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«Koeman chamou-me e disse “És dos únicos que tem qualidade para estar aqui”» – Entrevista BnR com João Coimbra

João Pedro Gonçalves · 34 min

«Koeman chamou-me e disse “És dos únicos que tem qualidade para estar aqui”» – Entrevista BnR com João Coimbra
Foto: SL Benfica

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Chama-se Coimbra, nasceu em Viseu, cresceu na Amora e entusiasmou no Benfica. A viagem da carreira de João Coimbra permitiu-lhe, acima de tudo, cumprir sonhos, conhecer ídolos, juntar grandes amizades, e ter muitas histórias … das boas. Nem sempre a carreira lhe sorriu e, por incrível que pareça, foi com um sorriso de amarelo que viveu dos melhores momentos na carreira. Na formação viveu um jogo que ninguém quis ganhar e, no jogo da vida, perdeu alguém muito especial.

Enquanto jovem e com as quinas ao peito não esquece o troféu que levantou na sua cidade, mas pouco se lembra da vez que, no hospital em Espanha, o médico lhe repetiu a mesma frase vezes sem conta, depois de Diaby lhe ter batido à cabeça. Para trás ficam os risos do Mantorras, balneários inesquecíveis, boas relações e histórias com os treinadores, o choque da Índia e um Benfica que nem sempre deu o apoio que era preciso. Nesta viagem pela carreira, o jogador de 34 anos reconhece alguma autocrítica e conta como foi surpreendido numa ourivesaria na Suíça pelo Geovanni.

A viver no Luxemburgo, com Portugal no horizonte, o médio antecipa o que quer para o resto da carreira. A boa disposição de João Coimbra fez com que, em jeito de remate, coisa que o jogador do US Mondorf-les-Bains nunca teve muito, assim admite, tivesse de poupar os leitores ao retirar muitos do “(risos)” ao longo de toda a entrevista.

 

«Isso marcou-nos muito, marcou muito a minha carreira. Foi sem dúvida uma das coisas mais tristes que me aconteceu na carreira»

Bola na RedeComeçando mesmo pelas raízes da tua carreira no futebol, como chegas à formação do SL Benfica?

João Coimbra: Nasci em Viseu, em Santa Comba Dão, mas sempre vivi na Margem Sul, na zona de Lisboa. Vivi desde cedo na Cruz de Pau, em Amora e, no prédio onde morava, a zona era situada numa rua fechada, praticamente todos os dias jogávamos à bola. Fazíamos balizas de madeira, com pregos e com redes. O gosto do futebol surgiu daí e também do meu pai que sempre foi um benfiquista ferrenho que me levava aos jogos do Benfica. Sempre tive um gosto pelo futebol. Lembro-me que com sete/oito anos a única prenda que pedia aos meus pais era que me deixassem jogar futebol, na altura no Amora que era mais perto de casa. Aos nove anos, penso eu, lá consegui convencer a minha mãe e fui fazer testes ao Amora e, logo no primeiro treino, o treinador que era o mister Rocha, pediu-me logo o bilhete identidade, na altura nem tinha ainda. Fiquei logo, entrei mais ou menos a meio da época. Foi uma época onde o resto da temporada correu muito bem ao Amora. Eramos escolinhas e fomos até ganhar a Setúbal, que era a principal equipa da Margem Sul. Tínhamos mesmo uma boa equipa e, na altura, o Benfica tinha um protocolo com o Amora e fomos treinar cinco no fim da época ao Benfica. Ficamos três, o que mostra também a boa equipa que tínhamos. Desde então consegui ficar no Benfica onde fiz o resto da minha formação.

Bola na RedeDurante a formação apanhas alguns jogadores que até conseguiram carreiras interessante, o Sílvio e o Manuel Fernandes por exemplo. Numa fase que se fala tanto de formação e Seixal, até que ponto se perderam bons talentos e bons jogadores na altura da tua formação?

João Coimbra: Claramente. Digo isto muitas vezes, independentemente da carreira que fiz, consegui chegar a profissional do Benfica, mas acredito que hoje muitos mais podiam chegar. As condições hoje são totalmente diferentes, ainda por cima, a minha geração apanhou a mudança de estádio, a destruição do antigo para construção do estádio novo. Andávamos a treinar em campos pelados nas redondezas de Lisboa. Andávamos com os cestos às costas como costumávamos dizer, e os jogos não eram como agora. Agora desde os sub-10 já são televisionados. Agora há muitos jogadores que saem por milhões antes de chegarem à equipa principal, exemplos de Bernardo e Cancelo. Acredito que na minha altura, que se tivéssemos as mesmas condições, mais poderiam ter chegado lá cima (equipa principal) porque tínhamos muita qualidade.

Bola na RedeÉs campeão de juniores pelo Benfica, como foi ganhar esse título?

João Coimbra: O campeonato de juniores foi um dos títulos mais significativos para mim em termos pessoais. Nesse ano perdemos o Bruno Baião, o nosso colega de equipa que faleceu depois um treino, devido a problemas no coração. Foi sem dúvida nenhuma um título que nos marcou muito, num ano que foi muito triste para todos nós. Isso marcou-nos muito, marcou muito a minha carreira, nunca me tinha acontecido algo do género. Foi sem dúvida uma das coisas mais tristes que me aconteceu na carreira. Felizmente conseguimos também ganhar o título para dedicar a ele e à família, mas foram momentos muito dolorosos.

Bola na RedePela seleção portuguesa és campeão europeu sub-17. Que recordações guardas desse torneio?

João Coimbra: Acima de tudo foi um título ganho na nossa terra, em Portugal. Nós com 17 anos termos ganho, ainda por cima em Viseu, onde nasci, e ter aquele estádio do Fontelo cheio, lembro-me muito bem de darmos a volta ao campo a festejar com as pessoas todas, lembro-me de quando vamos receber a taça e começarmos a todos a cantar o hino para todos os portugueses. Foi um marco importantíssimo e uma satisfação enorme de poder ganhar um título tão importante com as nossas cores.

Bola na RedeMeses depois do Europeu e de ganharem a final à Espanha, perdem com os “nuestros hermanos” nos “quartos” do mundial sub-17. Foi difícil de digerir a derrota. Além disso, estavas a marcar o Cesc Fàbregas nesse jogo, e ele fez um bis, levaste muito na cabeça no balneário?

João Coimbra: Não, não, se bem me lembro, no dia a seguir, fui até num dos jornais considerado o melhor em campo do lado dos portugueses. Mas acima de tudo foi um mundial onde acredito que não fomos completamente preparados fisicamente. Vínhamos de férias, já depois de termos ganho o Europeu e talvez não tivéssemos nas nossas melhores capacidades físicas e demonstra bem a sequência de jogos que tivemos. Salvo erro, tivemos três jogos seguidos a sofrer cinco golos. O primeiro até estávamos a ganhar 5-0 aos Camarões, a 20 minutos do fim empatamos 5-5. A nossa sorte é que o empate dava e passamos, mas, entretanto, perdemos com a Espanha, 5-2, e até tivemos a vencer por 1-0. Uma exibição muito boa do Fàbregas que acabou por ser o melhor marcador desse Mundial…

Bola na RedeMelhor marcador juntamente com o Manuel Curto…

João Coimbra: Sim, sim, tinha os mesmos golos, mas menos jogos, exatamente.

Bola na RedeEm um dos teus embates pelas camadas jovens de Portugal tens um encontro insólito com a Itália, queres contar melhor esse jogo?

João Coimbra: Isso foi em sub-19, isso é surreal, surreal mesmo. Para um apuramento para o Campeonato da Europa de sub-19, eramos nós, a Itália, e o Cazaquistão, ou qualquer coisa e outra equipa no grupo. Entretanto nós ganhamos os nossos dois jogos e a Itália igual. Só que nós tínhamos uma melhor diferença de golos, e quem passasse em primeiro lugar tinha uma desvantagem que era fazer grupo de apuramento com França, Espanha e Israel. E então o melhor era passar em segundo lugar, mas nós, eu sou sincero, fomos para o jogo tranquilo a pensar em ganhar. Com o desenrolar da primeira parte eu estava a achar muito estranho os jogadores italianos a trocarem muito a bola, a não arriscar e tal, até que no início da segunda parte o nosso mister nos manda subir todos num pontapé de baliza da Itália. Nessa situação estávamos os jogadores todos em volta da área da Itália. O guarda-redes vai para bater o pontapé de baliza e começa a olhar para os colegas e para o treinador sem saber o que fazer e, chuta a bola para fora. Entretanto começamos a fazer pressão ao contrário, metemo-nos ao contrário, a tentar que eles fossem para a nossa baliza. Os avançados deles ficaram sem saber o que fazer, ficavam a olhar uns para os outros, a passar para trás ou a mandar a bola para fora. O estádio estava cheio e começou toda a gente assobiar, foi uma coisa surreal, nunca tinha experienciado e nunca mais voltei a experienciar. A verdade é que nós acabamos por empatar o jogo 0-0 e passamos em primeiro. Não passamos a outra fase com a França e com a Espanha, onde tive um dos momentos mais marcantes a nível negativo na carreira.

Bola na RedeO que aconteceu?

João Coimbra: No jogo com a França levei uma pancada, salvo erro, do Diaby, onde levei com o joelho na nuca e tive um traumatismo crânio-encefálico, até com uma paragem cardíaca momentânea, onde tiveram de me entubar e tudo, pelo menos é o que me dizem, porque não me recordo muito bem. Eu não me lembro muito bem, só me lembro de acordar no hospital, aquilo foi em Espanha, mas estávamos a jogar com a França. No hospital lembro-me do médico me dizer “João, estamos em Espanha, estás na seleção, aconteceu isto e isto no jogo e já é a décima vez que te estou a dizer isto”. Eu acordava, ele dizia e eu voltava a dormir, e não me lembrava. Tanto que quando cheguei ao Hotel já não reconhecia o Hotel. Estava no quarto com o Ivanildo, um dos melhores que conheci na bola, espetáculo, quase não me falava. Comecei a achar estranho, e isto também tinha sido no ano em que acho que tinha acontecido a morte do Fehér e a seguir também à situação do Bruno Baião. Só uns anos depois é que o Ivanildo me disse que depois de me ter visto naquela situação no campo, e no dia seguir estava tranquilo a falar com ele, lhe fez muita confusão. A verdade é que nessa fase de grupos acabamos por perder os três jogos.

Bola na RedeComo foi a recuperação dessa situação, tiveste algum “problema” nos dias a seguir?

João Coimbra: Não, não, no dia a seguir estava pronto para jogar se quisessem, só que os responsáveis na altura não quiseram, e quando vim para Portugal ainda me fizeram mais exames a ver se estava tudo bem. Duas semanas depois já estava a jogar.

«Sem dúvida nenhuma foi um orgulho enorme ter cumprido o meu sonho»

Bola na RedeEm 2004/2005 fazes a tua primeira pré-época no Benfica, com o Trapattoni, como foi a experiência?

João Coimbra: Eu sou muito mau com as datas, mas sim, fiz a pré-época com o Trapattoni. Eu tive alguma sorte porque eles na altura, eu ainda era júnior de segundo ano, só que muitos jogadores do Benfica estavam no Europeu. Então permitiu que muito jovens pudessem fazer pré-época. Senti que era daquelas pré-épocas que estava lá para fazer número. Claro que era sempre gratificante estar lá e era um orgulho enorme estar lá com aqueles jogadores todos e com o mister Trapattoni. Mas era daqueles jogos-treinos em que entrava para central nos últimos dois minutos. Aliás, até foi nesse ano que houve uma invasão de campo, na Suíça, com os adeptos. Foi uma confusão, mas sim, foi muito para fazer número, posso dizer que fui treinado pelo Trapattoni.

Bola na RedeFalaste na Suíça, tens uma história engraçada com um relógio e alguém da equipa certo? O que tens para nos contar?

João Coimbra: Nessa pré-época o Benfica tinha grandes craques, e o Geovanni, que era “o soneca”, uma pessoa espetacular, ainda hoje falo com ele, o que mostra também a pessoa que ele é. Essa história foi num dia de folga que pudemos sair e ele disse para ir com ele. Entretanto, passamos por uma ourivesaria e ele queria comprar um anel para a esposa. Estávamos lá dentro e ele obrigou-me a comprar um relógio, melhor, a escolher um relógio para ele me dar. O relógio ainda foi caro, obrigou-me mesmo a comprar e disse-me na altura: “eu (Geovanni) quando era miúdo um craque também me ofereceu um relógio, e esse gesto marcou-me e eu quero fazer o mesmo”, e fez. Eu ainda tenho o relógio e, sem dúvida nenhuma, foi um momento que me marcou e mostra a grande pessoa que ele é.

Bola na RedeA tua viagem no Benfica começa nessa pré-época. No dia 30 de abril em 2006 entras para o lugar do Miccoli, no jogo da tua estreia. Talvez não te pergunto a sensação que deves ter tido, muita ansiedade, imagino, mas pergunto, agora que não há adeptos nos estádios, até que ponto teres entrado para esse jogo com muito público te deu pressão extra?

João Coimbra: Completamente, não tem nada a ver. Aquele estádio cheio é um acréscimo de pressão, responsabilidade, de muita coisa, e para um jogador futebol, a parte mental é muito importante, para aí 70%, 30% para o resto, e é aí nesses jogos que se vê bem. Apesar de tudo estava a cumprir um sonho, de criança, tenho sorte de não ter tocado na bola, porque a ansiedade era muita, o formigueiro pelo corpo era muito, e o estádio estava praticamente cheio. Sem dúvida nenhuma foi um orgulho enorme ter cumprido o meu sonho. Quanto à pergunta, claro que faz toda a diferença, tanto para o bem tanto para o mal.

Bola na RedeDepois vem o Fernando Santos, fazes 17 jogos com, nesse momento começas a pensar que podes ir mais além no Benfica, o melhor estava para vir. Ou sempre tiveste os pés assentes no chão?

João Coimbra: É assim, quando fiz o primeiro jogo com o Koeman foi quase no fim da época. Vinha com muita confiança, o Koeman tinha-me chamado até à parte, tinha-me dito mesmo “olha, para mim és um dos únicos que acho que tem qualidade para estar aqui, disfruta e acho que podes mesmo chegar a alto nível”, e nesse fim de época senti-me mesmo bem, em termos mentais estava mesmo com toda a confiança. Tanto que até era que no último jogo ia fazer a titular em Paços de Ferreira, só que a equipa B estava quase a descer de divisão e fui jogar por eles. Acima de tudo sentia-me muito bem e o facto de ele ter saído não me ajudou muito, apesar de ter feito muitos jogos com o Fernando Santos. A verdade é que eu mentalmente nunca fui muito forte, devia ter sido melhor e senti um bocado a passagem de testemunho de treinador. O mister Fernando Santos é mais rigoroso, que dá mais duras, e a minha pré-época foi muito má, não me correu nada bem. Aliás, o mister não me conhecia, e não me conhecer deitou-me um pouco abaixo. Tanto que é que nós voltamos da Suíça, eu estou para ser emprestado ao Estrela da Amadora, e aí soltei-me, quando soube que ia emprestado, soltei-me. Passado uma ou duas semanas, na altura foi também a inauguração do Seixal, começamos lá a treinar, e o mister Fernando Santos chama-me e diz-me “o que se passa? Eu sou-te sincero, eu queria-te emprestar, mas estas duas semanas que fizeste aqui pareces um jogador totalmente diferente”. Acabei por não ser emprestado e ficar, felizmente acabei por ter alguns jogos, mas a verdade é que depois houve um jogo em Paris, a maior parte é daí que se lembra de mim, é o jogo que mais se fala, e senti claramente que poderia continuar ali. Mas a verdade é que no fim de época surgiu uma proposta para ir para o Nacional, onde eu pensei que poderia afirmar na Primeira Liga, e fazer muito mais jogos, mas a verdade é que não aconteceu e comecei a cair a partir dessa altura.

Bola na RedeComo era partilhar o balneário com pessoas como Petit, Miccoli, Mantorras… como era o ambiente?

João Coimbra: Isto também já foi há uns 14 anos, não é que me lembre muito ao pormenor, mas acima de tudo, um ponto a favor é que eu falo com grande parte de todos ainda, isso mostra os craques que eram dentro do campo e fora. Estamos a falar de jogadores como Simão, Nuno Gomes, Katsouranis, Miccoli, Luisão, Rui Costa… estamos a falar de David Luiz, Léo, Nelson… de jogadores incríveis, e destes todos que eu disse só um ou outro é que não falei no último ano. Os outros todos falei nos últimos tempos, o que mostra as pessoas que eles eram, e o quanto os admirava, tanto como jogadores como pessoas, tenho o prazer de ter ficado amigo de muitos deles. Mas era um balneário tranquilo.

Bola na RedeCom o Fernando Santos tens duas passagens engraçadas, uma em que ficas a aquecer durante muito tempo, que estás para entrar e não entras, e outra que era o jeito de rematar. Entretanto mudaste a forma de rematar ou continua igual?

João Coimbra: Agora já não remato, deixei de rematar. O remate nunca foi o meu ponto forte, eu como tenho os pés para dentro, sempre rematei um pouco trivela. E levei uma dura por chutar sempre assim. Na altura eu tive a coragem de responder, disse para o mister me mandar para o “trabalho”. E olhando assim de lado dava para ver na altura o Mantorras a rir-se às gargalhadas, da dura que tinha levado. Tanto aí como da outra vez. Nessa altura, depois do jogo em Paris, fui para o banco com o Leiria, estávamos a ganhar 1-0, a 15 minutos do fim ele chama-me para entrar. Eu dispo-me todo e ele diz “espera aí mais um bocado”. Eu começo a alongar ao lado dele, entretanto, dez minutos nada, cinco minutos fazemos o 2-0 e eu acelero, começo a acelerar ao pé dele a ver se chamo à atenção e ele diz-me outra vez “espera aí mais um bocado”. Lembro-me que estava junto ao banco a alongar e olhei assim de lado. Estava o Mantorras com o colete na cabeça, a espreitar pelo colete e a rir-se que nem um perdido. Eu sou sincero, eu próprio também me ria um pouco da situação, porque apesar de tudo também era um miúdo. Mas lá está, se a minha mentalidade fosse melhor talvez tinha ficado chateado, mas levei as coisas um bocado “sou um miúdo, já tenho sorte de estar aqui”. E aos 90 minutos voltei a acelerar e nada. Aos 92/93 ele chama-me, ainda me dá indicações, quando entrei o árbitro apitou para o fim do jogo. Mas aí fiquei com um bocado de azia, virei costas e entrei logo no balneário. Mas olha, mete gelo que isso passa.

Bola na RedeComo benfiquista de coração e de formação como vês o atual momento da equipa. Achas que o facto de não ter adeptos da bancada, e falavas da pressão e da responsabilidade, ajuda o facto de a equipa não jogar o que podia?

João Coimbra: Sou sincero, conheço bem os adeptos do Benfica, e aquele estádio quando as coisas correm bem é espetáculo, maravilhoso, e dá uma força tremenda à equipa, mas neste momento, que se o estádio estivesse cheio, as coisas não seriam muito a favor dos jogadores, porque é um estádio muito exigente. Neste momento até acredito que ajude não ter adeptos. Mas no início da época, nas primeiras três/quatro jornadas a equipa estava bem, e acredito que tivesse ajudado e muito a galvanizar, a formar aquela onda vermelha que forma por todo país quando as coisas correm bem. Portanto, acredito ter ajudado muito, no início, hoje já não sei se não seria até prejudicial, a verdade é que o Benfica não está bem, não está a produzir o que podia e devia, até, mas, infelizmente, e acredito que com adeptos então, os jogadores não iam ter vida fácil.

«A verdade é que não tive muito apoio do Benfica»

Bola na RedeDepois do Benfica, vem o Nacional, e como tu afirmaste há um bocado, viste como uma oportunidade, a verdade é que só fazes dez jogos. O que correu mal?

João Coimbra: Eu não gosto de atribuir culpas a outros, a verdade é que, como disse há pouco, nunca fui forte mentalmente, especialmente nessas idades, só a partir dos 27/28 comecei a ser mais forte, curiosamente numa fase que não voltei a ter as mesmas oportunidades. Atribuo muita da culpa a mim, talvez por em determinados jogos me ter escondido quando me devia ter assumido mais. A verdade é que não acredito que tenha tido a sorte no treinador que apanhei, apesar de não gostar de falar muito disso, porque apesar de tudo ainda me deu algumas oportunidades. Algumas aproveitei, outras não. A verdade é que não tive muito apoio do Benfica. Era uma fase diferente da que está agora. Eu quis sair do Benfica, na altura porque achava que podia jogar, que podia ter mais e melhores oportunidades, a verdade é que me senti um bocado abandonado no clube. Eu tive durante um ano na Madeira e não recebi uma única mensagem/chamada da parte do Benfica. Acabou a época e recebi uma mensagem, do senhor Shéu, e a mensagem escrita dizia para me apresentar um mês depois da equipa. Ou seja, fui emprestado, mas senti-me completamente abandonado. Tanto que em janeiro tinha tido problemas com o treinador, que era o Jokanovic, e tinha na minha mente ser emprestado a outro clube, mas da parte do Benfica nem uma palavra sequer a perguntar como estava e como não estava. Mas lá está, são outros tempos. Acredito que as coisas agora não sejam iguais para quem está emprestado, e dou muitas vezes o exemplo do ano a seguir em que estive no Gil Vicente. Na altura o Benfica fez um acordo com o Marítimo. O Benfica tinha algo em falta com o Marítimo, por causa do Manduca, acho eu, e fui eu, o Paulo Jorge e o Manú para o Marítimo, mas na altura, entrou também um treinador brasileiro que não conhecia de lado nenhum. Estive duas semanas parado na pré-época por causa de uma lesão e, passado uma semana, fui emprestado ao Gil Vicente. O Gil Vicente tinha dois ou três jogadores emprestados pelo Porto, o Zequinha, o Ivanildo… e era totalmente diferente o apoio que o Porto dava. O Porto tinha, se fosse preciso, pessoas a entrar no nosso balneário a perguntar como os jogadores estavam. Aí notei muito bem a diferença entre uma estrutura e outra, nessa altura claro. Espero eu que esteja agora muito diferente.

Bola na RedeDizes que se tivesses aparecido dez anos mais à frente, tinhas tido outra sorte…

João Coimbra: Acredito que sim, para já, os jogadores de hoje em dia estão sujeitos a uma pressão para mim menor, apesar de ser maior em termos de redes sociais, de haver mais conflitos… mas digo menor que estão sujeitos a isso desde os dez anos. São acima de tudo vistos por todo mundo desde os 11/12 anos. Eu quando cheguei a uma equipa de futebol profissional do Benfica, a maior parte do país não me viu jogar, enquanto que um João Félix chega a uma equipa principal do Benfica e todo o país viu jogar, quase o mundo até, pela Youth League, pela BenficaTV, por tudo. Tudo o que eles têm a mostrar, aliás, não têm nada a mostrar, tem de mostrar o que mostraram antes. Na minha altura tinha de mostrar algo para que todas as pessoas vissem. Naquela altura não havia ninguém que me conhecesse. Era uma pressão diferente, e fico contente por hoje ser diferente. Mas acima de tudo, volto a referir que, cheguei onde sonhei chegar, não me consegui manter e aí atribuo a culpa, 80% a mim próprio, muito do que falamos, mas fico um amargo mais por sentir que muitos amigos podiam ter chegado. Até dou um exemplo, na minha altura muitos chegaram do Sporting, e estou a falar de Miguel Veloso, João Moutinho, Nani, Djaló… mas também temos que ver porquê. Porque quem entrou nesse ano para treinador do Sporting, foi Paulo Bento, alguém que tinha sido treinador deles nos juniores. Lá está como não havia tanta visibilidade como agora, quem entrasse nos clubes não tinha bem noção da formação dos jogadores que poderia ter, e não havia esse tempo para ver como seriam. Dou o exemplo do Sporting onde o Paulo Bento já os conhecia muito bem, tinha sido campeão de juniores com todos eles.

Bola na RedeTalvez como aconteceu com o Benfica com o Lage, que apostou em alguns jogadores da formação…

João Coimbra: É totalmente diferente aí também um João Félix subir a uma equipa principal do Benfica e ter lá Rúben Dias e companhia, tanto jogadores de formação, do que chegar lá cima sozinho e ter Simão, Rui Costa, Nuno Gomes, e companhias que nunca ouviram falar nele, e quase que tinha de tratar por senhor não é. Mas lá está, felizmente que é diferente hoje em dia, as coisas estão melhores, porque jogadores portugueses e jogadores do Benfica terem mais qualidade na formação e assim abre mais possibilidades de jogadores chegarem à equipa principal.

Bola na RedeDepois da Primeira Liga, vais para a segunda divisão, ao ires para o Gil Vicente, foi difícil aceitar o facto de desceres ao segundo escalão?

João Coimbra: Não, sinceramente, eu queria jogar, era jovem, e eu queria era jogar. As coisas não correram muito bem, queria tentar dar um passo atrás para voltar a dar dois em frente mais tarde. É curioso, lembro-me que na altura estava no Nacional, fui para o Marítimo e surgiu o Gil Vicente, e recordo ainda as palavras de uma conversa que tive com o Patacas, que tinha sido o meu capitão no Nacional, e falei-lhe da situação. Recordo até hoje as palavras dele, disse “João, se fores para a segunda liga, nunca mais sais de lá”. E a verdade é que só voltei a sair da segunda liga, porque estive numa equipa que subiu de divisão, o Estoril. Felizmente entrei depois para o Estoril, a verdade é que as palavras dele fazem até hoje sentido. Também não tive muita sorte no Gil Vicente, no primeiro jogo que fiz tive uma entorse no pé, tive um mês e meio parado e, quando voltei, levei uma porrada no pé, tive mais um mês e meio parado, o que só me permitiu fazer praticamente a segunda volta. Tive algum azar nesse sentido.

«Posso dizer que sou benfiquista desde pequeno, mas sou do Estoril desde o dia em que assinei contrato com eles»

Bola na RedeO Estoril foi uma relação que perdurou e foi bonita. Na primeira época apanhas o Professor Neca, o segundo treinador dessa época, não és dos jogadores absolutos do onze, mas por causa de um golo perdes um lugar do onze. Queres contar?

João Coimbra: Eu gosto muito do Professor Neca, ele tinha sido meu treinador no ano anterior no Gil Vicente e, como pessoa, espetáculo, gosto muito dele, mas tem uma visão muito própria do futebol, muito dele. Eu vou para o Estoril pelo Hélder (treinador do Estoril na altura em que chegou João Coimbra), tinha chegado a treinar com ele no Benfica e, por isso, como já me conhecia chamou-me. Na altura também entrei em conflito com o Marítimo e também só comecei a jogar na terceira/quarta jornada porque cheguei mais tarde. Pronto, entretanto, nessa série de jogos, no último jogo em que o Hélder está no banco sou titular, empatamos, e o Professor Neca vem para treinador. Na altura até fiquei contente, porque já me conhecia também, mas a verdade é que ele chega e eu pensei que ia continuar a ser titular. Ele chega, e no primeiro dia ele veio falar comigo a dizer que gostava muito de mim, a acariciar-me um bocado o pelo, a dizer que ia ser um jogador muito importante, mas naquele jogo não ia jogar, mas para estar bem e confiar nele. Essas conversas. A verdade é que nos primeiros jogos as coisas correram-nos bem, eu estava no banco e ia entrando. Até que temos um jogo para a Taça da Liga com o Olhanense. E na altura a Taça da Liga tinha como critério de desempate em caso de igualdade de pontos, era pela idade. Na altura quem jogava na minha posição era o Varela, um médio que tinha 30 anos. No dia antes do jogo o Professor Neca liga-me, lembro-me como se fosse hoje, e diz-me “então João? Estás preparado? Estou a pensar meter-te amanhã”. E eu a pensar “este gajo deve pensar que eu sou burro”, eu percebi bem que era pela idade. Mas respondi “claro que sim, estou preparado”. O jogo correu-me muito bem, ganhamos 2-0, fiz um grande jogo e, no último lance eu isolo-me, tento passar pelo guarda-redes, mas ele faz a mancha e consegue tirar. O jogo correu-me muito bem e pensei que poderia manter a minha titularidade. No dia a seguir estava no ginásio, o Professor Neca chama-me e diz-me “João, que grande jogo fizeste ontem!” e eu “obrigado mister”, e ele diz-me “fogo, se tivesses marcado aquele golo, já me lixavas a cabeça para ver quem jogava no próximo jogo”. Mas lá está, ele tinha aquela maneira de falar, que eu ficava desarmado. Eu até me ria, “pronto está bem mister”. A verdade é que no jogo a seguir em Barcelos, entrei na segunda parte, estava 0-0, e ganhamos 2-0 depois de ter entrado, se não me engano, e aí sim, passado dois ou três jogos ganhei a titularidade. Mas nas palestras, se eu entrasse e ganhássemos o jogo, ele dizia que eu era a arma secreta dele, e chegava ao domingo encostava-me sempre. Mas acabei a jogar, fiz mais da segunda volta toda a jogar, mas a 10, não a médio defensivo, mas lá está, ele gostava dos 10 mais defensivos também.

Bola na RedeNo Estoril sobes de divisão com o Marco Silva, como foi subir de divisão, qual foi a sensação?

João Coimbra: Foi fantástico, um dos altos da minha carreira e, acima de tudo, como falamos no início, sinto que criei uma grande relação com o Estoril, com a estrutura e com os adeptos. Posso dizer que sou benfiquista desde pequeno, mas sou do Estoril desde o dia em que assinei contrato com eles. Sinto que foi no Estoril que fiz os melhores anos como profissional e foram sem dúvida cinco anos maravilhosos, em que acabamos por ter três épocas seguidas, uma com a subida de divisão e as duas seguintes com passagens para a Liga Europa. A subida foi para mim o feito mais importante. Foi onde me senti mais importante no grupo, como capitão também, como titular praticamente absoluto, foi um momento muito marcante. Uma grande festa para todos nós, para todos os adeptos do Estoril. Foi muito bom!

Bola na RedeNa época a seguir à subida de divisão lesionaste no joelho. Como é que lidaste com a lesão numa altura que estavas bem na carreira?

João Coimbra: Tínhamos subido, na época a seguir não era titular absoluto na Primeira Liga, mas era capitão de equipa e fizemos uma época fantástica. Lembro-me bem, em Barcelos, no último jogo, e onde garantimos a presença na Liga Europa, eu ainda entrei nos minutos finais e senti uma dorzinha no joelho. Lembro-me de falar com o Marco na altura, até sobre o meu futuro. Lembro-me bem de sentir que a época seguinte podia ser a minha época de afirmação. Acabei por entrar mais tarde na pré-época porque fui operado ao joelho, por causa da lesão do menisco, mas é verdade é que me senti muito bem na pré-época e estava muito confiante. Até que, fizemos um jogo amigável com o Sporting B e faço um grande jogo, mas a verdade é que no dia a seguir o joelho inchou muito e eu tive três/quatro meses parado a tentar reforçar, mas não deu. Voltei a ser operado e lixou-me a época toda. O Marco ainda me deu a oportunidade de fazer dez minutinhos em Alvalade, o último jogo da época, em que ganhamos 1-0, mas foi sem dúvida uma época que pensava que fosse a minha época de afirmação, mas foi ao contrário. A partir daí foi praticamente sempre a descer.

Bola na RedeFalamos do Marco Silva que continua a ser um caso intrigante. Deixou o Everton algum tempo e continua sem treinar. Como era o Marco Silva como treinador, e achas que ele está à espera de um projeto em especial?

João Coimbra: Felizmente somos amigos, ainda no Natal estive em Portugal e estivemos juntos. O Marco é um espetáculo como pessoa. Ele foi capitão ainda quando estive no Estoril, e ele morava na Margem Sul como eu, e fazíamos as viagens para o Estoril todos os dias juntos. As coisas tremeram um bocado quando ele passou para treinador e não me metia a jogar (risos), mas felizmente ficamos bons amigos, não só dele, mas da família, gosto muito dele. Como treinador é muito bom, muito inteligente, dá ao jogador tudo o que precisa e tudo o que gosta para desempenhar a função que tem, percebe muito bem o jogo, percebe muito bem o que é preciso. Neste momento, sem dúvida, tenho a certeza que já teve muitas propostas, e sem dúvida que, tão inteligente como é, está à espera da proposta certa para voltar ao ativo. Para mim, ele já faz muito falta ao futebol e merece sem dúvida que as coisas lhe corram bem, porque é muito bom gajo e muito bom treinador.

«Custava muito mesmo sair e ver as pessoas na rua a pedir dinheiro, as crianças descalças sem roupa, a fazer necessidades nas ruas»

Bola na RedeDepois do Estoril, vem o Académico de Viseu, e depois o Rapid. Sentes que quando foste para a Roménia foi um passado errado, até pela desvalorização que possas ter tido enquanto jogador? Arrependeste-te?

João Coimbra: Não. Estava na Segunda Liga portuguesa, tinha feito mais de 20 jogos, estavam a correr bem as coisas, voltei a estar bem depois da lesão do joelho. A verdade é que o mister Alex Costa me deu muita confiança e me ajudou bastante e acabo por fazer mais de 20 jogos em Viseu, onde me senti muito bem. Surge a Roménia, um clube da Primeira Liga romena. Na altura eu estava na segunda liga, as palavras do Patacas estavam aqui a entoar, e surgiu a oportunidade de ir para uma Primeira Liga, mas a verdade é que em termos financeiros, também ajudava, pensava eu. Em seis meses ficaram lá três. Mas sim, não vi isso como um passo atrás, mas a verdade é que o ano acabou e a única coisa que tive foi na Índia. Um país que não queria na altura, mas era a única proposta na altura. Não queria ir porque lá está, veio-se a confirmar depois, quem vai para a Índia fica muito desvalorizado e saindo daí já ninguém me pegou. Não sei se por ser careca e acharam que eu já tinha 35 anos, mas a verdade é que ainda tinha 29/30. Mas gostei muito, adorei jogar na Índia. Espetáculo, estádios cheios, com mais de 60 mil pessoas, adeptos dos melhores que apanhei. Adorei, a verdade é que devia ter ido quando fosse mais velho, gostava até de ter voltado lá, mas as coisas também não correram bem em termos de equipa, ficamos em penúltimo, salvo erro. No ano a seguir mudaram quase tudo na equipa, mas adorei o campeonato, voltava lá, bastava eles quererem. Saí de lá em dezembro e na altura a minha mulher estava grávida da nossa segunda menina. Não apareceu nada e optei por ficar perto dela a ver se depois no verão aparecia alguma coisa. Depois não apareceu nada acima do Campeonato Nacional de Seniores. Fui para o Leiria, com um treinador que conhecia bem, o Kata, que me ajudou. Estava numa fase difícil, e queria mostrar que tinha qualidade e condições com 30 anos. A verdade é que faço a época praticamente toda a jogar, mas já ninguém me pegou. O meu objetivo era voltar pelo menos a uma segunda liga a Portugal, mas não consegui. Tive uma sondagem na altura do Olhanense, em dezembro/janeiro, mas também estava muito mal, e o Baltazar, o treinador que me queria também saiu. No fim da época só me apareceu o Trofense, onde fiz também 30 jogos.

Bola na RedeConhecemos a Índia como um país muito pobre, com grandes dificuldades. Como foi a experiência além futebol na Índia, tiveste um choque cultural muito grande?

João Coimbra: Foi um choque tremendo. Uma cultura muito diferente, mas um país muito pobre. Um extremismo entre ricos e pobres, mas os pobres mesmo cá em baixo. Tanto que nós tínhamos vivíamos em hotéis, a equipa toda vivia num hotel de cinco estrelas, mas quando tínhamos folgas nem apetecia sair. Tudo à volta eram favelas, pobreza. Custava muito mesmo sair e ver as pessoas na rua a pedir dinheiro, as crianças descalças sem roupa, a fazer necessidades nas ruas. Preferia bem ficar no hotel a experienciar aquele contraste com a realidade daqui.

Bola na RedeDepois do CNS vem o Luxemburgo, porquê o Luxemburgo?

João Coimbra: Eu conhecia um agente aqui do Luxemburgo, o senhor Alberto Machado, e ele curiosamente vive no Luxemburgo, mas nunca tinha trazido nenhum jogador para aqui. Eu há dois/três anos tinha-o chateado ” então não conhece aí ninguém? Na Primeira Liga aí há equipas que se calhar…”, e ele disse que nunca tinha experimentado e que ia ver. Isto dois/três anos antes do ano que vim para cá, para o Mondorf. Na altura estava até um treinador português, o Paulo Gomes. E pronto, esse Alberto Machado falou com ele, houve algum interesse, e conciliando ao facto de ter aqui família, o facto de não pagar casa ajuda bastante. As casas aqui também são caras e o facto de arranjarem um trabalho tranquilo para mim que ajuda bem também em termos financeiros. Compensava bem e, apesar de não ser campeonato profissional, sempre é uma Primeira Liga e optei por vim. É um campeonato que está a evoluir e tenho pena de não ser profissional porque acredito que as coisas evoluíam ainda mais.

«Acima de tudo, quero continuar ligado ao futebol»

Bola na RedeTencionas voltar a Portugal ou achas que a carreira continua por aí?

João Coimbra: Não. Esta época já estou aqui sozinho. A minha família já foi para Portugal porque a minha filha mais velha começou o primeiro ano de escola. O objetivo é agora em maio regressar para Portugal e pensar bem no passo a seguir. Tenho já o primeiro nível de treinador, penso tirar o segundo, tenho também um curso de diretor desportivo, mas acima de tudo, gostava de continuar ligado ao futebol, vai depender muito do que aparecer. Acredito que posso dar muito ao futebol ainda, ainda não sei bem em qual função, mas acredito que tenho atributos que possam ajudar muito em várias funções, mas quero primeiro estar aí, perceber melhor o que posso fazer, mas estou desde já a preparar-me. Quero ir para aí para tirar o segundo nível de treinador, e quem sabe seguir por aí..

Bola na RedeAndas a explorar…

João Coimbra: Exatamente, ando a ver se alguém me pega (risos).

Bola na RedeAinda no início da carreira, no Benfica até, começaste o curso de Medicina, foi difícil conciliar os dois mundos no início? Tencionas continuar na Medicina?

João Coimbra: Foi complicado, por alguma razão só fiz três anos até agora. É um curso extremamente exigente, e depois de três anos parei para dar prioridade ao que sempre gostei, o futebol. Sem dúvida nenhuma, não tinha tempo para nada, era extremamente exigente, não era fácil. Optei pelo futebol, e dificilmente volto a acabar o curso, infelizmente, mas agora também tenho três filhos, acho que ia tirar um pouco da minha vida com os meus filhos. Mas lá está, é chegar a Portugal e ver o que fazer.

Bola na RedeUmas perguntas rápidas. Tem imensas histórias e treinadores que passaram por ti, qual foi o que mais te marcou?

João Coimbra: É um bocado injusto, foram muitos, tive a felicidade de trabalhar com Koeman, Fernando Santos, com Marco Silva… treinadores com provas dadas. Além disso na formação apanhei grandes treinadores, Chalana… não gosto muito de individualizar. Posso deixar o Marco Silva por ser um amigo de casa e uma pessoa com quem me identifico na forma de trabalhar.

Bola na RedeQual foi o jogo/momento que guardas como mais positivo?

João Coimbra: Jogo em Paris e o jogo da subida do Estoril… e na formação claro, ser campeão europeu e nacional. Todos os momentos que acabamos por falar aqui, mas não consigo identificar apenas um. Não é fácil, felizmente estamos a falar de três/quatro momentos que marcaram e, sem dúvida nenhuma, o momento que me estreio. Talvez esse porque corpo o sonho de criança, no jogo com o Setúbal, que entro cinco minutos, toco na bola e o árbitro apito.

Bola na RedeTrouxeste a bola para casa?

João Coimbra: Não, não.

Bola na RedeE a camisola?

João Coimbra: Dei à mãe do Bruno Baião no mesmo dia. Lembro-me bem de ter saído do jogo e a primeira coisa que faço é pegar no carro, e ir ter com ela ao café que eles têm. Curiosamente tive de roubar uma camisola aos meus pais. Não tinha uma camisola minha do Benfica. Eu sou assim, dou muito, dou praticamente tudo, e a verdade é que tenho uma coleção de camisolas de jogadores em casa, tenho uma camisola de cada clube que representei, e dei por mim sem nenhuma do Benfica, tive de roubar à minha mãe.

Bola na RedeDessas camisolas que guardas de outros jogadores, qual é a mais especial?

João Coimbra: Tenho de colegas de balneário, Rui Costa, Luisão, Simão… colegas que defrontei tenho o Quaresma, um craque, tenho do Djaló, do Moutinho tenho do Porto, do Sporting e da Seleção. Cada uma das camisolas que tenho fazia questão de pedir, craques da bola ou craques meus amigos. Cada uma guardo com muito carinho, aliás, quando saí do Leiria pedi umas seis/sete camisolas porque gostei muito de estar lá, um grupo espetacular, fiz questão de as pedir aos colegas que gostei muito, fiz questão. Portanto, cada uma é importante para mim e guardo com carinho.

Bola na RedeAlgum arrependimento na carreira?

João Coimbra: Não gosto muito de dizer que me arrependi, se tomei as decisões que tomei é porque na altura pensei que era o mais correto. Mas sem dúvida nenhuma que acredito que a minha ida para o Nacional depois de sair do Benfica acaba por decidir um pouco o resto da minha carreira. Essa época no Nacional não correu como esperava, e na altura, no Benfica o Fernando Santos sai logo no primeiro jogo e o Camacho vê-se quase obrigado apostar nos jovens, como Romeu Ribeiro e assim. Ou seja, senti que se tivesse ficado as coisas podiam ter corrido de outra maneira. Ou se tivesse ido para outro clube, sem ter sido o Nacional. Mas lá está, é o que é, e atribuo a culpa praticamente a mim.

 

João Pedro Gonçalves

Redação Bola na Rede · ver artigos