– A Seleção onde se viravam cadeiras para os jogadores dos rivais não se sentarem –

BnR: Lembras-te onde estavas quando foste chamado pela primeira vez à Seleção?

DM: Não me recordo, mas ao contrário do que muita gente pode pensar, a primeira vez que sou internacional A é a jogar pelo Boavista e não pelo Benfica. O que faz com que eu me sinta mais orgulhoso, porque naquela altura era dificílimo ser internacional A com 20 ou 21 anos, perante tantos bons jogadores que havia, e ainda por cima vindo do Boavista.

Sem rodeios ou frases feitas, e com muitas gargalhadas à mistura, Diamantino vai por ali fora sem medo e conta-me os pontos altos e baixos da carreira.
Fonte: FPF

BnR: Nessa altura sentiam-se as rivalidades dos clubes na seleção?

DM: [Diamantino hesita antes de responder] Sentiam-se. Ainda não tanto como depois em meados da década de 80, daí por diante essa má rivalidade veio a agravar-se. A partir de ’84, mais ou menos, agravou-se porque as estratégias dos clubes começaram a não ser as melhores. Principalmente o Porto, começa a usar uma estratégia de confronto, sobretudo com o Benfica. Houve ali alguma separação. Mesmo as amizades no Europeu em França, que até acaba por correr bem em termos de resultados [Portugal chega às meias-finais], ao contrário daquilo que se passou em Saltillo, por exemplo. No México foi realmente muito mau. Mas no Europeu ficámos em 3º lugar e podíamos ter sido campeões, podíamos ter lá chegado mas não teve nada a ver com o que passou depois no México. Aí sim realmente era uma verdadeira seleção, embora se tivesse passado só dois anos.

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BnR: O que se passou exatamente?

DM: Alguns dirigentes seguiram um caminho de confronto com outros clubes que eu nunca concordei. A rivalidade sempre existiu. Por exemplo, a grande rivalidade, ainda hoje, para mim e para as pessoas do meu tempo, é o Sporting, não é o Porto. Para as gerações mais novas passa a ser o Porto mas já é uma rivalidade pouco saudável. Naquela altura, tanto para nós como para os jogadores do Sporting, a semana do derby era uma semana de festa. Nós queríamos ganhar e eles também mas depois à noite até nos encontrávamos em Lisboa depois do jogo. Lembro-me de jogadores do Sporting irem à cabine do Benfica dar os parabéns à equipa que tinha sido campeã e beber um champanhe connosco. Isso hoje em dia é impensável acontecer. Havia essa realidade boa mas infelizmente as coisas descambaram por caminhos que eu não concordo, embora reconheça que o dinheiro que está hoje envolvido no futebol faça com que não se opte pelos melhores caminhos. Está assim infelizmente mas o futebol é muito melhor que isso.

BnR: Estiveste no Europeu de ’84 e no Mundial ’86. Como é que vês desempenhos tão díspares em competições separadas por apenas dois anos?

DM: Está relacionado com o que nós muitas vezes achamos do futebol e conhecemos, que é a lógica. E não há lógica nem nos resultados e muito menos em campeonatos. Os jogadores eram quase os mesmos, é verdade que depois houve aqueles problemas de Saltillo mas que não influíram em absolutamente nada. Porque se estamos a falar em termos de que os bons ambientes ganham jogos, nesse Campeonato do Mundo devíamos ter ido à final. Jogadores do Benfica, do Porto, do Sporting, dormíamos nos mesmos quartos, dávamo-nos bastante bem, fazíamos grandes festas, uma amizade e uma camaradagem enormíssima nos treinos. Coisa que não se tinha passado em França, onde viravam as cadeiras ao contrário para os jogadores do Benfica não se sentarem. Os jogadores do Benfica não falavam com os do Porto. Quando chegávamos às mesas, um sentava-se e virava logo sete ou oito cadeiras para ninguém se sentar, só os da sua equipa.

BnR: No México já não foi assim?

DM: Não, foi totalmente ao contrário, todos os jogadores se davam muito bem. Deixou-se essas rivalidades de parte e acabámos por fazer os resultados que fizemos. E no Europeu acabámos por fazer um brilharete. Mas o que explica a diferença entre estes dois anos, a equipa era a mesma e os jogadores até tinham mais dois anos de experiência, acho que tem a ver com o jogo de futebol, que não se sabe o que poderá acontecer, e também com alguma confusão que houve em relação ao recato de uma seleção que estava a jogar um Mundial. A Federação não tinha o recato e a organização que deveria ter, era completamente amadora. Na altura as coisas já estavam muito evoluídas noutros países, nós éramos uma Federação completamente amadora e pagámos o preço desse amadorismo mas também do nosso amadorismo. Éramos melhores que Marrocos? Quase de certeza absoluta que sim, mas perdemos 3-1. Éramos melhores que a Polónia? Quase de certeza que sim, mas perdemos 2-1. Nós tínhamos acabado de ganhar à Inglaterra, pela primeira vez na nossa história. O que é que era mais previsível, não era depois ganharmos à Polónia e a Marrocos?

BnR: Claro, era fazer o pleno.

DM: É, mas não ganhámos. Só ganhámos o jogo mais difícil.

BnR: Porque é que não voltas a ser chamado à seleção?

DM: Porque eu e os outros 21 jogadores assinámos um documento ainda no México em como não voltaríamos a jogar pela seleção enquanto algumas situações não fossem resolvidas. Desses 22 jogadores, ao chegar a Lisboa houve um que disse logo que não tinha nada a ver com isso e tinha sido coagido pelos colegas para assinar porque não queria.

BnR: Quem é que foi esse jogador?

DM: Foi o Álvaro Magalhães. Os outros 21 ficaram indisponíveis durante alguns meses mas depois de conversações começaram a regressar à seleção. Os únicos dois que mantiveram a palavra, ainda hoje não sei se bem ou mal, fui eu e o Carlos Manuel, que dissemos que não voltávamos à seleção enquanto o presidente se mantivesse. Achámos que tinha sido muito grave aquilo que se passou e não voltámos. Portanto, a partir dos 26 anos não voltei a jogar na seleção.

BnR: Hoje em dia seria impensável passar-se o que se passou na altura.

DM: Sim. Nem eu se calhar tomaria aquela atitude porque havia outras formas de demonstrar o nosso ponto de vista em relação àquilo que deveria ser uma Federação e o trato com jogadores profissionais. Se calhar não foi a melhor atitude mas foi a que tomámos em consciência e não me arrependo absolutamente nada. Agora, há uma coisa que tenho a certeza absoluta, o futebol português a partir daí nunca mais foi o mesmo em termos de seleção. A partir daí a Federação começa a perceber que tem de se deixar de amadorismos e que alguns lugares têm que ser preenchidos com profissionais, não com funcionários públicos. E tinha que ter um Presidente autoritário. A partir daí a Federação passou a ser outra e o futebol português ganhou. Quando a Federação abre os horizontes, em ’89 é campeã do mundo de juniores, em ’91 também, portanto três anos depois do México. Pagámos nós por isso, mas nestas coisas das revoluções há sempre sacrificados. Ehehe.