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Um diamante para o futuro – Entrevista Tiago Fernandes

Ana Cristina Silvério · 6 min

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Começou no futebol, mas um treino bastou para mudar de ideias: no clube de Belém desde que começou a praticar rugby, Tiago Fernandes, aos 20 anos, é já um possante ponta, com presenças regulares na Selecção Nacional de XV e Sevens, para além da equipa principal d’Os Belenenses.

Bola na Rede (BnR): Quando, e de que forma, entrou o rugby na sua vida?

Tiago Fernandes (TF): O rugby entrou na minha vida aos 15 anos. Dos 6 aos 15 anos pratiquei futebol nas escolinhas do Rui Águas e do Sporting, tendo aos 9 anos mudado para o Clube de Futebol Os Belenenses, clube no qual pratico rugby hoje em dia. Posso dizer que foram momentos muito bem passados em que fiz grandes amizades e pude competir de forma federada durante muitos anos enquanto atleta de futebol porém, em meados de 2012, percebi que tinha melhores aptidões para o rugby. Ao entrar para a Escola Secundária do Restelo grande parte dos meus amigos praticava rugby n’Os Belenenses e, como muitas das vezes treinávamos a horas idênticas, íamos todos juntos desde a escola até ao estádio, até que um dia, quando já tinha terminado a época de futebol, perguntaram-me se tinha interesse em fazer um treino. Esse treino correu-me tão bem que fiquei entusiasmado em voltar novamente, pois tinha encontrado o desporto ideal para as minhas características.

BnR: Como analisa o nível do rugby português?

TF: O rugby em Portugal encontra-se, infelizmente, numa fase mais negativa em termos de resultados, tanto na variante de XV como na de 7’s. A meu ver, o rugby a nível internacional evoluiu bastante nos últimos anos e ainda não fomos capazes de atingir o grande desenvolvimento da modalidade de países como a Espanha, Rússia e Alemanha que neste momento são os nossos principais rivais.

BnR: Como foi a estreia com a camisola da Selecção Nacional?

TF: Ambas as estreias, tanto em XV como em sevens, foram momentos muito especiais que recordo como se tivesse sido ontem. A estreia na variante de sevens foi em Glasgow (World Sevens Series), contra a Escócia num jogo que perdemos no último minuto, mas foi uma experiência fascinante pois pude competir contra grandes seleções e contra jogadores que sempre vi na televisão. Relativamente à estreia no XV, esta ocorreu em Amesterdão, num jogo bastante importante para garantirmos o 1º lugar e jogar o play-off de subida de divisão, onde acabámos por ganhar à seleção da Holanda.

Com apenas 20 anos, Tiago Fernandes pode gabar-se de competir entre os melhores jogadores do mundo Fonte: The Ministry of Rugby
Com apenas 20 anos, Tiago Fernandes pode gabar-se de competir entre os melhores jogadores do mundo
Fonte: The Ministry of Rugby

BnR: Jogar rugby num clube estrangeiro passa pelas suas ambições? Quais seriam as condições para acontecer?

TF: Sim, qualquer jogador de rugby sonha em jogar em grandes campeonatos, tanto europeus, mais concretamente em França ou Inglaterra, como também em países do Hemisfério Sul, como a Nova Zelândia, Austrália ou África do Sul. Por outro lado, sendo o rugby um desporto amador em Portugal, tive que me focar também no percurso académico, neste caso no curso de Gestão, mas jogar no estrangeiro é algo que certamente gostaria de experimentar após terminar o curso.

BnR: O que ambiciona conquistar com a camisola d’Os Belenenses? E da Selecção Nacional?

TF: Gostaria de ser campeão nacional pel’Os Belenenses, claro. Na época que passou (2016/2017), melhorámos bastante face aos últimos anos e temos uma equipa com jogadores de grande qualidade, muitos deles internacionais de XV, sevens e escalões inferiores, portanto é algo que poderemos ambicionar nos próximos anos. Relativamente às minhas ambições na Seleção Nacional, começam por conseguir regressar ao Circuito Mundial de Sevens (World Sevens Series) e também contribuir para a subida de divisão da seleção de XV.

BnR: Qual foi o momento mais especial vivido com a camisola dos Azuis de Belém? E dos Lobos?

TF: Tive bastantes bons momentos ao longo destes anos de rugby, pel’Os belenenses recordo o jogo em que nos apurámos para a fase final do campeonato na época 2014-2015 no último minuto contra o CDUP, no Porto, num jogo que passava para as finais a equipa vencedora. Pela seleção, a minha melhor memória foi o ensaio contra a Austrália a contar para o circuito mundial, que foi, inclusivamente, eleito o ensaio do torneio de Wellington e foi bastante especial pois foi também o meu primeiro ensaio pela seleção de sevens.

BnR: Rugby na variante de sevens ou de XV? E porquê?

TF: Gosto de praticar as duas variantes, mas a variante de sevens atrai-me mais pela velocidade, exigência física e mental com que o jogo é praticado. A meu ver, é uma variante do rugby apaixonante, pois permite a qualquer seleção competir contra as melhores e ter capacidade para lhes ganhar, bem como é um jogo de fácil compreensão para quem vê. O facto de ser também, desde 2016, modalidade olímpica motiva-me pois tenho a ambição de ser atleta olímpico.

A experiência vs a juventude Fonte: João Peleteiro
A experiência vs a juventude
Fonte: João Peleteiro

BnR: Considera que a família tem um papel importante no desenvolvimento de um atleta de alta competição?

TF: Na minha opinião a família é a base do sucesso no desporto. Esta tem um papel fundamental na motivação e encorajamento dos atletas através do seu apoio e disponibilidade em ajudar. Quanto a isto, posso dizer que sou um sortudo pois desde sempre tive o total apoio dos meus pais, tanto quando praticava futebol como agora no rugby, e posso dizer que não há um jogo meu que os meus pais falhem, quer este seja em Portugal ou no estrangeiro, sei que os meus pais estarão lá a ver ao vivo ou via streaming. A conjugação entre a vida de estudante e atleta não é fácil e exige bastantes sacrifícios, daí também a importância da transmissão de conhecimentos e de experiências dos pais ser bastante útil.

BnR: O rugby é um desporto caracterizado por ter uma mentalidade diferente, no entanto têm existido algumas situações nos campeonatos nacionais que não se coadunam com esse ponto de vista. O fair-play ainda reina no rugby português?

TF: Sim, claro que sim, o rugby em Portugal goza de uma mentalidade completamente diferente face a outros desportos e partilho isto com experiência própria, porque já pratiquei outro desporto com uma realidade completamente diferente. O rugby é um jogo de contacto físico permanente dentro de campo, mas fora de campo reina o respeito e amizade entre os atletas. Certamente ocorrem casos pontuais relacionados com a intensidade do jogo e que levam a alguns desentendimentos dentro de campo, isto ocorre em todos os desportos, o importante é que no rugby as rivalidades ficam dentro de campo e no final impera o respeito. Esta é para mim a principal característica que nos faz gostar deste desporto e pela qual as pessoas conseguem distinguir-nos.

BnR: Quais são as suas maiores referências nacionais e internacionais dentro das quatro linhas?

TF: Em Portugal, tenho como referências três grandes jogadores que jogam na minha posição, são eles o Adérito Esteves, o Gonçalo Foro e o Duarte Moreira. Estes três caracterizaram e deram grande nível ao rugby português, tanto nacional como internacionalmente e ter o privilégio de poder jogar por Portugal, para além de me motivar permite-me aprender e melhorar cada vez mais. A nível internacional tenho como principais referências Sonny Bill Williams (Nova Zelândia) e Perry Baker (Estados Unidos), pois são, em primeiro lugar, grandes atletas e ao ter tido a sorte de jogar contra eles no circuito mundial consegui melhorar o meu jogo em vários aspetos. Em segundo lugar, são um exemplo de trabalho e dedicação, pois no caso de Perry Baker, este apenas tem três ou quatro anos de rugby e é um dos melhores na sua posição (relativamente a rugby de sevens).

De tenra idade e com um percurso relativamente recente no rugby, Tiago Fernandes já conquistou o seu espaço no clube e nas selecções nacionais. No futuro, não esconde a ambição de ser campeão nacional e ajudar a colocar as selecções nacionais (de novo) na rota da glória.

Foto de Capa: Tiago Fernandes

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Ana Cristina Silvério

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