A vitória frente ao Boavista FC teve na exibição de Diogo Gonçalves a sua mais brilhante contribuição, num rendimento individual que se vem acentuando como uma das poucas boas novidades de uma temporada fracassada a toda a linha, e da qual há inúmeros aspetos a corrigir para 2021-22.

Por hoje, falar de Diogo é falar da melhor projeção de um lateral direito encarnado de categoria internacional depois de Nélson Semedo, intervenientes com características físicas semelhantes e que muito podem oferecer às suas equipas no capítulo ofensivo. No sábado, Seferovic bisou graças a duas contribuições do português de 24 anos, acumulando já quatro no total da sua época, três na Primeira Liga – Everton, Darwin ou Grimaldo, os que mais assistem nesta competição, levam seis quando já ultrapassaram os 1400 minutos de utilização, contrastando com os 525′ de Diogo.

Manteve-se a tendência no início desta temporada, apostando Jorge Jesus na mesma receita que Rui Jorge descobriu em 2018, na seleção nacional de sub-23. Fruto das múltiplas soluções de qualidade para a frente de ataque, houve necessidade de acomodar o extremo alentejano no onze, olhando-se para para a ala direita como zona ideal para aproveitar a sua verticalidade.

Na seleção, mais evidente no 4-4-2 losango, agora no SL Benfica a empurrar Rafa para zonas interiores onde pode ser verdadeiramente decisivo. Tanto num como noutro contexto teve exatamente o impacto esperado, ainda que na Luz tenha demorado a assumir-se dada a consistência defensiva do mais experiente Gilberto, que é mais seguro nas tarefas defensivas mas sem a mesma repercussão no último terço.

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E mais estatísticas o comprovam: cruzamentos por 90 minutos (sete de Diogo contra três do brasileiro); percentagem de passes completos (88% contra 84%), onde se incluem os passes nos últimos trinta metros (25 por 90 minutos contra 20) e a criação de grandes oportunidades, onde o português leva cinco, mais uma do que o companheiro de posição que conta com mais cinco jogos disputados.

Diogo Gonçalves
Diogo Gonçalves parece ter ganho lugar no onze encarnado
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Se olharmos aos laterais de referência da última década encarnada, o primeiro que nos surge com verdadeira preponderância numa das laterais dos encarnados é Maxi Pereira, farol quanto à qualidade na posição e meta quanto às estatísticas superlativas no contexto nacional.

Se tivermos em atenção apenas números, permitindo-o resvalar para a tremenda insensibilidade que é concentrar na estatística o rendimento de um jogador ou da própria equipa, desconsiderando até o legado que o uruguaio construiu na Luz, e usufruindo da relativa importância dos mesmos, surgem-nos dados merecedores de atenção:

2009-10:  37 jogos, 4 golos e 8 assistências em 2932 minutos

2010-11: 46 jogos, 1 golo e 6 assistências em 3934 minutos

2011-12: 43 jogos, 3 golos e 4 assistências em 3654 minutos

2012-13: 43 jogos, 3 golos e 6 assistências em 3439 minutos

2013-14: 42 jogos, 5 assistências em 3439 minutos

2014-15: 5 golos e 11 assistências em 3758 minutos, o melhor registo do uruguaio, e que encontra rival no Nélson Semedo de 2016-17 (os mesmos 2/12 em 4217’), ou no André Almeida (idem, em 4727’) e Grimaldo de 2018-19 (7 golos e 13 assistências em 4829’), ainda que seja notória a cronometragem muito mais alargada destes três.

Comparando o atual aproveitamento de Diogo Gonçalves, há motivos para ser otimista quanto ao seu futuro de águia ao peito, num trajeto que se iniciou em 2010 e o levou a triunfar em todos os escalões formativos, com as seleções jovens em paralelo – 71 internacionalizações dispersas por todos as etapas disponíveis: sub-15, 16, 17, 18, 19, 20 e 21.

É nesta última que começa precisamente a aventura da sua adaptação a outros terrenos, com Rui Jorge a ser o responsável pela visão de o recuar uns metros para alavancar a sua importância no conjunto. Numa altura em que Diogo passava por momentos de menor fulgor no Nottingham Forest FC, primeiro empréstimo depois da estreia pela equipa A do SL Benfica, em 2017-18, e quando partilhava balneário com talentos de realce como André Horta, João Carvalho, Diogo Jota, Félix, Gedson, Rafael Leão ou Bruno Xadas, o selecionador encontrou um espaço inédito para ele – mas completamente de acordo com as suas características.

Esse processo de adaptação teve, então, interregno declarado fruto do desenvolvimento exponencial que João Pedro Sousa e o FC Famalicão lhe proporcionaram na sua posição de origem. Naquela que foi a época de afirmação em contexto de Primeira Liga, Diogo explodiu na consistência do seu jogo como um dos últimos homens – a única oportunidade para relembrar conceitos mais defensivos foi na quarta eliminatória da Taça de Portugal, numa vitória (1-0) frente à Académica.

Todos os outros 33 jogos fê-los, na grande maioria dos minutos, na extrema direita do 4-2-3-1 que fez furor com o futebol de estética memorável e resultados práticos de registo. A intromissão nos lugares cimeiros e as meias-finais da Taça são atestado da grande época famalicense e Diogo foi figura fundamental. Regressaria com todo o mérito à Luz.

Porém, com Everton, Pedrinho, Rafa ou Pizzi como concorrência direta, seria uma questão de tempo até recuar novamente no campo, aliando-se a apetência natural à reconhecida tendência de Jorge Jesus em transformar extremos em laterais de grande nível – exemplo mais latente será Fábio Coentrão, outras assinaláveis fixam-se em André Almeida ou Melgarejo, ainda que com sucesso relativo.

A pergunta que por agora se impõe será quanto ao nível de Diogo na próxima temporada, já mais rotinado com as ideias do técnico (se este cumprir contrato…) e das exigências específicas da posição e como a equipa se vai adaptar à sua desenvoltura no preenchimento da faixa. Por agora, agradece Seferovic e quem jogar nas suas proximidades, pois a certeza de serem bem servidos não é assunto de debate.

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