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Sim, podem. Desporto e Política podem e devem coabitar no mesmo espaço se for para transmitir mensagens importantes.
Muitas vezes defendemos que estes dois conceitos não devem ser misturados e creio que essa teoria está subjacente à ideia que temos da Política. Temos tendência a conectar a Política à falta de credibilidade que vem cessando aqueles que devem ser os valores, princípios e contributos da Política para qualquer estado ou nação.
Acredito que o Desporto pode ser um baluarte na atividade política, constituindo-se como uma forma muito relevante de disseminar os valores europeus.
O Desporto tem um poder absolutamente fascinante de mudar o mundo e tem tantas ou mais armas do que muitas outras diplomacias (cultural, económica…) e é neste sentido que creio que tem um papel extremamente importante na construção de um mundo mais forte, sustentável e acima de tudo mais robusto ao nível da relação entre países e continentes, basta olharmos para o caso da junção da Coreia do Sul com a Coreia do Norte numa só equipa para a disputa dos jogos olímpicos de inverno no ano de 2018.
Muito ao estilo do que é a nossa cultura em que muitas das vezes limitamo-nos a dizer que as coisas não funcionam porque não nos queremos dar ao trabalho de apresentar soluções, temos a obrigação de acabar com esse estigma, pensarmos pela nossa cabeça e não nos cingirmos a dizer que a Política e o Desporto são conceitos totalmente incompatíveis.
Devemos discutir sim como o desporto pode contribuir para a construção de uma política sólida que ajude a promover os interesses e valores europeus no panorama global, numa altura em que tanto deles precisamos.
Foto de Capa: FC Barcelona
Artigo redigido por Duarte Amaro
EVENTOS HISTÓRICOS
Existem diversos eventos históricos que demonstram que é possível o Desporto aliar-se à Política para travar as mais duras das guerras ou crises e, mesmo não sendo suficiente para acabar com estes eventos, acaba por ser uma manifestação importante pois o desporto movimenta o mundo e tem um impacto brutal nas mais diversas sociedades.
Trago aqui dois exemplos que demonstram tudo isto que tenho aqui descrito e o papel importante que o desporto pode ter nestes momentos catastróficos.
O primeiro em que a voz de Didier Drogba “acabou” com uma guerra civil e o segundo onde a guerra na Nigéria parou para ver o Santos de Pelé jogar. De uma forma muito resumida, o primeiro momento aconteceu no ano de 2005, no dia 8 de outubro, dia que marcava o encontro entre a Costa do Marfim e o Sudão, no qual os costa-marfinenses precisavam de ganhar para garantir a primeira presença num mundial. Contudo isso, por si só, não chegava, pois, era necessário que os Camarões não vencessem o seu jogo.
A seleção costa-marfinense venceu de forma tranquila o seu jogo, por 3-1, enquanto os Camarões estavam empatados e já nos descontos iriam beneficiar de um penalti. O sonho parecia ter acabado para os costa-marfinenses, no entanto os Camarões falharam a grande penalidade e a festa foi feita pela seleção da Costa do Marfim.
Aquando da festa no balneário e no momento em que eram filmados por um televisão, Drogba pegou no microfone e apelou que a população perdoasse e pousasse as armas, mostrando que o povo podia coabitar no mesmo espaço e ter um único objetivo. As pessoas saíram à rua para celebrar e algumas semanas depois começaram as negociações que conduziram à paz.
De relembrar que a Costa do Marfim era um país massacrado por uma guerra que durava há três anos.
O dia em que Drogba parou uma Guerra na Costa do Marfim. https://t.co/yrSe8ala2Z #ChegadePreconceito pic.twitter.com/IGRjYTqepV
— Observatório Racismo (@ObRacialFutebol) April 1, 2019
O outro momento histórico que trago decorreu no ano de 1969, na Nigéria. O povo nigeriano estava em guerra há cerca de dois anos, onde as forças governamentais se opunham aos independentistas do grupo Biafra.
Foi neste cenário que o Santos agendara o seu último jogo na digressão por África, frente a uma seleção regional, depois de um dos governadores nigerianos ter prometido que, caso o Santos de disputasse aquele encontro, iria existir um cessar-fogo para permitir que a população pudesse ver Pelé ao vivo. Foi isso mesmo que aconteceu a população teve o direito a ver o Santos e Pelé jogarem e durante dois dias existiu um cessar-fogo, mas mal a equipa levantou voo a guerra retornou.
Existem muitas pessoas que duvidam da veracidade desta história, mas o Santos e muitos jogadores como Pelé afirmam que terá mesmo acontecido.
Eu sempre tentei mandar essa mensagem, como jogador e como pessoa. Um dos meus grandes orgulhos foi ter parado uma guerra na Nigéria, em 1969, em uma das várias excursões que o Santos fez pelo mundo 🇳🇬 ☮️ pic.twitter.com/Q3cQvp6pE1
— Pelé (@Pele) October 19, 2020
A GUERRA NA UCRÂNIA
Atualmente vivemos dias muito duros no panorama mundial. Dias conturbados que não deixam ninguém indiferente. Dias que todos pensaríamos ser impensáveis em pleno século XXI. Dias em que a paz, seguida à queda do Muro de Berlim e ao fim da Guerra Fria, ficou esquecida à medida que o território ucraniano ia sendo bombardeado.
Ninguém está indiferente a esta situação e o desporto não é exceção. Do futebol ao atletismo, da Fórmula 1 ao basquetebol, as condenações do desporto vêm de diversas frentes para atingir o orgulho de Vladimir Putin.
Desde a madrugada da passada quinta-feira que o desporto começou a apertar o cerco à Rússia e um dos primeiros passos foi dado pelo Schalke 04 que anunciou que viria a deixar de utilizar o logotipo da Gazprom e mais tarde viria mesmo a cessar o contrato com a empresa russa.
The partnership between #S04 and #GAZPROM will be ended early.
Full details ⤵️
— FC Schalke 04 (@s04_en) February 28, 2022
Nesse mesmo dia também as seleções da Polónia, Suécia e República Checa recusaram-se a viajar para a Rússia para disputar o play-off de acesso ao Mundial 2022.
Polónia anuncia que se recusa a jogar o play-off de acesso ao Mundial 2022 contra a Rússia. pic.twitter.com/UFMa1rQKuN
— B24 🇺🇦 (@B24PT) February 26, 2022
Já na Fórmula 1, a equipa Haas retirou dos carros o patrocínio da empresa russa UralKali bem como as cores da bandeira russa e mais tarde chegou a confirmação de que o GP de Sochi iria ser substituído no calendário.
— F1 Media (@F1Media) February 25, 2022
No ténis, o russo Andrey Rublev escreveu na câmara “No War please” após avançar para a final no Dubai, mostrando aquilo que muitos russos sentem neste momento.
Russian tennis player Andrey Rublev writes “No war please” on the camera following his advancement to the final in Dubai. pic.twitter.com/GQe8d01rTd
— TSN (@TSN_Sports) February 25, 2022
Além de todos estes movimentos e medidas de condenação, a UEFA decidiu retirar a final da liga dos campeão de São Petersburgo, transferindo-a para para Paris e ainda num acordo com a FIFA suspender a seleção e os clubes russos de todas as competições internacionais.
FIFA/UEFA suspend Russian clubs and national teams from all competitions
▶️ https://t.co/Q2htzW3W9z pic.twitter.com/LFo1bUtqmm
— FIFA Media (@fifamedia) February 28, 2022
Estes são só alguns exemplos do que foi feito até agora e tenho plena noção que não será, nem de perto, o suficiente para acabar com a guerra, mas todas estes medidas acabam por constituir alguma coisa, sobretudo um ataque pessoal a Vladimir Putin, que muito constantemente utiliza o desporto e as organizações desportivas para reforçar o orgulho russo perante o mundo. Estas medidas acabam assim por ferir o orgulho russo uma vez que o desporto é das coisas mais importantes para o país do Leste.
Sei que este é um assunto muito complexo e não quero ser demasiado fantasista nem simplista, mas considero que é a oportunidade do desporto e nomeadamente o futebol dar um passo firme e assertivo, aumentando cada vez mais as sanções, cercando cada vez mais a Rússia. Na verdade, é uma grande oportunidade para o desporto liderar e ser um pilar para travar esta guerra.












