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O Treinador das Subidas de Divisão – Entrevista a Miguel Ferreira

Guilherme Costa · 8 min

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Miguel Ferreira é treinador de futsal. Atualmente ao serviço do Ferreira do Zêzere, o técnico de 47 anos aceitou o convite de ser entrevistado pelo Bola na Rede, em que fala brevemente da sua carreira, aborda a sua colaboração com Nuno Dias, e, ainda, dá a sua opinião sobre temas importantes do futsal português.

Carreira como Treinador

Bola na RedeHá quantos anos é que está ligado ao Futsal?

Miguel Ferreira: Comecei em 1991, como jogador na Académica de Coimbra. Fiz sete épocas como jogador, sete como jogador/treinador e 12 como treinador, ou seja, 26 anos no total.

: Miguel Ferreira com o seu filho, com a taça relativa ao Campeonato Distrital da A.F. de Santarém 2016/2017
Miguel Ferreira com o seu filho, com a taça relativa ao Campeonato Distrital da A.F. de Santarém 2016/2017

BnR: A primeira experiência ao mais alto nível foi no Instituto D. João V (treinado por Nuno Dias, atual treinador do Sporting C.P.), mas como adjunto e responsável pelo trabalho de guarda-redes. Como surgiu esse convite? Sentiu alguma dificuldade neste desafio? Já agora, na sua opinião, o técnico Nuno Dias já mostrava nessa altura alguns indícios de que poderia atingir um patamar de excelência?

M.F.: Esse convite surgiu através do Nuno Dias, que era o treinador principal. Nós éramos colegas de trabalho, pois dávamos ambos aulas em Monte Redondo, há vários anos. Partilhávamos, também, a paixão pelo futsal, por isso não foi difícil decidir. Já nessa altura, ele (Nuno Dias) revelava uma capacidade de trabalho e de liderança muito à frente de todos os outros que conheci, por isso trabalhar com ele sempre foi e será um prazer, e a sua ascensão até ao topo do futsal mundial será uma mera questão de tempo (e já lá está muito perto). A maior dificuldade foi ter de me adaptar ao trabalho com os guardar-redes, pois sempre fui jogador de campo e nunca tinha feito esse trabalho, o que exigiu de mim muito trabalho de casa e muita dedicação.

BnR: Ao longo do tempo em que lá trabalhou, a equipa competiu na 1.ª Divisão. Recorda-se de algum jogo que o tenha marcado até hoje?

M.F.: Recordo-me de vários. Nos dois anos em que lá estive, as nossas prestações foram muito boas. Atingimos as meias-finais do campeonato por duas vezes, tendo sido eliminados por Sporting (2-0 no total) e Benfica (2-1 no total). Mas houve um jogo que nunca esquecerei: foi na Fase Regular, e recebemos o Benfica. Cerca de 1h antes, fiquei sozinho com o Nuno, no campo, a falar de algumas coisas, e veio à conversa o facto de as redes das balizas estarem velhas e rotas em alguns sítios. Ele comentou que alguma bola ainda ia entrar por fora, e o árbitro ia marcar golo. Eu respondi-lhe que não haveria problema, porque isso ia ser no nosso sexto golo. Curiosamente, ganhámos esse jogo por 6-2 e ainda nos rimos um bocado no fim à conta dessa conversa. Mas o mais importante nesse dia foi que provámos que podíamos dar luta aos grandes, ganhando-lhes e sendo melhores que eles.

O técnico em conjunto com a sua equipa técnica (Sérgio Silva à esquerda e Cláudio Moutinho à direita), nos festejos do Campeonato Distrital da A.F. de Santarém 2016/2017, que permitiu ao Ferreira do Zêzere assegurar a subida à 2.ª Divisão Nacional
O técnico em conjunto com a sua equipa técnica (Sérgio Silva à esquerda e Cláudio Moutinho à direita), nos festejos do Campeonato Distrital da A.F. de Santarém 2016/2017, que permitiu ao Ferreira do Zêzere assegurar a subida à 2.ª Divisão Nacional

BnR: Já passou por Bidoeirense, União de Leiria, Igreja Velha, Vidigalense, Pocariça, entre outros, e atualmente está no Ferreira do Zêzere. Tendo a perfeita noção de que os clubes onde trabalhou pertenciam a divisões inferiores, alguma vez sentiu que a exigência e o compromisso dos mesmos eram tão elevados quanto os de uma equipa da principal divisão?

M.F.: Sim, passei por vários projetos – 13 clubes no total. Treinei em todas as divisões distritais e nacionais e, ainda, no Desporto Escolar (Masculinos e Femininos). Treinei equipas más, razoáveis, boas e muito boas, com alguns atletas formados em futsal e outros em futebol de 11. É uma experiência muito vasta, com algumas frustrações, mas, felizmente, também com muitas conquistas e alegrias. Para se estar nestes sítios todos tão heterogéneos, e manter a sanidade mental, tem de haver alguns princípios comuns no trabalho que faço. O principal é que a exigência tem de ser a mesma em todo o lado, o que às vezes não é muito bem compreendido. A forma de respeitar o meu trabalho e o esforço dos jogadores, por melhores ou piores que eles sejam, é exigir-lhes o máximo nos treinos, tal como se jogassem no melhor clube do mundo. Essa tem de ser a base de trabalho. E as pessoas inteligentes respeitam isso e gostam disso. Costumo dizer-lhes que no desporto coletivo, para se ter sucesso, existem 3 aspetos fundamentais:

1-      QUALIDADE, que se vê com a bola nos pés.

2-      ATITUDE, que se vê quando não se tem a bola nos pés, quer a atacar quer a defender.

3-      INTELIGÊNCIA, que é a forma com cada jogador consegue interpretar o jogo tendo como base os dois pontos anteriores. Ou seja, se um jogador perceber quais são as suas limitações/atributos técnicos e físicos, perceberá muito melhor a forma de jogar que será mais útil para a equipa e, dessa forma, até um jogador com menos qualidade pode ser útil se tiver a atitude certa.

Muito poucos podem aspirar a serem os melhores do mundo em termos de qualidade, mas TODOS podem e devem tentar ser os melhores do mundo na atitude. Para esse aspeto, não há limitações. E um dos meus trabalhos mais importantes enquanto treinador, é perceber e explicar a cada jogador qual o melhor contributo que ele pode dar à equipa.

BnR: Já teve a ocasião de se aventurar pelo Futsal feminino, mais precisamente pelo Louriçal. Sentiu alguma diferença na vontade e entrega em cada treino e jogo entre homens e mulheres?

M.F.: Já tinha experimentado anteriormente o Futsal feminino, mas precisamente no Desporto Escolar. Na realidade, penso que não há grandes diferenças na vontade e na entrega. Aliás, se compararmos duas equipas de topo masculinas e femininas, a única diferença será no volume de treino, não tanto na intensidade, grau de auto-exigência ou vontade de aprender e de fazer as coisas bem. A experiência na Assoc. Louriçal foi muito positiva, apesar de não ter terminado da forma que eu gostaria.

BnR: Já conquistou 8 taças, 4 supertaças, 7 campeonatos e comemorou 10 subidas de divisão. Qual foi para si o título mais saboroso de conquistar e porquê?

M.F: Todos são importantes. Mas os que sabem sempre melhor são os últimos, porque refletem que o trabalho que estamos a fazer continua a ser de qualidade. A ambição, o esforço, o trabalho e a dedicação todos podem ter, sendo que os títulos refletem a qualidade dos mesmos. Ninguém pode dizer que é muito bom se nunca ganhar. Os títulos, por mais que andemos às voltas, é que nos dão o certificado de qualidade no que fazemos, quer sejamos jogadores, treinadores, dirigentes ou outra coisa qualquer dentro de uma estrutura desportiva. A única exceção que faço a isto é na formação. Não considero que sejam precisos títulos para se ser bom ou muito bom nos escalões de formação.

A equipa do Ferreira do Zêzere a festejar a conquista da Taça Futsal A.F. Santarém 2016/2017
A equipa do Ferreira do Zêzere a festejar a conquista da Taça Futsal A.F. Santarém 2016/2017

BnR: O seu objetivo profissional é chegar num curto-médio prazo ao comando técnico de um clube da Liga Sportzone?

M.F.: Neste momento, o meu objetivo é poder ganhar e tentar subir de divisão no meu atual clube, o SC Ferreira do Zêzere. Vamos jogar numa 2.ª Divisão muito competitiva e com equipas de grande qualidade. Mas a ambição é, e será sempre, ganhar mais alguma coisa naquele clube. Uma terra fantástica, com apoiantes fantásticos, que merecem muitas alegrias. Uma estrutura que está a crescer e a aprender de forma muito rápida porque os seus elementos são, além de esforçados, de uma inteligência muito grande. Um clube sério, de pessoas com princípios que não enganam ninguém, como se vê muito por aí. Por tudo isto, este é o MEU projeto, pelo qual irei dar tudo o que tenho.

BnR: De certeza que já teve oportunidade de trabalhar com vários jogadores. Qual foi o jogador que lhe mais gozo deu treinar e porquê?

M.F.: Felizmente já trabalhei com muitos bons jogadores, daí achar que nunca irei conseguir individualizar qualquer atleta treinado por mim.

Opinião acerca do Futsal português

BnR: O Campeonato português está ao nível dos campeonatos europeus mais fortes, como o espanhol, italiano e russo?

M.F.: A um nível geral, penso que não está ao nível dos campeonatos Espanhol e Russo, mas sim ao nível das equipas de topo. O Sporting é vice-campeão europeu, o que demonstra que está ao nível dos melhores. Quanto ao Italiano, não creio que seja melhor que o nosso.

Miguel Ferreira foi campeão pelo Ferreira do Zêzere e já trabalhou com Nuno Dias
Miguel Ferreira foi campeão pelo Ferreira do Zêzere e já trabalhou com Nuno Dias

BnR: Desde a criação da Liga de futsal até aos dias de hoje, tem-se assistido a uma espécie de “ciclo vicioso” entre Benfica e Sporting, no que diz respeito à atribuição do título de campeão. Surpreende-lhe o facto de haver poucas equipas capazes de intrometerem-se nesta luta? E acredita que seria positivo para o campeonato, o F.C. Porto criar uma equipa de Futsal?

M.F.: Não me parece nada de anormal. Também é assim ao nível de todas as outras modalidades onde entram Benfica, Porto ou Sporting, sendo que o mesmo acontece em todas as ligas internas de quase todos os desportos coletivos na Europa. Na minha opinião, parece-me ser importante para o crescimento do futsal, que o FC Porto entre o mais rápido possível na modalidade, dado que Isso iria acrescentar competitividade e imprevisibilidade ao nosso campeonato.

BnR: Há poucos meses atrás foi noticiado que, a partir da próxima época, Portugal poderá passar a ter dois representantes na UEFA Futsal Cup. Se se confirmar, pensa que será positivo para o aumento da competitividade do nosso campeonato?

M.F.: Sinceramente, penso que não. Acho que Sporting e Benfica ainda irão investir mais para serem Campeões Europeus, o que irá aumentar ainda mais o fosso para todos os outros no campeonato interno. A solução terá de passar por estruturar melhor as equipas ditas amadoras, relativamente à forma como gerem e aplicam os seus apoios financeiros, e aumentar os apoios federativos e de transmissões televisivas.

BnR: A seleção portuguesa garantiu recentemente presença no Euro 2018. Após um 4º lugar conquistado no Mundial disputado na Colômbia, o que acha que tem faltado à nossa seleção para ainda não ter conquistado um torneio importante?

M.F.: Parece-me que algumas coisas deveriam ser revistas para que algo mudasse, mas não me quero alongar muito sobre esse assunto.

Miguel Ferreira a celebrar a conquista da Taça Futsal A.F. Santarém 2016/2017, junto da claque Achigãs do Zêzere, a claque do Sport Club Ferreira do Zêzere
Miguel Ferreira a celebrar a conquista da Taça Futsal A.F. Santarém 2016/2017, junto da claque Achigãs do Zêzere, a claque do Sport Club Ferreira do Zêzere

BnR: Algumas equipas têm criado equipas femininas séniores de Futsal. Acredita que é positivo os clubes apostarem no Futsal feminino?

M.F.: O futsal feminino está em franca evolução e isso agrada-me. O que mais contribuiu para isso foi o modelo de competição adotado pela FPF, desde há 4 anos, sendo que as melhorias foram evidentes. A entrada de clubes mais conhecidos do Futebol 11 não é o mais importante, porque, neste momento, existem equipas muito fortes fora dessa realidade. Basta ver que, desde que foi criada a 1.ª Divisão Nacional, nas primeiras três épocas de existência, as campeãs foram Golpilheira, Novasemente e Vermoim. Este ano, pela primeira vez, o Sporting e o Benfica estão à frente nessa luta, mas a Novasemente ainda pode lá chegar, o que confirma que o Futsal é mesmo uma modalidade à parte do Futebol.

 

Nota: As fotos foram gentilmente cedidas por Miguel Ferreira

Guilherme Costa

Redação Bola na Rede · ver artigos