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Rangers batem de frente com a realidade

Tiago Pinto Martins · 6 min

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Cabeçalho modalidadesJeff Gorton e Glenn Sather puseram as cartas na mesa. Numa comunicação oficial aos adeptos, os homens fortes dos New York Rangers anunciaram a mudança de rumo. “À medida que nos aproximamos do trade deadline, estaremos focados em adicionar jogadores jovens e competitivos que combinem velocidade, habilidade e carácter. Isso significa que perderemos alguns rostos familiares, caras de que todos gostamos e as quais respeitamos”, diz a declaração. A reconstrução do plantel está em marcha e os adeptos estão avisados.

Primeiro Período: A atitude correta.

Todos os nomes estão em cima da mesa. Os Rangers não têm um plantel particularmente novo, por isso é difícil ver algum dos seus melhores jogadores a resistirem a este processo, que poderá demorar vários anos. Rick Nash e Michael Grabner são os nomes mais fáceis de apontar, mas até Mats Zuccarello, Ryan McDonagh e mesmo Henrik Lundqvist podem estar disponíveis. Quem poderá também não resistir às mudanças é Alain Vigneault. Quando perguntado sobre o futuro do treinador, Jeff Gorton recusou-se a responder.

Alain Vigneault, treinador dos Rangers Fonte: NHL
Alain Vigneault, treinador dos Rangers
Fonte: NHL

Para os adeptos dos Rangers, este é o primeiro embate com a realidade da NHL pós-salary cap. Já não é possível ser como os Red Wings dos anos 90, perder um jogador de elite apenas para encontrar outro e continuar a ser a melhor equipa da liga. Desde o salary cap até ao sistema de pontuação, tudo contribui para que a NHL seja uma liga de ciclos. Uma equipa constrói um plantel bom o suficiente para competir, tenta ganhar na pequena janela em que consegue manter esse grupo unido e depois, quando já não é capaz, deita tudo abaixo e começa outra vez.

Não dá para fugir a esta realidade. A diferença entre as equipas é feita pela rapidez com que percebem que o seu ciclo terminou. Quão mais cedo se aperceberem disso, mais cedo podem começar a reconstruir para tentar de novo. Mas também há aquelas equipas que estendem o seu ciclo ao máximo, à espera de um milagre ou, se quisermos ser mais cínicos, apenas à espera da receita de bilheteira dos playoffs. Parecendo que não, quatro casas cheias sem ter que pagar um cêntimo aos jogadores, ainda é dinheiro, mas cheira a burla. Até pode resultar durante um período, mas, a longo termo, enganar os clientes é uma péssima estratégia de negócio. Os Rangers decidiram ser honestos.

E podiam não o fazer. Estão a três pontos dos playoffs. Havia uma forte possibilidade de conseguirem lá chegar, mas sabem que não têm o que é preciso para lutar pelo título. Para isso têm de começar tudo de novo. Os Rangers disputaram 129 jogos consecutivos nos playoffs, apenas os Pittsburgh Penguins têm mais, desde a introdução do salary cap. Ganharam um President’s Trophy, foram três vezes à final da Conferência e uma à final da Stanley Cup. É preciso ter coragem para fechar este ciclo aos primeiros sinais de declínio, basicamente pondo um fim ao sonho dos Rangers, ganharem um título com Lundqvist. A declaração serve de agradecimento e aviso aos adeptos. Vêm aí tempos difíceis, mas este é, a longo prazo, o melhor caminho para a equipa.

Segundo Período: A vitória reveladora.

De todas as coisas extraordinárias que Matthew Barzal já fez na sua época de estreia na NHL, talvez as cinco assistências registadas contra os Detroit Red Wings tenham sido as mais impressionantes. Não é todos os dias que se iguala um recorde centenário. Barzal tornou-se no segundo rookie em toda a história da NHL a fazer cinco pontos num jogo em três ocasiões distintas. O último a fazê-lo fora Joe Malone na temporada inaugural da liga. O avançado dos Islanders já tinha feito cinco assistências contra os Colorado Avalanche, em novembro. Há menos de um mês marcou dois golos e assistiu noutros três contra os New York Rangers.

Matthew Barzal, o miúdo maravilha dos Islanders Fonte: NHL
Matthew Barzal, o miúdo maravilha dos Islanders
Fonte: NHL

Barzal está a marcar acima de um ponto por jogo e lidera os rookies com 58 pontos em 56 jogos. O mais impressionante da sua performance contra os Red Wings não foi a imponência dos números, mas sim a importância das suas assistências no contexto do jogo. Os Islanders perdiam por 5-2 quando Barzal fez quatro das cincos assistências no mesmo powerplay de cinco minutos. A outra veio no prolongamento para dar a vitória por 7-6. Foi um jogo de loucos, como nenhum outro esta temporada e, a sinopse perfeita da atual situação dos Islanders, a equipa mais estupidamente divertida da liga.

Digo isto com o maior respeito e admiração pelos Isles. Se eu mandasse, todas as equipas eram como eles. Ligar a televisão para ver um jogo dos Islanders é garantia de golos, tanto de um lado, como do outro, e o problema está aí. Por muito bom que o ataque seja, – e é o terceiro melhor da liga com 3.33 golos por jogo – não chega para tapar as fragilidades defensivas. Os Islanders são a equipa com mais golos sofridos na NHL (209), 21 mais do que os Arizona Coyotes. Na época passada, quatro equipas sofreram menos de 200 golos nos 82 jogos da época regular. Os Islanders apenas precisaram de 55 para ultrapassar essa barreira. Assim não há rookie sensation que aguente.

Terceiro Período: O candidato surpresa.

Cuidado, Lightning! Há um novo Sheriff na Divisão Atlântico. Desde de Dezembro que a melhor equipa da NHL mora em Boston. Desde o dia 18 desse mês, os Bruins têm 21 vitórias em 26 jogos. E pensar que, há pouco tempo, olhávamos para a Divisão Atlântico como um assunto resolvido. Os Lightning só teriam que esperar o adversário que saísse do inferno da Divisão Metropolitana. Agora as perspetivas viraram-se de cabeça para baixo. São as equipas da Metropolitana que dão graças por Lightning e Bruins estarem obrigados a defrontarem-se, o mais tardar, na segunda ronda.

Patrice Bergeron, uma das principais razões para o sucesso dos Bruins Fonte: NHL
Patrice Bergeron, uma das principais razões para o sucesso dos Bruins
Fonte: NHL

Para isto muito tem ajudado ter uma das melhores linhas do mundo. O trio composto por Patrice Bergeron, Brad Marchand e David Pastrnak domina sempre que está no gelo. Em 360 minutos de 5-contra-5, marcaram 22 golos e sofreram apenas 7. Com uma linha tão boa a defender e a atacar é fácil perceber o sucesso dos Bruins. Patrice Bergeron caminha a passos largos para conquistar o quinto Selke da sua carreira. Há até quem ache que ele mereça consideração para o Hart. Jeff Blashil, treinador dos Detroit Red Wings, disse que Bergeron tem sido o melhor jogador na NHL esta temporada. A discussão não é disparatada. Bergeron é o motor que faz andar esta equipa, mas há uma coisa que ele não faz tão bem: marcar.

Para ser candidato precisa de subir na tabela dos pontos. Para já, Bergeron tem 49 pontos em 49 jogos, suficiente para a 35ª posição na lista dos melhores pontuadores. Quando temos jogadores no topo dessa lista com mais um terço dos pontos, é difícil vê-lo como mais do que um outsider. O mesmo não se pode dizer dos Bruins. Há que levar muito a sério esta equipa. Para além da já mencionada linha, ainda têm um Rask de volta ao seu melhor, um Chara que desafia o tempo e dois diamantes em bruto, David Pastrnak e Charlie McAvoy. Quem diria que os Bruins, depois dos sinais de declínio nas últimas duas temporadas, voltariam tão rapidamente ao patamar mais alto da liga. Voltando ao primeiro período, são histórias como esta que fazem com que seja tão difícil tomar a atitude que os Rangers tomaram. São histórias como a dos Bruins que fazem acreditar em mudanças rápidas de paradigma. Mas, para isto acontecer, é preciso muita coisa. É preciso ter jogadores especiais como Bergeron e encontrar diamantes como McAvoy. E isso nem toda a gente tem.

Fonte: NHL

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Tiago Pinto Martins

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