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Volta a Portugal: Aquilo que não vemos

João Pedro Barbosa · 6 min

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Podia começar o texto com um breve resumo de quem ganhou a etapa onde estive. Mas seria algo que já tinha sido feito por muitos jornalistas e também com o tempo que já passou nem vale a pena começar por aí. Talvez mais tarde. Esta foi a primeira vez que vi uma chegada de uma etapa da Volta a Portugal em bicicleta. Quem diria?

Estar perto da reta da meta com muitas dezenas de pessoas ao longo daquela “pequena” subida, que custava (e muito) a subir. Ver todos os espetadores a bater efusivamente nas placas de publicidade em apoio aos ciclistas que cansados subiam para chegar a uma vitória de etapa. Foi incrível. Foi a primeira vez que senti toda esta atmosfera de perto.

Vivemos muito este desporto no nosso país e quando se fala na grande “Volta” aí já é outra coisa. Verões e verões que passei junto das zonas menos povoadas do nosso país – neste caso Salvador do Campo, em Barcelos – e habituei-me a ver ciclismo na televisão. Na altura, só havia quatro canais e tínhamos de passar o tempo com alguma coisa.

A Volta a Portugal em Bicicleta é um dos principais eventos durante o verão no nosso país
Fonte: Volta a Portugal

De tarde, ligava-se a televisão no canal um e aí ficávamos. Horas e horas a fio a ver o esforço dos ciclistas a pedalarem quilómetros e quilómetros. Acredito que este também tenha sido o “programa de festas” para alguns da minha idade que gostava de ciclismo.

Mas quando a competição arranca estamos demasiado focados em quem ganha, em quem perde, em quem enverga as camisolas da montanha ou juventude… Tudo sempre relacionado com a competição e o que se passa em cada edição da mesma.

Só quando estamos perante a organização de uma chegada de etapa, por exemplo, é que percebemos que há muito para além da competição. Esquecemo-nos das pessoas que por de trás de toda a corrida da Volta a Portugal dão o apoio necessário para que isto tudo funcione. E este texto é mesmo isso: «Aquilo que não vemos».

À ESPERA 29 ANOS

Foram 29 anos de espera até que a caravana da Volta a Portugal voltasse a passar no município de Loures. Foi precisamente em 1990 a última vez que a maior prova de ciclismo do país passou por este concelho de Lisboa. O vencedor desse ano da Volta a Portugal seria Fernando Carvalho da equipa Ruquita/Feirense.

A equipa Ruquita/Feirense apresentou-se aos adeptos do clube depois da vitória na Volta a Portugal de Fernando Carvalho
Fonte: CD Feirense

Este ano, a etapa número dois terminou em Santo António dos Cavalheiros. Uma pequena vila localizada no concelho de Loures e, daí também ter aparecido o nome do concelho quando se indicou o local de partida e chegada. Era um final complicado para os ciclistas e podíamos mesmo ter cortes caso o pelotão chegasse compacto aos últimos quilómetros.

O último quilómetro era sempre a subir – uma chegada em alto um pouco anormal para os lados de Lisboa. Mas a verdade é que aconteceu mesmo para a alegria dos muitos que estavam presentes visto que puderam ver os corredores mais lentamente enquanto subiam.

Os últimos mil metros são por si só emocionantes numa corrida, mas imaginem agora com diversas pessoas a bater nas placas de publicidade e a dar ânimo aos que pedalam. Deve ser uma sensação indescritível, não? Mas já lá vamos àquilo que aconteceu na corrida.

A “ECO-ORGANIZAÇÃO”

Parecia que o município de Loures já preparava esta chegada da Volta a Portugal há muito tempo. Porque é que digo isto? Porque toda a organização do evento não me pareceu um acaso. Estava organizado de uma forma excelente e, talvez, muitos que lá estiveram concordem comigo.

Não foi apenas uma simples corrida da Volta a Portugal no concelho de Loures. Pensou-se em tudo para esta etapa 2. E no final do dia houve quatro ideias a reter: a importância da reciclagem, a proteção do meio ambiente, a diminuição do impacto ambiental e a preservação da água como recurso natural.

Também fizemos parte do movimento da Câmara Municipal de Loures e ficámos com um copo reutilizável
Fonte: João Barbosa/Bola na Rede

Houve uma maior preocupação com os resíduos que podiam acabar por se acumular no chão perto da reta da meta. Por isso, os ecopontos estavam espalhados em diversos pontos (muitos deles estrategicamente) para que as pessoas pudessem fazer a devida reciclagem. Também não faltaram trabalhadores para ajudar a reciclar aqueles que não soubessem a divisão entre o plástico/metal, o papel e o vidro.

Os ecopontos estavam colocados em pontos estratégico ao longo de toda a linha de chegada da etapa 2
Fonte: António Correia/Bola na Rede
Houve ainda também “mochileiros móveis” que alertaram para a importância de se fazer reciclagem. Só não fez quem não queria… porque, realmente, esta ideia está genial. Não é uma inovação visto que já tinha visto em outros eventos, mas é uma boa oportunidade para implementar em mais sítios.

Mas não é apenas aqui que quero chegar. No dia 2 de agosto (dia da chegada da etapa 2) iria registar-se temperaturas um pouco elevadas e há sempre a preocupação com a hidratação. Não é que também pensaram nisto? Sim! Houve pessoas – “os mochileiros” ou Guardiões do Ambiente – que estavam a entregar água a todos aqueles que estavam perto da meta em copos reutilizáveis.

O Bola na Rede esteve junto da reta da meta na etapa 2 e estevemos com os “Guardiões do Ambiente”
Fonte: António Correia/Bola na Rede
Para além de hidratarem as pessoas, ainda estavam a pensar no ambiente. Um “dois em um” que todos apreciamos. Os copos reutilizáveis são uma excelente iniciativa para que o plástico seja posto de lado e também uma oportunidade não haver tanto lixo acumulado no chão – como podia acontecer caso fossem de plástico.

É de se tirar o chapéu à Câmara Municipal de Loures que pensou em tudo e mais alguma coisa para preparar esta vinda da Volta, 29 anos depois.

A CHEGADA DOS CORREDORES A LOURES

Mas vamos agora ao que se passou na corrida. Os corredores precisaram de 4 horas e 50 minutos para conseguir cumprir o troço desde Marinha Grande até Santo António dos Cavaleiros. Ao todo foram 198,5km percorridos por todos os ciclistas – praticamente 200km num dia de bastante calor.

Na etapa 2, o genérico não falhou de todo («veste a amarela e ergue os braços no ar»). Não é a amarela que a música se estava a referir, mas o vencedor da etapa também vestia de amarelo e ergueu bem alto os braços após a sua vitória. Mikel Aristi foi o primeiro a cruzar a meta de chegada. O ciclista espanhol da equipa Euskadi Basque Country Murias chegou no tempo de 4:50:05 e superou na subida o português Luís Mendonça da Rádio Popular/Boavista.

Em suma, foi uma experiência incrível ver toda esta animação de um final de etapa da Volta a Portugal. Foi a primeira vez que tive esta sensação e acredito que muito sentiram aquilo que senti.

É excelente ver que ainda há um grande número de pessoas a preocuparem-se com esta modalidade e que esta competição sobre rodas continua a ser amada por este país fora. Porque, para além dos ciclistas, somos nós [adeptos de ciclismo] que damos cor às estradas portuguesas. Vão para a rua e apoiem estes ciclistas porque merecem tudo. Apoiem o primeiro que pode ganhar a etapa até ao último que em esforço tenta terminar a corrida. Todos merecem o nosso apoio.

Neste artigo tentei pôr tudo aquilo que vi e ouvi ao longo das horas que estive em Santo António dos Cavaleiros. Não só o que aconteceu na corrida, mas tudo em volta desta excelente organização. Daí o título «Aquilo que não vemos», porque por vezes esquecemo-nos dos esforços que são feitos ao torno destes eventos e quis dar conhecimento disto. A todos eles: Obrigado!

Foto de Capa: João Barbosa/Bola na Rede

 

João Pedro Barbosa

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