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Não há contestação na vitória do Benfica sobre o Vitória SC, embora se possam apontar duas lacunas à exibição das águias. A primeira, óbvia e evidente, é a eficácia.
O mundo não é transparente, preto e branco ou qualquer outra singularidade imutável. Como diria Bruno Nogueira no Último a Sair, “O mundo é bué cenas”. E, fazendo uso da expressão, é a evolução, a mutação e o desenvolvimento dessas cenas o motor para a passagem dos dias não ser apenas isso. A sucessão de acontecimentos do Benfica funciona desta maneira. Nos últimos anos, sucederam-se treinadores, mudanças estruturais e conjunturais e mercados de transferência que, na sua sequência, levaram a que, ao dia de hoje, Andreas Schjelerup e Gianluca Prestianni sejam os grandes dínamos do futebol encarnado.
Quando foram contratados, o norueguês em janeiro de 2023, o argentino um ano depois, não era propriamente surpreendente vislumbrar na dupla criativa o futuro das águias. Os meses – mesmo anos – seguintes deixaram algumas dúvidas e hesitações sobre o assunto, quase sempre mais pertinentes pela qualidade da aposta do que pela qualidade dos intérpretes, mas 2026 tem ajudado nos esclarecimentos. Já não é só o futuro que passa pela dupla criativa. O presente também o é.
O grito de urgência de Schjelerup surgiu em janeiro de 2026, bem cedo no ano. Entre rumores de uma transferência, o extremo derrubou o Real Madrid e não mais José Mourinho ousou tirá-lo do onze, qual salvaguarda de golos e assistência. A afirmação de Prestianni chegou já com Marco Silva, curiosamente, ocupando o lugar que o Mundial 2026 fez, por momentos, deixar de ser do norueguês. Os lampejos de qualidade vistos à direita comprovaram-se, redobraram-se e deslumbraram à esquerda. A partir das primeiras semanas da nova época, a discussão, felizmente, mudou. Deixou de se questionar o papel e pertinência de Schjelerup e Prestianni para se discutir a melhor forma de juntar dois corpos mais funcionais a partir da esquerda no mesmo onze. A solução, por agora, aparenta estar encontrada.

Sabendo de antemão que jogar com dois extremos esquerdos no mesmo lugar é impossível, a menos que um dia se chegue à conclusão de que, às cavalitas, também se jogue bom futebol, um dos jogadores terá sempre de partir de outra posição. Tem sido Gianluca Prestianni, outrora colocado à direita e agora partindo do centro-esquerda, como um 10 ligeiramente inclinado para este corredor. No entanto, estes posicionamentos-base rapidamente mudam. Foram várias as vezes em que Gianluca Prestianni encostou ao corredor e combinou com Andreas Schjelderup, já mais por dentro, numa inversão total do papel a cada um destinado no papel. Não só não inibe nenhum como, coletivamente, tamanho dinamismo e permuta, é benéfico para o Benfica.
Dentro dos encaixes do Vitória SC, Lohann Doucet ficou com a missão mais exigente e, mais por mérito alheio do que por culpa própria, foi constantemente ultrapassado. Gianluca Prestianni, qual pulga argentina – no sentido irrequieto do animal, não de qualquer comparação ao ídolo do jogador – rapidamente saltava para outros lugares, em busca de arrastar o médio e abrir espaço. Era nestes terrenos que Andreas Schjelderup, menos irrequieto, com um contacto mais fino com a bola, se movimentava e aparecia. Noutras vezes, tudo se mantinha igual. Noutras, o argentino aparecia mais recuado e era Rafa, num movimento a toda a largura, quem ousava pisar estes terrenos. Dentro da identidade padronizada por Marco Silva, há liberdade para as associações e flutuações. Assim se encaixaram dois talentos brutos.
O desafio neste casamento passa por encontrar maneira de enquadrar competitivamente um terceiro elemento. Claudio Echeverri ainda procura o melhor momento físico, o melhor entrosamento com os companheiros e a melhor fineza na definição em vários momentos, mas os lampejos que vai deixando – contra o Vitória SC tem uma assistência e um movimento típico onde se consegue isolar – deixam perspetivar um futuro risonho. A mais que provável solução passa pelo calendário: com tantos jogos, haverá espaço para todos. Mas não permite deixar esquecido o jovem argentino.

De resto, e pensando em relações a três, há um outro elemento fundamental para o brilho de Schjelderup e Prestianni. Samuel Dahl, tantas e tantas vezes criticado – como os companheiros acima – tem deixado para trás o rótulo de patinho feio (desajustado à realidade). Não ser tão exuberante, não significa ser competente. Sendo evidentes alguns erros e algumas limitações no seu jogo, desistir do sueco, condená-lo ao olvido eterno ou subjugá-lo apenas a um papel secundário é manifestamente curto. Está cada vez mais influente e confortável com Marco Silva, servindo de pedra basilar e como garantia de segurança ao malabarismo da dupla de criativos.
Aparece mais baixo na saída de bola, como terceiro elemento, obrigando o extremo adversário a manter, pelo menos, um posicionamento híbrido que desafogue a zona criativa de gente. Como lateral baixo, é protegido das suas maiores dificuldades, essencialmente físicas na capacidade de fazer o vai-vém até à linha de fundo, e oferece soluções como passador desde trás. A este papel, tem crescido de impacto como elemento surpresa a atacar os meios-espaços e a área adversária. Se à direita é o médio, exponenciado na naturalidade dos movimentos de Leandro Barreiro, à esquerda é cada vez mais Samuel Dahl quem funciona como o atacador de espaços na área. Merecia o golo que surgiu da forma mais poética de sempre. Depois de um trabalho desconcertante, Schjelderup e Prestianni deixaram a sua zona preparada para Vangelis Pavlidis – um requinte em apoio – combinar com o lateral sueco. Chapeau.
Mais tarde, e numa altura em que o Benfica gritava por um perfil como o do ucraniano, chegou outra redenção. Georgiy Sudakov, outro elemento a quem a exigência tantas vezes se confundiu com a gratuitidade na crítica, quebrou o enguiço e marcou um golo que, certamente, retira uma grande névoa da cabeça do ucraniano. Era evidente que o peso psicológico da ineficácia se fazia sentir. Mentalmente mais leve, o futuro dirá o que pode o ucraniano dar aos encarnados. Curiosamente, o golo surge numa altura em que a sua posição teórica, a de 10, parece ter encontrado o dono. As necessidades ditaram que o médio surgisse como 8 e a partir da direita. Se o lado também pode ter algum impacto, o posicionamento base mais recuado é terreno fértil para o ucraniano esconder algumas das hesitações enquanto definidor de último terço e assumir-se como organizador de jogo. Vai bem a tempo de ter um papel de relevo no Benfica. Tal como Dahl, também pode escrever o seu percurso de redenção, passar o Purgatório da Luz e chegar ao paraíso. Bastam duas asas para os diabos se transformarem em anjos.

Não há contestação na vitória do Benfica sobre o Vitória SC, embora se possam apontar duas lacunas à exibição das águias. A primeira, óbvia e evidente, é a eficácia. Outro acerto na baliza – e nem foi preciso um super guarda-redes – e o resultado não só seria mais dilatado, como nunca se teria arrastado num perigoso 1-0. A segunda foi bem apontada por Marco Silva, sinal de que há consciência de que ainda há muito caminho a palmilhar. A forma como, já perto do fim da primeira parte, o Benfica começou a acelerar ataques de forma quase disparatada – quantas superioridades não se perderam com passes sem nexo à procura da entrada da área ou corridas isoladas perante dois ou três adversários – e fez o jogo entrar num pêndulo de um lado ao outro é perigosa e também justifica, num jogo sem golos sofridos, alguns dos tremores recentes. O Vitória SC fez pouco e só por uma vez chegou lá à frente, não recompensando a exibição competente de Arnel Jakupovic com os movimentos e ações complementares dos colegas, mas a incapacidade de defender com bola, de pausar e estruturar o jogo, fez soar uma ténue sirene na cabeça de Marco Silva. Para se escutar as flautas dos anjos, é preciso não ceder às tentações do diabo. Que é, como quem fala em bom português, ter noção de que devagar também se vai ao longe.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Jakupovic faz um jogo, principalmente a partir dos 30 minutos, muito útil em apoio, constantemente a oferecer-se à equipa. Depois, obviamente, não conseguiu ter tanta presença na área adversária. Como pensou o papel do avançado e o que tem trabalhado com ele para tentar dar o melhor à equipa.
Tiago Margarido: A nossa intenção para este jogo, perante a análise que fizemos do Benfica, era baixar dois jogadores entre linhas. Neste caso, seriam o Samu [Silva] e o [Arnel] Jaku[povic], para fazer com que os centrais do Benfica saíssem à frente, porque defendem muito em referência individual, para depois conseguirmos explorar as costas com movimentos de rutura dos nossos extremos, tanto do Miguel [Nogueira] como do Oumar [Camara]. A intenção foi essa. Acho que na segunda parte isso foi extremamente visível e causa grande dificuldade ao Benfica essa ligação. A verdade é que o Jaku esteve limitado nestas semanas de paragem e estava limitado ao tempo. Houve um momento em que tivemos de o retirar por uma questão de gestão física e para não se voltar a lesionar. Era essa a intenção que tínhamos para com ele. Era ser uma primeira referência de apoio para atrair os centrais do Benfica e explorar as referências nas costas com a profundidade tanto do Miguel como do Camara.
Infelizmente, não nos foi concedida a oportunidade de colocar uma questão a Marco Silva, treinador das águias.












