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197 dias depois, Primoz Roglic e Tadej Pogacar voltaram a encontrar-se em contexto de uma prova por etapas, desta feita, na 60ª edição da “Itzulia”, a denominada Volta ao País Basco. Mesmo para os mais céticos, o trono basco estava destinado a ter um rei esloveno… e adivinhem lá? Assim aconteceu.
Não correm só os dois, certo. Não se trata de um mano a mano, mas também não há como retirar todo o favoritismo que merecem em qualquer competição por etapas em que participem. São os dois voltistas mais fortes da atualidade e voltaram a confirmá-lo, contudo, esta modalidade envolve outra componente muito importante. Vamos, por isso, tentar outra vez: Jumbo-Visma um (ou dois na realidade), UAE-Team Emirates e demais equipas… zero.
Mais do que nomes, as jogadas táticas ditaram muito o ritmo da dança basca. O perfil acidentado, as pendentes explosivas, o fervoroso público da região. Os ingredientes, como sempre, estiveram lá. Muito se dançou, estrategicamente e taticamente. Jogadas estudadas, decisões discutíveis, surpresas, vencedores e derrotados: para além do óbvio espetáculo, foram várias as temáticas coletivas que merecem uma análise sustentada.
🚨LA ITZULIA DESDE CASA
😔Querida afición, el mensaje más importante de todos va para vosotros.
🏘Este año necesitamos dar ejemplo y quedarnos en casa viendo la carrera.
😓Tanto los ciclistas como el resto de personas os lo agradecerán.
Volveréis. Volveremos. pic.twitter.com/hf649ZHnNT
— Itzulia Basque Country (@ehitzulia) March 25, 2021
Como se não bastasse, o cardápio revelou-se bem mais atraente do que aquilo que aparentava. Para além da realeza eslovena, o menu de general contenders e climbers apresentava um lote de ciclistas de primeira linha mundial, tornando o leque de candidatos bem mais abrangente, com destaque para Adam Yates em pico de forma, um Alejandro Valverde incrivelmente regular ou o anfitrião basco Mikel Landa, por exemplo.
Apesar das normais condicionantes em virtude da gestão sobre o controlo da covid-19, foi de perto que os adeptos bascos puderam presenciar seis dias de uma corrida muito bem disputada. À cabeça, a exibição monstruosa da Jumbo-Visma e do seu líder. Noutros pontos de destaque, as exibições dos jovens Vingegaard e Mcnulty, decisivas para o curso da corrida, as vitórias da Astana, com Alex Aranburu e Ion Izaguirre, a dobradinha da Deceuninck Quick-Step em Ondorroa e ainda a vitória de David Gaudu sobre a coroação de Roglic em Arrate.
Foto de Capa: Itzulia Basque Country
Jumbo-Visma de luxo arrebata todas as classificações
Pleno. Exatamente, na ótica da Jumbo-Visma, então, a “Itzulia” de 2021 ganha outra dimensão de muito bem disputada, já que, através de Roglic e do jovem dinamarquês Jonas Vingegaard, a equipa holandesa fez o pleno e levou para casa a classificação geral, da juventude, da montanha, dos pontos e ainda a classificação por equipas.
Logo na primeira etapa, apenas Brandon Mcnulty ameaçou a vitória de Roglic (atraso de dois segundos). O perfil do contrarrelógio em Bilbao, com uma extensão de aproximadamente 14 quilómetros, traduzia-se num grosso de jornada rápido, com um “muro” a marcar o final de etapa. O líder da Jumbo-Visma foi melhor que o talento norte-americano da UAE-Team Emirates e muito melhor que os restantes. Tadej Pogacar perdeu 28 segundos, os mesmos que Adam Yates; Schachmann, Kelderman, Bilbao, Fulgsang, Valverde e Carapaz situaram-se entre os 30 e os 45 segundos perdidos. Buchmann, Landa, Higuita, Carty e Ion Izaguirre foram os maiores derrotados do dia.
🇪🇸 #Itzulia2021
Yesterday was… steep📈
📸 Iraia Calvo pic.twitter.com/D47YnPvcsD
— Team Jumbo-Visma cycling (@JumboVismaRoad) April 6, 2021
Na etapa seguinte, a montanha de segunda categoria que antecedia a chegada a Sestao convidava a mexidas. Elas aconteceram. Alex Aranburu, exatamente, aquele espanhol com uma ponta final interessante fez a diferença com um ataque na descida, já a 10 quilómetros da linha de chegada. Antes disso, já Pogacar tinha tentado a sua sorte com David Gaudu. Roglic mantinha-se interventivo na defesa da sua camisola e a Astana-Premier Tech revelava intenções ambiciosas para a etapa, com ataques de Omar Fraile e do basco que acabaria por vencer. No final do dia, primeiro e segundo lugar para a equipa cazaque; Pogacar recuperou quatro segundos com o terceiro lugar na jornada e Mcnulty perdeu terreno para Roglic.
A primeira luta de galos estava marcada para o terceiro dia de competição. Teria que acontecer, não é verdade? Mais do que isso, quem conseguiria acompanhar os dois eslovenos? Antes da ligeira descida até Ermualde, os ciclistas tinham pela frente uma curta subida com pendentes bastante ingremes, chegando por vezes aos 20%. A cerca de 2 quilómetros para o fim, Pogacar arrancou a ritmo do grupo dos favoritos e apenas Roglic foi capaz de segui-lo.
Primoz Roglic 🆚 Tadej Pogacar
The two Slovenians go for it and break away from Adam Yates.
What a finish in store. pic.twitter.com/qNTeJmnZIq
— Eurosport UK (@Eurosport_UK) April 7, 2021
Abriram alguma vantagem, mas nunca criaram uma margem assinalável. Gaudu, Yates, Landa e Valverde continuaram a morder os calcanhares aos dois da frente, chegando mesmo a reagrupar. Já dentro dos últimos 1000 metros, Roglic aproveitou um pequeno topo para fazer diferenças, apenas Pogacar conseguiu seguir na roda. A vitória estava entre os dois eslovenos e acabou por sorrir ao campeão da Volta a França, àquele que ainda tinha alguma explosividade nas pernas e que se sobrepôs ao rival da Jumbo-Visma, conquistando mais quatro segundos na luta pela geral.
Em tudo semelhante à etapa dois, a jornada número quatro tinha no papel quatro contagens de montanha, sendo a última (Erlaitz) de primeira categoria e com uma distância de 23 quilómetros para o final do dia em Hondarribia. Com uma maior escala de dificuldade, era um momento fulcral da corrida para Pogacar se aproximar de Roglic; Yates se intrometer na luta dos dois eslovenos; Mcnulty, a trinta segundos da liderança, jogar uma cartada importante a favor da UAE-Team Emirates; Valverde, Landa e Vingegaard afirmarem o seu posto no top10; Gaudu, Buchmann e Higuita procurarem o seu lugar dentro dos dez primeiros.
Geral após 03 etapas. #itzulia pic.twitter.com/i9huVblR4H
— País do Ciclismo (@DoCiclismo) April 7, 2021
Contudo, a escalada a Erlaitz não se traduziu em grandes (até nenhumas) diferenças. Isso não quer necessariamente dizer que elas não existiram. O equilíbrio de forças em subida, causado pelo controlo eficaz da Jumbo-Visma, hipotecou as expectativas atacantes de Mikel Landa, Esteban Chaves e do próprio Brandon Mcnulty. O que se seguiu, porém, não deixa de ser interessante. Um grupo de 15 a 20 ciclistas cruzou a passagem pela contagem de montanha em grupo, tornando a etapa bastante suscetível a ataques. Esteban Chaves não perdeu tempo e apenas Pello Bilbao seguiu na roda. Seguiram-se as movimentações de Ion Izaguirre, Emanuel Buchmann e os dois “planos B” de Jumbo-Visma e UAE Team-Emirates: Jonas Vingegaard e Brandon Mcnulty.
No grupo dos favoritos, faltaram homens e motivos para trabalhar. A responsabilidade estava toda na Jumbo-Visma que, intencionalmente, deixou Brandon Mcnulty escapar com a companhia de Jonas Vingegaard. Presa por 30 segundos, perder a camisola amarela era uma possibilidade real para Roglic. Foi justamente o que acabou por acontecer, até porque ninguém se mexeu verdadeiramente no grupo dos maiores tubarões para alcançar os seis corredores que atacaram a corrida.
#Itzulia2021 @BrandonMcNult is looking good in his yellow Jersey. ✔️🟡 #UAETeamEmirates #RideTogether pic.twitter.com/VjB2RIQIq8
— @UAE-TeamEmirates (@TeamEmiratesUAE) April 8, 2021
Resultado? Mcnulty em primeiro com 24 segundos para Roglic e 28 para Vingegaard. Pogacar caía a quinto lugar na geral, ultrapassado também por Pello Bilbao. A Jumbo-Visma perdia a primeira posição na geral e com ela a obrigatoriedade de comandar a corrida. Com isto, ganhava também Vingegaard como um elemento muito importante – ou ainda mais importante – para o que desse e viesse. Do outro lado, Mcnulty dependia de si próprio e até tinha dado boas indicações nas montanhas, já Pogacar ficava um pouco de mãos e pés atados, o que se veio a verificar in loco na etapa rainha da competição (sexta e última jornada).
Sobre a etapa, foi preciso ir ao photo finish para determinar qual dos bascos – os mais rápidos do grupo – foi o mais forte: Ion Izaguirre ou Pello Bilbao? Ditou a tecnologia que o homem da Astana-Premier Tech foi ligeiramente mais rápido. A faltar duas etapas para a conclusão da prova, o quinto dia era aquele mais próximo de termos uma chegada em pelotão compacto. Daryl Impey, Magnus Cort, Alexey Lutsenko e outros nomes com uma excelente ponta final estiveram lá, mas foi uma dupla da Deceuninck Quick-Step que brilhou.
One for your scrapbook!
A Wolfpack exhibition in #Itzulia2021!
Photo: @GettySport pic.twitter.com/jznEzZOpEk— Deceuninck-QuickStep (@deceuninck_qst) April 9, 2021
Mikkel Honoré e Josef Cerny chegaram isolados, isto depois de descarregarem Julien Bernard da Trek-Segafredo. O dinamarquês de 24 anos foi o primeiro a cruzar a linha de meta, somando a segunda vitória da época e deixando mais uma marca entre os nomes de uma geração dinamarquesa pós-Fulgsang de grande qualidade.
Da vitória da equipa belga passávamos para o dia de todas as decisões. O prato que tinha sido cozinhado na etapa quatro estava servido e a etapa que culminava com a chegada a Arrate teve muito que se lhe diga. Para além de sete contagens de montanha, curtas e explosivas, tínhamos uma situação de corrida caótica: Jumbo-Visma e UAE-Team Emirates com possibilidades reais de levar a vitória; Pello Bilbao e Adam Yates à espreita; Valverde, Izaguirre e Landa como a armada espanhola dentro dos dez primeiros e que ainda podia mexer com a corrida de forma drástica; Schachmann, Higuita e a revelação da prova, Mauri Vansevenant (Deceuninck Quick-Step) às portas do top10 e com aspirações lógicas.
A etapa começou a jogar-se a 70 quilómetros para o fim, quando as duas equipas em destaque começaram a mexer-se por intermédio de Marc Hirschi e Sam Oomen. Mais uma vez, no terreno acidentado e quando as pendentes se tornavam negativas, os experientes espanhóis da Astana-Premier Tech e da Movistar lançavam-se ao ataque, cavando um fosso para os atletas da UAE-Team Emirates. Roglic conseguiu intrometer-se nesse grupo dianteiro e começou a abrir espaço ainda com 55 quilómetros para o final.
What a finale to the Itzulia Basque Country yesterday! Gaudu and Roglič work together brilliantly for Gaudu to take the stage and Roglič the overall.
Relive the action with GCN+ 👇https://t.co/dLJWtRs0ym pic.twitter.com/jrvusmKZyN
— GlobalCyclingNetwork (@gcntweet) April 11, 2021
Pogacar viu-se obrigado a trabalhar, desgastando-se em prol de Mcnulty. Esforço esse que acabaria por lhe custar caro. A 46 quilómetros para o fim, o jovem que se deu a conhecer na passada Volta a Itália não aguentou o ritmo. Pogacar ainda aguardou, mas acabou por ter carta branca para tentar fazer a ponte para a frente quando ficou bem evidenciada a incapacidade de Mcnulty em subidas tão ingremes.
A verdade é que essa tentativa nunca se tornou possível. Apesar da etapa sólida do prodígio de 22 anos, Roglic, Carty e Gaudu revelaram-se intransponíveis à medida que se aproximavam da linha de meta. A vantagem nunca foi superior a 45 segundos, no entanto, a cooperação entre os homens que se iam juntando num segundo grupo nunca foi a melhor.
Geral final #Itzulia pic.twitter.com/pnsHyuCTJ3
— País do Ciclismo (@DoCiclismo) April 10, 2021
Parecia que estava tudo encaminhado para os três da frente e mais ficou quando Gaudu e Roglic deixaram Carty para trás, aumentando o ritmo e abrindo distâncias. A etapa terminou com um belo momento de fair-play, depois de Gaudu ter ajudado Roglic durante a ascensão final, o portento esloveno, com a vitória na geral no bolso, decidiu oferecer a consagração na etapa ao francês da Groupama-FDJ.
É caso para se dizer que Primoz Roglic venceu o primeiro “round”. Depois de triunfar em 2018 nesta competição, o esloveno continua em todo o gás a sua preparação para a Volta a França. Pogi, desta vez, não conseguiu repetir os feitos do UAE Tour ou do Tirreno Adriático, apesar de ter deixado boas indicações. Seguem-se agora as Clássicas das Ardenas: Será que teremos um destes dois a surpreender? Um Alejandro Valverde também? Façam as vossas apostas…











