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Volta a Portugal 2016 – O “gregário” que destronou o “líder”

Nuno Raimundo · 9 min

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Terminou a 78.ª Volta a Portugal e tivemos oportunidade de assistir a uma das maiores surpresas de sempre na Grandíssima. Rui Vinhas, da W52-FC Porto, segurou bem firmemente a camisola amarela, desde que a conquistou numa fuga, que, como tinha sido dito como possibilidade, se revelou bastante decisiva. Ainda assim, nota para o excelente contrarrelógio protagonizado pelo português. Devido a isso, aos 29 anos, o ciclista português termina da melhor forma um verdadeiro “conto”. Foi a vitória de um corredor que, supostamente, estaria em 4.º ou 5.º lugar na “hierarquia” da equipa, mas que acabou por conseguir o tal primeiro lugar com todo o mérito.

Voltando um pouco atrás, após o dia de descanso, tivemos nova etapa muito dura (uma das mais exigentes dos últimos anos na prova), com as tais duas passagens pela Torre e uma complexa subida à Guarda no final da etapa. Depois de ciclistas como João Benta, Alejandro Marque ou Ricardo Vilela cederem perante os principais favoritos, perdendo estes últimos dois mais de 6 minutos para o vencedor da etapa e Benta a perder 13 minutos (uma maior surpresa, tendo em conta a qualidade deste ciclista como trepador), estava na altura de todas as decisões.

Após um corajoso e excelente ataque por parte de Joni Brandão (só assim o português conseguiria ainda ganhar esta prova e a verdade é que pelo menos tentou e tem mérito por isso) a 80 km’s da meta, o ciclista da Efapel foi apanhado pelos favoritos a cerca de 3 km’s para o fim e, pouco depois, Gustavo Veloso voltou a fazer das suas. Atacou, só Daniel Silva e Raúl Alarcon conseguiram tentar acompanhá-lo, e venceu, mais uma vez, de forma categórica mais uma das etapas míticas desta corrida, depois de ter vencido na Senhora da Graça.

Joni Brandão deu o tudo por tudo, mas foi infeliz no final da etapa  Fonte: beiranews.pt
Joni Brandão deu o tudo por tudo, mas foi infeliz no final da etapa
Fonte: beiranews.pt

Rui Vinhas manteve-se em boa forma e segurou, autoritariamente, a camisola amarela, perdendo apenas 10 segundos para Veloso na etapa. Joni Brandão, com imenso desgaste da fuga, acabou por perder 21 segundos para o vencedor da etapa. Ainda assim, há que “dar” uma “menção honrosa” para este ciclista, que não se acanhou e tentou destronar uma equipa bem oleada. Não foi suficiente e depois acabou por “pagar a fatura” de tal ato bravo, mas, infelizmente para ele, inconsequente.

Depois de uma etapa tão desgastante e rigorosa quanto esta, o pelotão, na etapa seguinte, optou por controlar um pouco mais a corrida, principalmente sendo uma etapa quase plana. Assim, os sprinters poderiam discutir a vitória entre si e os principais favoritos “descansarem” um pouco da complicada etapa anterior.

Com um final não tão simples quanto parecia, José Gonçalves ataca bem ao seu jeito e consegue uma vitória mais do que justa por tudo o que fez até àquele dia na prova. O homem da Caja Rural mostra-se pronto para voltar a ser uma das maiores surpresas na Volta a Espanha!

Samuel Caldeira e Francesco Gavazzi bem tentaram, mas Gonçalves tinha aqui um final bem ao seu estilo e aproveitou-o da melhor forma. Na geral individual, tudo na mesma, apesar de Gustavo Veloso bem ter tentado conseguir chegar às bonificações, mas ficando “apenas” em 4.º lugar e não chegando, por pouco, às tais bonificações de tempo.

 Mais uma grande vitória para José Gonçalves, que se mostra preparado para a Vuelta  Fonte: Volta a Portugal
Mais uma grande vitória para José Gonçalves, que se mostra preparado para a Vuelta
Fonte: Volta a Portugal

 

A oitava etapa, que terminou na Arruda dos Vinhos, foi provavelmente a mais polémica de toda a Volta. Não pelo desfecho final da etapa, mas sim por algo que aconteceu quando a fuga já tinha uma vantagem de mais de 6 minutos para o pelotão principal.

Os ciclistas, em vez de seguirem por uma rotunda, continuaram em frente, possivelmente também seguindo alguma moto que igualmente se enganou. A verdade é que, pouco depois, a organização apercebeu-se de tal falha e, a partir daí, foi o “caos”… Protestos, fuga parada, pelotão a ir a um ritmo de “passeio” até chegar a um certo sítio, etapa neutralizada e outras situações. Incrível o que se passou.

No meio disto tudo, os homens da fuga tiveram de ficar parados imenso tempo, à espera que os do pelotão chegassem ao seu sítio, para, então, retomarem a corrida e esperar que eles voltassem a ter os tais 6 minutos e pouco de distância. Até houve oportunidade para existirem entrevistas em direto aos próprios ciclistas da fuga, durante a etapa…algo surreal!

Voltando ao mais importante, à etapa em si e à sua discussão, iam 6 homens na fuga final: Davide Vigano (que teve problemas com a bicicleta e passou a linha da meta com ela ao seu lado), Ricardo Vilela (acabou por ser o grande beneficiado da fuga ter vingado, visto que ganhou um bom tempo para poder ainda conseguir um lugar no top’10, mas também o principal prejudicado, parece-me, pela neutralização, naquela altura, da etapa, porque acredito que teria ganho mais tempo não tivesse acontecido isso), David Belda, Nathan Earle, Samuel Caldeira e Jesus Ezquerra.

Ezquerra deu uma primeira excelente vitória em etapa à equipa do Sporting-Tavira  Fonte: Volta a Portugal
Ezquerra deu uma primeira excelente vitória em etapa à equipa do Sporting-Tavira
Fonte: Volta a Portugal

O ciclista do Sporting-Tavira deu a tão ambicionada primeira vitória à sua equipa, como que “salvando” a corrida da equipa portuguesa e dando, finalmente, bons motivos para todos os apoiantes da equipa poderem festejar. Foi realmente um excelente ataque, na altura certa (cerca de 3 km’s para o fim e a aproveitar uma fase mais em descida), e que premiou o “instinto” e as capacidades do espanhol. Caldeira voltou a “bater na trave” e, no grupo dos favoritos, 4 minutos e 44 segundos depois, Gustavo Veloso foi o primeiro a chegar.

Na última etapa antes do decisivo contrarrelógio, voltámos a ter uma fuga, mas, desta vez, terminou com muito menos vantagem. Dois homens destacaram-se: Daniel Mestre e Alessio Taliani. Numa fase já de aproximação do pelotão, Alejandro Marque consegue sair e apanha o duo da frente. Acredito que tenha sido o momento decisivo para aquela fuga vingar, visto que os dois já estavam algo desgastados e a junção com o espanhol só beneficiou a própria fuga e, mais tarde, o vencedor da etapa, Daniel Mestre. Segunda vitória para o ciclista português da Efapel e uma Volta a Portugal com um “sabor amargo” para Marque, não conseguindo, novamente, a vitória numa etapa e estando fora da luta pela geral individual.

Após todas estas incidências, eis que chegada o último dia da prova. A habitual chegada a Lisboa, desta vez com um contrarrelógio individual com cerca de 32 km’s para percorrer, desde Vila Franca de Xira até à Praça do Comércio. Gustavo Veloso, novamente, partia como favorito e não desapontou. Fez o seu trabalho no CR e cumpriu com o que deveria, à partida, fazer, ganhando mais a sua terceira etapa nesta corrida.

Mas a verdade é que provavelmente não esperaria um Rui Vinhas tão forte nesta especialidade (a camisola amarela tem os seus “efeitos”, também). O camisola amarela perdeu apenas 54 segundos para o vencedor da etapa e foi, inclusive, quarto classificado, à frente de nomes como Joni, Vilela, Amaro ou Gonçalves. Simplesmente incrível etapa (e Volta a Portugal) por parte do português.

 Veloso despede-se desta Volta com sentimentos mistos, não cumprindo o seu maior objetivo, mas tendo um colega de equipa a ganhar a prova  Fonte: Volta a Portugal
Veloso despede-se desta Volta com sentimentos mistos, não cumprindo o seu maior objetivo, mas tendo um colega de equipa a ganhar a prova
Fonte: Volta a Portugal

 

Rui Vinhas, ciclista da W52-FC Porto e colega de Gustavo Veloso, surpreendeu tudo e todos nesta prova, inclusive a própria equipa, e, graças a um movimento certeiro na entrada para uma fuga que acabou mesmo por vingar, conseguiu destacar-se na liderança e nunca mais a largou. Superou etapas de alta montanha, média montanha, etapas planas e, por fim, este longo contrarrelógio. Cinco anos depois, um português volta ao lugar mais alto do pódio na prova de ciclismo que mais move todos os portugueses.

Na luta pelo pódio, Gustavo Veloso foi um segundo lugar sem contestação, sendo o ciclista mais forte ao longo de toda a prova, vencendo, provavelmente, as 3 etapas mais importantes da mesma. Daniel Silva, da Rádio Popular Boavista, segurou a preciosa vantagem que tinha e venceu a “medalha de bronze”.

Esta é a quarta vitória consecutiva da W52, dirigida por Nuno Ribeiro. O FC Porto consegue aqui, desta vez em parceria com a W52, a sua 14.ª vitória na Volta a Portugal, sendo que a última ocorreu em 1983, por meio do bem conhecido Marco Chagas. Esta equipa, além de ter tido os dois primeiros da geral individual, conseguiu meter 6 ciclistas no top’13…impressionante. Raúl Alarcon ficou no quarto lugar, António Carvalho em 12.º e Ricardo Mestre em 13.º lugar. Por meio de Veloso, venceram igualmente a camisola dos pontos e, por fim, foram igualmente a equipa vencedora da classificação por equipas.

Na classificação geral, destaque, desta vez, para o domínio nacional, com apenas 3 espanhóis para 7 portugueses. Joni Brandão foi um desses portugueses. O ciclista da Efapel bem tentou e bem merecia o pódio, mas não teve a felicidade do lado dele. O quinto lugar é pouco para o que este ciclista fez ou, pelo menos, tentou fazer. Em sexto lugar, ficou Amaro Antunes. O ciclista da LA Alumínios-Antarte fez uma boa prova, mas poderia ter feito ainda melhor, principalmente depois do que fez na Volta ao Algarve deste ano. Estes dois ciclistas portugueses parecem-me ser os próximos dois nomes a irem embora para o estrangeiro – e bem merecem!

O sétimo lugar da geral ficou entregue a Henrique Casimiro, que sempre deu uma boa ajuda ao Joni e foi conseguindo manter o seu lugar por mérito próprio. Em oitavo, talvez a principal surpresa entre todos os que estão no top’10. Vicente de Mateos, ciclista da Louletano, era esperado como um dos grandes nomes para os sprints. Mas ele quis ir para além disso e discutiu praticamente todas as etapas, estando no top’10 na maioria das mesmas. Outro ciclista a ter uma excelente e surpreendente prestação na Volta a Portugal, sem dúvida.

Rui Sousa e Ricardo Vilela, ciclistas da Boavista e da Caja Rural, respetivamente, ficaram com os últimos lugares nos dez melhores. Rui Sousa voltou a tentar cumprir o sonho de vencer a Volta, mas a idade já começa a pesar. Ainda assim, para um ciclista de 40 anos, um 9.º lugar é, claramente, um feito assinalável. Já Vilela fez uma prova em crescendo, conseguindo chegar ao último lugar do top’10 já na última etapa, fazendo um bom CR, ao contrário de Frederico Figueiredo. O ciclista do Boavista fez mais uma boa Volta, mas, sendo um puro trepador, acabou por não conseguir aguentar o seu lugar no top’10 depois do CR.

Os vencedores das camisolas desta Volta a Portugal juntos em palco Fonte: Volta a Portugal
Os vencedores das camisolas desta Volta a Portugal juntos em palco
Fonte: Volta a Portugal

Além disto, há que destacar os vencedores de dois prémios. A camisola da montanha foi para Wilson Diaz, possivelmente um dos mais combativos de toda a prova, que chegou inclusive a cair numa das etapas e a festejar uma vitória cedo demais noutra das etapas. De qualquer das formas, isso não o parou e fez realmente uma Volta a Portugal bastante positiva. Depois, a camisola da juventude foi para o russo Alexander Vdovin. O ciclista da Lokosphink, juntamente com Wilson, Clarke (vencedor de uma etapa) e Gavazzi (vencedor de outra etapa), acabou por dar um pouco de cor à participação das equipas estrangeiras nesta Volta a Portugal mais dominada pelos português e pelas equipas portuguesas.

No ano passado, após a vitória de Gustavo Veloso na Volta a Portugal, fiz uma pergunta acerca do facto de haver a possibilidade de alguém poder quebrar este domínio do espanhol. Acho que ninguém acreditaria que esse mesmo ciclista estivesse dentro da própria equipa do ex-campeão da Volta a Portugal. Portanto, foi uma corrida com esta grande surpresa, que volta a dar, finalmente, uma vitória a um ciclista português. A Grandíssima voltará, como sempre, para o próximo ano!

Imagem de capa: Volta a Portugal

Nuno Raimundo

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