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Mundial de Snooker 2021 | Capítulo 5: A Final – Mark Selby é campeão!

Márcio Francisco Paiva · 11 min

Mundial de Snooker 2021 | Capítulo 5: A Final – Mark Selby é campeão!
Foto: World Tour Snooker

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A CRÓNICA: UM É POUCO, DOIS É BOM E TRÊS NÃO CHEGAM PARA SELBY. AÍ VÃO QUATRO!

Mark Selby é o Campeão do Mundo de Snooker! O inglês de 37 anos somou o quarto título mundial da carreira, o quarto nos últimos… oito anos (Stuart Bingham, Mark Williams, Judd Trump e Ronnie O’Sullivan arrecadaram os restantes). A última década pertence-lhe e, com quatro Mundiais e outros 16 títulos de ranking, Mark “The Shark” Selby assume-se como o maior campeão da sua geração e o segundo jogador mais titulado do século XXI, no que a Campeonatos do Mundo respeita – Ronnie O´Sullivan venceu seis.

Por seu turno, Shaun Murphy soma a terceira final perdida (2009, 2015 e 2021) e assume-se como o terceiro jogador com mais finais desperdiçadas na Era Crucible: Jimmy White perdeu seis e John Higgins foi derrotado quatro vezes. Com uma vitória (2005) em quatro finais (25%), o “Magician” torna-se o campeão do Mundo com a pior percentagem de aproveitamento de finais do Crucible.

O resultado final fixou-se num 18-15. Curiosamente, a última final que Selby havia disputado (e vencido) tinha terminado com esse resultado (2017, vs John Higgins) e a última em que Murphy havia estado inserido – tendo perdido – havia tido o mesmo resultado (então, em 2015, o 18-15 sorriu a Stuart Bingham).

Posto isto, Selby soma quatro finais conquistadas, tendo apenas perdido a primeira em que participou; Murphy, em sentido inverso, soma a terceira final perdida, tendo apenas vencido a sua primeira. Disputado em Sheffield, o troféu voltou a ficar em Inglaterra – o que acontece há três anos consecutivos e que sucedeu por nove vezes nos últimos dez Campeonatos do Mundo (apenas Mark Williams o levou para o País de Gales, em 2018).

No próximo ano (já há bilhetes à venda, diga-se de passagem), não poderemos ter um campeão que quebre a Maldição do Crucible, mas podemos ter campeão inédito. Será inglês esse próximo campeão do Mundo? Descobriremos; para já, a festa é de Mark Selby, da sua esposa Vikki Layton, da sua filha Sofia Selby e do seu treinador Chris Henry, que viu um dos seus outros pupilos sair derrotado desta final.

Ah, claro: e é também das 980 pessoas que esgotaram o Crucible Theatre para ver o “Jester from Leicester” erguer o troféu pela quarta vez. À sua frente, Selby já só vê O´Sullivan e Steve Davis (seis Mundiais cada) e Stephen Hendry (o escocês somou sete). Há quem goste, há quem não goste; mas Mark Selby tem o Mundo a seus pés. E com direito: conquistou-o!

A GRANDE FINAL

Mark Selby (18-15) Shaun Murphy – Ninguém pára um Tubarão faminto

Foi uma partida menos espetacular do que, por exemplo, a meia-final entre Selby e Bingham. Contudo, isso interessa tanto ao “Jester” como a segurança nas fronteiras marítimas interessa ao governo suíço. A vitória é dele e foi conquistada, verdadeiramente, à sua maneira. O reconhecido estratega empregou todo o seu calculismo para levar a sua avante em quase todos os duelos táticos.

A vantagem final assentou muito sobre esse pilar, tendo sido também importante para Mark Selby a consistência do seu jogo e, claro, a segunda sessão da final: aí, o Tubarão de Leicester cravou a marca da separação no marcador e garantiu que, daí em diante, só tinha que gerir o embate com toda a frieza e sobriedade. No fundo, bastava-lhe ser ele mesmo.

Conseguiu sê-lo e contrariou o jogo longo de Shaun Murphy, que foi uma das principais armas do Mágico. O taco que, na meia-final ante Kyren Wilson, se havia transformado em varinha de condão voltou a ser um mero taco. Murphy ainda tentou fazer magia, mas não era a mesma coisa ou, pelo menos, não parecia surtir efeito. Talvez, quiçá, os tubarões sejam imunes.

De uma forma ou de outra, Selby é tetracampeão mundial e Murphy soma três tentativas goradas em quatro finais. A de 2021 foi assim.

DIA 1

1.ª Sessão (5-3 para Murphy)

A sessão inaugural teve duas facetas. Os três primeiros frames foram extremamente equilibrados com ambos os jogadores a pontuarem bastante. Murphy venceria os dois primeiros (57-49 e 67-46), caindo o terceiro para o lado de Selby (68-65). Seguiram-se quatro jogos – com o intervalo pelo meio – de domínio de uma ou outra parte, mas com equilíbrio na distribuição: dois para cada lado.

Selby fez o empate a dois com 89 pontos numa entrada só. 2-2 ao intervalo. Shaun responderia com um break de 75 pontos, deixando Mark em branco. O “Jester” alcançaria, com um 66-1, o empate a três, mas permitiria a vitória ao Mágico no sétimo jogo (71-8). No último frame da sessão, a toada do jogo voltou a ser equilibrada, com Murphy a levar a melhor por 80-54, contando com o precioso auxílio de uma entrada de 52 pontos.

O campeão mundial de 2005 levava assim uma vantagem importante para a segunda sessão, estando longe de adivinhar que nela veria a vantagem transacionada para Selby.

2.ª Sessão (7-2 para Selby)

A sessão dois pegou do ponto onde havia terminado a sessão um. Jogo equilibrado, desta feita a pender para Selby, que superou os 49 pontos de Murphy com um break de 85. Shaun respondeu de imediato com a entrada que viria a ser a mais alta do encontro até ao 21.º frame. Foram 98 os pontos que deram a vitória a Murphy no décimo jogo, um dos apenas dois que o “Magician” conquistaria nesta sessão. A pronta resposta de Mark Selby teve respaldo nas entradas de 67 e 86 pontos que ajudaram o “Jester” a vencer dois frames seguidos (72-34 e 107-0).

6-6 ao intervalo. O homem de Leicester fazia assim o empate a seis e ia em busca de estar pela primeira vez na dianteira do marcador. Murphy não o permitiria de imediato, vencendo a primeira partida após o intervalo, por 97-34, contando com uma entrada de 64 pontos.

No entanto, o Mágico não foi capaz de evitar que o adversário se colocasse em vantagem pela primeira vez nos frames seguintes. Primeiro, surgiu o empate a sete, fruto de um 109-0 que incluiu um break de 57 pontos. Logo a seguir, a primeira vantagem de Selby: 90 pontos de entrada bateram os 34 de Shaun e deram o 8-7 ao (então) tricampeão mundial.

As duas partidas seguintes – as últimas da última sessão do primeiro dia – presentearam-nos com um Selby menos espetacular do que aquele que havia conquistado os dois frames anteriores, mas o resultado foi o mesmo: duas vitórias (88-4 e 69-26, sem qualquer entrada acima de 50 pontos registada), que elevaram a série vitoriosa do “Shark” para quatro frames consecutivos e que valeram ao “Jester from Leicester” uma importante vantagem de três jogos a caminho da terceira sessão.

DIA 2

3.ª Sessão (4-4)

A primeira parte da penúltima sessão facultou-nos uma mistura de jogo longo e jogo defensivo. A tacada de abertura foi para Selby, que deixou, logo aí, uma possibilidade de bola longa para Murphy. O “Magician” aproveitou a oportunidade para pontuar, mas apenas somou três pontos, vindo-se forçado pela cautela a optar pela defesa.

Com alguma surpresa, Shaun foi mesmo quem levou a melhor na batalha tática (um dos pontos fortes de Selby) e, com algum trabalho e esforço – e com uma tacada de 77 pontos -, reduziu para 10-8. O marcador da 19.ª partida foi inaugurado como havia sido o do frame anterior: bola vermelha longa de Murphy. Desta feita, o “Magician” conseguiu construir um break mais sólido, mas ainda assim insuficiente: 42 pontos.

Chamado à mesa, Selby aproveitou para somar 21 pontos e defender (bem) atrás da bola castanha, provocando o erro do adversário. Novamente na mesa, o “Shark” elevou a sua pontuação até aos 62, momento em que parou a entrada, com 18 pontos na mesa e 20 de vantagem para Selby.

Desenrolou-se um jogo defensivo com três bolas em cima do pano. Shaun conseguiu provocar a falta de cinco pontos ao adversário, passando a ter pontos em cima da mesa para vencer o frame. Murphy acabou por embolsar a bola azul num lance fortuito, não conseguindo dar sequência, num primeiro momento. Viria, todavia, a embolsar a bola rosa, mas viria também a deixar a bola preta a cair para Selby, que fez o 11-8. Duro golpe para Shaun.

Terceiro frame da sessão, terceiro marcador inaugurado por uma bola longa de Murphy. 37 pontos foi o que o Mágico conseguiu nessa entrada. Mais tarde, somou o 38º ponto com mais uma bela demonstração de jogo longo e conseguiu uma boa defesa atrás da castanha, que lhe valeu 12 pontos em faltas de Selby. Murphy ainda permitiria a resposta do “Jester from Leicester”, mas uma bola preta falhada por Selby e uma “vitória” no jogo defensivo selariam o triunfo de Shaun e o 11-9.

Quarto frame disruptivo, mas não muito. Desta feita, foi Selby a inaugurar o marcador com uma bola longa. No entanto, e à semelhança do que havia acontecido nos três jogos anteriores, a vermelha de longa distância não significou o início da entrada vencedora. O 21.º jogo, contudo, penderia mesmo para Mark “The Shark”, que ainda aproveitou para registar a primeira centenária da final e a 104.ª do torneio (107 pontos).

12-9 para Selby ao intervalo. A segunda parte começa… com mais uma bola longa de Murphy, que mais uma vez faz uma entrada curta (14 pontos) e permite que Selby conquiste o frame e dilate a vantagem para quatro jogos. Shaun responde de seguida, reduzindo para 13-11 com duas vitórias consecutivas, uma delas com direito a centenária de valor mínimo: 100 pontos.

No último frame da sessão, o “Jester” começou a construir o break que se julgava vitorioso com (mais) uma bola longa. Contudo, uma bola vermelha falhada para o meio travou a tacada de Selby nos 62 pontos e deu esperança a Murphy, que a ela não se soube agarrar. Selby inciaria novo break, com mais uma vermelha longa, e seguraria os três frames de vantagem que havia trazido para a sessão.

4.ª Sessão (4-4)

O empate na terceira sessão havia permitido a Selby chegar em vantagem à última. Contudo, como sabemos, o “Shark” não desmancha o semblante fechado e não perde a concentração e o estilo de jogo calculista enquanto não estiver matematicamente com a vitória final no bolso. Assim, Mark entrou na derradeira sessão com a sua versão mais reconhecível e com um 70-28, que alcançou muito graças a uma tacada de 66 pontos.

Murphy nunca deixou de acreditar na reviravolta e respondeu com o triunfo no jogo seguinte, bastante dividido (73-48). Uma entrada de 68 ajudou Selby a fazer 108 pontos e vencer o terceiro frame da sessão. O padrão estava definido: um jogo para ti, um jogo para mim. Como tal, o quarto e último frame da primeira parte caiu para Shaun (79-11), que efetuou um break de 58 pontos.

16-13 para Selby ao intervalo. O Tubarão de Leicester, a dois jogos da vitória final, já sentia o cheiro a sangue e já sentia o cheiro que a prata do mais cobiçado troféu do circuito mundial emanava. O início não podia ser melhor para Mark – o “Jester” foi mais forte numa curta batalha tática (como é seu apanágio) e partiu para uma entrada de 120 pontos que o colocava a um jogo do tetracampeonato.

Do outro lado, todavia, estava uma alta que resistia. E que lutava. E que venceu os dois frames seguintes, fazendo cair sobre o Teatro dos Sonhos o espetro da dúvida, da indefinição. E fê-lo com duas centenárias: 100 e 103 pontos (esta última deu-lhe um total de 126). 17-15 e a emoção era palpável. Após meses de ausência, o público libertava as energias que o confinamento havia suprimido.

O Crucible clamava por mais e mais Snooker, por vezes não da forma mais ordeira, obrigando mesmo o árbitro Paul Collier a uma reação autoritária, cerrando o punho e batendo com ele na mesa pedindo silêncio e respeito, pelos jogadores e pelo jogo.

Contrastava Mark Selby. O “Shark” era granito. Impermeável, impenetrável, inamovível. Falhou uma bola longa na tentativa de inaugurar o marcador do 33.º frame: nem um grão de agastamento no olhar, olhar frio que se focava em Murphy enquanto este mimetizava Selby ao também falhar uma vermelha longa. Os embates da branca e da vermelha nas bolas do “D” levaram a que Shaun caísse para o adversário.

Era o regresso – perspetivava-se, vitorioso – de Selby à mesa. Perspetivas erradas, viemos a saber. Mark faria 38 pontos até ser travado por uma vermelha que se recusou a precipitar-se para o buraco do canto da bola verde. Os jogadores alternariam as idas à mesa e permutavam galhardetes defensivos até o veredito final.

Este viria a ser favorável a Selby, ainda que Murphy viesse a somar 57 pontos. Os 71 do “Jester” deixaram o pano verde despojado de bolas e deram por encerrado o confronto. Mark Selby soltou o grito de vitória e festejou uma conquista que, na sua essência, foi… à Selby.

Foto de Capa: World Snooker Tour

Márcio Francisco Paiva

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