O confronto em Milão é o oitavo jogo oficial entre a Associazione Calcio e o Benfica, numa história que começou nos anos 50 em contexto de Taça Latina e se foi consolidando no tempo, com duas finais de Champions a dar sumo ao epíteto de ‘Clássico’ europeu – e o Benfica, em tanto tempo e confronto, só teve oportunidade de ganhar ao Milan quando o contexto era amigável (e aí foram três vezes).
Amorim segue a tendência em relação ao amor da sua vida futebolística, só perdendo quatro dos seus 13 confrontos enquanto treinador contra as Águias (e em casa foi só uma…). E servem estes números e estatísticas para contextualizar o que se joga esta Quarta-feira no San Siro, o que representa para as duas equipas e para a própria Liga Europa – é o jogo de cartaz da primeira jornada e mais uma oportunidade de criar elã na relação entre Benfica e Amorim, do que o futuro promete entre os dois e outro vasculhar no recheado passado entre clube e personalidade.
Ruben chega ao Benfica em 1994, com nove anos. Integra as escolinhas e fica ali num limbo entre a geração de João Pereira (um ano mais velho) e a de Manuel Fernandes, Miguel Veloso, Fernando Alexandre e João Vilela. É campeão nacional, representa a selecção de Lisboa ao lado de Cristiano Ronaldo e só sai quando Vale e Azevedo começa com os drásticos cortes orçamentais, atacando a estrutura do futebol juvenil e pondo dezenas de miúdos na rua. «Chorámos muito», dizia ao Expresso, em 2024, Pedro Russiano, amigo de Ruben e colega de então. «Não só destruiu as escolas do Benfica como a ligação entre nós. Cada um foi para o seu lado». CAC Pontinha, campeão de Setúbal pelo Ginásio de Corroios. Há quem conte esses pormenores de forma muito mais detalhada. Já com Vilarinho e Vieira, Ruben tem a oportunidade de voltar.
Houve quem por ele lutasse, mas uma das lendas tem o poder de decisão: estamos em 2002 e é Néné o coordenador. Contou assim Virgílio Amorim, o pai, ao MaisFutebol: «O José Luís, o Bastos Lopes e o Chalana adoravam o Ruben. Assim que o viram fizeram logo uma festa. O Ruben tinha dado um salto muito grande, tinha crescido bastante, e esses grandes senhores tudo fizeram para que ele voltasse».
«O Ruben treinou, no máximo, duas semanas no Benfica. Infelizmente, quem mandava em tudo era o senhor Nené. Embirrava com todos os pais, não houve nenhuma conversa e o Ruben acabou por ir treinar ao Belenenses, desafiado por um grande amigo».
2008, 1 milhão de euros
O Benfica recupera Ruben, promessa impactante do futebol nacional, titular do Belenenses finalista da Taça e participante de Taça UEFA. Rui Costa, nos primeiros dias como director desportivo, não poupa nos elogios. Na fotografia da praxe, a revelação nos mesmos moldes da de Palhinha: ao empunhar o cartão de sócio, nota-se o número 18 301 de Ruben. O Benfica chegara há pouco tempo aos… 300 mil. Amorim era sócio há 23 anos – ou seja, desde que nascera.
Na mesma reportagem do MaisFutebol:
Ruben não é rapaz de ídolos, mas começa cedo a gostar do Benfica. Influência do pai e do irmão. Virgílio lembra-se de levá-los «quase bebés» à antiga Luz. «Tenho muito presente a imagem de estarmos a mudar a fralda ao Ruben na bancada.»
Portanto, ninguém achou estranho quando Amorim dizia, em 2017, que assinara pelo Benfica naquela altura «com o coração». Que da Alemanha lhe prometiam valores que nunca chegou a auferir na Luz e que toda a gente o avisou da ‘casa a arder’ que era o Benfica, uma equipa que acabara de ficar em 4º lugar e três treinadores na mesma temporada.
Ficou, lutou, trabalhou e fez-se titular na ala direita do 4-4-2 de Quique Flores. Colectivamente, o Benfica voltaria a falhar a toda a linha, mas Ruben consolidou estatuto e quando Jesus chega não havia dúvidas de que era parte essencial do plantel. Jogador e treinador já tinham partilhado dois anos de Belenenses e começa aqui uma dinâmica de cão e gato que Ruben explicaria assim ao Expresso:
«No primeiro ano do Benfica, ele queria dar-te muita informação e para te dar muita informação tens de ter mais tempo de treino e tens de ver mais vídeos. É verdade que a equipa no primeiro ano dele melhorou muito e jogámos de uma maneira que ele queria, mas ele esgota muito os jogadores, e como toda a gente pode ver ele tem que, de dois em dois anos, limpar o plantel. E não estou a dizer isto no sentido pejorativo, estou a dizer que tem de limpar porque é impossível um jogador aguentar tanto tempo com tanta informação como o mister Jesus dá. Muitos são vendidos, porque ele ajuda muitos jogadores, mas também prejudica outros, devido ao seu feitio. Há uns que lidam bem com essa pressão, há outros que lidam mal. Ele no primeiro ano dá-te muita informação, porque tem de mudar muita coisa em pouco tempo, mas depois vai relaxando e é diferente».
A construção do plantel que seria campeão nacional dá concorrência feroz a Amorim, com a chegada de Ramires e Javi García para compor o losango. Em Julho de 2009, no Torneio do Guadiana, Ruben é experimentado a trinco contra o Atlético de Bilbao (2-1). «Conheço bem o Ruben, já o tinha colocado na posição seis no Belenenses, acho que não é a posição onde rende mais», avaliava Jesus.
A fricção começa logo em Setembro. Na recepção ao BATE, Amorim, que apesar da rotação no onze seria apenas suplente utilizado, não fica para a volta de agradecimento às bancadas e é interpelado por Pietra à boca do túnel. Jesus diria na flash que Ruben era «um menino», admitindo não ter noção do que se poderia ter passado, alegando que não era situação a «valorizar»: «Sabemos o que é disciplina de grupo, e a partir do momento em que há regras determinadas, e sendo o Ruben talvez o jogador que melhor conheço, não tem nada de indisciplina. Ele nem se lembrou, porque não era habitual no ano passado, que tinha de estar no grupo a agradecer aos adeptos a sua comparência em massa. Não me dirigi ao Ruben aos berros, só lhe disse para voltar ao campo. Os jornalistas às vezes inventam muito e querem arranjar casos. Isto não foi um caso, foi uma situação normal…» .
A época seguiu, com grande sucesso colectivo. Campeões nacionais, 78 golos marcados em 30 jogos, Amorim como alternativa directa a Ramires e Maxi Pereira. Com a posterior venda do brasileiro, adivinhava-se a titularidade em 2010-11. Mas, além da concorrência do invicto Porto de Villas-Boas, o Benfica vê-se confrontado com o fantasma das lesões logo em Setembro, quando Amorim é obrigado a parar 50 dias por causa duma tendinosa rotuliana bilateral (já depois de ter perdido mês e meio em 2009/10 por problemas na coxa direita). A coisa é tão grave que a operação segue-se logo em Janeiro, tornando a época num longo calvário e deixando rasto no resto da carreira.
2011-12 espera-se um Benfica de cara lavada. Além da recuperação de Amorim, os testes Champions e Porto levam Jesus a perceber as fragilidades do seu modelo. Entre Aimar e Javi García coloca-se agora um médio de transição e de Liége chega um jovem chamado Axel Witsel. É um Benfica mais próximo do 4-2-3-1 e com mais oportunidades para Ruben Amorim. É titular a lateral direito contra o Trabzonspor na qualificação uefeira, é titular na mesma posição na estreia da Liga em Barcelos e é titular na primeira jornada da fase de grupos da Champions, jogando a extremo-direito frente ao United de Ferguson. Já na Eusébio Cup tinha começado de início na vitória (2-1) frente ao Arsenal de Wenger. A equipa segue em tendência vitoriosa e perspectiva-se papel de relevo para jogador. Mas o bombástico início de Nolito (marcara nos cinco primeiros jogos pelo Benfica, igualando o recorde de Eusébio) e a qualidade de Gaitán e Maxi empurram Amorim para o banco. Apesar disso, em meados de Outubro, Paulo Bento chama-o para os compromissos da Selecção, a jogar a qualificação para o Euro 2012. Amorim, chegado ao estágio, diz-se surpreendido pela oportunidade dada a falta de relevância a nível clubístico: «É uma opção do mister Jesus, que considera que não devo jogar. Fico feliz pelo mister Paulo Bento pensar de outra forma». As declarações caiem muito mal na Luz, ameaça-se com o afastamento do jogador, mas a 22 do mesmo mês, o Correio da Manhã avisava de que treinador e jogador teriam conseguido, afinal, fazer as pazes. Record scratch, freeze frame: era paz podre.
Dezembro. O Benfica recebe e despacha o Rio Ave (5-1), Ruben não sai do banco e teria à sua espera, após o apito final, a habitual sessão de exercícios para suplentes. É o grito do Ipiranga: fonte oficial do Benfica dizia que o jogador recusara «trabalhar» e que com isso tinha desrespeitado a entidade patronal; No regresso das férias, a 2 de Janeiro, Jesus tapava o sol com a peneira, dizendo que não tinha sido caso de indisciplina – mas a 30 de Janeiro, o Benfica comunicava o empréstimo de Ruben Amorim por ano e meio ao Sporting de Braga, não sem antes revelar a assinatura dum contrato de renovação e um pedido de desculpas oficial por parte do jogador, do qual alguns maldosos discerniam laivos de… ironia.
«Após reunião com o Presidente, no dia de hoje, consegui esclarecer a situação que determinou a instauração do processo disciplinar de que fui alvo e, simultaneamente, compreender as razões que determinaram a sanção disciplinar que me foi aplicada.
Penalizado pela minha atitude irreflectida, que lamento, resta-me agora aproveitar a oportunidade de retomar a minha actividade ainda que ao serviço do SC Braga, não defraudando as expectativas de todos aqueles que apostaram e continuam a apostar em mim. Esta aposta e confiança sustenta o acordo alcançado para a renovação do meu contrato de trabalho com o SL Benfica por mais uma época desportiva».
Em Braga, reecontrava-se com outros refugiados do carácter intransponível de Jesus, Quim e Nuno Gomes. Cumpriria época e meia de grande nível, com Leonardo Jardim e depois Peseiro, maioritariamente a partir da zona central do meio-campo. Em Março de 2012, era confrontado pela imprensa sobre a possibilidade de algum dia voltar à Luz com Jorge Jesus. «Nem gosto de falar sobre isso, acho que isso é óbvio para toda a gente, para mim e para as pessoas do Benfica». E como reagiriam as tais pessoas do Benfica? «O Ruben tem contrato com o Benfica, não com Jesus, portanto, ele voltará sempre que o Benfica entender que ele o deve fazer.» Awkward…
Em Setembro, num final de mercado de transferências bizarro, o Benfica decide deixar ir, nos últimos momentos, os dois titulares do meio-campo. Javi Garcia e Witsel deixavam somas avultadas nos cofres lisboetas e permitiam a ascensão duma dupla ainda melhor como Enzo Pérez e Matic – mas, obviamente, à altura, ninguém conseguiria adivinhar e a movimentação foi vista como negligente e até catastrófica para a maioria dos adeptos. Ruben era importante em Braga e mesmo por isso a comunicação social decidiu importuná-lo com pertinências – era ou não lógico pensar no seu regresso à Luz, tão urgente que era a presença de alguém experiente para tapar o buraco no meio-campo? Não o agradava a possibilidade de ter finalmente a porta aberta para a titularidade? «Sinceramente, não penso nisso» dizia Amorim, esgravatando nas entrelinhas o corte de relações com o treinador. «Acho que, para já, essa informação é errada, de que eu quis sair para jogar mais»…
A jogar na intermediária, Amorim tinha voltado ao melhor nível com José Peseiro. 36 jogos, cinco golos, quatro assistências e, depois de ter falhado a última chamada para o Euro 2012, estava agora de volta à Selecção. É titular na primeira jornada de qualificação para o Mundial, no Azerbaijão, e cumpre a segunda parte frente à Irlanda do Norte. Vai a todos os amigáveis nos entretantos e é novamente titular contra a Rússia, na terceira jornada, jogada já em Junho. E algo mudou aqui. Terminado o empréstimo ao Braga, o volte-face: Amorim volta ao Benfica, renova até 2018 e é reintegrado por Jorge Jesus no pós-debacle de 2012-13.
Amorim volta efectivamente com outro estatuto. Não surge mais como opção para a lateral direita – o braço de ferro venceu-o pelo próprio mérito e capacidades demonstradas em Braga, e é agora encarado apenas como médio. Dos 48 jogos que Amorim fez como titular do Benfica a médio de zona central (seja seis seja oito), 32 fê-los em 2013-14. Começa imediatamente a titular nos Barreiros, na primeira jornada (empurrando Enzo para a direita) e emula com o argentino e com Matic a espécie de 4-3-3 com que Jesus fez a primeira metade dessa época, cumprindo o português em Outubro o jogo 200 na Liga. Estava a voar até se ver assombrado novamente pelas lesões – paragem de 40 dias iniciada em Novembro, mais 25 dias em Março. Ruben viu-se afligido por lesões em todas as épocas que jogou no Benfica, tendo essa interrupção de Março de 2014 como a mais simples. Ainda assim, foi importantíssimo, cumprindo quase toda a Liga Europa como titular, incluindo o jogo de Turim e a final com o Sevilha. Sendo já possível considerá-lo uma das referências no campo, era-o indiscutivelmente e sobretudo no balneário.
Nesse Verão, a queda do BES obriga Vieira à delapidação do plantel do triplete. Matic já tinha saído em Janeiro, saiem ainda Oblak, Rodrigo, Markovic, Garay, Siqueira. Fejsa tinha-se lesionado com gravidade em Abril. Estava finalmente a porta da titularidade escancarada para Amorim, não estava? Sim, bem, como é que se há de explicar – o Benfica estreia-se na Liga no Bessa, frente a um Boavista repescado da terceira divisão pelos tribunais. O mítico estádio voltava a ver futebol de elite seis anos depois, a ausência tinha proporcionado algum desinvestimento nas condições da infraestrutura e, de forma muito compreensiva, a Liga tinha dado algumas ‘abébias’: por isso, esse seria o primeiro jogo de sempre dum relvado sintético na Liga Portuguesa. Quem seria o feliz contemplado com uma lesão grave pelas condicionantes do piso? Pois bem, não é difícil adivinhar!
Uma entorse no joelho direito atira Amorim para o estaleiro. Só voltaria em Fevereiro, ainda a tempo de participar activamente noutro título de campeão nacional mas já com o comboio perdido para Samaris e Pizzi. No dia 11 desse mês, entrava em campo num três-zero ao Vitória setubalense. Jesus, já sem contemplações e intuindo o alívio do pupilo, declarava que «a classe de Amorim» era «evidente». Era mesmo amor e ódio, 8 ou 80.
«Sim, imitava várias vezes o Jesus e o mister sabe. Sempre com respeito. Lembro-me quando ele ia para a reunião da UEFA e faltava ao treino, eu é que dava a palestra. Vinham o Raúl José, o Mário Monteiro, os fisioterapeutas… Todos vinham ver a palestra do mister JJ nesses dias» dizia Amorim na mesma entrevista ao Expresso em 2017, revelando o nível de proximidade entre os dois e a sua faceta de animador de balneário. Já não integrou o plantel de 2015-16 com Rui Vitória e por isso toda a carreira sénior de Amorim no Benfica é indissociável de Jesus: 154 jogos ou 8915 minutos (ou 148 horas de futebol de primeiro nível), três campeonatos nacionais, cinco Taças da Liga, uma Taça de Portugal, uma final da Liga Europa.
E oportunidades concretas de representar o Benfica como treinador? É por demais sabido que só não aconteceu em 2019 (podendo o Benfica ter Bruno Lage nos seniores, Amorim nos B e Renato Paiva nos juniores) pelo diminuto poder que era permitido ao treinador da equipa secundária. Amorim, de feitio determinado, percebeu a falta de visão e rejeitou. Um ano depois, era apresentado como treinador principal do Sporting.
Mas e coisas sobre o Benfica-Milan? Termina-se com outra declaração de 2017, tão ousada como profética. «Quando era miúdo gostava de ver o Benfica e o Milan. Lembro-me de ver cassetes do Milan com Maldini, Baresi, Gullit, Rijkaard, Savicevic. Os meus sonhos de miúdo eram jogar no Benfica e no Milan. Cumpri um. Agora tenho de ser treinador no outro» .

