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24 de Janeiro, 2022

A falência do projecto Benfica B?

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Ao olharmos à tabela classificativa da II Liga reparamos que a equipa B do Benfica continua em situação aflitiva. Jornada após jornada, esse cenário mantém-se, mostrando-se esta equipa incapaz de dar a volta o texto. E com óbvias responsabilidades para o técnico, Hélder Cristóvão. Mas não só… É curioso que outro clube que tem apostado evidentemente nos jovens também se encontra aflito, o Vitória Sport Clube. Porque será? Estarão estes factores ligados? Será dos intérpretes? Ou apenas é a falência do projecto?

Obviamente que não sou um expert no que se passa lá fora e pouco sei do que se passa no interior do Benfica, logo o que irei escrever é feito a partir da análise das impressões por mim recolhidas enquanto observador externo. Apesar disto, tenho um conceito do que deve ser uma equipa B e qual o seu lugar numa estrutura.

Não sei se o melhor ou se válido sequer, mas um conceito nevertheless. E perante isso, acredito que o projecto da equipa B do Benfica está perto de falir. E é pena. Explico: Em primeiro lugar, acho que deve haver uma enorme sintonia táctica entra as equipas A e B. Não digo um molde táctico rígido, definido em gabinetes e com os treinadores que chegam a adaptarem-se a tal, mas um desenho mais lato, que sirva aos dois plantéis. Um conceito genérico de perfil de jogador e esquemas tácticos e respectivas variantes. Isto é: não podemos adquirir laterais que são bons apenas em 3x5x2, quando nunca alinharemos nesse esquema.

Depois, os treinadores. Entre ambos tem de haver uma relação de absoluta confiança. Devem ser, na estrutura do clube, colocados a trabalhar de um modo bem próximo, para que percebam bem as respectivas ideias. Para que o treinador da B entenda do que a A pode precisar de um momento para o outro e para que o técnico principal saiba “espremer” de um modo coerente os mais jovens, sem melindrar aquele escalão.

Em terceiro, os jogadores. Atrás falei em plantéis, mas  conceito deve ser unívoco: As necessidades devem ser entendidas num todo. Claro que tem de haver alguma separação, para que, sobretudo, o treinador da B consiga ter recursos ao seu dispor para trabalhar. Mas a ligação tem de ser efectiva.

Deve existir uma perspectiva integrada entre as equipas A e B. Só assim faz sentido a existência deste escalão secundário Fonte: SL Benfica
Deve existir uma perspectiva integrada entre as equipas A e B. Só assim faz sentido a existência deste escalão secundário
Fonte: SL Benfica

Por exemplo, o 4º central do plantel principal teria de ser um titular absoluto da equipa B. O terceiro guarda-redes deve ter chances constantes na 2ª equipa. E por aí a fora. Ou seja, à luz disto, dir-se-ia que não seriam necessários 8 centrais (entre as duas equipas), mas sim 6; 7 no máximo. Os keepers, apenas 5. Ou seja, as necessidades técnicas e tácticas devem ser lidas no seu todo para compor um grupo que no máximo teria 46/47 jogadores. Olhar ao assunto como um plantel que a cada fim-de-semana tem dois jogos. E isto não pode implicar que, por exemplo, o recurso a Lindelof abane em definitivo a qualidade defensiva da equipa B.

Que a torne irremediavelmente mais fraca e sem capacidade de responder às vicissitudes da II Liga. E com o grupo mais ligado à equipa B sem as flutuações a que temos assistido. Por fim, o perfil do treinador da equipa B. Hélder Cristóvão pode ser um nome com história no Benfica, mas nada no seu currículo indica que ele é o homem certo. O mesmo se aplicava a Norton de Matos. Este treinador tem de ser um formador por excelência, tem de ter um CV amplamente ligado à formação. Hélder Cristóvão não tem sequer grande experiência como treinador principal… E a pouca que tem não abona.

Ora perante este conceito e os resultados, analiso que o projecto da B no Benfica está perto de ruir. Não há sintonia táctica entre os escalões, não me parecendo que haja essa proximidade e preocupação. Não digo que haja separação dos escalões, mas não há integração. Renato Sanches estava a brilhar, não havia mais ninguém, foi ele o escolhido. Victor Andrade e Clésio foram sendo experimentados a ver se colava… Lindelof apareceu e a defesa da B está a ruir. E Semedo teria de ganhar ritmo por ali. E não me parece, perante isto, que haja efectiva comunhão de ideias entre Vitória e Cristóvão.

Por outro lado, a indefinição em torno da aposta real de Vitória nos jovens levou a uma indefinição no plantel. Isto é, o plantel da Equipa B ia sendo depauperado à medida dos testes do ex-treinador do Vitória. E os recursos a desaparecer. Chegados a Janeiro, casa roubada, reforços à porta. E por atacado, infelizmente… Somado a isto, os empréstimos de Andrade e Teixeira. E isto indica outra coisa: jovens que aterram no Seixal, com valor, é certo, apenas servem para um forcing para evitar a despromoção. E ascensão à equipa A logo se vê se dá, pois nenhum dos jogadores adquiridos terá grandes chances de, a médio prazo, serem opção no escalão A, pela posição que ocupam. E por outro lado, onde fica, por exemplo, Rebocho. Que hipótese terá ele perante Grimaldo, que tem a mesma idade sensivelmente? E fala-se em mais um argentino… Por fim, Hélder Cristóvão. Tem de sair o quanto antes, sob pena de ser tarde, pelas razões explicitadas atrás. Sem perfil e sem a competência técnica desejável.

Ora perante este cenário, o perigo da queda ao CNS é real e as suas consequências nefastas. Em primeiro lugar, a visibilidade é menor. Em segundo lugar, e mais relevante, a motivação será bem menor! Dizer a um jovem de 19 anos que tem de jogar no CNS é devastador. Isto somado dá que possivelmente o fim do escalão está à vista… E isto acontece por uma razão que me irrita deveras no Benfica: falta de planeamento a este nível.

Ninguém, com bom senso, pode afirmar que o actual cenário é inesperado, bastando para isso olhar à manta de retalhos que é o actual plantel…  Na próxima época deseja-se um planeamento eficaz, com um grupo forte e bem definido, liderado por alguém competente e ciente da sua função: suprir a equipa A.

Foto de Capa: SL Benfica