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UAE Tour | Uma semana de ciclismo ao mais alto nível

Ricardo Rebelo · 7 min

UAE Tour | Uma semana de ciclismo ao mais alto nível
Foto de capa: UAE Tour

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A espera chegou ao fim. O ciclismo-espetáculo está de volta este domingo, dia 21 de fevereiro de 2021, em Sharjah, Emirados Árabes Unidos, ou melhor dizendo, no dia D do calendário UCI World Tour 2021. O desembarque dos melhores do mundo, sobre o Golfo Pérsico e com o majestoso Dubai logo ali, marca o início da temporada de 2021 entre as competições de primeira instância do ciclismo mundial.

O primeiro banquete, com a beleza de uma das maiores metrópoles do Médio Oriente em seu redor, junta à mesa vários nomes mediáticos da modalidade: Tadej Pogačar; Mathieu van der Poel; Chris Froome; Filippo Ganna; Vincenzo Nibali ou ainda os portugueses João Almeida e Rúben Guerreiro.

Relativamente ao perfil da terceira edição desta competição, teremos as usuais sete etapas, das quais se contemplam quatro possíveis chegadas em pelotão compacto, um contrarrelógio individual e duas etapas com finais duros, propensos aos punchers e climbers presentes nas fileiras das 20 turmas inscritas.

Existem vários fatores a analisar para se compreender da melhor forma aquilo que o UAE Tour pode proporcionar em termos de espetáculo, surpresas ou resultados. Numa fase tão precoce da temporada, a necessidade de alertar para a natural disparidade dos mindsets no universo das equipas presentes e dos seus respetivos atletas torna-se imprescindível.

A necessidade também de gerir vários ativos e a atribuição de responsabilidades para as diferentes provas do calendário pode ter alguma influência naquilo que será o desenho dos melhores no final da competição. Outra conjuntura a mencionar prende-se com a simbiose entre a condição física atual dos ciclistas e o respetivo plano competitivo programado – ganhar quilometragem vs rodar ao máximo -. Relacionado com esse aspeto, referir ainda a vaga de ciclistas que entram em prova já com uma base considerável de quilometragem e sucessos desportivos, algo que pode pesar na balança dos principais candidatos às várias classificações em disputa.

Foto De Capa: UAE Tour

Pogačar corre em “casa”, mas terá pressão britânica 

Teoricamente, a responsabilidade máxima para levar de vencida a competição estará sobre os ombros do jovem esloveno da UAE Team Emirates. Como o próprio nome indica, Tadej Pogačar será o líder da equipa “anfitriã” e o escolhido para conquistar a primeira para a estrutura liderada por Joxean “Matxín” Fernández. O campeão em título da Volta a França concluiu o UAE Tour de 2020 na segunda posição, apenas superado por Adam Yates, que agora representa a Ineos Grenadiers e que também estará este domingo à partida na província de Al Yash na tentativa de revalidar o título.

Outros nomes importantes prometem intrometer-se na luta. Destaque para Chris Froome, que vai competir pela primeira vez ao serviço da Israel Start-Up Nation. O britânico procura reinventar-se de um passado recente repleto de percalços físicos e voltar a fazer jus ao rótulo de um dos voltistas mais completos da História, o que faz de Froomey um crónico candidato a conquistar qualquer competição do género.

Na lista de ciclistas capazes de ombrear com os melhores e que se adaptam a este tipo de percurso, os nomes de Vincenzo Nibali, Alexey Lutsenko, Domenico Pozzovivo, Emanuel Buchmann, Wout Poels ou Rigoberto Úran surgem numa linha de maior experiência. Uns degraus abaixo em termos de idade, mas com a promessa de capacidade e qualidade para obter resultados, são vários os jovens de grande valor presentes na prova: Daniel Martínez, Sergio Higuita, Iván Sosa, Sepp Kuss e claro, João Almeida.

No que à classificação geral diz respeito, existem três etapas fulcrais. A primeira, o contrarrelógio de 13 quilómetros marcado para a segunda etapa (dia 22/02). O trajeto não irá oferecer dificuldades significativas, beneficiando roladores competentes como Tadej Pogačar ou João Almeida, por exemplo. Para a etapa, Filippo Ganna, à procura da oitava vitória consecutiva na especialidade, é o favorito. O campeão do mundo de contrarrelógio pode, no entanto, encontrar resistência em nomes como Mikkel Bjerg, Jos Van Emden, Alex Dowsett ou até do colega de equipa, Jonathan Castroviejo.

Já nas duas etapas que terminam com chegada em alto, Jebel Hafeet (etapa três no dia 23/02) e Jebel Jais (etapa cinco no dia 25/02), ambas partilham o facto de não se caracterizarem por ter um perfil de dureza extrema, porém, constituem-se como terrenos ideais para se fazerem diferenças, e falamos de diferenças significativas. A primeira, Jabel Hafeet, detém 10,8 quilómetros de extensão com uma pendente média de 6,6%. Em 2020, nesta mesma dificuldade, Adam Yates pulverizou a concorrência, cruzando a linha de meta com mais de um minuto para Tadej Pogačar e Alexey Lutsenko, o que nos dá uma noção respeitável sobre o primeiro teste em ascensão.

Já a escalada a Jebel Jais, ou melhor dizendo, a etapa rainha da prova, ostenta 16.8 quilómetros com uma pendente média de 5,5%. Estrategicamente, trata-se de uma tirada que ganha ainda mais importância pelo facto de se revelar como a última oportunidade de fazer diferenças. Em 2019, serviu de catapulta para Primož Roglic colocar uma pedra sobre o assunto. Será que, em 2021, Jebel Jais terá o mesmo grau de importância? A ver vamos.

Fausto Masnada, Patrick Konrad, Alejandro Valverde, Rafal Majka ou Damiano Caruso. Há ainda que fazer referência a alguns corredores que se podem intrometer na luta pelas duas etapas de montanha, sendo estes apenas alguns deles num conjunto de vários atletas de renome em prova. Destaque ainda para os atletas com “carte blanche”, astúcia e qualidade para surpreender em qualquer tipo de terreno: Thomas de Gendt, Kragh Andersen, Mattia Cattaneo, Gino Mader, Tony Gallopin e ainda o recém campeão do mundo de cyclo-cross, Mathieu Van der Poel.

Sprint? Que comece a luta de galos

Se até então os nomes em cima da mesa deixavam água na boca, prepare-se… O nível entre os velocistas presentes na prova promete manter a fasquia bem lá no alto. Olhando para os vinte planteis em prova, reconhecemos praticamente um ou dois homens rápidos em cada estrutura, assim como equipas que, ao que tudo indica, concentrarão todos os seus esforços em torno do seu sprinter.

Até aqui, nada de novo. O UAE Tour tem sido pródigo a proporcionar todas as condições para os diretores de corrida colocarem os seus planos em prática.  A competição beneficia do timing em que acontece, assim como da crescente importância e das claras condições ideais – estradas largas com um piso excelente, por exemplo – para aperfeiçoar a especialidade em contexto competitivo.

Vamos a nomes! À cabeça surgem, evidentemente, as figuras de Sam Bennett, Caleb Ewan, Pascal Ackermann e Fernando Gaviria. Talvez ao mesmo nível, muito pelo início de temporada fulgurante, o nome de Giacomo Nizzolo deva ser considerado como um dos favoritos, mas há mais, muitos mais. Para ajudar à festa, André Greipel, Jasper Philipsen, Elia Viviani, Cees Bol, Matteo Moschetti ou Phil Bauhaus… em suma, mais, mais e mais é a palavra de ordem aqui, mais fruta para uma salada recheada, muito recheada.

São quatro etapas com um perfil que encaixa perfeitamente em qualquer um destes nomes. Pelas condições já referidas em cima e pelos atletas em questão, faz todo o sentido colocar a tal fasquia bem lá no alto, à semelhança daquilo que as duas primeiras edições ofereceram em termos de sprint.

Pormenorizadamente, podemos e devemos mencionar alguns aspetos relevantes, a começar pelas equipas de Caleb Ewan, Elia Viviani ou Giacomo Nizzolo, que parecem fazer “all in” nos seus homens rápidos se atentarmos às constituições das respetivas equipas. Nestes casos é facilmente percetível o contraste entre o número de homens para outros objetivos e o número de homens com a função de construir um comboio e prestar o auxílio ao seu sprinter.

Este fator pode vir a ser relevante como até pode passar despercebido. A proteção do ciclista, a colocação do ciclista, o momento certo para lançar o sprint do ciclista… tudo isto conta, mas a condição física e o talento prevalecerão como o mais importante e o facto de certas equipas dividirem esforços não quer necessariamente que o seu sprinter sairá prejudicado.

Sam Bennet, Fernando Gaviria e Pascal Ackermann são os maiores exemplos desse reverso da medalha, mas que ainda assim prometem contar com um número considerável de gregários ao seu serviço, dadas as garantias que oferecem em termos de resultados.

A necessidade de ter uma equipa nesta competição ganha também importância pelas características do percurso – exposto ao vento lateral em certas fases –, pelas condições climatéricas, pelo quão caótico será cada final devido às esperanças de diversas equipas em faturar numa chegada ao sprint.

São muitos os motivos que fazem do UAE Tour uma competição a não perder. Depois de vários cancelamentos entre competições de segunda linha, estas sete etapas contarão como os primeiros quilómetros de muitos dos desportistas presentes. Enaltecer ainda o esforço da organização da prova por tornar a competição possível, do trabalho irrepreensível na logística da prova e de um sistema apertado de testagem à Covid-19, de forma a tornar a prova segura para todos os envolvidos.

Internamente e externamente, estão assim criadas todas as condições para termos uma semana de ciclismo ao mais alto nível. Que as pedaladas comecem!

Ricardo Rebelo

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