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Os destaques da primeira semana do Australian Open

José Maria Reis · 8 min

Foto: ATP Tour

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Esta foi uma ótima semana de ténis. Tivemos público, praticamente toda a semana até à Austrália decretar novo confinamento obrigatório no dia 12, bons jogos e algumas surpresas.

PRIMEIRA RONDA

Logo na primeira ronda tivemos um encontro com um nível de qualidade que poderia, perfeitamente, encaixar pelo menos nuns quartos-de-final de um torneio de Grand Slam e, dentro de pouco tempo, será com certeza uma das maiores rivalidades do ténis mundial. Para quem não viu, e tiver tempo, sugiro que pare de ler este artigo agora e veja o Sinner vs Shapovalov. Foi um confronto de dois dos jogadores mais promissores do mundo e fez jus a isso mesmo.

O italiano vinha do seu segundo título da carreira num dos torneios de preparação, por isso vinha a jogar a um grande nível, mas com grande desgaste, tinha estado cerca de 10 horas em campo nos quatro dias que antecederam este encontro, e isso notou-se. Apesar de até ter ganho o quarto set, Sinner estava visivelmente muito desgastado e só um Shapovalov muito fraco e pouco inteligente poderia deixar fugir o quinto e último set, e não foi isso que aconteceu. Vitória para o canadiano com os parciais de 3-6 6-3 6-2 4-6 6-4.

As duas principais surpresas desta primeira ronda foram a eliminação de Gael Monfils, um jogador que tem tido um regresso complicado no pós-pandemia, a frustração ficou bem patente na conferência de imprensa onde nem as lágrimas faltaram, e também a eliminação de Roberto Bautista Agut. Esta primeira ronda levou-nos, também, os dois portugueses que tínhamos no Quadro Principal (QP), Pedro Sousa e Frederico Silva, que perderam, respetivamente, com Stan Wawrinka e Nick Kyrgios.

SEGUNDA RONDA

Nesta segunda ronda, foram vários os jogos dignos de registo. O primeiro foi o Stan Wawrinka vs Marton Fucsovics, o suíço, que vinha de eliminar o Pedro Sousa, tinha um teste bastante mais difícil frente a um adversário com outras armas. São dois jogadores bastante explosivos e o confronto teve muitas trocas de bolas ganhas à “lei do tiro”. No final, a superior capacidade física de Fucsovics veio ao de cima e o húngaro conseguiu levar de vencido o tie-break do último parcial por 11-9. Outro dos grandes encontros desta ronda foi o embate entre Stefanos Tsitsipas e Thanasi Kokkinakis, o grego era muito favorito para vencer este encontro, mas teve de suar muitíssimo para passar à ronda seguinte. O australiano apresentou uma das suas melhores versões de sempre e obrigou o grego, quinto cabeça-de-série, a uma quinta partida que acabou por terminar 6-4 para o favorito, Tsitsipas.

Esta ronda também deu por terminada a primeira, de muitas, participações do jovem prodígio de 17 anos, Carlos Alcaraz, que perdeu o seu encontro frente ao, também jovem, sueco Mikael Ymer.

TERCEIRA RONDA

No final da segunda ronda, quem olhasse para o alinhamento iria ver um embate com um potencial de ser eletrizante e fantástico, o Dominic Thiem vs Nick Kyrgios, mas a verdade é que não foi assim… foi ainda melhor! Um encontro digno de filme, que teve de tudo. Mas começando do início, ou até mesmo antes disso. Fosse em que torneio fosse, nunca este encontro poderia ser jogado noutro palco que não o principal estádio da competição, a menos que o estádio preferido de Kyrgios não fosse a famosa Rod Laver Arena e que a organização fizesse o possível para que o jogador da casa jogasse no seu palco “fetiche”. Foi mesmo isso que aconteceu e o encontro foi disputado na John Cain Arena, foi aqui que tudo começou a cheirar um bocadinho à famosa Taça Davis, conhecida por ter adeptos aficionados que formam autênticas claques em redor dos jogadores da casa.

Agora vamos ao jogo, Kyrgios entrou claramente por cima e, alavancado pela energia vinda do público, que ia delirando com todos os golpes de teatro do australiano, desde pancadas entre as pernas a serviços por baixo, o australiano conseguiu chegar a uma vantagem de dois sets a zero. Apesar desta vantagem, Thiem pareceu nunca dar demasiado espaço para o australiano relaxar e, no terceiro set, aproveitou alguns erros de Kyrgios e conseguiu vencer o parcial por 6-3. O jogo estava de loucos e não deverão ter sido poucos aqueles que se terão lembrado da célebre final do US Open do ano passado, em que o austríaco deu a volta a dois sets a zero para vencer o seu primeiro título de Grand Slam da carreira.

Kyrgios, com um temperamento difícil, para ser simpático, foi sempre privilegiando o espetáculo o que entreteve sempre o público mantendo-o afincadamente do seu lado. Por esta tentativa constante de tentar fazer pancadas fabulosas e contribuir para os highligts, o australiano perdeu o controlo do jogo e, quando o quis recuperar, foi ficando mais nervoso por não o conseguir. O jogo foi para o quinto set onde um Dominic Thiem sóbrio e calmo manteve sempre o controlo do set, que acabou por conseguir fechar em 6-4, sem sequer permitir a Kyrgios qualquer hipótese de fazer break, já que o australiano apenas uma vez fez mais que um ponto no jogo de serviço de Thiem.

O outro principal destaque desta ronda foi a lesão de Djokovic. No seu jogo frente a Taylor Fritz, o sérvio acabou o jogo visivelmente debilitado e só por ser Djokovic é que ainda conseguiu vencer o encontro, numa quinta partida onde o americano fez tudo o que não tinha de fazer e nada do que tinha de fazer. Com o adversário em fracas condições físicas, Fritz deveria ter pressionado Djokovic mas sem arriscar em demasia, porque receber pontos grátis era tudo o que Djokovic mais queria, no entanto as trocas de bolas surgiram sem demasiada acutilância e as vezes em que arriscava o ataque cometia erros, erros esses que lhe custaram a possibilidade de vencer o principal candidato ao título e de passar aos oitavos-de-final da prova australiana.

Para se perceber a dimensão da impossibilidade física de Djokovic, o sérvio festejou esta vitória como se de um título importantíssimo se tratasse, dizendo, inclusive, que “foi uma das vitórias mais especiais da sua carreira” e, no final, não pôs de parte a possibilidade de desistir de jogar a próxima ronda.

OITAVOS-DE-FINAL

Chegado aos últimos 16 jogadores, no que toca aos favoritos, a principal dúvida era a condição física de Novak Djokovic. Depois de uma vitória muito suada frente a Fritz, Djokovic tinha pela frente um jogador com quem nunca tinha perdido, Milos Raonic.

Apesar de se tratar de um belíssimo jogador, dotado de um dos melhores serviços do mundo, a verdade é que, tendo em conta a lesão, este era exatamente o matchup que convinha a Djokovic. O canadiano é conhecido pelo seu serviço de direita, mas também pela muito fraca movimentação em court. Estes dois fatores combinados, fariam com que fosse expectável pontos de curta duração. O sérvio conseguiu superar-se uma vez mais e acabou por gerir o encontro de forma exímia, a partir do momento em que sofreu o break no segundo set poupou energias para os sets seguintes, o que foi fundamental para acabar por, em quatro sets, ultrapassar Raonic e marcar presença nos quartos-de-final. Esta vitória constituiu mais um feito histórico para o sérvio, foi a sua 300.ª vitória em quadros do Grand Slam.

Nadal continuou a fazer o seu percurso ainda sem grandes pedras no caminho, o que tem sido importante para tentar recuperar a 100% da sua lesão nas costas. Até agora, o espanhol venceu Djere, Mmoh, Norrie e Fognini sempre em parciais diretos.

Todo o Australian Open tem decorrido com poucas surpresas e a prova disso mesmo é que, chegando aos últimos oito jogadores, apenas dois dos oito primeiros cabeças de série não estão presentes nesta fase do torneio. Por outro lado, e apesar de existirem poucas surpresas e uma delas ter sido a não muito chocante vitória de Dimitrov sobre Thiem, sobretudo para quem viu o encontro e se apercebeu da capacidade física com que Thiem acabou o encontro, tivemos mais um russo a dar nas vistas, e de que forma.

Aslan Karatsev, um nome completamente desconhecido para a maior parte, está a fazer um torneio irrepreensível. Para chegar aos quartos, o russo, 114.º do ranking, teve de eliminar jogadores como Schwartzman e Aliassime. Este resultado já lhe fez garantir dois feitos históricos, há 25 anos que ninguém se estreava no QP de um Grand Slam chegando a esta fase e, na história do Open australiano, apenas três homens vindos da fase de qualificação chegaram aos quartos-de-final. Para além destes feitos históricos, Karatsev acumulou ainda muitos pontos, fundamentais para a ascensão no ranking e para evitar ter de passar pelas rondas de qualificação dos principais torneios. A chegada aos quartos-de-final vale-lhe, desde já, a meteórica ascensão de 60 postos no ranking, para ocupar a 64.ª posição, e, se vencer o próximo encontro, subirá para 42.º do ranking, algo inimaginável para o russo que, até ao início deste torneio, o ranking mais alto que tinha tido tinha sido ocupar a 111.ª posição do ranking ATP.

Este resultado, a juntar às, já expectáveis, presenças de Medvedev e Rublev nesta fase, fazem com que a Rússia seja a nação mais representada, com três dos últimos oito tenistas em prova.

Este é o alinhamento da prova, nesta fase de competição. Quem será que irá vencer o primeiro torneio do Grand Slam da época?

Foto de Capa: ATP Tour

José Maria Reis

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