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«The Last Dance»: O adeus ao melhor de sempre | Futsal

Tiago Alexandre · 6 min

Foto: Federação Portuguesa de Futebol

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Gondomar, 7 de abril de 2022. A hora poderia não ser muito convidativa, mas o Pavilhão Multiusos engalanou-se para a última partida do mágico pela nossa Seleção. Foram 2750 os espetadores que homenagearam e aplaudiram de pé Ricardo Filipe Silva Duarte Braga, o franzino esquerdino que foi rejeitado do Futebol e viu no Futsal a sua “salvação”. E ainda bem.

Obrigado, Ricardinho!
Fonte: Federação Portuguesa de Futebol

Foto de Capa: Federação Portuguesa de Futebol

Artigo redigido por Tiago Alexandre

Ricardinho estreou-se pela Seleção A em 2003, numa partida diante de Andorra, a contar para o Torneio Internacional do Algarve, competição na qual marcou o primeiro golo, diante da Eslováquia. Com apenas 17 anos, o ala do Miramar FC dava nas vistas num conjunto que, poucos anos antes, havia alcançado a fantástica medalha de bronze no Mundial da Guatemala. Falamos da geração de João Benedito, Pedro Costa, André Lima, Arnaldo e por aí fora. Ele ali estava. O pequeno no meio dos grandes. O pequeno que, muito rapidamente, se fez grande.

Em 2007, o primeiro momento alto desta longa e bonita caminhada. Aos 22 anos, Ricardinho estreava-se em grandes competições com a camisola nacional e logo em casa. O Campeonato da Europa disputava-se em Gondomar, Portugal estava a crescer na modalidade e Ricardinho acompanhava essa trajetória ascendente. Por isso, mereceu a chamada de Orlando Duarte. Na competição em que Portugal terminou no quarto posto, o número 2 começou de início em todos os jogos e marcou quatro golos – Chéquia, Roménia (2) e Espanha. Esse golo à Espanha acabou por tornar-se um ícone da sua carreira e, quinze anos, ainda está na memória de muitos amantes da modalidade.

No ano seguinte, foi o momento de se estrear em Campeonatos do Mundo, participando no Mundial do Brasil. Na fase de grupos, Portugal bateu os Estados Unidos, Paraguai, Tailândia e perdeu com a Itália, e acabou eliminado da competição. À semelhança da restante equipa, Ricardinho saiu dessa competição pela porta pequena, tendo marcado apenas um golo. Em 2014, Ricardinho chegou às 100 internacionalizações, numa partida disputada em Caminha, em que Portugal bateu a Suiça por 10-0.

Saltando no tempo, viajamos agora até ao ano de 2016 e à cidade de Belgrado. Pelo meio, Portugal foi eliminado nos Quartos de Final do Euro 2012, na Croácia, na mesma fase, no Mundial da Tailândia, que decorreu no mesmo ano e terminou na quarta posição no Europeu de Antuérpia, em 2014. Nestas três competições, o 10 marcou 12 golos em 13 jogos. Voltando à Sérvia, Portugal dececionou e acabou por ficar em segundo no Grupo composto pela seleção da casa e a Eslovénia, lugar que lhe custou a eliminação nos Quartos, diante da Espanha. Apesar da derrota frente à Sérvia, Ricardinho marcou um dos melhores golos de sempre da modalidade e foi aplaudido de pé pelos adeptos da casa. Um gesto só ao alcance dos melhores de sempre, que vale a pena rever.

Em 2016, novo Campeonato do Mundo, desta feita na Colômbia. Portugal passou tranquilamente a Fase de Grupos, vencendo o Panamá e o Uzbequistão, e empatando com a Colômbia. Depois de bater Costa Rica e Azerbaijão na fase a eliminar, a equipa das Quinas caiu diante da Argentina, na meia-final. Depois, perdemos com o Irão e voltámos a rubricar o quarto lugar. Quanto a Ricardinho… tornou-se, pela primeira vez, o melhor marcador de um Mundial. Foram 12 golos em sete jogos, destronando o seu “rival” Falcão.

E agora… a fase mais bonita da carreira de Ricardinho. Em 2018, Liubliana acolheu o Campeonato da Europa. Portugal não era favorito à conquista do título, mas cedo demonstrou ao que vinha. Vitórias sobre a Ucrânia e a Roménia valeram a passagem à fase a eliminar. Depois, goleada ao Azerbaijão e um 3-2 à Rússia, num final de jogo épico. Na final… a fatídica Espanha. O craque abriu a contagem logo nos primeiros segundos e viria a lesionar-se no prolongamento, passando o testemunho para Bruno Coelho, o herói da primeira conquista nacional. Ricas marcou sete golos nos cinco jogos e amealhou mais um troféu de melhor marcador.

Em 2018, Ricardinho ajudou Portugal a conquistar o seu primeiro título internacional
Fonte: UEFA Futsal

A fechar esta trajetória, o Mundial da Lituânia. Kaunas e Zalgiris albergaram a competição durante o mês de setembro e o início de outubro. Ricardinho já havia anunciado que seria a última prova com a sua Seleção e passava por uma grave lesão a poucos meses do início do Mundial. Não virou a cara ao seu país, fez tudo para estar presente e recuperou em tempo recorde. Portugal chegava à competição na condição de Campeão da Europa e, por isso, era uma das favoritas, tentando destronar a fortíssima Argentina. Na Fase de Grupos, Tailândia, Ilhas Salomão e Marrocos não causaram dificuldades, e a equipa de Jorge Braz avançou para os Oitavos de Final. A partir daí… chegou o sofrimento. Frente à bem organizada Sérvia, Portugal esteve a ganhar 2-0, deixou-se empatar na segunda parte e o jogo foi para prolongamento. Aí, os nossos jogadores não deram qualquer hipótese e apuraram-se para os Quartos.

27 de setembro de 2021. Vilnius Arena. Talvez o dia, o local e o jogo que melhor retratam esta caminhada ascendente de Portugal e, consequentemente, de Ricardinho. Após um primeiro tempo sem golos, a Espanha entrou forte na segunda parte e marcou dois golos a abrir. Portugal empatou na reta final e levou o jogo para prolongamento. Aí fica uma das imagens que perdurará para sempre nas nossas memórias. A célebre de Jorge Braz, “ando há 20 anos a dizer que somos melhores que eles”. E somos. Portugal voltou a superar-se na etapa complementar e venceu os espanhóis por 4-2. Na meia-final, o Cazaquistão, equipa que voltou a causar-nos grandes dificuldades e só caiu nos penáltis. Por fim, a Argentina. Uma das imagens mais fortes desta partida, aconteceu antes do jogo, com Ricas a não esconder emoções ao escutar A Portuguesa. Depois, esteve envolvido nos lances capitais da sua última partida oficial – sofreu a falta que expulsou Borruto e assistiu Pany para o 1-2 – e ajudou a sua equipa a conquistar o primeiro Mundial.

Ricardinho marcou “apenas” dois golos durante toda a caminhada e, simbolicamente, acabou por conquistar o troféu de melhor jogador da competição. Terminava assim a caminhada de um dos melhores desportistas de sempre, que deixava o seu país saindo pela porta grande. Mas antes disso, o derradeiro dia, diante da Bélgica. Na sua casa, o eterno capitão entrou em campo com os filhos e não escondeu as lágrimas ao ouvir o “seu” hino. Na primeira fase do jogo, marcou o seu último golo, com um fantástico remate de… pé direito. Ao minuto dez, o jogo foi interrompido para prestar a última homenagem e Ricardinho deixou a quadra, aquela que nunca mais voltará a pisar com a nossa camisola. Por agora inaugurou um Pavilhão em seu nome, tornar-se-à embaixador do Futsal no Mundo e continua a espalhar magia pelos pavilhões franceses.

Chega assim ao fim uma das melhores caminhadas de sempre, de um jogador que nunca virou as costas ao seu país. É imperativo dizer que Ricardinho e Portugal chegaram ao topo juntos, sem descartar todo o trabalho excecional que tem sido realizado pelos dirigentes da modalidade. A história começou em 2003, acabou em 2021 e, pelo meio, disputaram-se 188 jogos e marcaram-se 142 golos. Ricardo Braga disputou cinco europeus, quatro mundiais, marcou 22 golos em 21 jogos em Europeus e 22 golos em 23 jogos em Mundiais. A juntar a tudo isto, os seis troféus de Melhor Jogador do Mundo. E é com letras grandes que se escreve o legado deste pequenino jogador, que nunca descurou os seus objetivos. Assim, fica para a eternidade esta brilhante Estória que, garantidamente, fica para a História. Cabe-nos a nós mantê-la bem presente.

Obrigado, Mág1c0!

Tiago Alexandre

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