Uma subida engraçada

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Começou a Volta a Portugal em bicicleta! Momento alto do calendário do ciclismo português e, para muitos, a única altura do ano em que vêem as bicicletas a rolar, seja na televisão, seja ao vivo. A Volta tem aquele efeito mágico que só se consegue com muitos anos de trabalho. Uma espécie de mística especial que faz pessoas que não sabem o nome de nenhum ciclista do pelotão irem para a rua bater palmas, gritar palavras de icentivo e até, porque não, oferecer um pouco de água àqueles que estão com pior cara. Tem um pouco o efeito que a seleção nacional de futebol tem para aqueles que durante dois anos não acompanham o desporto, mas que depois nas grandes provas gostam de pôr a bandeirinha no espelho do carro.

São várias as formas que o público encontra para ajudar a refrescar os ciclistas Fonte: ionline.pt
São várias as formas que o público encontra para ajudar a refrescar os ciclistas
Fonte: ionline.pt

Outra coisa que também é bastante comum nesta prova é a existência do duelo Portugal vs Espanha. Os portugueses, por motivos óbvios, programam o seu treino anual para poderem brilhar nesta prova, e os espanhóis, que estão aqui tão perto, gostam de vir competir – e muitos, preparar o corpo para a Vuelta que está aí ao virar da esquina. Dessa forma, é difícil ver nos lugares principais um “intruso” neste binómio ibérico. Este ano, parece-me, também não será excepção. Neste momento, temos de descer até ao lugar nº23 da classificação geral para encontrar alguém que fuja a esta lógica: encontramos o colômbiano Heiner Parra, da Caja Rural, que ainda faz parte do circuito sub23. Nos “elites”, só no lugar 39 encontramos alguém que não pertence à Península Ibérica, o alemão Stefan Shumacher, da Christina Watches. O mais provável é que, também este ano, o top10 seja preenchido apenas por ciclistas destas duas nacionalidades e, para já, o confronto ibérico está empatado 5-5.

O alto da Senhora da Graça, lugar mítico para o ciclismo português Fonte: pedestrianismo.blogspot.pt/
O alto da Senhora da Graça, lugar mítico para o ciclismo português
Fonte: pedestrianismo.blogspot.pt/

Não é novidade para ninguém que a Volta a Portugal tem duas etapas míticas: a subida à Torre e ao alto da Senhora da Graça. São elas que normalmente mostram quem está em condições de vencer a prova e que servem de afirmação entre os ciclistas. O que vimos ontem, em Mondim de Basto, foi uma prova muito defensiva até ao último quilómetro em que todos os ciclistas que ainda se aguentavam no grupo principal estavam mais preocupados com fazer marcação ao adversário do que com tentar fazer a diferença. Neste cenário só dois ciclistas acabaram por se destacar, já a poucos metros da meta: Edgar Pinto e Gustavo Veloso. O português porque foi o único com coragem/pernas para atacar a vitória na etapa e o espanhol, com a camisola amarela vestida, porque foi o único que seguiu na sua roda. Foi apenas mais um Portugal vs Espanha, dos muitos que se vêem nestes onze dias; um espelho do que é a prova. Desta vez, Portugal levou a melhor. Tirando isso, não houve muito mais a salientar. O ataque foi tão perto da meta que não houve espaço para fazer grandes diferenças na geral, e fica a sensação que os ciclistas se limitam agora a olhar para uma das etapas mais importantes da prova com este pensamento: “passou-se”. O camisola amarela, Gustavo Veloso, ficou em segundo lugar no ano passado apenas por 4s, por isso ele sabe bem o que é perder no photo finish; desta forma, não se adivinham grandes ataques da sua parte: vai limitar-se a responder àqueles que tentarem deixá-lo para trás, pois não quer gastar nem uma gota de energia desnecessariamente. Ele, mais que ninguém, sabe que basta uma gota para perder a prova, e não quer largar a camisola que já tem vestida. Não podemos contar com ele para grandes mexidas, mas temos de acreditar que os seus perseguidores não vão repetir a mesma estratégia na Serra da Estrela. Para o adepto, foi uma pena. Fica o sentimento de “oportunidade perdida”. Felizmente ainda há a subida à Torre para esperançar os amantes do espetáculo ofensivo. Desta vez, não foi uma verdadeira subida ao alto da senhora da Graça; foi apenas uma subida engraçada.

Rafael Lapa
Rafael Lapahttp://www.bolanarede.pt
Um dia o seu avô disse-lhe: "anda cá, Rafael, senta-te aqui no meu colo, que vamos ver uns meninos a andar de bicicleta". A partir desse dia começou uma paixão incontrolável: o ciclismo!                                                                                                                                                 O Rafael não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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