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O futebol é um universo infindável por onde gravitam, numa desordem anárquica, incontáveis astros, de tamanhos e brilhos variáveis, capazes de se deformarem, na forma e no feitio, ao ritmo do segundo, sem aviso prévio ou razão aparente. Surgem-nos de repente, fixamo-los como queremos ou conseguimos, para, pouco tempo depois, os esquecermos para sempre – e apenas nos casos mais raros, distintos, normalmente, pela qualidade (ou pela falta dela) os guardamos num lugar especial da memória e do coração. O problema deste universo infindável é que, a par essencial, vagueia também em maioria esmagadora uma quantidade de lixo espacial, tóxico e aborrecido, que embora essencial na construção do todo – como causa e consequência da dimensão e popularidade da modalidade –, conquista, em vagas recorrentes e temporárias, um protagonismo injustificado à conta da paixão benevolente do adepto comum.
As últimas duas semanas foram exemplo disso mesmo. Vejo e ouço parte significativa da modesta fatia universal que me diz respeito – o Benfica e os benfiquistas (numa linguagem mais simples) – muito alvoroçada; e tudo devido a uma chuva de meteoritos, daquelas que prometem colapsar o planeta num mês, que justificam comentários cansados e dissonantes de leigos e especialistas, para, a 48 horas do impacto, tudo se desfazer em pó microscópico a mil milhões quilómetros de distância, nas vizinhanças das luas dos outros, sem deixar o mínimo vestígio, nem para saciar a curiosidade dos mais crentes, de olhos apontados ao alto, desejosos por qualquer novidade que quebre a monotonia de um céu encoberto por um manto cinza (este país tem péssimas vistas para fenómenos astronómicos).
Os tremeliques começaram com a contratação de Markovic pelo Sporting. Nas últimas horas de Agosto, muitos benfiquistas, chorosos e revoltados, lamentaram-se pelo facto de o clube ter falhado, por uma unha negra, a inclusão de um décimo extremo no seu plantel (posição onde há dois anos, antes da dispensa pelo Liverpool e do “banco” pelo Fenerbache, o sérvio brilhou, graças, sobretudo, à vaga deixada pela lesão daquele que, à altura e hoje, é o titular indiscutível: Salvio). Seguiu-se a entrevista de Jorge Jesus, onde o ex-treinador do Benfica, estatuto claramente prioritário ao actual – como as palavras do próprio invariavelmente comprovam –, nos explicou a todos, simples mortais, como o Benfica planeara “correr” com Luisão (e, entre outras coisas, também nos explicou o caminho que cumpriu desde que chegou ao Sporting, da evolução até ao título de campeão, que, de um ponto de vista muito pessoal, me parece não ter ainda ocorrido). Logo mais lamentos; mais choro e revolta.

Fonte: SL Benfica
O pior, porém, estava por vir. O caso Talisca deixou os benfiquistas ainda mais chorosos e ainda mais revoltados; injectando-lhes uma dose extra de energia desperdiçada em discussões fúteis e estéreis de mesa do café. Talisca é um jovem com qualidade e potencial, futebolista que o Benfica descobriu no modesto Bahia do Brasil, que contratou e remunerou generosamente, com dinheiro e títulos colectivos, que projectou na Europa, contribuindo para a sua chamada aos treinos da selecção do seu país, e dando-lhe a oportunidade – que arrisco a dizer, muito provavelmente, inédita – de actuar nos quartos-de-final da Champions League, a maior competição de clubes do Mundo. Um currículo que lhe valeu novo e melhorado contrato na Turquia, no valor de 1,5 milhões de euros anuais, graças, principalmente, à gestão que foi feita pelos responsáveis do Benfica de certas questões problemáticas, daquelas que enjeitam jogadores por muito talento que tenham: o constante desrespeito pelas regras internas, onde se inclui, por exemplo, as conversas com Jorge Jesus sobre política externa e xadrez, que, segundo dizem, tanto contribuíram para os três títulos festejados, em 180 minutos da época passada, pelos sportinguistas.
Correu, pois, demasiada tinta em torno destas minudências; a malta entusiasma-se, perde a cabeça, perde o pé e, aos magotes, trata de discutir, horas a fio, de preferência diante de um ecrã de computador – com recurso a um nick manhoso (espelho de um ódio; um complexo) –, cada centelha extinta de qualquer um destes assuntos. E perdem-se vidas inteiras com isto, ao invés de nos focarmos naquilo que realmente interessa.
O Benfica tem um trabalho para fazer – e prossegue nesse rumo, com o mérito que os títulos consecutivos conferem e comprovam. Existem, no entanto, assuntos sérios por resolver, erros para compreender e corrigir urgentemente. São precisamente esses assuntos que merecem ser debatidos pelos benfiquistas, entre os benfiquistas, seja em condição presencial ou digital. O que nos deve ocupar o espaço reflectivo que reservamos ao universo do futebol, em particular ao nosso clube, que nos deve fazer revoltar e soluçar; e que, na prática, são as condições que, no final, contribuem verdadeiramente para o desfecho do campeonato.
Por exemplo: a quantidade de lesões, que, desde o início da época, nos impede de ter à disposição algo parecido com um “onze” ideal; os três golos sofridos, pelo ar, em apenas cinco jornadas; a incapacidade, em pleno Estádio da Luz, de ultrapassar uma equipa bem organizada, actuando em linhas compactas e recuadas; as longas fases de jogo onde equipa perde efectivamente o controlo sobre os acontecimentos; a ineficácia ofensiva que resultou em sustos e, em dois casos, resultados negativos. Estes são os assuntos que interessam discutir. E não perder tempo com conversas da treta, atitudes da treta, entrevistas da treta, comunicados da treta, posts da treta que, na verdade, não ganham jogos nem campeonatos; embora haja muitos que bem possam contribuir para os fazer perder.










