamarquês, realizando ataques curtos e explosivos, triunfando assim com alguma margem sobre Wout van Aert.
¡Lo consiguió! Mark Cavendish vence en Carcassone e iguala a Mercx con 34 victorias en el #TDF2021
Fuente RTVE pic.twitter.com/tFGDo6KIqS
— Sergio Fernández Yustos (@sergioyustos_) July 9, 2021
A última, aquela que permitiu igualar-se ao canibal, surgiu de uma maneira bem mais tensa, com algumas dificuldades no posicionamento na parte decisiva da etapa, mas, curiosamente, naquela onde Morkov se revelou mais essencial. Aproveitando o cone de vento do seu parceiro, Cavendish arrancou nos últimos 100 metros para a glória. O resto é história, uma história que promete ter mais capítulos grandiosos. Mark Cavendish imortaliza-se (ainda mais) no consílio dos deuses do ciclismo por uma porta diferente.
PORQUE OS “HUMANOS” TAMBÉM MERECEM UM DESTAQUE…
Alguns destes, de humano, talvez tenham pouco, tamanhas foram as suas prestações. Wout van Aert é o principal nome a ter em conta para esta lista positiva. Era para apoiar Roglic, apoiou Vingegaard. Tentou chegar à amarela de Mathieu van der Poel, não conseguiu. O Tour do todo-o-terreno belga ainda foi a tempo de se tornar incrível. Ora vejamos, uma vitória em etapa com dupla ascensão ao Mont Ventoux, um triunfo num contrarrelógio de 30 quilómetros e, para fechar em chave de ouro, uma vitória nos campos elísios num sprint compacto.
É preciso recuar muito para encontrar alguém tão polivalente e que efetivamente apresente resultados deste calibre. O belga oriundo do cyclo-cross já não é uma surpresa para ninguém, mas o que fez neste Tour, foi, sem dúvida, uma bela surpresa. É completo e tem selo de vitória, resta saber quais os caminhos que vai percorrer no futuro. Fica toda a ideia de que, com a preparação, físico e mentalidade ideal, Wout van Aert pode conseguir lutar seja porque objetivo for!
Wout van Aert wins the sprint on the Champs-Élysées 🏆 He has now won at the 2021 Tour de France:
✅ Sprint stage
✅ Mountain stage
✅ Time trial
__________#TDF2021 #TourdeFrance pic.twitter.com/8OMN0qW5Uz— Velon CC (@VelonCC) July 18, 2021
A Julian Alaphilippe, Mathieu van der Poel, Tadej Pogačar ou Mark Cavendish, principais figuras da primeira semana, e que evidentemente já mereceram o devido destaque, junta-se a incrível veia vitoriosa da Bahrain Victorius, outro dos pontos que merece a capa de jornal. Privados de Jack Haig, líder para esta edição do Tour, a equipa somou, nada mais, nada menos, do que três vitórias (duas para Matej Mohoric e uma de Dylan Teuns), esteve perto de vencer a camisola da montanha (Wout Poels bateu Quintana e Woods), mas Pogacar roubou a camisola das bolinhas na derradeira etapa de grande relevo) juntando a classificação por equipas com larga distância para a EF Education-Nippo e a Team Jumbo-Visma.
Em termos de equipas, mencionar a Alpecin-Fenix (duas vitórias), a AG2R Citroen (uma vitória e 4º lugar na geral), a Bora-Hansgrohe (sem Peter Sagan no seu melhor, duas vitórias com Nils Politt e Patrick Konrad) e claro, a Team Jumbo-Visma, com quatro vitórias (três para van Aert e uma para Sepp Kuss) e a Deceuninck Quick-Step (quatro de Cavendish e uma de Alaphilippe). Referência ainda para a B&B Hotels, que viu Franck Bonnamour levar o prémio de combatividade para casa. Em bom plano, para além dos anteriormente mencionados, colocar em cima da mesa corredores como Sonny Colbrelli, Bauke Mollema, Brent Van Moer, Sergio Higuita, Rúben Guerreiro, Mattia Cattaneo ou Ide Schelling.
𝑻𝒉𝒊𝒔 𝒊𝒔 @letour 😍
Relive the greatest moments of the #TDF2021!𝑽𝒊𝒗𝒆 @letour 😍
Revivez les meilleurs moments du #TDF2021 !
 pic.twitter.com/G2xcEDTAj0— Tour de France™ (@LeTour) July 19, 2021
Do outro lado da moeda, as desilusões. A Ineos-Grenadiers conseguiu um pódio, mas nem sequer uma etapa. A Cofidis conseguiu um top10, mas continua há mais de 12 anos sem saber o que é ganhar no Tour. Dentro das formações francesas, Bouhanni e Quintana ainda estiveram perto da glória, mas não conseguiram nada para a Team Arkéa Samsic. A Groupama-FDJ foi a mais azarada: falhou os 10 mais com Gaudu e viu Démare abandonar prematuramente a competição. Inúmeras formações não venceram nem concluíram os seus objetivos mínimos, destacando-se o quão apagadas estiveram a Israel Start-Up Nation, Movistar ou Team BikeExchange, por exemplo.
Geraint Thomas, Miguel Ángel López, Tao Geoghegan-Hart, Alejandro Valverde, Michael Woods, Valentin Madouas, Pierre Latour, entre outros, não tiveram a importância que se pensava poderem vir a ter para a corrida, fazendo parte das formações mais fustigadas pela ausência de pontos positivos. Tal como a própria competição, feita de um alto (primeira semana) e um baixo (duas semanas mais contidas), os corredores, apesar das graves quedas que marcaram os planos de muitos conjuntos, foram, mais uma vez, os grandes heróis, daquela que foi a centésima oitava edição da prova.
💛 Maillot Jaune : 🇸🇮 @TamauPogi
The Slovenian takes his 2nd Tour crown in a row. The man in Yellow, the man of the moment.
Le patron du #TDF2020 a confirmé ! Le Slovène est sacré pour la deuxième fois consécutive.#TDF2021 pic.twitter.com/2N2oQ8hKJi
— Tour de France™ (@LeTour) July 18, 2021
Emoção, tristeza e muito ciclismo. Foi Tour de France, Foi a nova veia de corredores mentalmente atacantes, foi o ressuscitar de uma lenda, foi um aparente regresso à normalidade para os adeptos, foi sangue, suor e Tadej Pogačar, o diamante que cresce a cada competição. O futuro reserva coisas muito boas para esta modalidade e a Vuelta, que começa já no próximo mês, pode ser a primeira batalha para equilibrar forças com o deus esloveno que não para de cimentar o seu caminho rumo ao Olimpo!













