O dia 25 de outubro de 2003 ficará para sempre marcado na memória de milhares de Benfiquistas. Depois da sentida e triste despedida ao “velhinho” estádio da Luz, era agora tempo de voltar a casa. Uma casa nova, uma casa sem história, uma casa sem ícones, uma casa que ainda não era verdadeiramente uma casa.

Apesar de moderna, a nova catedral era bastante mais modesta, em termos de dimensão, comparativamente ao “gigante de betão” que era o antigo Estádio da Luz. A modernidade trazia novos confortos; no entanto, estes vieram acabar com tradições geracionais de “um dia de bola”.

A necessidade de levar uma almofadinha que acondicionasse o nosso corpo na gélida estrutura de betão ou, posteriormente, nos desconfortáveis bancos de plástico, enquanto se assistia a mais uma grandiosa arrancada de Simão Sabrosa, foi tornada completamente desnecessária pelas novas cadeiras rebatíveis. A cobertura quase total do estádio matou o hábito de assistir, completamente ensopado, aos toques de carácter mágico com que Rui Costa dominava o esférico. Os lendários jogos que tantos relataram ter visto a partir das escadas de acesso ao estádio, pois não cabia nem mais uma única alma nas sobrelotadas bancadas, desapareciam agora com os lugares marcados.

Apesar da extinção destas tradições e da enorme nostalgia que o desaparecimento da mítica casa do Benfica ainda proporcionava aos adeptos encarnados, o sentimento que dominava a massa associativa das águias, relativamente ao novo estádio, era sobretudo de orgulho. Orgulho por ter um estádio moderno ao nível da grandeza do clube. Finalmente o Benfica tinha uma casa moderna, finalmente os adeptos tinham o seu lugar naquele estádio.

Deixando de lado os sentimentos (impossível fazê-lo no desporto, mas vamos lá tentar), passamos ao jogo de estreia. Depois de um espetáculo de luzes e fogo de artificio ao nível da modernidade do estádio e de arrepiantes discursos, lá entrava a equipa do Benfica, que nesta noite defrontava o Nacional de Montevideo, do Uruguai. Moreira, Miguel, Hélder Cristóvão, Ricardo Rocha, Argel, Tiago, Petit, Geovanni, Nuno Gomes, Tomo Sokota e Simão Sabrosa foram os 11 primeiros jogadores a vestir o manto sagrado na nova catedral.

O SL Benfica sairia vitorioso por 2-1, tendo Nuno Gomes entrado para a história do clube encarnado como o primeiro marcar no novo estádio. A primeira alegria proporcionada naquele ambiente e um excelente presságio do que estaria para vir.

Apesar de relativamente recente, o Estádio da Luz conta já com uma rica história
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Passados 16 anos foram mais de 17 milhões as pessoas que encheram as bancadas do Estádio da Luz. Estes 17 milhões viram o Benfica entrar em campo por 457 vezes e vencer 303 desses duelos. Desde a inauguração do estádio, o Benfica conquistou 22 títulos: sete Ligas Portuguesas, três Taças de Portugal, seis Supertaças e sete Taças da Liga.

Em termos de jogadores, foram nove os Bola de Ouro que pisaram o relvado da Luz: Zidane, Figo, Owen, Nedved, Ronaldinho, Kaká, Cannavaro, Messi e Cristiano Ronaldo. Houve também muitos astros inesquecíveis que vestiram o manto sagrado e deixaram tudo em campo pelo Benfica.

Como esquecer os 105 golos que Oscar “Tacuara” Cardozo marcou na Luz. A magia de Pablo Aimar. Os 258 jogos de Luisão na catedral. A classe do eterno maestro Rui Costa e do goleador Jonas. Simão Sabrosa e os seus golos decisivos. As fintas de Nico Gaitan. Os gregos Karagounis e Katsouranis. As grandes defesas de Oblak, Ederson ou Júlio Cesar. A excentricidade e o cabelo de David Luiz. Os passes de letra de Di María. Os “baixinhos” Miccoli e Saviola. Entre tantos outros…

Tantas vezes as bancadas gritaram em uníssono “Golo” do fundo dos seus pulmões e saltaram das cadeiras como se tivessem molas. De grandes golos a golos históricos. De golos simples a golos de sorte. Desde o remate do “meio da rua” do Eliseu, frente ao Moreirense FC, ao volley “intencional” de André Almeida, há duas épocas frente ao Portimonense SC. Desde o “golaço” do Matic, no empate 2-2 com o FC Porto, ao remate de longa distância de Renato Sanches, contra a Académica OAF. O golo de Cardozo contra o Fenerbahçe SK e do Lima contra a Juventus FC, que valeram as idas à final da Liga Europa. O golo do Luisão que deu o campeonato de 2005 ao Benfica. A grande corrida e o subsequente golo do Cardozo, frente ao FC Porto na Taça da Liga. O golo de Rodrigo, na despedida do “Pantera Negra”. O remate em jeito de Jonas, que bateu o guarda-redes do Paços de Ferreira. O golo cheio de classe de Aimar ao Sporting CP, na época de 2009/2010. A jogada mágica de Gaitan e a cabeçada de Lima na vitória frente ao Sporting em 2013. Foram muito golos, muita alegria. É de alegria e emoção que vive o futebol.

Então e momentos icónicos? Na ainda curta história do Estádio da Luz, o que não falta são momentos marcantes. Uns de memória mais feliz do que outros, mas todos fundamentais na construção da história do Estádio da Luz, do Benfica e de Portugal. Da tristeza da partida do “rei” Eusébio à festa no jogo da sua homenagem. A derrota por 3-0 frente ao Sporting, mas com todo o estádio a declamar o seu amor incondicional pelo Benfica.

A final da Liga dos Campeões, marcada pelo golo, já nos descontos, de Sérgio Ramos. A final do Euro2004, de terrível memória para os portugueses. As noites europeias. As celebrações de todos os campeonatos e do inédito tetra. A primeira vitória do futebol feminino na Luz. As despedidas de Rui Costa e Jonas. O jogo contra a pobreza. Tantos e tantos momentos, aos quais se juntam as experiências e histórias pessoais que todos os benfiquistas têm do Estádio da Luz.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Ao longo destes 16 anos, naquelas bancadas pintadas de vermelho e branco, foram derramadas muitas lágrimas, foram vistos muitos sorrisos de orelha a orelha, foram gritados os nomes de centenas de atletas.

Milhões de benfiquistas foram levados à felicidade ou caíram numa profunda tristeza naquelas cadeiras, que tantas histórias teriam para contar. Avós celebraram golos abraçados aos seus netos, amigos suspiraram de alívio com uma bola que passou a centímetros da sua baliza.

Tantos foram os desconhecidos que deixaram de o ser, fruto da única coisa que sabiam ter em comum: a paixão pelo Benfica. Milhares e milhares de pessoas saltam, todas as semanas, em uníssono das suas cadeiras, gritando euforicamente porque, lá em baixo no relvado, alguém conseguiu, simplesmente, colocar a bola dentro da baliza. Tão simples e tão puro que é o futebol e a felicidade que ele proporciona. No fundo, o futebol resume-se a isto: paixão. E paixão é certamente o que não falta, nem nunca faltará, naquele estádio.

O novo Estádio da Luz pode ainda não ter a mesma história que o seu “pai” (antigo Estádio da Luz) mas se há alguma coisa que corre nesta “família” é o sangue vermelho e a raça do Benfica.

 

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por: Manuela Baptista Coelho

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