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A única prova motorizada a começar em 2022 e a terminar em 2023, a 45ª edição do Rally Dakar decorreu entre os dias 31 de dezembro e 15 de janeiro. Constituída por 1 prólogo e 14 etapas especiais, por uma extensão total superior a 5 mil quilómetros, que fez desta edição a mais longa desde 2014. Foi também a 4ª vez que a corrida se realizou integralmente no território da Arábia Saudita, sendo que o Dakar 2023 ligou Sea Camp a Dammam.
Foram 15 dias recheados de emoção, surpresas e drama que levaram a momentos inéditos e a lutas pela vitória em certas categorias que chegaram mesmo ao último dia da prova, algo que habitualmente não acontece. Desde lutas incríveis entre Alexandre Giroud e Manuel Andajur nos quadriciclos e a vitória dominante de Nasser Al-Attiyah, nos carros que alcançou o quinto Dakar da carreira.
Até vitórias portuguesas existiram nas especiais com destaque para João Rodrigues (com Filipe Palmeiro a copiloto) e para Ricardo Porem que venceram nos protótipos T3. Seguem-se cinco destes momentos históricos para o automobilismo.
5. O AZAR DE LOEB É A SORTE DE LOEB
Sébastien Loeb chegava ao seu oitavo Rally Dakar com o objetivo de melhorar o segundo lugar de 2018 e 2022. O francês Bahrain Raid Xtreme (BRX) até começou bem, ao obter dois segundos lugares consecutivos em etapa, sendo que apenas Carlos Sainz estava à frente de Loeb, por uma margem ténue. Por acréscimo, o eneacampeão do WRC consegiu ainda ganhar uma vantagem de 7 minutos para Nasser Al-Attiyah, o campeão de 2022.
Contudo, a corrida sofreu uma alteração drástica no terceiro dia, ou seja, na 2ª etapa. Um dia com 589 km de extensão, o maior obstáculo no percurso era mesmo a abundância de pequenas pedras que podiam causar dânios sérios aos pneus. Foi o que aconteceu a Sébastien Loeb que perdeu cerca de 1 hora e 26 minutos, pelo que o próprio piloto gaulês admitiu que a luta pela vitória estava acabada para si. Foi também esta a postura de Guerlain Chicherit que ficou o carro completamente preso e acabou por perder ainda mais tempo que o piloto da BRX.
É possível dizer que o incidente de Loeb acabou por ter um “efeito borboleta” na história do automobilismo ao servir de causa indireta para um recorde que Loeb viria a estabelecer nesta edição da prova. Já sem objetivos na geral, podia correr mais riscos, sobretudo, sem ter de se preocupar com a reação dos líderes.
4. ERIK GOCZAL: O FUTURO É AGORA
Com apenas 18 anos, a simples participação de Erik Goczal no Rally Dakar era, por si só histórica, uma vez que o polaco se tornou o piloto mais jovem de sempre a participar na competição. Entrou em prova ao serviço da Energylandia Rally Team nos SSV T4, sendo colega de equipa do tio e do pai. Logo no prólogo foi capaz de se superiorizar em relação aos dois familiares, e no segundo dia de corrida tornou-se mesmo no piloto mais jovem de sempre a ganhar uma etapa no Dakar.
Erik nunca saiu dos cinco primeiros da geral e durante mais do que uma etapa, foi mesmo segundo, apenas atrás do brasileiro Rodrigo Luppi de Oliveira. Contudo, num dia em que o seu pai, Marek Goczal venceu a etapa, Eric perdeu bastante tempo e Rokas Baciuska estava a meio de uma remontada incrível depois de uma má primeira etapa, causada por problemas mecânicos.
A partir da sétima etapa. Baciuska assumiu o primeiro lugar da geral, com Luppi de Oliveira de fora da batalha. O lituano era favorito ao título nos T4 e estava bem encaminhado para o conseguir, conseguindo até distanciar Marek Goczal. Mas para Erik Goczal, a margem não abria. Pelo contrário, o jovem polaco, arrecadou ainda mais duas vitórias de etapa e chegou ao último dia do Dakar a apenas 3 minutos e 24 segundos do rival da Red Bull Can-am Factory.
E depois de quatro minutos ganhos no penúltimo dia, Erik Goczal venceu o Rally Dakar em SSV T4, depois de um dia marcado por calamidade para Rokas Baciuska que perdeu 20 minutos devido a problemas mecânicos.
3. O CAMPEONATO DAS MOTAS
Se houve categoria do Dakar bem disputada em 2023, foi a das motas. Nas sete primeiras etapas, sete vencedores diferentes, este campeonato nem começou da melhor maneira para o espetáculo com Ryan Sunderland, campeão de 2022, a abandonar logo na segunda etapa. O britânico voltava a ter a mesma sorte de 2019, ano em que entrava também como campeão, mas em que também foi forçado a abandonar o Dakar.
Daniel Sanders foi o primeiro a acomodar-se na liderança durante alguns dias, com alguns minutos para os concorrentes. Contudo, um mau dia foi o que bastou para que o piloto da Red Bull GasGas Factory ficasse de fora da luta pela vitória após perder mais de 17 minutos e meio. Skyler Howes assumia a liderança de um campeonato que após 7 etapas, tinha apenas 2 minutos e 49 segundos entre primeiro e sexto lugar, com 13 segundos entre os três primeiros classificados. Avança-se um dia e a vantagem de Skyler Howes para Toby Pricer era de apenas 3 segundos, a mais curta distância de sempre na história do Dakar.
No penúltimo dia, Kevin Benavides foi capaz de passar de mais de 2 minutos de atraso para Toby Price (o líder na altura) para apenas 12 segundos antes da etapa final e Skyler Howes era terceiro com apenas um minuto de atraso. Benavides venceu a última especial com 55 segundos para Toby Price e venceu o Rally Dakar, repetindo o título de 2021.
Se toda esta descrição pareceu confusa, reflete o quão disputada e aberta foi esta edição do Rally Dakar no que às motas diz respeito.
2. QUANDO OS SIMPÁTICOS ACABAM EM PRIMEIRO
Um dos aspetos mais únicos do Rally Dakar é a frequência com que os pilotos colaboram entre si para resolver situações extremas, num contexto em que a natureza tende mais a ser adversária do que rival. Nesta edição do Dakar, observaram-se várias ocorrências desta índole, como foi o caso do auxílio prestado a Cristina Gutierres e a “Chaleco” Gomez”, dois pilotos da vertente T3, por dois candidatos ao título nos camiões. Muitas vezes o humanismo vence a competitividade e aí é que o desporto é verdadeiramente belo.
Mas o caso mais honroso foi, sem dúvida, o de Kevin Benavides na penúltima etapa que, em plena disputa do título em motas e com necessidade de recuperar tempo, viu o seu colega de equipa, o austríaco Matthias Walkner no chão, decidiu ficar ao lado do colega, alertou os médicos e a equipa para o ocorrido e não prosseguiu até ter a certeza que Wallkner estava seguro.
Como recompensa, o tempo que perdeu nessa paragem foi devolvido pela organização. Um gesto de classe para retribuir a classe de um verdadeiro campeão.
1. SÉBASTIEN LOEB E OS RECORDES: A MAIS BONITA HISTÓRIA DE AMOR
Loeb parecia estar condenado a ser uma mera “personagem de fundo” neste Dakar, após a segunda etapa. Longe do primeiro lugar, o desânimo na cara do astro francês foi percetível durante todos os dias até ao último. Ma aqui entra o “efeito borboleta” do incidente: Loeb já não era candidato ao título, não era um homem marcado e como tal podia correr riscos que os demais pilotos poderiam não estar tão dispostos a correr devido às ambições que tinham de chegar ao título.
A este fator acresce a decisão madrugadora do campeonato dos carros com Nasser Al-Attaiyah que no dia de descanso, tinha já o quinto Dakar bem encaminhado com mais de uma hora para o classificado. O azar de Sébastien Loeb foi uma nota recorrente ao longo dos primeiros dias da prova, com avarias no carro do gaulês a serem recorrentes.
Contudo, a partir da etapa 8, Sébastien Loeb ia começar a fazer história e venceu 6 etapas consecutivas, um feito inédito em toda a história do Rally Dakar. Loeb não viu este recorde como um prémio de consolação, mas permitiu à BRX vencer 9 etapas em 14, com os dois triunfos adicionais de Chicherit.











