O milagre de Rui Vitória

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Para medir o meu mundo, bastam-me 200 quilómetros. É essa a distância entre os meus lares: o do nascimento e o de adopção. Da minha terra natal guardo memórias e histórias para contar – neste texto, recorro abusivamente à mais célebre de todas; trata-se de uma lenda popular, de tradição oral, que atravessou séculos e celebrizou uma das rainhas do nosso país (canonizada e padroeira da tal cidade): conta-se que Isabel de Aragão era muito generosa; mas o seu marido, o Rei D. Dinis, nem por isso. Certo dia, a rainha saiu do castelo para distribuir pão pelos pobres. Pelo caminho o rei surpreendeu-a e, de imediato, a inquiriu desconfiado sobre o que levava consigo. D. Isabel terá exclamado “São rosas, Senhor!” e, de seguida, expôs num pânico resignado o conteúdo do regaço do seu vestido. Aos olhos dos presentes surgiram rosas formosas e sadias, ao invés do pão que a rainha inicialmente ocultara. Perante tão belo feito a maioria esqueceu-se do essencial – o inoportuno “outro lado da questão” a que, por gosto pessoal e teimosia, insisto em chamar de “realidade”: o povo não se alimenta de rosas e, naquele dia, alguém terá ficado com fome.

O caso do Benfica de Rui Vitória parece-me idêntico. O povo precisa de pão – assim se alimenta a ambição e a glória. Este ano, todavia, por opção do rei ou por qualquer outra imposição (nunca devidamente esclarecida), as reservas são curtas e ao treinador foi pedido o milagre de alimentar os pobres com flores. Com o fecho do mercado de transferências, dizem-me que apenas importava a permanência de Gaitán. Infelizmente – e contra a minha vontade – vejo-me obrigado a discordar. O problema (para mim!) reside no “outro lado da questão”: como benfiquista, mantenho-me sempre ocupado com o que está por resolver.

Os jovens jogadores não podem – no Benfica ou noutro qualquer lugar – “queimar” etapas no ciclo crescimento Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Os jovens jogadores não podem – no Benfica ou noutro qualquer lugar – “queimar” etapas no ciclo de crescimento
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

Rui Vitória carrega no regaço do seu fato de treino sementes muito promissoras. É inegável o selo de qualidade do Seixal, consequência de um trabalho iniciado e excepcionalmente desenvolvido durante vários anos. Os resultados começam a surgir em cadência natural, para benefício de selecções jovens, da nossa equipa principal e de Jorge Mendes. No entanto, são as exigências incontornáveis e imediatas do Benfica que julgo permanecerem por acautelar. Percebendo pouco de jardinagem, recorro ao bom senso – e a uma despretensiosa experiência na observação de situações similares – para justificar os receios perante a (notória) ânsia por atalhos no processo de crescimento dos nossos jovens jogadores. Os livros indicam-nos que uma semente dormente deitada ao solo requer água, calor e oxigénio. Dentro das quatro linhas, os mais novos precisam de tempo e de espaço – atribuir tarefas e obrigações antes do tempo pode, eventualmente, ser contraproducente no presente e, em último caso, inviabilizar o futuro. Na realidade, o Benfica vive (viveu e viverá) de vitórias; jamais de promessas. No terceiro anel, ninguém se senta aguardando paciente que o fruto amadureça.

Perante o actual cenário, não posso deixar de admirar a desusada coragem de Rui Vitória. O técnico do Benfica assume o (arriscado) projecto sem lamúrias: aproveitou o interregno das provas internas (corrigindo como pôde a malvada pré-época) e, com trabalho e humildade, tem evoluído favoravelmente – com melhor futebol e, sobretudo, um discurso mais seguro e assertivo. Porém, para chegar à Primavera falta ultrapassar o Outono e o Inverno. Rui Vitória tem menos recursos que o seu antecessor e uma margem de erro diminuta. Em épocas recentes o povo era alimentado por homens feitos (como Pablo Aimar, Oscar Cardozo ou Lima). Se em Maio as rosas nos tiverem bastado, enviarei um dossiê sobre Rui Vitória ao adepto do San Lorenzo residente em Roma.

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica

João Amaral Santos
João Amaral Santoshttp://www.bolanarede.pt
O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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