«O Benfica poderia ter-me valorizado mais» – Entrevista BnR com Armando Sá

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– Irão e Canadá: Sai Jogador, Entra Treinador –

BnR: Em 2007 acabas por rumar ao Irão. Como surgiu o convite para ires para lá?

AS: Estava já na fase terminal da carreira com 31 anos, ia regressar a Espanha para o Málaga CF, mas quis ir jogar para um desses países ali das Arábias para terminar a carreira e tentar fazer um “pé-de-meia”, como se diz (risos). E como é que surgiu o convite? Na altura, o (Augusto) Inácio ia ser treinador do Foolad FC e ligou-me a perguntar: “Como é que é a tua vida?”. Expliquei-lhe que tinha a hipótese de regressar a Espanha, mas apenas por um ano, e deram-me um bom contrato e então decidi ir para o Irão. Foi uma descoberta, um outro filme (risos).

BnR: Que tal foi a experiência no Irão?

AS: Foi engraçada a minha experiência no Irão. Lembro-me que quando estava no avião, num daqueles voos comerciais a chegar à cidade do Foolad – tive de fazer primeiro escala de Frankfurt para Teerão, e só depois é que foi para Ahwaz -, e vejo pela janela do avião aqueles poços de petróleo a arder e penso logo: “Mas aonde é que vim parar?!” (risos). O avião aterrou e quando saio, era um calor enorme! Estavam para aí uns 55 graus, era um calor tremendo que só suava por todos os lados. Chego ao clube, vejo imensa gente apaixonada por Futebol e lembrei-me daquela frase do Rui Vitória – “Adapta-te rápido se queres continuar a jogar” – que foi fundamental nos sítios onde fui passando. Chegado ao Irão, acabei por me adaptar bem  e fui muito bem recebido por todos. Adoravam Futebol, tanto que só tinha assinado por um ano e acabei por ficar mais tempo. Lembro-me de uma vez que estava tanto calor, e o treinador a dizer: “Vai, vai, ataca!” e eu: “Mas estás a brincar comigo? Com este calor? Assim não” (risos). Tive momentos giros lá.

BnR: E aquele trauma com a notícia do canal brasileiro Record já foi ultrapassado? (risos).

AS: Isso foi único e vai ficar comigo para o resto da vida (risos). Foi um dos maiores sustos que tive na vida! Estava em casa na altura do Carnaval a ver o canal Record que tem aquelas notícias sempre muito trágicas com mortes aqui e acolá, e, de repente, o apresentador diz assim: “Daqui a quatro dias, os Estados Unidos vão atacar o Irão”, e fiquei em choque (risos). Peguei logo no telefone e liguei à família para me despedir.

BnR: Já te estavas a preparar para o pior.

AS: Ninguém no clube me atendia, porque era de noite, e só sei que não dormi a noite inteira a pensar “Como é que vou sair daqui?”, porque o passaporte não estava comigo e tinha de pedir ao clube para me carimbar para poder sair do país. No dia seguinte, chego ao clube à tarde – por causa do calor, os treinos eram à tarde, liguei de manhã e para tentar explicar por chamada na língua deles (o persa), ninguém me entendia (risos) – e explico o que tinha ouvido nas notícias, ao que eles dizem: “No problem, no problem”, estavam nem aí para isso (risos). Mas ainda tenho uma outra história engraçada no Irão para contar a forma como fui muito bem tratado.

BnR: Força.

AS: Estava já no Sepahan e apanhava sempre um táxi para ir para os treinos. Um dia, entro num e o taxista faz uma festa ao ver que era eu: “Armando!”, pois era fanático pelo clube. Entretanto, estamos a ir para o treino, e ele decide mudar a trajetória. Perguntei-lhe: “Amigo, para onde é que vais? O local do treino é ali”, ao que ele responde: “No problem!”. “No problem? Mas o local do treino é ali. Aonde é que vais?”, e até achei que ele estivesse a fugir ao trânsito. De repente, paramos ao pé de uma casa, manda-me sair do carro e eu já estava em pânico, até lhe digo “Amigo, tenho treino (Armando aponta para o pulso), vou chegar atrasado” (risos), ao que ele volta a dizer “No problem, no problem”. Entro nessa casa com ele, e tinha ali um alto banquete com fruta e comida, e ele diz-me para sentar e comer, e eu: “Mas eu tenho treino!” (risos). Não podia faltar ao respeito, então tive de me sentar naqueles tapetes no chão, comi, bebi e fui apresentado à família, e só via a hora do meu treino a passar (risos).

BnR: Deves ter levado uma raspanete do teu treinador (risos).

AS: Depois, ele acabou por me levar para o treino, e quando chego lá, o treinador pergunta “Onde é que andaste?” e, como não conseguia explicar na língua deles, só dizia “Táxi, Problem” (risos). Mas foi muito giro, fui bem recebido e conheci pessoas muito interessantes.

Fonte: Facebook de Armando Sá

BnR: A tua carreira terminou em 2010 ao serviço do Sepahan, com o título de campeão. Foi difícil tomar a decisão de pendurar as botas?

AS: Não foi muito, porque quando fui para o Irão, já sentia que a carreira estava a prestes a acabar. Percebi que, mais tarde ou mais cedo, iria terminar a carreira. No Sepahan, fomos campeões e já ajudava nos treinos, era meio jogador meio treinador, dava algumas dicas sobre o treino e ajudava o treinador com a experiência que tinha. Joguei ainda a Liga dos Campeões da Ásia com o Rivaldo e encontrei vários craques nessa fase da minha carreira, mas já estava a sentir que mais dia, menos dia, iria deixar de jogar.

BnR: Depois acaba por abraçar a carreira como treinador. Em que momento durante a carreira como futebolista sentiu que poderia ser útil nessa função?

AS: Como te disse, foi no Irão que já tinha um “dedito” na equipa técnica e o pessoal até brincava comigo: “Tu ainda vais ser treinador”, ao que dizia sempre: “Nem pensar, isso é demasiada responsabilidade para mim” (risos). Só que, entretanto, fui apanhando o gosto, tirei os cursos de treinador quando deixei de jogar e comecei a sentir aquele “bichinho” por treinar. Comecei então a treinar as camadas jovens, tive uma escola de futebol em Telheiras (Lisboa) com um sócio, e vi que tinha de aprender bastante para continuar a evoluir nesta função.

BnR: E como acaba por surgir a hipótese de ir treinar para o Canadá, para o Kleinburg Nobleton SC?

AS: O convite surgiu através de um amigo meu holandês, o Bob de Klerk, que é agora treinador adjunto do Atlanta United FC. Tive essa oportunidade de abraçar o Kleinburg como treinador e Technical Manager para dar apoio aos treinadores todos. Juntei-me ao clube, comecei a trabalhar com os sub-18 e, ao mesmo tempo, estava a dar apoio nos processos de formação dos treinadores. Foi uma experiência engraçada e estive lá cerca de dois anos.

BnR: Depois inauguraste uma academia de futebol no Canadá. Como tem sido esta experiência de ajudar os mais novos a dar os primeiros passos no Desporto Rei, e ainda para mais num país onde o Futebol não tem ainda tanta expressão?

AS: Após sair do Kleinburg, decidi abrir a minha própria academia, a Pro11 Soccer, porque a realidade do Futebol daqui não tem nada a ver com a de Portugal e Europa. Apareceu esta oportunidade de negócio e para trabalhar num projeto meu, e está a ir num bom caminho.  Treino os sub-21, sou diretor técnico e dono da academia. Tem sido um desafio enorme, porque sabemos que aqui no Canadá há muita qualidade e talento, como por exemplo o Alphonso Davies que é considerado um dos melhores do Mundo atualmente e joga no Bayern de Munique. Há muito trabalho a fazer e um caminho a percorrer, até este ano foi criada a Primeira Liga canadiana, a CPL, que tem oito equipas profissionais, por causa do Mundial de 2026 que está a chegar. Por isso tudo, o Futebol está a crescer no Canadá e, como sou uma pessoa que gosta de desafios, estou feliz por estar aqui e tentar dar o meu contributo para que cresça ainda mais, pois, apesar de ser um país muito desenvolvido e com boas condições, falta uma aposta a 100% no Futebol. Neste momento, estou a trabalhar para agarrar uma equipa profissional, vou evoluindo no dia-a-dia e sinto-me preparado para um dia abraçar um projeto com outro tipo de responsabilidade. Estou a trabalhar para que apareça uma oportunidade, sinto-me pronto, porque estes anos todos aqui têm-me permitido evoluir, crescer, aprender e amadurecer bastante para um dia fazer de uma equipa técnica.

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Guilherme Costa
Guilherme Costahttp://www.bolanarede.pt
O Guilherme é licenciado em Gestão. É um amante de qualquer modalidade desportiva, embora seja o futebol que o faz vibrar mais intensamente. Gosta bastante de rir e de fazer rir as pessoas que o rodeiam, daí acompanhar com bastante regularidade tudo o que envolve o humor.                                                                                                                                                 O Guilherme escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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