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Lembras-te de algum destes nomes da era da formação pré-Seixal?
O Seixal é por estes dias visto como uma academia de formação de elite, de nível mundial, onde jogador que de lá saia terá, quase na totalidade dos casos, qualidades acima da média.
A taxa de aproveitamento do jogador saído da formação encarnada subiu consideravelmente na última década, com múltiplos casos que se evidenciaram na equipa principal antes de se afirmarem nas maiores ligas.
A melhoria substancial deu-se com a estabilidade adquirida pela inauguração do Caixa Futebol Campus, em 2006, permitindo aos escalões jovens assentar arraiais num complexo com todas as condições para crescer, sem necessidade de se andar com a casa às costas como até aí.
Essa indefinição no crescimento dos futebolistas proporcionava uma falta de acompanhamento inimaginável aos dias de hoje.

Fonte: Carlos Silva/ Bola na Rede
Ao jovem regrado de agora, com tudo ao seu dispor em troca de bons índices de disciplina, contrapôs-se durante muito tempo o centro de estágio debaixo do Terceiro Anel, os múltiplos campos de treino durante a temporada e a falta duma estrutura diretiva profissional que soubesse sustentar, desportiva e pedagogicamente, a transição entre criança e homem, entre os sonhos do jogador amador e as exigências do jogador profissional.
O funil de aproveitamento estreitava-se, muito menos eram aqueles que conseguiam chegar lá acima e afirmar-se entre os seniores do clube. Grande percentagem, com mais ou menos qualidade, ficavam para trás por falta de apoio.
Reunimos cinco exemplos de prodígios que conseguiram evidenciar-se em idade muito tenra – eram já, na adolescência, craques com fama na consciência futebolística nacional – mas que, por diversas razões, não confirmaram no profissional as proezas sobre-humanas conseguidas na juventude.
5. Cavungi
Benfica (1-2) Boavista 1979/1980
Golos: Cavungi (Benfica) ; Vitor Batista e Julio (Boavista) pic.twitter.com/dhlu8hhlN0— 4grande (@4grande1) February 5, 2021
Este golo marcado ao Boavista não é o melhor para sintetizar as maiores qualidades de Manuel Francisco Salvador, nascido em Luanda em 1957 e cedo repescado para os escalões de formação dos encarnados.
Sob comando do bicampeão europeu e lapidador de diamantes Ângelo Martins, juntou-se a Chalana para se assumir como grande figura das equipas campeãs nacionais de juniores em 1974-75 e 75-76, à custa de muitos golos. Tantos golos que já é integrante a full-time do plantel sénior em 1976-77, quando Mário Wilson decidiu já ser altura de colocar o jovem Cavungi a aprender com os craques.
No ano seguinte chega Mortimore, que lhe dá a oportunidade de cumprir a melhor época da carreira ao alto nível: 20 jogos e quatro golos, que não terão repercussão nas duas épocas seguintes, onde volta a ser última alternativa.
Chega ao Braga em 1980-81, acumulando 10 titularidades em 20 participações na Primeira Divisão – o Benfica, sentindo-o mais preparado, repesca-o. Mas Lajos Baroti tinha Néné, Reinaldo, Filipovic, Jorge Gomes ou Chalana, que entretanto tinha conseguido afirmação muito mais assertiva na equipa e era figura de cartaz.
Cavungi voltou para continuar esquecido. Para 1982-83, chega Eriksson que montará a equipa finalista europeia – Cavungi não entra nos seus planos e o GD Alcobaça, estreante no escalão máximo, assegura os seus serviços.
Seria a última época do clube do Oeste e do angolano na Primeira Divisão. Aos 26, dizia adeus à elite e jogaria o resto da carreira nas divisões inferiores, sem nunca cumprir o imenso potencial que mostrou enquanto menino na Luz.
4. Edgar
Quem o estreia na primeira equipa é Artur Jorge, na Supertaça 1994-95, jogada já no final da época em Paris, contra o Futebol Clube do Porto. Edgar tinha 18 anos mas era já um poço de força no ataque às balizas adversárias, usando e abusando dos atributos físicos para fazer valer os técnicos, também de outro quilate.
Pelas alas ou pelo meio no apoio a um avançado de referência, Edgar assume-se como peça importante logo em 1995-96, com 31 jogos oficiais. No total ao serviço dos encarnados foram 68, com 11 golos marcados até 1997 – com um empréstimo ao Alverca pelo meio – números que justificam uma investida do Real Madrid. Bomba mediática, é apresentado no Bernabéu como nova ‘pérola portuguesa’: jogava no Castilla mas treinava com os AAs.
«Não sabia se havia de treinar com eles ou pedir-lhes autógrafos». Pois, imaginamos. Havia Karembeu, Raúl, Suker, Mijatovic. E outros: «O Redondo era craque e aconselhava-me muito, assim como o Seedorf, o Roberto Carlos, enfim, grandes jogadores».
Porém não era a única coqueluche dos mais velhos, a ele se juntava como aprendiz… Samuel Eto’o. «O Real Madrid tinha sido campeão europeu e tinha vários jogadores que vinham do Mundial de 1998. Aquilo foi incrível, os carrões todos à porta, aqueles craques todos…e o Guus Hiddink acabou por abdicar de dois campeões europeus, o Victor e o Amavisca, para apostar em mim e no Samuel Eto’o, que tinha 18 anos.»
O camaronês chegou-se a estrear, Edgar não sairia do banco. Pouco depois, era emprestado ao Málaga, então na La Liga 2. Ajudaria os andaluzes a subir nessa mesma temporada e gostou tanto da experiência que pelo La Rosaleda se manteve mais 7 anos. Uma vida, quase. Chegaria aos Quartos da Taça Uefa em 2002-03 – eliminado pelo Boavistão de Pacheco -, prestação europeia máxima da equipa até 2011-12.
Ao todo foram 187 jogos e estatuto de histórico. Em 2007 regressava a Portugal, para representar o… Boavista, em ano de deduções pontuais e punições severas resultado da conclusão das investigações do Apito Dourado. Escapou-se para o Chipre, para o AEK Larnaca, mas irregularidade nos salários provocariam o fim de carreira para Edgar.
Não se estava para chatear. Botas arrumadas, foi estudar. Licenciou-se em Gestão das Organizações Desportivas, na Universidade Lusíada, e é hoje Técnico Administrativo de Finanças ao serviço da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública.
Como vídeo que acompanha a descrição houve duas opções – este, o da estrondosa exibição contra o FC Porto na meia-final da Taça de 1996-97, onde assistiu e marcou. Ou o golo no Artemio Franchi frente à Fiorentina de Rui Costa e Batistuta, ajudando o SL Benfica a vencer 1-0, muito positivo mas insuficiente – os italianos tinham feito 0-2 na Luz. Optámos pelo jogo em que saiu melhor aos dois, Edgar e SL Benfica.
3. Pepa
O atual treinador do Vitória SC tem história de vida para dar e vender. Prodígio futebolístico, descobre-o o SL Benfica em 1994, com 13 anos. De Torres Novas muda-se para Lisboa, com os ares metropolitanos da capital a provocar no jovem Pepa um entusiasmo que não o ajudaria.
Muito menos quando aos 15 anos passa a receber 120 contos por mês. Agravaram-se então os problemas do deslumbramento, com os caminhos sinuosos das tentações terrenas a multiplicarem-se fora de campo. Aos 18 anos, o cenário piora.
Já depois de ser campeão europeu de seleções desse escalão etário e melhor jogador, o SL Benfica torna-o no júnior mais bem pago de sempre do futebol português: 1000 contos mensais. Um balúrdio para tão pouco juízo. Festas, álcool, prazeres da vida e «amigos da onça» sugavam-lhe a carteira.
Dentro de campo, a saúde e frescura juvenil permitia continuar a somar sucessos. Estreia-se em janeiro de 1999, num Benfica-Rio Ave. Rende Nuno Gomes já perto do fim, mas ainda vai a tempo de assinar na folha de marcadores. Aliás, nem pediu muito relógio: em 15 segundos e ao primeiro toque na bola, faz golo.
Num Terceiro Anel sedento de ídolos numa fase de pouco palmarés, estava encontrado o novo Eusébio. Mais holofotes virados para Pepa, que não tinha arcaboiço nem responsabilidade para tanta atenção. Lierse, Varzim, lesão grave pelo meio, Paços e Olhanense – e pronto, com 26 anos arruma as chuteiras, resultado de uma ‘bola de neve’ de consequências derivadas das loucuras dos primeiros anos.
Momento de reflexão para renascer das cinzas, torturado e sábio pelas memórias das oportunidades perdidas à custa das próprias más decisões. A partir daí, subida a pulso como técnico principal, dos distritais à Primeira Liga, onde é por estes dias dos treinadores mais promissores da nova vaga. Redenção total.
2. Manuel Fernandes
Talvez aquele que tenha alcançado maior notoriedade nacional e internacional, ainda que muito longe daquilo que prometia em inicio de carreira – principalmente quando é responsabilizado por Giovanni Trapattoni de suportar o meio-campo encarnado juntamente com Petit.
É nessa fórmula que o SL Benfica recupera o título nacional 11 anos depois e com essa base que alcança os quartos-de-final da Liga dos Campeões no ano seguinte. Manelélé, como o craque que lhe emprestou alcunha, era um todo um terreno quase ominpresente.
No caso de Manuel, a técnica prodigiosa permitia-lhe ser também uma ameaça na organização e definição já no último terço – como esquecer o golo ao Villareal? -, tendo o perfil ideal para outros futebóis, como o inglês.
O Everton apaixonou-se pelo seu talento, vem a Portugal buscá-lo por empréstimo no inicio de 2006-07 num processo polémico que mancharia a reputação do jogador. Na Luz nunca perdoaram Manelélé pela fuga e falta de boa vontade nas negociações, e o jogador nunca mais a Portugal voltaria, apesar de ser intermitentemente chamado à Seleção.
Depois de Everton, Valência, Besiktas, Lokomotiv e hoje, com 36 anos, defende o Apollon Smyrnis, clube grego de menor expressão. Carreira de respeito, mas aquém do que lhe previa quem o viu a surgir na equipa principal do SL Benfica.
1. André Carvalhas
Numa altura onde o fosso entre Juniores e Séniores não era preenchido pelas equipas B ou Sub-23, quase inalcançável era a afirmação de jovens talentos. A André Carvalhas, o primeiro grande prodígio do Caixa Futebol Campus, adivinha-se grande futuro – que o seu talento conseguiria fazê-lo saltar da formação para a equipa principal sem qualquer tipo de problemas.
As extraordinárias capacidades na organização, drible e condução faziam dele um às do último terço – e essas qualidades não passaram despercebidas, naturalmente, a José António Camacho em 2007-08, que o convocou para quatro partidas e o integrou junto dos mais velhos.
Chegando Quique Flores, no ano seguinte, é emprestado a Rio Ave e Olhanense, sem reais condições de conseguir lutar por um lugar em plantéis com necessidade urgente de conquistar pontos.
Não havendo paciência, André nunca conseguiu ser figura de registo e em 2009, com Jorge Jesus, perdem-se as esperanças, iniciando-se caminhada sem destino certo. Fátima, Trofense, Naval, Moreirense, Tondela, Portimonense, Cova da Piedade, Académico de Viseu.
Um percurso maioritariamente feito pela Segunda Liga, tornando-o um histórico do segundo escalão – tem três títulos conquistados – e uma peça desejada por quem se assume, ano após ano, candidato à subida.
No vídeo, o livre direto já nos descontos que permitiu ao CD Tondela subir pela primeira vez ao escalão principal. Estávamos em 2014-15. E Carvalhas, ainda que não num palco à medida do seu talento, inscreveu o seu nome na história daquele clube.








